O trem da alegria da nova União Europeia

Gabriel Brust | França 16:13 | 25/08/2010

O tema imigração povoa o noticiário francês de uma maneira quase camuflada. Uma nova polêmica envolvendo imigrantes surge praticamente a cada semana nas páginas dos jornais. Mas os textos são invariavelmente formulados como se o redator estivesse caminhando sobre ovos: o temor de soar preconceituoso é permanente. O politicamente correto impera na maneira como o francês se relaciona com este tema, e isso é perceptível não apenas na imprensa, mas também na convivência do dia a dia.

Puxar o assunto em rodas, seja na universidade ou no boteco, é certeza de receber olhares enviesados, que preferem mudar de conversa, ou discursos prontos vitimizando o imigrante em todos os casos – mesmo nos casos em que ele não tem razão. E, às vezes, de fato, não tem. Não há, portanto, um debate franco. Da mesma forma, não há manifestações explícitas de preconceito como verifiquei, por exemplo, na Itália, no breve tempo em que vivi por lá, e que verifico entre alguns dos italianos que conheci aqui na França. A relação do italiano com o tema é mais aberta e menos hipócrita: com frequência, o italiano assume seu pavor por africanos, árabes em geral e povos do leste europeu sem nenhum constrangimento.

Não há melhor ilustração para esse comportamento do francês do que as palavras do notório conservador Jean-Marie Le Pen no vídeo abaixo, que está sendo divulgado pelo L’Express. Ele flagra uma “tirada” engraçadinha de Le Pen disparando contra os árabes que vivem em Paris, mas a parte mais curiosa é a sequência, quando ele antevê a forma como sua piada será recebida.

“Comprei uma casa de campo para que meus filhos, que antes viviam no 15éme [região de Paris], pudessem ver vacas no lugar de árabes”.

E emenda:

“Não tenho medo de perseguição. Se eu fosse do UMP [União pelo Movimento Popular, partido de centro-direita de Sarkozy] diriam que [essa frase] foi uma derrapada. Mas já faz tempo que eu não derrapo mais, eu já estou fora da pista há muito tempo!”

Quase às gargalhadas, Le Pen ironiza: nem a direita francesa tem coragem de explicitar sua aversão à invasão árabe em Paris.

Sarkozy e os ciganos

A verdade é que, mesmo sem frases polêmicas como as de Le Pen, Sarkozy e seu UMP vem sim enfrentando a imigração em diferentes frentes de batalha – ainda que a política francesa para imigrantes seja uma mãe generosa se comparada a da maioria dos outros países europeus. Basta caminhar nas ruas de Paris para constatar. Os “sans-papier” (ilegais), por aqui, são classe organizada que faz até greve.

O episódio mais recente da política de imigração de Sarkozy, no entanto, tem contornos insólitos. Neste mês, o governo teria supostamente deportado cerca de 200 ciganos da etnia Rom para a Romênia. O “supostamente” fica por conta de dois aspectos: 1) os ciganos receberam em troca uma ajuda em dinheiro, sendo, portanto, uma “deportação voluntária” e 2) a Romênia agora faz parte da União Européia, o que permite que estas pessoas voltem a qualquer momento para a França, sem enfrentar nenhum tipo de impedimento. O governo anunciou simplesmente que fará um cadastro para que, no caso de estas pessoas voltarem, elas não ganhem o auxílio financeiro pela segunda (ou terceira ou quarta) vez. O que o governo fez, basicamente, foi caracterizar cerca de 50 assentamentos de membros da etnia Rom como ilegais. Mas ilegal não é a situação do cidadão. Confuso?

O trem da alegria da cidadania européia

Essas são algumas das contradições que começam cada vez mais a surgir conforme a União Europeia vai se ampliando. Outro dado que circulou pelos jornais franceses este mês e que dá a dimensão de como as reclamações do oeste vão aumentar é a quantidade de pessoas que poderão se naturalizar européias a partir da entrada de Hungria, Romênia e Bulgária no bloco: nada menos do que 5 milhões, além da própria população destes países. São moldavos, macedônios, sérvios, ucranianos e turcos: seus países não fazem parte da UE, mas 5 milhões deles poderão ser beneficiados por leis compensatórias de Hungria, Romênia e Bulgária destinadas a seus descendentes de imigrantes, como bem ilustra este gráfico do Le Figaro (clique para ampliar):

Em recente reportagem sobre o tema, o jornal destacou também outra frente de “invasão” de neo-europeus: a Espanha e seus latino-americanos. 225 mil pessoas, principalmente de Cuba, Argentina e Venezuela, entraram com pedido, em 2010, de cidadania europeia, baseando-se na lei sancionada pelo socialista José Luiz Zapatero que beneficia os filhos e netos de exilados da ditadura do general Francisco Franco. 117 mil já obtiveram o reconhecimento da cidadania. Os guichês da naturalização estarão abertos até o fim de 2011 e espera-se que até lá 500 mil latino-americanos venham a se tornar europeus.

