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	<title>braziu &#187; Itália</title>
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		<title>Mega post: WikiLeaks</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Dec 2010 17:53:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>braziu.org</dc:creator>
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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong>Leandro Demori &#8211; Itália</strong></em></p>
<p>Seguiu a lógica de uma bela capa de jornal a bomba de documentos revelados pelo WikiLeaks: uma notícia importante para a manchete, uma notícia importante para a segunda linha e um maço de <em>gossip</em> para companhia. As pessoas amam.</p>
<p>Quando eu era editor do <em>Terra</em> conseguia fotografar cada minuto da alma do brasileiro olhando para as estatísticas de acessos das notícias na capa do portal. A notícia importante em destaque, em fonte grandona e com várias linhas de apoio tomava uma surra do <em>gossip</em> que mostrava a mais nova briga de um reality show qualquer publicado no rodapé do site.</p>
<p>Não precisamos que a diplomacia americana nos diga que <a href="http://is.gd/hVcnR">Berlusconi é um babá do sexo</a>, que <a href="http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=1722762">Angela Merkel é pragmática</a>, que <a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/bbc/wikileaks+embaixador+dos+eua+diz+que+sarkozy+usa+carla+bruni+para+fortalecer+relacao+com+brasil/n1237845251661.html">Sarkozy usa Carla Bruni</a> para ajudar nas negociações com outros países ou que <a href="http://www1.folha.uol.com.br/mundo/837602-segundo-wikileaks-hugo-chavez-esta-louco-e-eua-tentaram-isola-lo.shtml">Hugo Chávez é um maluco</a>. Mas o <em>gossip</em> foi justamente aquilo que chamou a atenção das pessoas para o vazamento dos dados. Quem se importa com o programa nuclear do Irã ou com a presença do Hammas e do Hezbolah na <a href="http://is.gd/hVaTN">fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai</a>? É tática, e vencedora.</p>
<p>A coluna de fofocas oficializadas pelos embaixadores americanos pelo mundo não significa que a diplomacia americana seja fútil e pior do que a dos outros países. A única diferença entre a diplomacia americana em relação às outras é que seus documentos foram a público. Bastou meia dúzia de documentos saídos do Brasil para mostrar que um ministro do governo brasileiro, Nelson Jobim, estava <a href="http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI4819399-EI306,00-Wikileaks+Jobim+diz+a+embaixador+que+ministro+odeia+os+EUA.html">dando lá suas rasteiras</a> em seus pares de salão. Se abrir o Itamaraty todo não sai coisa muito diferente disso.</p>
<p>É claro que é <a href="http://is.gd/hWI9y">tudo mentira</a>. <a href="http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2010/11/30/jobim-nega-criticas-samuel-pinheiro-guimaraes-divulgadas-pelo-wikileaks-923148564.asp">Jobim já negou</a>, imagina, que bobagem. Como diz o <a href="http://twitter.com/walterva/status/9722005922250752">filósofo</a>, inauguramos a fase do Descartes pós-ideológico: &#8220;Nego tudo, portanto existo&#8221;. O próximo passo será o Galileu pós-wikilítico: <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/E_pur_si_muove!">&#8220;eppur si muove&#8221;</a>, gritará alguém, jurando que a Terra gira, sim, em torno do sol &#8212; apesar dos desmentidos oficiais &#8212; antes de ser declarado inimigo do povo.</p>
<p><a href="http://verbeatblogs.org/sergioleo/">Sérgio Leo</a>: Oliveira, <a href="http://twitter.com/#!/sergioleo/status/9715502666485760">o canalha da redação</a>: &#8220;ih, é verdade mesmo, o governo já divulgou até nota de desmentido&#8221;. Na capa da <em>Folha online</em> de quatro dias atrás, ao mesmo tempo, três notícias se acotovelavam logo abaixo de uma manchete sobre o WikiLeaks: &#8220;Dados são &#8216;insignificantes&#8217;, diz Lula; Jobim nega ter dito que colega &#8216;odeia os EUA&#8217;; Bolívia nega que Evo tenha tumor.&#8221; É a Tríplice Confirmação da Verdade.</p>
<p>A China <a href="http://bit.ly/fFzhkM">bloqueou</a> acesso aos documentos. O jornal <em>Le Figaro</em>, de propridedade do sarkozista Dassault &#8212; <a href="http://www.braziu.org/2010/10/06/a-censura-no-figaro-os-avioes-rafale-e-o-governo-lula-na-imprensa-francesa/">vendedor dos caças para o combo Jobim/Lula/Viuma</a> &#8212;  <a href="http://goo.gl/ryEHE">não gosta</a> da Wikileaks. Hillary Clinton <a href="http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,eua-fecham-cerco-contra-site-e-hillary-lidera-esforco,648399,0.htm">acha <em>uó</em></a>.</p>
<p>Batendo datas com notícias, parece que a maior preocupação americana na <em>sudamerica</em> continua sendo Hugo Chávez. Desperdício. Oito telegramas saem da embaixada de Brasília pros EUA no dia em que <a href="http://is.gd/hVm27">Chávez mandou o embaixador americano embora</a> da Venezuela. Rolam umas boas pesquisas (e teorias da conspiração) com esse método: pega-se os <a href="http://is.gd/hVgr6">docs. que saem de Brasília</a>, olha-se os dias com bom volume de correspondências e bate-se com os acontecimentos daquele dia em uma simples pesquisa no Google.</p>
<p>Muitos docs. saem de Brasília no dia 12/8/2005, por exemplo. Dá pra especular sobre o motivo: <a href="http://is.gd/hVkdd">aqui</a> e <a href="http://is.gd/hVkca">aqui</a>. Pode-se também ter algumas pistas sobre os <a href="http://is.gd/hVbQp">novos cenários possíveis de guerra</a> envolvendo os EUA (e os motivo$).</p>
<p>Uma das grandes questões agora é saber quem são os informantes das embaixadas, o que pode dizer mais sobre tudo do que os documentos em si. No caso do Brasil, um dos principais, por hora, é o ministro da Defesa Nelson Jobim, pintado como uma espécie de lobbista e <em>cagueta</em> [palavra pra ficar no clima Rio de Janeiro da semana]. São 250 mil documentos, quase nada ainda veio a público. Teremos semanas tórridas.</p>
<p><a href="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/11/bananinha_posts.gif"><img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/11/bananinha_posts.gif" alt="" title="" width="80" height="30" class="alignnone size-full wp-image-4254" /></a></p>
<p><em><strong>Pedro Augusto &#8211; Alemanha</strong></em></p>
<p><em>Público x impublicável<br />
</em></p>
<p>Nem tudo o que o Estado faz pode ou deve ser público e/ou publicado. Assim como em um relacionamento não se revela absolutamente tudo o que se pensa sobre o companheiro, também nas relações entre os países alguma medida de sigilo e segredo é necessária para uma convivência pacífica.</p>
<p>Nas relações entre duas nações soberanas, os direitos individuais são apenas mediatamente afetados. Desta forma, não há que se falar em um direito individual à informação sobre todos os passos estatais. A própria política, com seus instrumentos de controle e limitação, deve ditar os passos deste tipo de segredo estatal. Isso não quer dizer, de forma alguma, que todos os atos estatais devam ser públicos. Até hoje, como se sabe, os arquivos da Guerra do Paraguai e muitos dos arquivos da ditadura militar ainda estão sob segredo, ficando vedada a sua consulta.</p>
<p>Se tal foi decidido, deve haver razões suficientemente fortes para que se mantenham longe do alcance público. Concordando ou discordando disso, o fato é que qualquer mudança deve se dar pelos meios legítimos da democracia, com votação pelo parlamento ou por mandamento dos tribunais. (Aos entusiastas do vazamento: Imagine que o leitor tenha um processo correndo em segredo de justiça, envolvendo uma briga familiar. O vazamento da WikiLeaks desse processo deve ser comemorado?!)</p>
<p>Na atual lógica, após Wikileaks, não existe mais segredo estatal. Por mais sensível que seja, tudo pode ser público e publicado. Independentemente das consequências (nota necessária: por alguma razão desconhecida, a maioria dos documentos secretos publicados dizem respeito aos Estados Unidos. Teóricos da conspiracão terão meses, quiçá anos, para exercer suas atividades).</p>
<p>Não se tira, obviamente, uma função positiva desses vazamentos. Se isso servir como forma de controle para que atividades de escutas ilegais não sejam ordenadas por chanceleres, estamos dentro do terreno do desenvolvimento das instituições democráticas no plano internacional. Se o vazamento levar à descoberta de agentes infiltrados num país como a Coréia do Norte, que serão invariavelmente torturados e mortos, fica a dúvida se isso, realmente, ajuda no fortalecimento dessas mesmas instituições. Exemplos não faltam.</p>
<p><a href="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/11/bananinha_posts.gif"><img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/11/bananinha_posts.gif" alt="" title="" width="80" height="30" class="alignnone size-full wp-image-4254" /></a></p>
<p><em><strong>Maurício Boff &#8211; Argentina<br />
</strong><br />
</em></p>
<p><em>Os sete pecados do governo argentino (segundo a diplomacia norte-americana)</em></p>
<p style="padding-left: 90px;"><em>“Almost as if according to some natural law, in every century there seems to emerge a country with the power, the will, and the intellectual and moral impetus to shape the entire international system in accordance with its own values”.</em></p>
<p style="text-align: right;">Henry Kissinger, em <em>Diplomacy</em></p>
<p>Em plena efervescência do debate em torno do vazamento dos telegramas trocados entre diplomatas norte-americanas e o QG da Secretaria de Estado, em Washington, confesso que fiquei perdido, atordoado, emocionado, irritado, satisfeito, desinformado e, ao final, soltei um sorriso-maroto-garoto típico de final de uma boa piada. Sedento por analisar cada comentário diplomático norte-americano sobre os presidentes sul-americanos, deixei de lado a leitura de Moby Dick (<em>droga, não quero terminar meus dias como <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Zelig" target="_blank">Leonardo Zelig</a></em>), os estudos, a mulher, o cachorro, a horta de ervas-finas na sacada do apartamento, o trabalho e o <a href="http://www.muba.tv/home.html" target="_blank">show do João Bosco</a> na quinta-feira.</p>
<p>Mentira. Mas sou <a href="http://www.braziu.org/" target="_blank">brazileiro</a>. Logo, nunca saberá, nem mesmo o serviço secreto norte-americano. Esqueça, portanto. Falo sério. Importa, sim, lançar algumas impressões quase uma semana depois de análises de jornalistas, historiadores, diplomatas, sociólogos e pessoas comuns por todo o mundo, sobre a organização de <a href="http://trueslant.com/johnmcquaid/2010/07/27/wikileaks-journalism-and-truth/" target="_blank">Julian Assange</a>, o <a href="http://twitter.com/wikileaks" target="_blank">@WikiLeaks</a>. A meu ver, concretiza-se um movimento de discussões que, até hoje, era imprevisível e no melhor estilo <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Black_swan_theory" target="_blank">Black Swan</a>.</p>
<p>Mas desconfie, e desconfie muito. Como já mencionei por aqui, estou mais para a turma da ponta de baixo na escala de 0 a 10 entre os expertos –- e não pretendo sair dessa zona. É muita responsabilidade. Troco-a pela autonomia do (não) pensar. Portanto, humildemente, convido-o a passear pelos meus sentimentos. <em>Shanti</em>.</p>
<p><strong>+ Gula</strong><strong> </strong>(telegrama <a href="http://213.251.145.96/cable/2009/11/09BUENOSAIRES1235.html" target="_blank">001235</a>, em 09/11/2009)</p>
<blockquote><p>“Tivemos várias conversas com os dois primeiros chefes de gabinete da [presidenta] Cristina Fernández de Kirchner (CFK), Alberto Fernández e Sérgio Massa. O embaixador tinha uma reunião introdutória em 28 de outubro com Alberto Fernández, que atuou como Chefe do Gabinete em administrações tanto de Néstor [Kirchner] e de CFK (&#8230;) O embaixador e DCM tiveram um jantar em novembro com o segundo-chefe de gabinete de CFK, Sérgio Massa, e sua esposa, a eleita vereadora, Malena Galmarini, na casa do ex-assessor de Massa na Casa Rosada, o empresário Jorge O&#8217;Reilly. Em cada uma das conversas, os dois peronistas, que durante seus mandatos na Casa Rosada trabalharam todos os dias com os Kirchners no andamento do governo argentino, foram bastante francos ao expressar seu estranhamento do casal Kirchner e seu pessimismo sobre as perspectivas políticas do &#8216;casal no. 1&#8242; ['first couple'<em>, como os K são chamados nos telegramas</em>]. (&#8230;) Massa foi contundente em sua crítica do &#8216;casal no. 1&#8242;, especialmente a Néstor. (&#8230;) Ele chamou Néstor de &#8216;psicopata&#8217;, &#8216;um monstro&#8217;, e &#8216;covarde&#8217; cuja abordagem política mascara um profundo sentimento de insegurança e inferioridade. (A esposa de Massa mostrou-se alarmada frente a tais comentários desinibidos ao ponto de pedir que &#8216;pare de fazer caretas para mim.&#8217;) Ele contestou o argumento de que Néstor merecia crédito como um estrategista astuto, e descreve o ex-presidente como equivocado e tão convencido de seu brilho próprio que certamente voltaria a fazer seus erros. (&#8230;) Ele disse que Néstor não poderia relacionar-se com quem estivesse fora de suas ambições políticas: &#8216;Kirchner não é um gênio perverso&#8217;, concluiu Massa. &#8216;Ele é apenas um perverso&#8217;.&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>+ Avareza</strong> (telegrama <a href="http://213.251.145.96/cable/2009/09/09BUENOSAIRES1017.html" target="_blank">001017</a>, em 10/09/2009)</p>
<blockquote><p>“Aníbal Fernández [chefe de gabinete de CFK] tem sido para nós o membro mais acessível e inclinado do gabinete da presidenta Cristina Fernández de Kirchner, acolhendo governamentais dos Estados Unidos receberam treinamento policial e da cooperação. (&#8230;) Mais político do que diplomata, [Fernández] constrõe feudos e detesta perder o controle sobre esses recursos estratégicos. (&#8230;) Um interlocutor pragmático e politicamente esclarecido, Fernández prefere não envolver o seu pessoal em reuniões com funcionários da Embaixada [dos EUA]. Embora esteja sempre bem preparado, o seu discurso e comportamento podem às vezes ser grosseiro. Em mais de uma vez, ele fez evidentes comentários sobre uma atraente tradutora durante uma reunião com funcionários dos EUA que estavam de visita. Ele se referiu à existência de uma ‘procura local por órgãos genitais jovens’ enquanto explicava sobre os desafios que enfrenta sua pasta no combate ao tráfico humano com fins de exploração sexual.”</p></blockquote>
<p><strong>+ Luxúria</strong> (telegrama <a href="http://213.251.145.96/cable/2010/02/10BUENOSAIRES71.html" target="_blank">000071</a>, em 04/02/2010)</p>
<blockquote><p>&#8220;Embora o orçamento militar argentino está mal preparado para qualquer curso de ação que envolva a projeção de poder, o governo da Argentina provavelmente assim se sentiria compelido a pressionar, por qualquer meio possível, a reivindicação histórica [sobre as Ilhas Malvinas/Falklands] logo de uma descoberta de petróleo. Uma estratégia de conversação dura, queixas em fóruns internacionais, e cartas de protesto são esperados, além de sanções econômicas aplicadas contra as empresas atuantes [no arquipélago], mesmo que isso possa prejudicar a produção argentina de petróleo e gás natural.&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>+ Ira</strong> (telegrama <a href="http://213.251.145.96/cable/2007/12/07BUENOSAIRES2345.html" target="_blank">002345</a>, em 14/12/2007)</p>
<blockquote><p>“Em 14 de dezembro, a imprensa argentina continuou a dar ampla cobertura à furiosa reação do governo argentino às alegações do FBI de que os U$ 800 mil interceptados 04 de agosto por oficiais argentinos foi uma contribuição em dinheiro da BRV para a campanha presidencial de Cristina F. De Kirchner (CFK). (&#8230;) O embaixador usou uma recepção programada para antes das férias para mais de 100 jornalistas de jornal, rádio, TV no dia 14 de dezembro para a divulgação da orientação de Washington sobre o caso. Vários jornalistas de rádio utilizaram seus telefones celulares para transmitir no ar as palavras do embaixador, e muitos deixaram o encontro depois do embaixador concluiu a história. Várias histórias sobre o que disse o embaixador no encontro já bateu estão sendo divulgadas. Esperamos que as observações do embaixador na Argentina domine as manchetes no sábado. (&#8230;) O que começou como um dia negro para a imagem dos EUA na Argentina – com manchetes de ataque por CFK e outros sobre as nossas intenções supostamente escuras – está terminando com uma nota mais esperançosa, como um trabalho rápido por parte do Estado, da Justiça e do FBI de revisão e de orientação sobre a questão nos permitiu apresentar nossa versão para um grupo cativo de jornalistas argentinos. Como a primeira semana da administração CFK se aproxima do fim, demos aos pragmáticos informações sobre o governo argentino para que possam trabalhar pelo convencimento de CFK de que saia do precipío que se meteu e volte a dialogar com o governo norte-americano a partir da segunda semana de mandato presidencial. Veremos sua reação e resposta nos próximos dias.”</p></blockquote>
<p><strong>+ Melancolia</strong> (telegrama <a href="http://213.251.145.96/cable/2009/07/09BUENOSAIRES827.html" target="_blank">000827</a>, em 09/07/2009)</p>
<blockquote><p>“Há um outro fator externo que faz improvável que a Argentina adote a política bolivariana – a influência crescente do Brasil aqui. O representante local do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o brasileiro Daniel Oliveira, disse ‘econoff’ recentemente que ‘a Argentina tornou-se tão importante para o Brasil como o México é para os Estados Unidos’. Com uma intercâmbio comercial de U$ 31 bilhões e mais de U$ 10 bilhões em investimentos brasileiros sendo injetados na economia argentina desde 1997, o Brasil está fortemente empenhado aqui, e não é tímido sobre a defesa de seus interesses. A imprensa local relatou que Lula chegou a dar telefonemas em julho de 2008 para evitar que os Kirchners abandonassem o poder na sua frustada tentativa de pressionar o Congreso a aumentar os impostos sobre as exportações agrícolas. Lula e seus associados continuarão a ser uma importante influência moderadora sobre os Kirchners.”</p></blockquote>
<p><strong>+ Preguiça</strong> (telegrama <a href="http://213.251.145.96/cable/2009/07/09BUENOSAIRES853.html" target="_blank">000853</a>,  em 22/07/2009. substituída aqui por psicodrama. Leia e entenda)</p>
<blockquote><p>&#8220;Outros observadores apontam fatores de estresse psicológico em suas previsões para uma muito próxima crise democrática. Esta linha de raciocínio encontra duas vertentes: a de que o poderoso Néstor Kirchner é bem centrado em seu conjunto de formas intransigentes de se adaptar, ou a de que ele (ou ele e CFK) estão se tornando cada vez mais instáveis e incapazes de governar. Como um bem relacionado banqueiro nos disse, o casal Kirchner poderia se recuperar alterando o rumo e adotando uma postura mais moderada, mas Néstor Kirchner, em especial, é incapaz de mudar. Em vez disso, ele vai embarcar numa lamúria desastrosa contra os &#8216;traidores&#8217; os quais culpa pela derrota eleitoral, levando o governo ladeira abaixo. Em apoio desta tese, Fraga [Rosendo Fraga, analista político] defende que a personalidade de Néstor &#8216;não pode mudar&#8217;, mas que a opinião pública argentina pode. Ela não quer mais um lutador obstinado como fez Néstor Kirchner quando tomou posse em 2003; hoje, os argentinos querem uma liderança consensual que os Kirchners não pôdem e não vai proporcionar.&#8221;</p></blockquote>
<p><strong>+ Orgulho</strong> (telegrama <a href="http://213.251.145.96/cable/2009/12/09BUENOSAIRES1311.html" target="_blank">001311</a>, em 09/12/2009)</p>
<blockquote><p>“Mais uma vez, o governo Kirchner tem se mostrado extremamente sensível e intolerante às críticas que recebe. As preocupações sobre a fraqueza das instituições nacionais, e o Estado de Direito, em particular, é uma parte do que é relatado na imprensa argentina por acadêmicos, empresários, juízes, políticos da oposição, especialistas e organizações não-governamentais. Os argentinos são bastante conscientes de que a Argentina não está atraindo tanto investimento quanto Brasil, Chile e outros países da região. A ansiedade da comunidade empresarial sobre as mudanças arbritárias e caprichosas das regras do jogo é bem conhecida do público argentino e do governo. Somente quem é muito Kirchnerista concordará com a afirmação de Randazzo [ministro do Interior, Florencio Randazzo] de que a Argentina oferece ‘todas as garantias institucionais e jurídicas’, ou a afirmação do Ministério de Relações Exteriores de que não tem conhecimento de qualquer insatisfação por parte das empresas americanas. Para a maioria dos argentinos, isso é uma ironia ou declarações falsas e cínicas. Dito isto, esperamos que esses contratempos logo se esgotem, como já aconteceram em episódios semelhantes no passado.”</p></blockquote>
<p class="MsoNormal"><span lang="PT-BR">Não precisa usar a imaginação. Kissinger está com a razão: o </span>ímpeto intelectual e moral norte-americano moldou com seus próprios valores o mundo. Essa é a natureza do Homem e ponto final.</p>
<p><a href="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/11/bananinha_posts.gif"><img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/11/bananinha_posts.gif" alt="" title="" width="80" height="30" class="alignnone size-full wp-image-4254" /></a></p>
<p><em><strong>Gabriel Brust &#8211; França<br />
</strong></em></p>
<p><em>Sarkozy e suas mulheres<br />
</em><br />
A reação da imprensa francesa ao cablegate passou por dois momentos diferentes desde domingo. A primeira, imediata, foi a negação escandalizada. <em>Figaro</em> e <em>Liberation</em>, direita e esquerda no espectro dos jornais, condenaram o vazamento. O primeiro com o frágil argumento da segurança internacional. O segundo, mais razoável, criticando o fato de o WikiLeaks mirar e tentar desestabilizar democracias, enquanto se cala ou pouco faz para investigar regimes totalitários. Regimes totalitários, aliás, que seriam o alvo principal do WikiLeaks segundo os conceitos iniciais do site, formulados por seu criador.</p>
<p>A revista eletrônica Rue89 <a href="http://www.rue89.com/2010/12/01/aveugler-la-conspiration-en-2006-assange-theorise-wikileaks-178487">resgatou os textos</a> do blog de Julian Assange, não mais online, escritos antes do lançamento do WikiLeaks. Pelo tom de seus textos na época, parecia que Irã e Coréia do Norte teriam algo a temer diante de sua ideia. O tempo revelou o óbvio: é bem mais fácil (e totalmente legítimo, diga-se de passagem) brincar de justiceiro em democracias do que fazer uma pegadinha do Mallandro com o Kim Jong-Il.</p>
<p>A segunda etapa da reação francesa ao Cablegate é parecida com o que aconteceu no resto do mundo: o desdém em relação ao conteúdo dos arquivos assim que os primeiros foram revelados. De fato, como na maior parte do globo, não há nada que cause maiores estragos para a França nos telegramas revelados (até agora). Mas há material farto para o esporte preferido dos franceses – e da imprensa, principalmente &#8211;: praticar o bullying impiedoso de Nicolas Sarkozy.</p>
<p>Sobram passagens desabonadoras, no plano pessoal, para o chef d’état e suas mulheres. Sim, porque os yankees malvados, em seus telegramas, não pouparam nem o tema que o próprio Sarkozy reconhece como seu “calcanhar de aquiles”: a ex-mulher, Cecília Ciganer. Segundo o embaixador americano, em 2007, após o divórcio, havia dúvidas se Sarko teria estabilidade emocional para conduzir o país. Descreveu o presidente como dependente da ex-mulher. Quando começa o novo romance do galã, dessa vez com a modelete Carla Bruni, o embaixador fofoca para seu governo, em Washington, que as aparições públicas do presidente com a nova mulher são mais condizentes com um milionário excêntrico do que com um chefe de estado. Conversa de comadre das boas, para saborear com o chá da tarde.</p>
<p>E é justamente numa passagem sobre Carla Bruni que o Brasil aparece nos telegramas do embaixador americano em Paris. Segundo o diplomata, Sarkozy estaria usando a popularidade de sua mulher no Brasil para estreitar as relações com o país. Charles Rivkin diz que a há um “caso de amor” entre Lula e Sarkozy, e que a população brasileira aprecia muito o fato de o casal presidencial francês passar as farias no país. Particularmente, eu nunca soube que Bruni gozasse de qualquer popularidade no Brasil. Sua carreira como modelo está encerrada há tempos e seus chatíssimos discos, que eu saiba, nunca chegaram perto de serem populares no Brasil. Mas é provável que o embaixador saiba mais sobre a banânia do que eu.</p>
<p>Por fim, o último bulling da imprensa contra Sarkozy – debate dos jornais nesta quarta-feira &#8212; é acusá-lo de “cheerleader” dos yankees. Isso porque os telegramas comentam a vida privada de Sarkozy, mas pour outro lado o cobrem de elogios. O descrevem como “o presidente mais pró-Estados Unidos desde a Segunda Guerra”, afirmam que ele “se reconhece nos valores americanos” e teria se revelado, inclusive, ser um grande admirador de George W. Bush. Imperdoável para os franceses.</p>
<p><a href="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/11/bananinha_posts.gif"><img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/11/bananinha_posts.gif" alt="" title="" width="80" height="30" class="alignnone size-full wp-image-4254" /></a></p>
<p><em><strong>Érica Manssour &#8211; China<br />
</strong><br />
</em></p>
<p><em>Tá tudo bem</em></p>
<p>A julgar pela cobertura da imprensa chinesa, não há qualquer envolvimento de Beijing com essa história ae. O site encontra-se devidamente bloqueado e o foco de notícias relacionadas ao tema é mais na <a href="http://twitter.com/braziu/status/9755261937913856">acusação de estupro</a> e na ordem de prisão do Julian Assange pela Interpol do que qualquer outra coisa. Tudo bem por aqui.</p>


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		<title>O Bagulhão, o Japonês, o Professor</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Nov 2010 16:27:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro Demori &#124; Itália</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A máfia italiana tem mais de cem anos e deve parte de sua vitalidade a um mito fundador: a história de Osso, Mastrosso e Carcagnosso. Quer a lenda que os três cavaleiros espanhóis precisaram fugir da península ibérica após lavar a honra da família com sangue, matando o estuprador de uma de suas irmãs. Osso, [...]