A mais permissiva das leis de naturalização de descendentes de imigrantes europeus, no entanto, é praticamente ignorada neste debate, pelo menos aqui na França. É a da Itália, que desde a década de 90 dá direito a descendentes com qualquer grau de parentesco de buscar a cidadania italiana. A lei é amplamente aproveitada por brasileiros e argentinos desde então. Nada menos do que 35 milhões de brasileiros, em tese, estão aptos a solicitar a naturalização por descendência italiana. Resta saber se, com o novo trenzinho da alegria inaugurado pelos países do leste, todos terão que fechar a torneira ou, pelo contrário, abrirão cada vez mais.

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São Paulo para os paulistas: “não se aluga aos nordestinos (nem aos cães)”

Leandro Demori | Itália 09:15 | 09/08/2010

Um dos movimentos políticos mais interessantes da Segunda República italiana se chama Lega Nord (Liga Norte). Já falei sobre eles aqui.

“Entre jogos de cena e cartadas televisivas focadas em problemas cotidianos, a força em ascensão em 2010 chama-se Liga Norte (Lega Nord), partido fundado em meados dos anos 90 com tons separatistas, xenófobos, racistas e homofóbicos e que hoje exerce função de segunda força mais importante dentro do governo de Silvio Berlusconi.

(…)

A Lega foi denunciada pela Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância por “uso intenso de propaganda racista e xenófoba”. Membros mais radicais do partido defendem posições duras como a expulsão de imigrantes e dizem que o homossexualismo é uma doença.

Membro fundador da Lega, Mario Borghezio é deputado representante da Itália no Parlamento Europeu desde 2001 e protagonista de primeira ficha de episódios extremos: já fez comícios raivosos declarando uma “cruzada de honra contra o Islã” enquanto parte da multidão reduzia a chamas a própria bandeira italiana cantando “vamos queimar a tricolor”, opondo a Itália à Padânia, país imaginário defendido pela Liga Norte, supostamente composto por regiões do norte e do centro da península.

[Texto completo aqui: Liga Norte ou “cruzada de honra contra o Islã” ou “homossexualismo é uma doença”]

Um dos comentários do post sobre a Lega gerou uma pequena discussão. Eis:

Bruno Maciel [ 16Apr10]

Não entendo tua insistência com essas matérias. Legal, a gente percebe que vc é um cara interessado e espirituoso, que aproveita a sua estadia por aí pra desenvolver toda sua ironia e verve política e jornalística. Mas, amigo…a gente está em eleições no seu Brasiu…who the fuck ta querendo saber da Liga Norte??? Ah…tenha paciência. Tenta uma vaga no cqc que eles estão a tua altura e talvez vc consiga pautas menos desinteressantes.”

Em uma de minha réplicas, respondi:

“Mas talvez tu não tenha percebido que a Lega Nord e o assunto imigração tenham mais a ver com a tua vida (e a de todo mundo) do que tu possa imaginar.”

Por esses dias, tivemos no Brasil a aparição pública do movimento “São Paulo para os paulistas“. O que eles querem? Emular o discurso da Liga Norte. Leia alguns trechos extraídos da petição do grupo brasileiro.

O Est de S Paulo nunca recebeu investimentos do Brasil. Sempre foi um país à parte. (…) Assim viu-se obrigado a se desenvolver sozinho. Investiu nas lavouras de café, construiu ferrovias e estradas, industrializou-se. Com seu próprio suor, investiu para ser o que é. Jamais recebeu dádivas do Brasil; ao contrário, foi o fornecedor de recursos. São Paulo não deve nada ao Brasil. Portanto, o usufruto desse trabalho deve ser para o Povo Paulista.


Cartaz oficial da Lega Nord

A São Paulo imaginária do movimento “São Paulo para os paulistas” é a Padânia brasileira. Roma Ladrona = Brasília ladra = discurso do “fizemos tudo sozinhos e temos que dividir com quem nada fez”. Coitadismo às avessas.

S Paulo recebe a incursão de pessoas de outros estados, que usufruem seus hospitais e escolas. Quem mantém estes serviços é o povo paulista, não é o povo brasileiro. Se há tratamento igual a quem de direito, e ao forasteiro, então há discriminação contra o primeiro. Se há igualdade de tratamento a quem possui direitos diferentes, então está havendo distinção entre pessoas. Portanto, S Paulo tem o total direito de priorizar paulistas.