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A máfia italiana tem mais de cem anos e deve parte de sua vitalidade a um mito fundador: <a href="http://www.liberainformazione.org/news.php?newsid=11988">a história de Osso, Mastrosso e Carcagnosso</a>. Quer a lenda que os três cavaleiros espanhóis precisaram fugir da península ibérica após lavar a honra da família com sangue, matando o estuprador de uma de suas irmãs. Osso, Mastrosso e Carcagnosso teriam passado 30 anos na ilha de <a href="http://www.google.com/images?q=Favignana&amp;um=1&amp;ie=UTF-8&amp;source=og&amp;sa=N&amp;hl=pt-pt&amp;tab=wi&amp;biw=1280&amp;bih=606">Favignana</a>. Mais tarde, cada um dos três irmãos teria ido para uma região distinta da Itália e fundado sua própria ordem armada: na Sícilia, Calábria e Campanha, Osso, Mastrosso e Carcagnosso seriam os <em>padrini</em> de Cosa Nostra, &#8216;Ndrangheta e Camorra.</p>
<p>O fato de terem fugido da Espanha em nome da honra não é detalhe inócuo, mas artigo fundamental no mito fundador mafioso: até hoje, os membros dos clãs são chamados, não por acaso, <em>uomini d&#8217;onore</em> (homens de honra).</p>
<p>Os ritos de iniciação da máfia nomeiam os cavaleiros espanhóis até hoje &#8212; em sua honra são batizados locais tomados pelos clãs ou iniciados novos membros, os <em><a href="http://en.wiktionary.org/wiki/picciotto">picciotti</a></em>, primeiro &#8216;cargo&#8217; da organização. Um livro fundamental para entender a dinâmica dos mitos fundadores da máfia com sua atualidade é <a href="http://books.google.com/books?id=TTUWeZBiBrUC&amp;printsec=frontcover&amp;dq=Fratelli+di+sangue&amp;source=bl&amp;ots=GQsJm81-G_&amp;sig=S_8GNX8Ob08Cn6Vocr5eDDVPbr8&amp;hl=pt-PT&amp;ei=FXbyTOTgNsTwsgaiqo3-Cg&amp;sa=X&amp;oi=book_result&amp;ct=result&amp;resnum=2&amp;ved=0CCIQ6AEwAQ#v=onepage&amp;q&amp;f=false"><em>Fratelli di Sangue</em></a>, sob a pena de um dos maiores juizes anti-máfia, Nicola Gratteri.</p>
<p><em>Paz, Justiça e Liberdade</em>. Esses são os mitos fundadores do Comando Vermelho, pai do tráfico organizado no Rio de Janeiro. Fundada na cadeia, a facção criminosa operava de modo amador já na década de 50, sobretudo dentro dos presídios. Nos morros, a venda de drogas se restringia à maconha, negociada por velhotas que arredondavam a aposentadoria de modo caseiro e semi-amador, dividindo os lucros com o crime.</p>
<p>Sempre morreu gente na favela, muito antes do crime começar a se organizar. A atenção da imprensa às mortes a partir dos anos 60 está diretamente ligada ao mito fundador do CV &#8212; como funeral de favelado não vende jornal, o surgimento de uma organização criminosa trazia boas histórias para contar. O tráfico desceu o morro em forma de papel e tinta.</p>
<p>O <em>Gênesis</em> não-escrito do Comando Vermelho se destinava a proteger os presos dentro da cadeia, muito antes de organizar a venda de toneladas de drogas fora dela. O CV surgiu para suportar um sistema carcerário cruel, ineficiente e caro que replica moldes até hoje, mais de meio século após a insurreição criminosa. A situação fora das grades é alimentada pela barbárie dentro delas.</p>
<p>Osso, Mastrosso e Carcagnosso do Rio de Janeiro são <a href="http://books.google.com/books?id=KAuooUS88CEC&amp;pg=PA67&amp;lpg=PA67&amp;dq=Bagulh%C3%A3o,+Japon%C3%AAs+e+Professor&amp;source=bl&amp;ots=ASloqXZIt_&amp;sig=diGjrVWInV3DGfwsDXaiDTK1848&amp;hl=pt-PT&amp;ei=73nyTI6dMMvFswblzsWVCw&amp;sa=X&amp;oi=book_result&amp;ct=result&amp;resnum=1&amp;ved=0CBQQ6AEwAA#v=onepage&amp;q=Bagulh%C3%A3o%2C%20Japon%C3%AAs%20e%20Professor&amp;f=false">Bagulhão, Japonês e Professor</a>, três traficantes da velha guarda que ainda dominam o imaginário coletivo do crime como fundadores do Comando Vermelho. Os mitos fortalecem a irmandade, a cumplicidade criminosa em cima da Santa Trindade de Paz, Justiça e Liberdade se mistura com <a href="http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&amp;contentID=152171&amp;channel=49">dizeres bíblicos</a> da mesma forma como São Miguel Arcanjo é usado para batizar novos membros das máfias italianas. É quando o crime deixa de ser crime e passa a ser um ato de fé.</p>
<p>Os bandos criminosos do Rio não podem ser equiparados à máfia italiana; são organizações pré-mafiosas, com comando e ordem, mas muito menos sofisticadas e disciplinadas do que Camorra, &#8216;Ndrangheta, Cosa Nostra, Sacra Corona Unita e outras. Traficantes estão há 50 anos nos morros cariocas e ainda usam chinelo de dedo, bermudões de praia; atiram mal e, o que é pior, ainda atiram. O que uma organização criminosa menos quer é o confronto. O ápice do crime é passar despercebido.</p>
<p>As cenas da última semana no Rio de Janeiro mostram que o crime nos morros não evoluiu porque jamais teve a necessidade disso. De mãos dadas com uma polícia historicamente corrupta e com governantes que fizeram incontáveis &#8220;tratados de paz&#8221;, os líderes do momento ainda fazem contabilidade em folhas de caderno e desfilam pelos morros armados com fuzis em motos importadas. Simbolicamente infantil.</p>
<p>O projeto inicial do Comando Vermelho era entrar em todos os buracos deixados pelo poder público, que são muitos, quase infinitos no Brasil. O CV é apenas mais uma prova de que máfias e organizações pré-mafiosas não são <em>contra</em> o Estado &#8212; a última coisa que querem é a guerra. Desejam fazer <em>parte</em> do Estado, <em>ser</em> ele onde ele jamais foi. É justo dizer que as UPP&#8217;s são parte de uma política socializadora dos morros, mas <a href="http://luizeduardosoares.blogspot.com/2010/11/crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico.html">ingênuo pensar que são um fim em si</a>. Simbolicamente, a perna do Estado que primeiro subiu o morro não foi a da educação ou a da dignidade, mas a das armas. E essa é, antes de tudo, uma guerra simbólica.</p>
<p>O crime no Rio age nas necessidades mais básicas: gás, remédio, cigarro, sabonete, brinquedos de natal, enterros, pequenas obras, &#8216;puxadinhos&#8217;. Não há nada aqui que o Estado não possa fazer. É bobagem achar que o tráfico substitiu o Estado; ele apenas tenta, e faz de forma esparsa e pouco eficiente, agindo do modo mais superficial possível nas necessidades individuais daqueles que pedem &#8216;arrego&#8217;. Não é uma <em>política</em>, é uma <em>ação</em>.</p>
<p>O Brasil perdeu muito tempo. Perder tempo é um esporte nacional. O tráfico já está na quarta geração. Mesmo que não tenha se tornado uma dinastia (justamente pela organização precária, o filho de Fernandinho Beira-Mar não terá qualquer garantia de ser um &#8216;poderoso chefão&#8217; no futuro), o tráfico se tornou uma oligarquia, uma nobreza de havaianas.</p>
<p>A esperança para os jovens do Sul da Itália, além da máfia, é o exército, que paga menos e pode mandá-los para o Afeganistão. No Rio, nem o exército salva.</p>
<p>Daquele Comando Vermelho dos anos 50 só resta o mito. A morte prematura e as guerras internas pelo comando dos morros tornou o crime de entorpecentes uma roda gigante descontrolada, sem tempo para render homenagens ao passado. Na busca no youtube pela palavra &#8220;Falcão&#8221;, as mais importantes citações se referem a &#8220;futsal, cantor brega, dribles&#8221;. As imagens captadas para compor o excelente documentário &#8220;<a href="http://www.youtube.com/watch?v=yI4urSYqkog">Falcão, meninos do tráfico</a>&#8221; são secundárias. Asfalto e morro se unem na indiferença.</p>


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		<title>Um farol para o passado</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Nov 2010 17:17:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro Demori &#124; Itália</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Viajo todas as semanas para Veneza por compromissos profissionais. Pego um trem que me consome 7 horas de vida entre ir e voltar. Uma das poucas paradas no caminho acontece em Bolonha, cidade que gosto muito e a qual conheço relativamente pouco mesmo tendo morado lá perto. Bolonha é um centro de excelência da Itália: [...]


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			<content:encoded><![CDATA[<p>Viajo todas as semanas para Veneza por compromissos profissionais. Pego um trem que me consome 7 horas de vida entre ir e voltar. Uma das poucas paradas no caminho acontece em Bolonha, cidade que gosto muito e a qual conheço relativamente pouco mesmo tendo morado lá perto. Bolonha é um centro de excelência da Itália: sede da <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/University_of_Bologna">mais antiga universidade do mundo</a>, construiu no correr dos séculos uma longa tradição de ensino e pesquisa que hoje faz girar na cidade cerca de 1,7 milhão de euros ao dia. Bolonha &#8220;<em>la grassa, la rossa</em>&#8220;, a gorda e vermelha Bolonha, rica, cara para se viver.</p>
<p>Centro nevrálgico da resistência <a href="http://it.wikipedia.org/wiki/Partigiano">partigiana</a> ao nazismo e ao <a href="http://it.wikipedia.org/wiki/Repubblica_Sociale_Italiana">novo fascismo</a> que jogaram a Itália em uma <a href="http://veja.abril.com.br/especiais_online/segunda_guerra/edicao006/capa.shtml">guerra civil entre 1943-45</a>, a capital da Emília-Romanha está perdendo poder e charme.</p>
<p>Na última semana, centenas de mães com seus bebês dentro de carrinhos de passeio <a href="http://bologna.repubblica.it/dettaglio/Le-mamme-occupano-contro-la-Gelmini/1518613">protestaram em praça pública</a>. Um protesto com balões e doces para contrastar com o amargo de um despedaçado <em>welfare state</em> europeu: a administração pública pretende fechar as creches duas horas mais cedo para economizar dinheiro. Bolonha e seus tijolos vermelhos amanhecem todos os dias um pouco mais cinzentos de fumaça e descuido.</p>
<p>A geração italiana de hoje é a primeira do pós-guerra que será mais pobre do que a de seus pais. Desde o fim dos conflitos armados, todos os filhos superaram os genitores com mais dinheiro no bolso, melhores casas e carros, mais viagens e lazer, famílias mais bem assistidas economicamente. Atualmente, um em cada três jovens italianos <a href="http://www.lastampa.it/redazione/cmsSezioni/economia/201007articoli/56408girata.asp">sequer tem emprego</a>.</p>
<p>O corte de fundos das políticas públicas é geral no continente: França, Inglaterra, Espanha, Holanda, Portugal,  todos passaram a tesoura que vai desde congelamento de salários de funcionários públicos até cortes desses mesmos salários quando muito elevados, ou demissões. Os serviços públicos estão sendo dilapidados de forma visível, de escolas com menos professores a delegacias de polícia que fecham mais cedo. Enquanto os países em desenvolvimento avançam, a Europa regride.</p>
<p>Analisar um continente como esse olhando somente para o curto prazo é dar muita chance ao erro, no entanto. É cedo pra dizer se esses países estão fazendo o caminho inverso ou se estão fazendo apenas &#8216;um outro caminho&#8217;. Alguém já deve ter dito ao longo das eras que a coisa por aqui ia ficar preta&#8230; No curto prazo, a coisa já está preta; mas o preto europeu, comparado com o preto brasileiro, é ainda cinza-claro.</p>
<p>Em entrevista à revista semanal <em>l&#8217;Espresso</em> da semana passada (a qual assino e só consegui abrir hoje), o economista <a href="http://nobelprize.org/nobel_prizes/economics/laureates/2001/stiglitz-autobio.html">Joseph Stiglitz</a> explica que um dos remédios para evitar o fim do sonho americano &#8212; ou de parte dele &#8212; é investir em pequenas e médias empresas e deixar que os colossos industriais e financeiros se virem. Para ele, salvar bancos foi um erro dos Estados Unidos, começado por Bush e continuado por Obama.</p>
<p>A Itália é o país da pequena e da média empresa, mas vem lutando contra sua própria história. A globalização foi o remédio para o subdesenvolvimento ao mesmo tempo em que tirou dos países ricos muitas possibilidades. Não adianta se debater: a FIAT <a href="http://www.repubblica.it/online/economia/autocalodieci/domani/domani.html">fechará plantas na Itália</a> e fabricará cada vez mais <a href="http://www.motori24.ilsole24ore.com/Auto-Novita/2010/04/nuova-fiat-uno.php">carros no Brasil</a>, onde o mercado interno ainda é enorme e de longo prazo, onde a mão-de-obra custa menos e onde as pessoas passam por um momento efervescente de consumo comparado aos anos 60 e 70 europeus. E assim farão Pirelli, Piaggio, Benetton, Prada&#8230; dando ao ex-terceiro mundo a chance de ouro deste século, mesmo que muitos desses países, pouco tempo atrás, lutassem contra o &#8216;demônio do mundo global&#8217; que hoje os alimenta e os enriquece.</p>
<p>O que sobra para a Itália? Sobra &#8216;excelência&#8217;, é o que vez ou outra se ouve. O país deve se concentrar em produzir e vender caro o que levou anos para desenvolver e que poucos no mundo fazem melhor: carros de luxo, motos, barcos, navios de cruzeiro, moda de alto nível, <em>design</em>, vinhos, culinária, história. O número de pobres está diminuindo no mundo e a classe média europeia está visivelmente mais empobrecida. Esse movimento gera um nivelamento social que aumenta, por exemplo, a venda de carros de baixa cilindrada, exatamente o que acontece no Brasil. Ao mesmo tempo, o <a href="http://veja.abril.com.br/190510/receita-milionarios-p-116.shtml">número de ricos está aumentando</a>; essas pessoas passaram a vida sonhando em dirigir uma Ferrari. A receita de produzir excelência vale também para outros países do bloco &#8212; e para os EUA.</p>
<p>Dias atrás, parte do estádio dos gladiadores de Pompéia <a href="http://www.ilmessaggero.it/articolo.php?id=125677&#038;sez=HOME_INITALIA">desabou</a>. Para a economia nacional, o fato deveria ser visto como o desabamento de parte de uma estrutura industrial &#8212; o turismo, a história, a cultura e a arte são o motor dessa excelência italiana que não pode se deixar enganar pelo &#8216;efeito globalização&#8217; em países em desenvolvimento. Olhar para um Fiat Uno como deus salvador dos mercados europeus é querer competir com o Brasil apontando o farol para o passado.</p>


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		<title>Ruby rouba corações e a banheira de Mister B.</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Nov 2010 17:53:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro Demori &#124; Itália</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>O senador romano Marco Túlio Cícero teoriza em seu livro “A República” sobre as formas de governo, sua eficácia e imperfeições. Cícero parte das notas apontadas antes dele por Aristóteles, que sobre a monarquia dizia temer a tirania, nas aristocracias temia as oligarquias e nas democracias tinha medo da &#8216;tirania das massas&#8217;, a oclocracia. O remédio para os males do poder, para Cícero, estava na Justiça, um sistema frio e sem as emoções humanas que pudesse garantir uma sociedade equilibrada sob qualquer governo.</p>
<p>Não deve ser a Justiça a derrubar o atual governo de Roma, logo, Cícero certamente deixou de avaliar algumas variáveis importantes. Motivos não faltam para que Silvio Berlusconi passe um tempo longe do poder. Entre os mais graves deles está o <a href="http://www.guardian.co.uk/politics/2009/feb/17/david-mills-silvio-berlusconi-trial">Caso Mills</a>, em que o advogado foi condenado por ter recebido dinheiro para mentir e beneficiar Berlusconi em um tribunal. Pela lógica, onde há corrompidos há corruptores. A vida real ignora a vã filosofia.</p>
<p>O ritmo dos tribunais costuma ser mais lento do que o das ruas. Apesar de seus inúmeros processos, Silvio Berlusconi pode ver antecipado o fim de seu governo não pela espada do judiciário, mas pela caneta das sondagens populares: suas festas particulares regadas a acompanhantes profissionais, figuras do mundo televisivo e poderosos em geral (entre eles, <a href="http://www.timesonline.co.uk/tol/news/world/europe/article6722510.ece">Putin</a> e <a href="http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2009/sep/04/gaddafi-berlusconi-business">Kadafi</a>) mais do que nunca parecem corroer sua imagem pública.</p>
<p><img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/11/berlusconi_linvoluzione-della-specie.jpg" alt="" title="berlusconi_linvoluzione-della-specie" width="513" height="295" class="alignnone size-full wp-image-4187" /></p>
<p>Entre a última semana de outubro e a primeira de novembro, a imprensa italiana publicou uma série de reportagens de mais um capítulo da vida particular de Berlusconi com detalhes que fariam Cícero rever parte de sua obra. A testemunha-chave é Nadia Macri, acompanhante de luxo italiana que afirmou ter tido relações sexuais com o premier em troca de 10 mil euros. O testemunho de Nadia, uma “<em>escort</em>” na gíria local, foi registrado também em depoimento à polícia, e vai além: diz que Berlusca disponibiliza seu avião oficial para transportar a droga consumida nas festas.</p>
<p>Em suas descrições, que renderam aos investigadores que a escutaram mais de trezentas páginas, Nadia conta sobre as festas na mansão de Arcore &#8212; cidadezinha perto de Monza onde Berlusconi tem <a href="http://www.youtube.com/watch?v=Il89G4KVQsM">uma de suas tantas propriedades de luxo</a> –- como verdadeiros bacanais onde giravam personagens da TV como o caça-talentos Lele Mora e o jornalista e amigo particular de Silvio, Emilio Fede, âncora de telejornal e um dos rostos mais conhecidos da Itália. Mora e Fede seriam os responsáveis pelo “recrutamento” das meninas.</p>
<p><img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/11/Fabrizio-Corona-e-Lele-Mora.jpg" alt="" title="Fabrizio Corona e Lele Mora" width="505" height="387" class="alignnone size-full wp-image-4190" /><br />
<em>&#8220;&#8230; oiê&#8221;</em><br />
<img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/11/Lele_mora.jpg" alt="" title="Lele_mora" width="476" height="366" class="alignnone size-full wp-image-4191" /><br />
<em>&#8220;&#8230; alguém viu meu anel?&#8221;<br />
</em></p>
<p>A descrição das festas faz jus à parte muito conhecida da Roma dos tempos de Cícero: além do consumo de drogas, existiria uma banheira onde Berlusconi faria sexo com várias mulheres, individualmente ou em grupos. Silvio nasceu em 1936; imaginá-lo em tal situação o alça automaticamente ao posto de herói da terceira idade.</p>
<p>Além de Nadia Macri, outra <em>escort</em> vem estrelando os piores pesadelos de Berlusconi: Ruby, também chamada de Ruby &#8220;Rubacuori&#8221; &#8212; Ruby rouba corações &#8211;, jovem marroquina presa por furto no dia 27 de maio. Sem documentos, Ruby, então menor de idade, é levada à delegacia. Momentos após sua detenção, os policiais presenciam uma cena que seria fictícia se não fosse italiana: o próprio Silvio Berlusconi teria telefonado aos agentes pedindo para que soltassem a jovem.</p>
<p><img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/11/Ruby-appecorinata-Da-Novella-.jpg" alt="" title="Ruby appecorinata Da Novella" width="495" height="317" class="alignnone size-full wp-image-4193" /><br />
&#8220;faço Relações Públicas (RRPP)&#8221;</p>
<p>Na argumentação, uma pequena &#8216;imperfeição&#8217;: Ruby, segundo Berlusconi, seria sobrinha do presidente do Egito, Hosni Mubarak, o que foi posteriormente verificado e apontado como falso. As declarações de Ruby foram confirmadas em depoimentos oficiais pelos policiais que a prenderam.</p>
<p><img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/11/berlusconi_fica.jpg" alt="" title="La fica" width="452" height="491" class="alignnone size-full wp-image-4170" /><br />
<em>&#8220;Adoro pastel&#8221;</em></p>