Os prefeitos “leguistas” de Adro, Brignano Gera d’Adda, Morazzone, Palazzago e Tradate, no norte da Itália, teríam orgasmos por dias seguidos se entrassem em contato com a petição do movimento “São Paulo para os paulistas“. Eles pensam o mesmo: “a Padania tem todo o direito de priorizar os padanos”.

Tanto que os cinco honoráveis propuseram um auxílio econômico para aumentar suas respectivas populações: dinheiro mensal às novas mães, mas somente às italianas padanas, é claro — estrangeiras, mesmo que em situação regular no país, naturalmente excluídas da bolsa.

Segue o manifesto:

A partir da década de 60, com a chegada dos migrantes brasileiros – sobretudo nordestinos e mineiros – começa a degradação, com a construção de favelas, bairros irregulares e uma estrutura caótica de cidade.

O parágrafo acima é precedido por uma ode à cidade de São Paulo pré-migração dos “nordestinos e mineiros”. Qualquer historiador mais rigoroso apontaria erros históricos clamorosos, mas o que é a história se não uma imensa viagem ao redor do próprio umbigo?

Quem são os Paulistas ? São as pessoas cujos pais / avós industrializaram São Paulo, presenciaram a luta por uma Constituição. Lamentam-se ao ver as imagens pré-60 e a atual descaracterização. Pessoas que viveram em nosso interior, cultivando a autêntica Cultura Paulista. Os herdeiros da população anterior à inundação migratória.

Ou seja: os paulistas são italianos. Voto imediato por um regente enviado por Silvio Berlusconi e subjugo à Constituição Italiana.

A melhor parte, no entanto, vem nas “REIVINDICAÇÕES”:

34. Repudiamos que candidatos a quaisquer cargos políticos no estado e municípios, não sejam PAULISTAS, e com fortes raízes no Est de S Paulo.

36. Reivindicamos que: professores do ensino público, formadores de opinião e disseminadores de informação, nas áreas públicas, atendam aos mesmos requisitos acima. A preservação da identidade Paulista é direito do Povo Paulista. Direito que tem sido usurpado e negado. Não queremos mais o entreguismo de nosso estado nas mãos de poderes migrantes.

37. Da mesma forma, as vagas nos Concursos Públicos sejam destinadas prioritariamente a paulistas.

43. O Sotaque Paulista é nosso Patrimônio Cultural, em suas variantes diversas (ref XIII). O paulista olha ao redor e se vê o único. Um estrangeiro em sua própria terra! Com liguagem, cultura e valores diferentes. Repudiamos a descaracterização causada pelo excesso migratório. Repugnamos o “R” gutural, vogais abertas, as expressões “ôxe”, etc.

62. Assistimos nos noticiários: Estuprador de Ferraz foge para o Maranhão. Ex-jogador que asassinou esposa foge para a Bahia. Pedófilo de Catanduva era foragido de Pernambuco. Prefeito de Taboão da Serra suspeito de corrupção mora na Paraíba. De todos os crimes dos noticiários, freqüentemente há migrantes envolvidos. (ref XIV).

76. Reivindicamos a demolição do absurdo “Monumento ao Migrante Nordestino”, implantado no Largo da Concórdia, em ago/2010, um projeto da Sec da Cultura. (vide ítem 51).

82. Reivindicamos proteção ao nosso sagrado interior contra a descaracterização. Multas para empresas que contratarem temporários migrantes e não providenciarem a sua devolução.

90. Não se deve permitir que pessoas de outros lugares se apoderem do que é nosso. Se querem também, construam o seu. Cada um na sua terra. S Paulo deve cuidar dos seus pobres. E não dos pobres dos outros.

94. A oferta de empregos é estímulo para a migração. Diante disto, reivindicamos incentivos a empresas que priorizem paulistas.

Com um pouco de otimismo, muitos esperariam que alguém viesse à público durante a semana e dissesse que tudo não passou de uma grande piada. Isso não acontecerá. O movimento “São Paulo para os paulistas” conseguirá cada vez mais adesões, e movimentos semelhantes a esse surgirão e crescerão. Mais tarde, se tornarão partidos políticos — isso quando a imigração de sulamericanos em situação precária aumentar a sensação de perda de identidade.

Aqui na Itália, a Lega Nord tem comitês até mesmo nos estados do sul da península. Seria como ter um comitê do “São Paulo para os paulistas” em Recife, formado por gente local, algo inimaginável em outros tempos, sobretudo diante do grande boom econômico italiano dos anos pós-Segunda Guerra.