<p>As duas bombas explodiram na mão do premier, que parece estar em um momento de fragilidade política nunca visto em seus 15 anos de vida pública. <a href="http://leandrodemori.com/2009/09/22/generatore-automatico-di-proclami-di-berlusconi/">A seu modo</a>, Berlusconi tentou resfriar a caldeira; primeiro dizendo que era tudo mentira, depois, com a confirmação dos fatos e abertura de inquérito policial em Milão, deu uma de suas declarações típicas: em um palanque, disse que era “melhor gostar de mulheres bonitas do que ser gay”.</p>
<p><object width="515" height="411"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/ZgYl2KzON1k?fs=1&amp;hl=pt_PT"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/ZgYl2KzON1k?fs=1&amp;hl=pt_PT" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="515" height="411"></embed></object></p>
<p>A reação da oposição foi dura. Todos os partidos de centro-esquerda pediram sua cabeça. O líder do Partido Democrático, Pier Luigi Bersani, pediu imediatamente a renúncia. &#8220;Berlusconi não pode seguir nem um minuto a mais em um papel público que traiu de forma indecente&#8221;, declarou o secretário do PD.  &#8221;A Itália tem uma dignidade que não pode ser colocada em perigo diante do mundo inteiro. A Itália tem problemas a enfrentar em um clima sério. É preciso abrir uma nova fase&#8221;. Concordo com a parte &#8220;a Itália tem problemas a enfrentar&#8221;.</p>
<p>Os bacanais <em>alla Roma Antica</em> podem representar o poente do poder de Berlusconi, mas não nesta estação. Caso vá às urnas, a máquina eleitoral não deve se mover antes da primavera. Historicamente, jamais se votou no outono/inverno por aqui. Além disso, nenhum partido está preparado para fazer campanha.</p>
<p>O Popolo della Libertà (PDL) está rachado após a <a href="http://www.braziu.org/2010/07/29/breinquin-nius-sotaque-italiano-por-favor-governo-berlusconi-caminha-para-o-fim-ou-para-a-eternidade/">ruptura de Berlusconi com Gianfranco Fini</a>, presidente da Câmara e seu ex-aliado, político de origem neofascista que hoje é a esperança eleitoral da esquerda, que vê em Fini o único capaz de derrubar o governo. Sem Berlusconi à frente, talvez o PDL deva procurar outro candidato. Nos bastidores se ventila o nome de Giulio Tremonti, ministro da Economia. Outro personagem possível seria Mariastella Gelmini, ministra da Educação e que vem pouco a pouco sendo escalada pelo PDL para programas de TV e comícios –- sinal claro de uma vontade de construir seu nome junto ao eleitorado.</p>
<p><img alt="" src="http://blog.panorama.it/italia/files/2009/11/gelmini-large.jpg" title="La Gelmini" class="alignnone" width="500" height="371" /></p>
<p>Gelmini é uma das &#8220;67 mulheres de Berlusconi&#8221;, segundo essa divertida<a href="http://espresso.repubblica.it/dettaglio/bunga-bunga-roulette/2137673"> roleta de <em>belle donne</em></a> feita pela revista semanal <em>l&#8217;Espresso</em>. A minha predileta, como registro histórico, é a ministra do Bem-Estar Social, Mara Carfagna.</p>
<p><img alt="" src="http://leandrodemori.com/wp-content/uploads/2009/06/mara-carfagna-hot.jpg" title="La Carfagna" class="alignnone" width="432" height="564" /><br />
<em>Levanta qualquer mal-estar social</em></p>
<p>Fini, por sua vez, ainda não parece ter adquirido musculatura eleitoral –- é um risco submeter seu nome ao escrutínio sob pena de sair da briga menor do que entrou. O presidente da Câmara, hoje, é líder de um grupo dissidente do PDL. Precisaria sair do partido e fundar sua própria legenda, o que teria que ser feito às pressas caso as eleições fossem antecipadas em poucos meses.</p>
<p>O Partido Democrático, maior força da oposição, tem problemas internos a resolver. Antes de tudo, há uma luta subterrânea pelo direito a se candidatar. O nome natural seria o do secretário-geral, Pierluigi Bersani. No entanto, o governador da Puglia <a href="http://www.braziu.org/2010/08/03/%E2%80%9Cgrita-o-quanto-quisernada-com-as-baleiasgrita-sem-suplicarvoa-com-as-mariposas%E2%80%9D/">Nichi Vendola</a> aparece na frente nas sondagens populares. Como rege seu estatuto, o candidato deverá conquistar esse direito no voto: o PD precisaria fazer prévias internas, o que demanda tempo. Após a escolha do nome, os <em>democráticos</em> ainda precisaria buscar apoio de outros partidos de centro, centro-esquerda e esquerda &#8212; menores, mas com força para ajudar a derrotar Berlusconi. A piada por aqui diz que a esquerda italiana jamais poderia ser acusada de complô, já que, pra isso, é preciso encontrar ao menos duas pessoas que estejam de acordo. O humor e seu poder de síntese.</p>
<p><strong>Reforma eleitoral<br />
</strong>No centro das discussões se abre um importante capítulo de longo prazo no horizonte das urnas: a reformulação da Lei Eleitoral. Mais do que apenas a vontade de contar votos, há um movimento de lideranças –- sobretudo de esquerda &#8212; disposto a mexer no próprio coração da política italiana.</p>
<p>Para os partidos de oposição -– em primeira fila o Partido Democrático –- a Lei Eleitoral vigente é o grande problema do sistema italiano. Seu secretário-geral e importantes lideranças defenderam inúmeras vezes que não basta antecipar as eleições caso o Governo Berlusconi caia, é necessário, antes, mudar a lei que dá um “prêmio de maioria” ao partido vencedor em nome de uma pretensa governabilidade. Ou seja: mesmo que um partido obtenha somente 20% dos votos, caso seja o mais votado entre todos receberá 50% + 1 de cadeiras na Câmara e no Senado, o que provocaria uma distorção dos desejos populares.</p>
<p>Nas mais recentes eleições regionais (realizadas no primeiro semestre deste ano) 3,5 milhões a mais de italianos esnobaram as urnas, o que representa um aumento de 8% de abstenção em relação às regionais de 2005. O partido do &#8216;não voto&#8217; é o grande partido italiano (lembrando que o voto não é obrigatório). Entre nulos, brancos e abstenções, 40% das pessoas não demonstram satisfação com os candidatos.</p>
<p>O partido majoritário, hoje, na Itália, tem a confiança de apenas um em cada sete italianos. A continuar o ritmo de queda de votantes e aumento da quantidade de &#8220;escorts&#8221; na mansão de Arcore, em pouco tempo o número de eleitores será tão pequeno que há chances concretas de a maior parte deles terem passado pela banheira de Berlusconi.</p>


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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>Se depender de França e Itália, tem segundo turno</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Oct 2010 19:17:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gabriel Brust &#124; França</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_3622" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/10/IMG_0098.jpg"><img class="size-medium wp-image-3622" title="IMG_0098" src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/10/IMG_0098-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">(Fila para votação em Paris hoje à tarde)</p></div>
<p>Apesar da fila de mais de uma hora impressionar, hoje à tarde, apenas metade dos 4 mil eleitores cadastrados para votar em Paris compareceu, segundo os números recém divulgados. E, a julgar pelo voto dos brasileiros &#8220;franceses&#8221;, tem segundo turno. Dilma obteve 46,2% dos votos na capital francesa. De acordo com o consulado, cerca de 2,1 mil brasileiros foram às urnas. José Serra (PSDB) teve 29,6% dos votos e Marina Silva (PV), 22,1%. Na Itália, Dilma recebeu 44% dos votos válidos. José Serra ficou com 32 % e Marina Silva obteve 19%.</p>
<p>É claro que nenhum destes dois países pode servir de comparação para o voto no Brasil. Mas apontam uma tendência. Voltamos logo mais.</p>


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		<title>Gol</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Sep 2010 14:16:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro Demori &#124; Itália</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Na frente do palácio de governo há um cartaz com a face de Sakineh Mohammadi Ashtiani. É grande &#8212; uns 5 metros de altura, calculo. Não sei ao certo porque está lá no alto. No pé do impresso se destaca o brasão do Ministério das Relações Exteriores.</p>
<p>O ministro, nos últimos dias, vem &#8220;trabalhando duro&#8221; pela <a href="http://is.gd/fA6Gf">causa</a> de Sakineh, condenada à morte por apredejamento no Irã, &#8220;uma nação amiga&#8221;. O presidente também já <a href="http://is.gd/fA6KW">intercedeu</a> por ser considerado &#8220;influente na região&#8221;. Juram que não é a última do português. Explicam que em outras oportunidades já se cogitou até mesmo que o presidente assumisse as negociações de paz no Oriente Médio por essa suposta influência.</p>
<p>Eu olho para os olhos de Sakineh Mohammadi Ashtiani no cartaz e sorrio tenso de compaixão. &#8220;Pobre dela que está na mão dessa gente&#8221;. É a única coisa que consigo pensar.</p>
<p>O presidente e o ministro abraçaram a causa por ela ser &#8216;popular e humanitária&#8217;. Abraçaram porque, no fim, são uns canalhas da política. A vida de Sakineh, para eles, é o que menos importa. Desde 1979, <a href="http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,25-pessoas-aguardam-execucao-por-apedrejamento-no-ira-estima-ong,591270,0.htm">109 pessoas morreram apedrejadas no Irã</a>.</p>
<p>Nos últimos meses, o presidente vem <a href="http://is.gd/fA6OY">acusando a imprensa de atacá-lo</a> de forma maldosa e sistemática. Rebate sempre, muitas vezes perde a linha; usa o <a href="http://is.gd/fA6Rw">apoio incondicional</a> e bem pago da mídia amiga para defendê-lo, exaltar seus dotes de estadista e <a href="http://is.gd/fA6TT">bombardear os adversários</a>. Sakineh Mohammadi Ashtiani vem a reboque. Sakineh Mohammadi Ashtiani é um bibelô político.</p>
<p>O presidente vislumbra uma <a href="http://is.gd/fA71i">eleição</a> pela frente e sabe dos perigos que corre. Sempre que se aproxima desse ponto, procura cumprir causas &#8220;nobres&#8221; como a de Sakineh, falar sobre <a href="http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol-italiano/noticia/2010/08/oficial-robinho-assina-com-o-milan.html">futebol</a>, reclamar da <a href="http://www.youtube.com/watch?v=kbzdPEzjcL4">mídia</a> e atacar <a href="http://is.gd/fA74F">adversários</a>.</p>
<p>Suas declarações causam impacto e admiração, mas depois que morde, assopra. Hoje mesmo, como em outras vezes, disse que <a href="http://it.reuters.com/article/topNews/idITMIE5BE0KL20091215">&#8220;o amor vencerá o ódio&#8221;</a>. Não se interessa por discussão política relevante, sequer parece levar a sério seu próprio plano de governo. Leva a sério, isso sim, um plano de poder, e polariza cada vez mais o eleitorado em busca do <a href="http://www.braziu.org/2010/09/14/precisamos-extirpar-o-dem-mas-sobrios-companheiros/">jogo do Bem contra o Mal</a>: se está comigo, está, se não vota nos meus, é inimigo.</p>
<p>O bipolarismo é desejado a todo o custo. &#8220;Há mais paixão, rivalidade, envolvimento e idolatria em uma cidade onde há somente dois grandes times ou em outra em que três ou quatro disputam a liderança?&#8221;, deve se perguntar, apaixonado que é por futebol. É nessa hora que você grita gol.</p>
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		<title>Mataram seus ídolos</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Sep 2010 17:01:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro Demori &#124; Itália</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nem o tempo, as crises e os furacões conseguiram apagar Cuba do imaginário comunista do Ocidente. Ainda hoje, muito se fala na ilha como exemplo bem construído &#8212; mesmo que não perfeito &#8212; daquilo que o mundo poderia ter sido e não foi. Um dos tantos motivos que levaram à construção desse imaginário é sua [...]