Naquela época, uma placa era comumente avistada nos edifícios do norte do país, onde a expansão industrial guiava a economia e magnetizava os habitantes do empobrecido sul em busca de melhores empregos: “Non si affitta ai terroni (nemeno ai cani)” (Não se aluga aos terrones, nem aos cães). “Terroni” ou “Meridionali” são as generalizações dadas aos nascidos no sul da Itália, assim como “nordestinos” ao nascidos no nordeste do Brasil, desconsiderando profundas diferenças entre estados.

O ponto central dessa discussão incipiente no Brasil é que não adianta espernear: faz parte da democracia, assim como faz parte dela dizer que “faz parte da democracia é o caralho”. E continua fazendo parte mesmo que possa infringir leis (para essas situações temos a Justiça). Aos incomodados, cabe uma direção contrária — buscar soluções menos cômicas, não necessariamente dentro de um movimento organizado — para não deixar que o “São Paulo para os paulistas” (ou mesmo o possível “São Paulo para os nordestinos”) sejam voz única na sala.

Who the fuck ta querendo saber“?

Talvez as pessoas erradas.

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“Grita o quanto quiser/Nada com as baleias/Grita sem suplicar/Voa com as mariposas”

Leandro Demori | Itália 16:18 | 03/08/2010

Itália pode ter primeiro premiê gay de sua história

LEANDRO DEMORI
Direto de Roma

“Grita o quanto quiser
Nada com as baleias
Grita sem suplicar
Voa com as mariposas”

“A mesma mão que em um dia qualquer no final dos anos 1990 rabiscou esses versos – impressos no livro de poesias “Ultimo Mare” (Último Mar), lançado em 2006 – poderá assinar decretos ministeriais em um futuro próximo na Itália. Navegando no mar impreciso dos últimos acontecimentos da política nacional, um personagem atípico se apresenta como possível sucessor de Silvio Berlusconi caso o país tenha eleições antecipadas por uma eventual queda do governo: Nichi Vendola, governador da região Apúlia, homossexual e ativista pró-direitos civis, é nome cada vez mais forte nas recentes sondagens feitas entre os eleitores.

A coalizão liderada por Silvio Berlusconi perdeu sustentação no Congresso por conta dos desentendimentos com Gianfranco Fini, co-fundador, juntamente com o primeiro-ministro, do partido Povo da Liberdade (PDL). Fini, que levou consigo cerca de 50 parlamentares do PDL, pode ajudar a oposição de centro-esquerda a derrubar o governo. No parlamentarismo italiano, o “voto de confiança” pode ser apreciado pelo Congresso. Caso haja maioria simples, a oposição pode dissolver o governo. Cairiam também todos os deputados e senadores, e novas eleições seriam convocadas.

O principal nome da esquerda anti-Berlusconi seria, hoje, Pier Luigi Bersani, secretário-nacional do Partido Democrático (PD). Nos salões do PD, no entanto, ganha força o nome de Nichi Vendola. Sondagem feita pela Ipr Marketing a pedido do jornal La Repubblica mostra um quadro favorável ao governador: se as eleições fossem hoje, os italianos com voto na centro-esquerda prefeririam Vendola a Bersani: 51% a 49%. Para 49% dos eleitores, Vendola tem chances reais de bater Berlusconi nas urnas, enquanto somente 31% acreditam no êxito de Bersani.

Nascido na Apúlia em agosto de 1958, Nichi Vendola é filho de uma família de comunistas. O nome de batismo (Nicola) é uma alusão a São Nicola, padroeiro de Bari, capital da região. O apelido, Nichi, é um diminutivo de Nichita, dado pelos pais em homenagem a Nikita Khrushchev, ex-líder comunista russo que, para a família Vendola, significou o início da “desestalinização” do país, o fim do culto à pessoa levado a ferro e fogo por Josef Stalin. “A imagem de Nikita Khrushchev que ficou na mente da minha família foi a do sapato”, declarou o goverador em uma de suas raras aparições na televisão nacional, em dezembro do ano passado. A imagem a qual se refere o governador é a de Khrushchev batendo com o sapato na mesa durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU nos anos 60.

Ativismo gay
Promotor e co-fundador da Associação de Lésbicas e Gays da Itália (Arcigay) e da Liga Italiana pela Luta Contra a AIDS (Lila), Vendola assumiu-se gay com 20 anos de idade, publicamente, em um jornal de sua cidade natal, a pequena Terlizzi. Se declara “homossexual”, e não “gay”. Costuma dizer que a palavra “gay” é hipócrita, um falso sinônimo que busca esconder a aspereza da palavra “homssexual”. “Isso era importante em uma época em que ‘sair do armário’ era um fio desencapado, hoje devemos nos livrar disso”, defendeu na mesma entrevista.