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nem o tempo, as crises e os <a href="http://goo.gl/Py0k">furacões</a> conseguiram apagar Cuba do imaginário comunista do Ocidente. Ainda hoje, muito se fala na ilha como exemplo bem construído &#8212; mesmo que não perfeito &#8212; daquilo que o mundo poderia ter sido e não foi. Um dos tantos motivos que levaram à construção desse imaginário é sua localização geográfica: posto mais avançado do modelo russo para além da Cortina de Ferro, Cuba está &#8216;do lado de cá&#8217;, no coração do sistema combatido pela extinta URSS.</p>
<p>As eleições de 1976 não passaram despercebidas naquele ano. As eleições de 1976 não foram, no entanto, em Cuba, mas na Itália, e alvoroçaram as plumas de parte do ocidente, movendo serviços secretos, políticos e grupos de pressão (legais e ilegais) contra um avanço real e democrático do inimigo vermelho. Naquele ano, o Partido Comunista Italiano (PCI) fez 34,4% dos votos, pouco menos dos 38% da tradicional e vencedora Democrazia Cristiana (DC), partido que comandou a Itália por 30 anos.</p>
<p>Para além do ideário de quem acreditava no poder das armas e via em Cuba um exemplo a ser seguido, a votação maciça dos italianos no PCI representava <em>tutta un&#8217;altra cosa</em>. Tratava-se de um dos países mais importantes do mundo, uma economia industrial no auge da expansão e com todo o peso histórico que a península sempre representou. O voto, para além dos fuzis, mostrava ao ocidente que o comunismo poderia existir de modo consensual.</p>
<p>A vitória apertada da Democrazia Cristiana não dava muitas perspectivas ao partido, que precisaria de maioria para governar ou correr o risco de novas eleições contra um PCI cheio de músculos. Estava tudo na mão dos comunistas, e os comunistas se comprometeram em sustentar Giulio Andreotti, premier recém eleito pela DC. O costureiro da aliança fora o <em>democristiano</em> Aldo Moro, premier recém saído do governo que estabelecera um canal direto com Enrico Berlinguer, secretário-geral do PCI.</p>
<p>A aliança Moro-Berlinguer &#8212; mesmo não fazendo do PCI um partido oficialmente governista &#8212; desiludiu profundamente parte importante da militância vermelha, que se tornaria cada vez mais violenta. Queriam fazer a revolução, e não se aliar aos velhos políticos da Primeira República.</p>
<p>O movimento em direção ao centro provocou uma onda de desfiliações e passeatas.</p>
<p>Em outubro de 1976, a situação piora: o governo apoiado pelo PCI aumenta a gasolina, os impostos e os cigarros (jamais subestime os cigarros na Itália). O partido perde cada vez mais força na base. Os militantes jovens, que contribuíram fortemente com o sucesso eleitoral, debandam velozmente. Em março de 1977, em Roma, um movimento ocupa a universidade. Em Bolonha, até hoje a rocha-forte da esquerda, outro movimento ocupa o centro da cidade a ferro e a fogo. Um estudante morre.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-3119" title="Bologna, 13 marzo 1977" src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/09/bologna-13-marzo-1977-08.jpeg" alt="" width="514" height="335" /><br />
<img class="alignnone size-full wp-image-3120" title="Bologna, 11 marzo 1977" src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/09/bologna-11-marzo-1977-05.jpeg" alt="" width="507" height="327" /><br />
<img class="alignnone size-full wp-image-3119" title="Bologna,13 marzo 1977" src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/09/bologna-11-marzo-1977-03.jpeg" alt="" width="514" height="335" /></p>
<p>Parecia claro que a estratégia de Giulio Andreotti e da Democrazia Cristiana era ganhar tempo e esvaziar o Partido Comunista. Sem saída, Berlinguer abre uma crise de governo ameaçando derrubar a legislatura, mais uma vez com a cumplicidade de Aldo Moro, com quem se encontrava frequentemente. Ao mesmo tempo, Aldo Moro trabalha nos bastidores para evitar a queda do governo que, para seguir adiante, precisaria do apoio incondicional dos comunistas.</p>
<p>Em plena Guerra Fria, entre hesitações, revisões e agendas secretas, Moro se encontra paralelamente com a CIA e com representantes do governo americano para garantir que a Itália não entraria na Cortina de Ferro. Era a preocupação reinante em Washington. Moro consegue êxito em todos os <em>fronts</em>: a partir daquele momento, o PCI entra oficialmente no governo e &#8212; de modo como jamais desejara &#8212; na história.</p>
<p>A militância ligada ao PCI por laços ideológicos debanda. São milhares e milhares de desfiliações.</p>
<p>Em 1978, Aldo Moro se dirige ao parlamento para acompanhar uma votação. É raptado e seus agentes de escolta, mortos. Horas depois, uma foto do cativeiro é divulgada. Os sequestradores são grupos de esquerda da geração de <a href="http://www.istoe.com.br/reportagens/51781_ASSIM+COMO+BATTISTI#">Cesare Battisti</a>. A cada dia, o PCI e Berlinguer perdem força, soterrados por notícias de atentados dos &#8220;anos de chumbo&#8221; italianos.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-3117" title="aldo moro cativeiro" src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/09/aldo-moro-cativeiro.jpeg" alt="" width="237" height="320" /></p>
<p>O sequestro dura 55 dias, durante os quais as Brigadas Vermelhas &#8212; grupo responsável pelo crime &#8212; emitem 9 comunicados e várias cartas escritas por Moro a políticos e religiosos. Quando o relógio bate 12h30 do dia 9 de maio, um telefonema a um amigo do ex-premier indica a rua Michelangelo Caetani, próximo a rua delle Botteghe Oscure (sede do PCI) e da Piazza del Gesù (sede da DC) como local de entrega do político. A expectativa de rever Moro com vida se diluiu ao abrir do porta-malas de um automóvel Renault 4 estacionado na rua. Moro havia sido assassinado.</p>
<p>Era o fim do Partido Comunista Italiano, morto pela guerrilha de extrema-esquerda iniciada como vingança à política de vizinhança com &#8220;o inimigo&#8221;. Nas eleições do ano seguinte, 1979, o PCI perde 1,5 milhão de votos e afunda.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-3116" title="aldo-moro" src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/09/aldo-moro.jpeg" alt="" width="420" height="314" /></p>
<p>Em 1980, a FIAT decide demitir funcionários e fechar uma fábrica. Berlinguer vê uma possibilidade de retomar o apoio perdido, vai a Torino e discursa aos protestantes. Ao mesmo tempo, busca desvincular a imagem dos comunistas italianos à luta armada e ao radicalismo: condena a invasão da URSS ao Afeganistão e rompe com o bloco. Na mesma década, rompe também com a Democrazia Cristiana e começa a atacar o que ele próprio chama de &#8220;Questão Moral&#8221;, a sujeira que estava tomando conta da política italiana.</p>
<p>Os planos de colar nos operários, condenar a luta armada, romper com a Rússia e discursar pela moralidade política não funcionam. No Congresso Socialista de 83, Berlinguer é vaiado.</p>
<p>No dia 7 de junho de 1984, durante um comício em Pádova, Berlinguer se sente mal enquanto discursa. Os médicos constatam hemorragia cerebral. Quatro dias depois o secretário-geral do PCI estava morto.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-3122" title="Unità" src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/09/unita-addio.jpeg" alt="" width="420" height="589" /></p>
<p>Berlinguer não amava o populismo, e talvez tenha sido esse o seu pecado político maior em uma época em que todos os líderes da esquerda personalizavam projetos. Surpreendentemente, poucos dias depois de sua morte, o PCI faz tantos votos que chega a superar a DC nas eleições europeias &#8212; um resultado emocional pela morte do ex-líder, resultado que nunca mais se repetiria. O Partido Comunista Italiano estava enterrado para sempre.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-143" title=" " src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/02/bananinha_posts.gif" alt="" width="80" height="30" /></p>
<p>A militância do PT não se desiludiu diante da aliança com o PMDB, partido mais próximo daquilo que foi a extinta Democrazia Cristiana na Itália. O PMDB, vice na chapa de Dilma, detém a <a href="http://oglobo.globo.com/blogs/javoto/posts/2010/09/06/de-onde-sao-as-bancadas-322176.asp">maior bancada ruralista</a> da Câmara (55 deputados). Mentalize esse número e reflita sobre reforma agrária.</p>
<p>Não houve protestos ou desfiliações em massa após os apoios a velhos políticos coronelistas como Renan Calheiros, José Sarney ou Fernando Collor. Pelo contrário: o <a href="http://oglobo.globo.com/blogs/javoto/posts/2010/09/03/evolucao-do-numero-de-militantes-partidarios-durante-governo-lula-321636.asp">número de filiações aumentou 60%</a> desde 2002.</p>
<p>A &#8220;Questão Moral&#8221;, motivo pelo qual já votei no PT, há muitos anos foi sepultada pelo partido e isso não causou alguma comoção relevante.</p>
<p>Mataram seus ídolos.</p>
<p>Os cadáveres mais nobres continuarão vagando insepultos pelos salões de Brasília.</p>
<p><a href="http://www.malvados.com.br/index1440.html"><img class="alignnone size-full wp-image-3123" title="Malvados, do André Dahmer" src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/09/tirinha1440.jpeg" alt="" width="473" height="150" /></a></p>


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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>O trem da alegria da nova União Europeia</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Aug 2010 19:13:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gabriel Brust &#124; França</dc:creator>
				<category><![CDATA[América Latina]]></category>
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		<description><![CDATA[O tema imigração povoa o noticiário francês de uma maneira quase camuflada. Uma nova polêmica envolvendo imigrantes surge praticamente a cada semana nas páginas dos jornais. Mas os textos são invariavelmente formulados como se o redator estivesse caminhando sobre ovos: o temor de soar preconceituoso é permanente. O politicamente correto impera na maneira como o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O tema imigração povoa o noticiário francês de uma maneira quase camuflada. Uma nova polêmica envolvendo imigrantes surge praticamente a cada semana nas páginas dos jornais. Mas os textos são invariavelmente formulados como se o redator estivesse caminhando sobre ovos: o temor de soar preconceituoso é permanente. O politicamente correto impera na maneira como o francês se relaciona com este tema, e isso é perceptível não apenas na imprensa, mas também na convivência do dia a dia.</p>
<p>Puxar o assunto em rodas, seja na universidade ou no boteco, é certeza de receber olhares enviesados, que preferem mudar de conversa, ou discursos prontos vitimizando o imigrante em todos os casos – mesmo nos casos em que ele não tem razão. E, às vezes, de fato, não tem. Não há, portanto, um debate franco. Da mesma forma, não há manifestações explícitas de preconceito como verifiquei, por exemplo, na Itália, no breve tempo em que vivi por lá, e que verifico entre alguns dos italianos que conheci aqui na França. A relação do italiano com o tema é mais aberta e menos hipócrita: com frequência, o italiano assume seu pavor por africanos, árabes em geral e povos do leste europeu sem nenhum constrangimento.</p>
<p>Não há melhor ilustração para esse comportamento do francês do que as palavras do notório conservador Jean-Marie Le Pen no vídeo abaixo, que está sendo divulgado pelo <a href="http://www.lexpress.fr/" target="_blank">L’Express</a>. Ele flagra uma “tirada” engraçadinha de Le Pen disparando contra os árabes que vivem em Paris, mas a parte mais curiosa é a sequência, quando ele antevê a forma como sua piada será recebida.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/q3pApd53-hk?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/q3pApd53-hk?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p><em>“Comprei uma casa de campo para que meus filhos, que antes viviam no 15éme </em>[região de Paris]<em>, pudessem ver vacas no lugar de árabes”.</em></p>
<p>E emenda:</p>
<p><em>“Não tenho medo de perseguição. Se eu fosse do UMP </em>[União pelo Movimento Popular, partido de centro-direita de Sarkozy]<em> diriam que </em>[essa frase]<em> foi uma derrapada. Mas já faz tempo que eu não derrapo mais, eu já estou fora da pista há muito tempo!”</em></p>
<p>Quase às gargalhadas, Le Pen ironiza: nem a direita francesa tem coragem de explicitar sua aversão à invasão árabe em Paris.</p>
<p><strong>Sarkozy e os ciganos</strong></p>
<p><strong></strong>A verdade é que, mesmo sem frases polêmicas como as de Le Pen, Sarkozy e seu UMP vem sim enfrentando a imigração em diferentes frentes de batalha – ainda que a política francesa para imigrantes seja uma mãe generosa se comparada a da maioria dos outros países europeus. Basta caminhar nas ruas de Paris para constatar. Os “sans-papier” (ilegais), por aqui, são classe organizada que faz até greve.</p>
<p>O episódio mais recente da política de imigração de Sarkozy, no entanto, tem contornos insólitos. Neste mês, o governo teria supostamente deportado cerca de 200 ciganos da etnia Rom para a Romênia. O “supostamente” fica por conta de dois aspectos: 1) os ciganos receberam em troca uma ajuda em dinheiro, sendo, portanto, uma “deportação voluntária” e <strong>2) a Romênia agora faz parte da União Européia, o que permite que estas pessoas voltem a qualquer momento para a França, sem enfrentar nenhum tipo de impedimento.</strong> O governo anunciou simplesmente que fará um cadastro para que, no caso de estas pessoas voltarem, elas não ganhem o auxílio financeiro pela segunda (ou terceira ou quarta) vez. O que o governo fez, basicamente, foi caracterizar cerca de 50 assentamentos de membros da etnia Rom como ilegais. Mas ilegal não é a situação do cidadão. Confuso?</p>
<p><strong>O trem da alegria da cidadania européia</strong></p>
<p>Essas são algumas das contradições que começam cada vez mais a surgir conforme a União Europeia vai se ampliando. Outro dado que circulou pelos jornais franceses este mês e que dá a dimensão de como as reclamações do oeste vão aumentar é <strong>a quantidade de pessoas que poderão se naturalizar européias a partir da entrada de Hungria, Romênia e Bulgária no bloco: nada menos do que 5 milhões, além da própria população destes países.</strong> São moldavos, macedônios, sérvios, ucranianos e turcos: seus países não fazem parte da UE, mas 5 milhões deles poderão ser beneficiados por leis compensatórias de Hungria, Romênia e Bulgária destinadas a seus descendentes de imigrantes, como bem ilustra este gráfico do Le Figaro (clique para ampliar):</p>
<p><a href="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/08/1c317d3c-a58b-11df-9b84-c60070f1476f.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-2899" title="1c317d3c-a58b-11df-9b84-c60070f1476f" src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/08/1c317d3c-a58b-11df-9b84-c60070f1476f-248x300.jpg" alt="" width="248" height="300" /></a></p>
<p>Em recente <a href="http://www.lefigaro.fr/international/2010/08/11/01003-20100811ARTFIG00550-l-usine-a-espagnols-ne-desemplit-pas-a-lahavane-buenos-aires-caracas-ou-miami.php" target="_blank">reportagem</a> sobre o tema, o jornal destacou também outra frente de “invasão” de neo-europeus: a Espanha e seus latino-americanos. <strong>225 mil pessoas, principalmente de Cuba, Argentina e Venezuela, entraram com pedido, em 2010, de cidadania europeia, baseando-se na lei sancionada pelo socialista José Luiz Zapatero que beneficia os filhos e netos de exilados da ditadura do general Francisco Franco.</strong> 117 mil já obtiveram o reconhecimento da cidadania. Os guichês da naturalização estarão abertos até o fim de 2011 e espera-se que até lá 500 mil latino-americanos venham a se tornar europeus.</p>
<p>A mais permissiva das leis de naturalização de descendentes de imigrantes europeus, no entanto, é praticamente ignorada neste debate, pelo menos aqui na França. É a da Itália, que desde a década de 90 dá direito a descendentes com qualquer grau de parentesco de buscar a cidadania italiana. A lei é amplamente aproveitada por brasileiros e argentinos desde então. Nada menos do que 35 milhões de brasileiros, em tese, estão aptos a solicitar a naturalização por descendência italiana. Resta saber se, com o novo trenzinho da alegria inaugurado pelos países do leste, todos terão que fechar a torneira ou, pelo contrário, abrirão cada vez mais.</p>
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		<title>São Paulo para os paulistas: &#8220;não se aluga aos nordestinos (nem aos cães)&#8221;</title>
		<link>http://www.braziu.org/2010/08/09/sao-paulo-para-os-paulistas-nao-se-aluga-aos-nordestinos-nem-aos-caes/</link>
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		<pubDate>Mon, 09 Aug 2010 12:15:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro Demori &#124; Itália</dc:creator>
				<category><![CDATA[Braziu]]></category>
		<category><![CDATA[Itália]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[imigrantes]]></category>
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		<category><![CDATA[Liga Norte]]></category>
		<category><![CDATA[migrantes]]></category>
		<category><![CDATA[Padania]]></category>
		<category><![CDATA[pragmatismo político]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo para os paulistas]]></category>
		<category><![CDATA[Umberto Bossi]]></category>

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		<description><![CDATA[Um dos movimentos políticos mais interessantes da Segunda República italiana se chama Lega Nord (Liga Norte). Já falei sobre eles aqui. &#8220;Entre jogos de cena e cartadas televisivas focadas em problemas cotidianos, a força em ascensão em 2010 chama-se Liga Norte (Lega Nord), partido fundado em meados dos anos 90 com tons separatistas, xenófobos, racistas [...]


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<li><a href='http://www.braziu.org/2010/04/15/liga-norte-ou-cruzada-de-honra-contra-o-isla-ou-homossexualismo-e-uma-doenca/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Liga Norte ou &#8220;cruzada de honra contra o Islã&#8221; ou &#8220;homossexualismo é uma doença&#8221;'>Liga Norte ou &#8220;cruzada de honra contra o Islã&#8221; ou &#8220;homossexualismo é uma doença&#8221;</a></li>
<li><a href='http://www.braziu.org/2010/11/13/um-farol-para-o-passado/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Um farol para o passado'>Um farol para o passado</a></li>
</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dos movimentos políticos mais interessantes da <a href="http://it.wikipedia.org/wiki/Seconda_Repubblica_(Italia)">Segunda República italiana</a> se chama <em>Lega Nord</em> (<strong>Liga Norte</strong>). Já falei sobre eles aqui.</p>
<blockquote><p>&#8220;Entre jogos de cena e cartadas televisivas <strong>focadas em problemas cotidianos</strong>, a força em ascensão em 2010 chama-se Liga Norte (Lega Nord), partido fundado em meados dos anos 90 com tons <strong>separatistas</strong>, <strong>xenófobos</strong>, <strong>racistas</strong> e <strong>homofóbicos</strong> e que hoje exerce função de segunda força mais importante dentro do governo de Silvio Berlusconi.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>A Lega foi denunciada pela Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância por “uso intenso de propaganda racista e xenófoba”. Membros mais radicais do partido defendem posições duras como a <strong>expulsão de imigrantes</strong> e dizem que o homossexualismo é uma doença.</p>
<p>Membro fundador da Lega, Mario Borghezio é deputado representante da Itália no Parlamento Europeu desde 2001 e protagonista de primeira ficha de episódios extremos: <strong>já fez comícios raivosos declarando uma “cruzada de honra contra o Islã” enquanto parte da multidão reduzia a chamas a própria bandeira italiana</strong> cantando “vamos queimar a tricolor”, opondo a Itália à <strong>Padânia, país imaginário defendido pela Liga Norte, supostamente composto por regiões do norte e do centro da península.</strong>&#8221;</p>
<p>[Texto completo aqui: <a href="http://www.braziu.org/2010/04/15/liga-norte-ou-cruzada-de-honra-contra-o-isla-ou-homossexualismo-e-uma-doenca/">Liga Norte ou “cruzada de honra contra o Islã” ou “homossexualismo é uma doença”</a>]</p></blockquote>
<p><object width="515" height="411"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/WT2qNdDWKWg&amp;hl=pt_PT&amp;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/WT2qNdDWKWg&amp;hl=pt_PT&amp;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="515" height="411"></embed></object></p>
<p>Um dos comentários do post sobre a <em>Lega</em> gerou uma pequena discussão. Eis:</p>
<blockquote><p>&#8220;<em>Bruno Maciel [ 16Apr10] </em></p>
<p>Não entendo tua insistência com essas matérias. Legal, a gente percebe que vc é um cara interessado e espirituoso, que aproveita a sua estadia por aí pra desenvolver toda sua ironia e verve política e jornalística. Mas, amigo…a gente está em eleições no seu Brasiu…<strong>who the fuck ta querendo saber da Liga Norte??? Ah…tenha paciência</strong>. Tenta uma vaga no cqc que eles estão a tua altura e talvez vc consiga pautas menos desinteressantes.&#8221;
</p></blockquote>
<p>Em uma de minha réplicas, respondi:</p>
<blockquote><p>
&#8220;Mas talvez tu não tenha percebido que a Lega Nord e o assunto imigração tenham mais a ver com a tua vida (e a de todo mundo) do que tu possa imaginar.&#8221;</p></blockquote>
<p><img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/02/bananinha_posts.gif" alt="" title="Bananinha" width="80" height="30" class="alignnone size-full wp-image-143" /></p>
<p>Por esses dias, tivemos no Brasil a aparição pública do movimento &#8220;<a href="http://tudoporsaopaulo2010.blogspot.com/"><strong>São Paulo para os paulistas</strong></a>&#8220;. O que eles querem? Emular o discurso da Liga Norte. Leia alguns trechos extraídos da <a href="http://www.petitiononline.com/estadosp/">petição</a> do grupo brasileiro.</p>
<blockquote><p>O Est de S Paulo nunca recebeu investimentos do Brasil. Sempre foi um <strong>país à parte</strong>. (&#8230;) Assim viu-se obrigado a se desenvolver sozinho. Investiu nas lavouras de café, construiu ferrovias e estradas, industrializou-se. <strong>Com seu próprio suor, investiu para ser o que é</strong>. Jamais recebeu dádivas do Brasil; ao contrário, foi o fornecedor de recursos. <strong>São Paulo não deve nada ao Brasil</strong>. Portanto, o usufruto desse trabalho deve ser para o Povo Paulista.</p></blockquote>
<p> <img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/08/gallina-padana.jpg" alt="" title="gallina-padana" width="414" height="585" class="alignnone size-full wp-image-2602" /><br />
<font size="1">Cartaz oficial da Lega Nord</font></p>
<p>A São Paulo imaginária do movimento &#8220;<a href="http://tudoporsaopaulo2010.blogspot.com/">São Paulo para os paulistas</a>&#8221; é a Padânia brasileira. Roma Ladrona = Brasília ladra = discurso do &#8220;fizemos tudo sozinhos e temos que dividir com quem nada fez&#8221;. Coitadismo às avessas.</p>
<blockquote><p>
S Paulo recebe a incursão de pessoas de outros estados, que usufruem seus hospitais e escolas. Quem mantém estes serviços é o povo paulista, não é o povo brasileiro. Se há tratamento igual a quem de direito, e ao forasteiro, então há discriminação contra o primeiro. Se há igualdade de tratamento a quem possui direitos diferentes, então está havendo distinção entre pessoas. <strong>Portanto, S Paulo tem o total direito de priorizar paulistas.</strong> </p></blockquote>
<p>Os prefeitos &#8220;leguistas&#8221; de <em>Adro</em>, <em>Brignano Gera d’Adda</em>, <em>Morazzone</em>, <em>Palazzago</em> e <em>Tradate</em>, no norte da Itália, teríam orgasmos por dias seguidos se entrassem em contato com a petição do movimento &#8220;<a href="http://tudoporsaopaulo2010.blogspot.com/">São Paulo para os paulistas</a>&#8220;. Eles pensam o mesmo: &#8220;a Padania tem todo o direito de priorizar os padanos&#8221;.</p>
<p>Tanto que os cinco honoráveis propuseram um <a href="http://www.ilfattoquotidiano.it/2010/07/31/bonus-bebe-solo-per-gli-italiani-ma-le-ordinanze-leghiste-hanno-vita-breve/46277/">auxílio econômico para aumentar suas respectivas populações</a>: dinheiro mensal às novas mães, mas somente às <del datetime="2010-08-09T08:09:45+00:00">italianas</del> padanas, é claro &#8212; estrangeiras, mesmo que em situação regular no país, naturalmente excluídas da bolsa.</p>
<p>Segue o manifesto:</p>
<blockquote><p>
A partir da década de 60, <strong>com a chegada dos migrantes brasileiros – sobretudo nordestinos e mineiros</strong> – começa a degradação, com a construção de favelas, bairros irregulares e uma estrutura caótica de cidade.</p></blockquote>
<p>O parágrafo acima é precedido por uma ode à cidade de São Paulo pré-migração dos &#8220;nordestinos e mineiros&#8221;. Qualquer historiador mais rigoroso apontaria erros históricos clamorosos, mas o que é a história se não uma imensa viagem ao redor do próprio umbigo?</p>
<blockquote><p>Quem são os Paulistas ? São as pessoas cujos pais / avós industrializaram São Paulo, presenciaram a luta por uma Constituição. Lamentam-se ao ver as imagens pré-60 e a atual descaracterização. Pessoas que viveram em nosso interior, cultivando a autêntica Cultura Paulista. Os herdeiros da população anterior à inundação migratória. </p></blockquote>
<p>Ou seja: os paulistas são italianos. Voto imediato por um regente enviado por Silvio Berlusconi e subjugo à Constituição Italiana.</p>
<p>A melhor parte, no entanto, vem nas &#8220;REIVINDICAÇÕES&#8221;:</p>
<blockquote><p>
34. Repudiamos que candidatos a quaisquer cargos políticos no estado e municípios, não sejam PAULISTAS, e com fortes raízes no Est de S Paulo.</p>
<p>36. Reivindicamos que: professores do ensino público, formadores de opinião e disseminadores de informação, nas áreas públicas, atendam aos mesmos requisitos acima. A preservação da identidade Paulista é direito do Povo Paulista. Direito que tem sido usurpado e negado. Não queremos mais o entreguismo de nosso estado nas mãos de poderes migrantes. </p>
<p>37. Da mesma forma, as vagas nos Concursos Públicos sejam destinadas prioritariamente a paulistas. </p>
<p>43. O Sotaque Paulista é nosso Patrimônio Cultural, em suas variantes diversas (ref XIII). O paulista olha ao redor e se vê o único. Um estrangeiro em sua própria terra! Com liguagem, cultura e valores diferentes. Repudiamos a descaracterização causada pelo excesso migratório. Repugnamos o “R” gutural, vogais abertas, as expressões “ôxe”, etc. </p>
<p>62. Assistimos nos noticiários: Estuprador de Ferraz foge para o Maranhão. Ex-jogador que asassinou esposa foge para a Bahia. Pedófilo de Catanduva era foragido de Pernambuco. Prefeito de Taboão da Serra suspeito de corrupção mora na Paraíba. De todos os crimes dos noticiários, freqüentemente há migrantes envolvidos. (ref XIV).</p>
<p>76. Reivindicamos a demolição do absurdo &#8220;Monumento ao Migrante Nordestino&#8221;, implantado no Largo da Concórdia, em ago/2010, um projeto da Sec da Cultura. (vide ítem 51). </p>
<p>82. Reivindicamos proteção ao nosso sagrado interior contra a descaracterização. Multas para empresas que contratarem temporários migrantes e não providenciarem a sua devolução. </p>
<p>90. Não se deve permitir que pessoas de outros lugares se apoderem do que é nosso. Se querem também, construam o seu. Cada um na sua terra. S Paulo deve cuidar dos seus pobres. E não dos pobres dos outros. </p>
<p>94. A oferta de empregos é estímulo para a migração. Diante disto, reivindicamos incentivos a empresas que priorizem paulistas.
</p></blockquote>
<p><img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/02/bananinha_posts.gif" alt="" title="Bananinha" width="80" height="30" class="alignnone size-full wp-image-143" /></p>
<p>Com um pouco de otimismo, muitos esperariam que alguém viesse à público durante a semana e dissesse que tudo não passou de uma grande piada. Isso não acontecerá. O movimento &#8220;São Paulo para os paulistas&#8221; conseguirá cada vez mais adesões, e movimentos semelhantes a esse surgirão e crescerão. Mais tarde, se tornarão partidos políticos &#8212; isso quando a imigração de sulamericanos em situação precária aumentar a sensação de perda de identidade.</p>
<p>Aqui na Itália, a Lega Nord tem comitês até mesmo nos estados do sul da península. Seria como ter um comitê do &#8220;<strong>São Paulo para os paulistas</strong>&#8221; em Recife, formado por gente local, algo inimaginável em outros tempos, sobretudo diante do grande <em>boom</em> econômico italiano dos anos pós-Segunda Guerra.</p>
<p>Naquela época, uma placa era comumente avistada nos edifícios do norte do país, onde a expansão industrial guiava a economia e magnetizava os habitantes do empobrecido sul em busca de melhores empregos: &#8220;<em>Non si affitta ai terroni (nemeno ai cani)&#8221;</em> (Não se aluga aos terrones, nem aos cães). &#8220;Terroni&#8221; ou &#8220;Meridionali&#8221; são as generalizações dadas aos nascidos no sul da Itália, assim como &#8220;nordestinos&#8221; ao nascidos no nordeste do Brasil, desconsiderando profundas diferenças entre estados.</p>
<p><img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/08/Captura-de-tela-2010-08-09-às-12.09.54.png" alt="" title="Captura de tela 2010-08-09 às 12.09.54" width="389" height="235" class="alignnone size-full wp-image-2604" /></p>
<p>O ponto central dessa discussão incipiente no Brasil é que não adianta espernear: faz parte da democracia, assim como faz parte dela dizer que &#8220;faz parte da democracia é o caralho&#8221;. E continua fazendo parte mesmo que possa infringir leis (para essas situações temos a Justiça). Aos incomodados, cabe uma direção contrária &#8212; buscar soluções menos cômicas, não necessariamente dentro de um movimento organizado &#8212; para não deixar que o &#8220;São Paulo para os paulistas&#8221; (ou mesmo o possível &#8220;São Paulo para os nordestinos&#8221;) sejam voz única na sala.</p>
<p>&#8220;<em>Who the fuck ta querendo saber</em>&#8220;?</p>
<p>Talvez as pessoas erradas.</p>


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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>“Grita o quanto quiser/Nada com as baleias/Grita sem suplicar/Voa com as mariposas”</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Aug 2010 19:18:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leandro Demori &#124; Itália</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong><a href="http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4602279-EI8142,00-Italia+pode+ter+primeiro+premie+gay+de+sua+historia.html">Itália pode ter primeiro premiê gay de sua história</a></strong></em><br />
<em><br />
LEANDRO DEMORI<br />
Direto de Roma</em></p>
<p>“Grita o quanto quiser<br />
Nada com as baleias<br />
Grita sem suplicar<br />
Voa com as mariposas”</p>
<p>&#8220;A mesma mão que em um dia qualquer no final dos anos 1990 rabiscou esses versos – impressos no livro de poesias “Ultimo Mare” (Último Mar), lançado em 2006 – poderá assinar decretos ministeriais em um futuro próximo na Itália. Navegando no mar impreciso dos últimos acontecimentos da política nacional, um personagem atípico se apresenta como possível sucessor de Silvio Berlusconi caso o país tenha eleições antecipadas por uma eventual queda do governo: Nichi Vendola, governador da região Apúlia, homossexual e ativista pró-direitos civis, é nome cada vez mais forte nas recentes sondagens feitas entre os eleitores.</p>
<p>A coalizão liderada por Silvio Berlusconi perdeu sustentação no Congresso por conta dos desentendimentos com Gianfranco Fini, co-fundador, juntamente com o primeiro-ministro, do partido Povo da Liberdade (PDL). Fini, que levou consigo cerca de 50 parlamentares do PDL, pode ajudar a oposição de centro-esquerda a derrubar o governo. No parlamentarismo italiano, o “voto de confiança” pode ser apreciado pelo Congresso. Caso haja maioria simples, a oposição pode dissolver o governo. Cairiam também todos os deputados e senadores, e novas eleições seriam convocadas.</p>
<p>O principal nome da esquerda anti-Berlusconi seria, hoje, Pier Luigi Bersani, secretário-nacional do Partido Democrático (PD). Nos salões do PD, no entanto, ganha força o nome de Nichi Vendola. Sondagem feita pela Ipr Marketing a pedido do jornal <em>La Repubblica</em> mostra um quadro favorável ao governador: se as eleições fossem hoje, os italianos com voto na centro-esquerda prefeririam Vendola a Bersani: 51% a 49%. Para 49% dos eleitores, Vendola tem chances reais de bater Berlusconi nas urnas, enquanto somente 31% acreditam no êxito de Bersani.</p>
<p>Nascido na Apúlia em agosto de 1958, Nichi Vendola é filho de uma família de comunistas. O nome de batismo (Nicola) é uma alusão a São Nicola, padroeiro de Bari, capital da região. O apelido, Nichi, é um diminutivo de Nichita, dado pelos pais em homenagem a Nikita Khrushchev, ex-líder comunista russo que, para a família Vendola, significou o início da “desestalinização” do país, o fim do culto à pessoa levado a ferro e fogo por Josef Stalin. “A imagem de Nikita Khrushchev que ficou na mente da minha família foi a do sapato”, declarou o goverador em uma de suas raras aparições na televisão nacional, em dezembro do ano passado. A imagem a qual se refere o governador é a de Khrushchev batendo com o sapato na mesa durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU nos anos 60.</p>
<p><strong>Ativismo gay<br />
</strong>Promotor e co-fundador da Associação de Lésbicas e Gays da Itália (Arcigay) e da Liga Italiana pela Luta Contra a AIDS (Lila), Vendola assumiu-se gay com 20 anos de idade, publicamente, em um jornal de sua cidade natal, a pequena Terlizzi. Se declara “homossexual”, e não “gay”. Costuma dizer que a palavra “gay” é hipócrita, um falso sinônimo que busca esconder a aspereza da palavra “homssexual”. “Isso era importante em uma época em que &#8216;sair do armário&#8217; era um fio desencapado, hoje devemos nos livrar disso”, defendeu na mesma entrevista.</p>
<p>Comunista e católico, ao contrário dos comunistas históricos – normalmente ateus –, Vendola cita a Bíblia em diversas ocasiões públicas e não poupa o modo como o sistema comunista foi implementado em países como a Rússia, que define como “uma tragédia”. Defende que, no entanto, a Revolução de 1917, já naquele tempo, apresentava mudanças sociais importantes como a mudança do código penal que aboliu o crime de homossexualismo (mais tarde reinserido na lei). Apesar disso, ainda acredita nas bases do comunismo, como declarou mais de um vez em entrevistas, usando sempre a mesma frase: “não devemos botar fora a criança junto com a água suja”, em referência às boas ideias manchadas pela imagem dos Gulags. </p>
<p><strong>Televisãofobia</strong><br />
Nichi Vendola não é prima-dona dos diversos programas políticos da TV italiana. Afirma não gostar do estilo e diz que é necessário “abaixar o volume” das discussões no tubo, “frustrantes”, segundo ele. Escolhe a dedo onde andar e como aparecer, sem contar com a superexposição necessária para a maioria dos egos parlamentares e executivos. Dentro do que acredita ser sua coerência, declarou pública solideridade à Alessandra Mussolini, neta do ex-ditador Benito Mussolini, ex-deputada e personagem político da direita radical italiana, frequentemente vista em programas de TV. Alessandra foi personagem de um processo midiático: foram divulgadas notícias sobre um suposto vídeo de sexo explícito no qual <em>La Mussolini</em> seria protagonsta. O vídeo jamais apareceu.</p>
<p>Reflexo da personalidade de Vendola pode ser visto dentro do próprio partido. Após cinco anos como governador da Apúlia, se recandidatou ao cargo nas eleições de março deste ano contra a vontade da cúpula do partido local, apoiada pelo ex-primeiro ministro italiano Massimo D&#8217;Alema. Nas eleições internas, no entanto, Vendola venceu a disputa com muitos corpos de distância: colheu 67% dos votos dentro do partido contra o economista Francesco Boccia, apoiado por D&#8217;Alema. Candidato oficial da coalizão de centro-esquerda, deu um banho na urnas e foi reconduzido à cadeira de governador com apoio de 73% dos eleitores, derrotando o candidato do partido de Silvio Berlsconi, Rocco Palese.</p>
<p>Vendola diz que o episódio não deixou nenhuma marca em seu modo de fazer política ou de tratar com os membros da coalizão. Alega refutar as “estratégias militares, as cartas de guerra e os números da política” na hora de concorrer. Não quer fazer alianças pelo simples fato de acumular votos, garante. A personalidade independente, no entanto, sabe calcular bem o momento do jogo. Nos primeiros sinais de que a aliança entre Silvio Berlusoni e Gianfranco Fini estava por rachar, Nichi Vendola declarou publicamente “estima a Fini”, de raíz política neo-fascista, sabendo que o apoio do agora opositor ao premier poderá ser decisivo.</p>
<p><strong>Complô?<br />
</strong>Sua homossexualidade não pode ser confundida com libertinagem sexual. Vendola critica Silvio Berlusconi pelo uso de casas onde <em>Il Cavaliere</em> recebe chefes de Estado e, ao mesmo tempo, &#8220;acompanhantes&#8221;, como mostraram a série de fotos divulgadas pelo jornal <em>El País</em>, da Espanha, no ano passado.</p>
<p>Apesar da clara diferença de perfil entre Nichi Vendola e os tradicionais políticos italianos, o governador da Apúlia segue o padrão dos líderes de centro-esquerda italianos dos últimos tempos: mostra-se independente e busca cavar caminhos sem alianças –- nem mesmo as internas. Perfeitamente cabível dentro da anedota corrente nos últimos tempos no país, que se tornou uma resposta padrão para quem diz que a esquerda está fazendo um complô contra Berlusconi: “para que haja um complô é necessário que ao menos duas pessoas estejam de comum acordo”. Cena difícil de encontrar dentro da esquerda italiana de hoje.&#8221;</p>
<p><img src="http://www.braziu.org/wp-content/uploads/2010/02/bananinha_posts.gif" alt="" title="Bananinha" width="80" height="30" class="alignnone size-full wp-image-143" /></p>
<p>O texto acima foi publicado hoje no <em>Portal Terra</em>. Há outra boa piada correndo pelos mexericos políticos italianos que necessariamente ficou de fora do texto: &#8220;Depois de tanto tempo para nos acostumarmos com um premier putanheiro, agora vem um gay?&#8221;.</p>
<p>Roma é uma festa.</p>


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</ol></p>]]></content:encoded>
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