Comunista e católico, ao contrário dos comunistas históricos – normalmente ateus –, Vendola cita a Bíblia em diversas ocasiões públicas e não poupa o modo como o sistema comunista foi implementado em países como a Rússia, que define como “uma tragédia”. Defende que, no entanto, a Revolução de 1917, já naquele tempo, apresentava mudanças sociais importantes como a mudança do código penal que aboliu o crime de homossexualismo (mais tarde reinserido na lei). Apesar disso, ainda acredita nas bases do comunismo, como declarou mais de um vez em entrevistas, usando sempre a mesma frase: “não devemos botar fora a criança junto com a água suja”, em referência às boas ideias manchadas pela imagem dos Gulags.

Televisãofobia
Nichi Vendola não é prima-dona dos diversos programas políticos da TV italiana. Afirma não gostar do estilo e diz que é necessário “abaixar o volume” das discussões no tubo, “frustrantes”, segundo ele. Escolhe a dedo onde andar e como aparecer, sem contar com a superexposição necessária para a maioria dos egos parlamentares e executivos. Dentro do que acredita ser sua coerência, declarou pública solideridade à Alessandra Mussolini, neta do ex-ditador Benito Mussolini, ex-deputada e personagem político da direita radical italiana, frequentemente vista em programas de TV. Alessandra foi personagem de um processo midiático: foram divulgadas notícias sobre um suposto vídeo de sexo explícito no qual La Mussolini seria protagonsta. O vídeo jamais apareceu.

Reflexo da personalidade de Vendola pode ser visto dentro do próprio partido. Após cinco anos como governador da Apúlia, se recandidatou ao cargo nas eleições de março deste ano contra a vontade da cúpula do partido local, apoiada pelo ex-primeiro ministro italiano Massimo D’Alema. Nas eleições internas, no entanto, Vendola venceu a disputa com muitos corpos de distância: colheu 67% dos votos dentro do partido contra o economista Francesco Boccia, apoiado por D’Alema. Candidato oficial da coalizão de centro-esquerda, deu um banho na urnas e foi reconduzido à cadeira de governador com apoio de 73% dos eleitores, derrotando o candidato do partido de Silvio Berlsconi, Rocco Palese.

Vendola diz que o episódio não deixou nenhuma marca em seu modo de fazer política ou de tratar com os membros da coalizão. Alega refutar as “estratégias militares, as cartas de guerra e os números da política” na hora de concorrer. Não quer fazer alianças pelo simples fato de acumular votos, garante. A personalidade independente, no entanto, sabe calcular bem o momento do jogo. Nos primeiros sinais de que a aliança entre Silvio Berlusoni e Gianfranco Fini estava por rachar, Nichi Vendola declarou publicamente “estima a Fini”, de raíz política neo-fascista, sabendo que o apoio do agora opositor ao premier poderá ser decisivo.

Complô?
Sua homossexualidade não pode ser confundida com libertinagem sexual. Vendola critica Silvio Berlusconi pelo uso de casas onde Il Cavaliere recebe chefes de Estado e, ao mesmo tempo, “acompanhantes”, como mostraram a série de fotos divulgadas pelo jornal El País, da Espanha, no ano passado.

Apesar da clara diferença de perfil entre Nichi Vendola e os tradicionais políticos italianos, o governador da Apúlia segue o padrão dos líderes de centro-esquerda italianos dos últimos tempos: mostra-se independente e busca cavar caminhos sem alianças –- nem mesmo as internas. Perfeitamente cabível dentro da anedota corrente nos últimos tempos no país, que se tornou uma resposta padrão para quem diz que a esquerda está fazendo um complô contra Berlusconi: “para que haja um complô é necessário que ao menos duas pessoas estejam de comum acordo”. Cena difícil de encontrar dentro da esquerda italiana de hoje.”

O texto acima foi publicado hoje no Portal Terra. Há outra boa piada correndo pelos mexericos políticos italianos que necessariamente ficou de fora do texto: “Depois de tanto tempo para nos acostumarmos com um premier putanheiro, agora vem um gay?”.

Roma é uma festa.

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O que a Argentina tem a ensinar à Itália

Leandro Demori | Itália 14:30 | 30/07/2010

União estável.

Capa do portal G1, sexta-feira, 30 de julho de 2010, 14:27

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Breiquin nius (sotaque italiano, por favor): governo Berlusconi caminha para o fim (ou para a eternidade)

Leandro Demori | Itália 20:45 | 29/07/2010

Silvio Berlusconi acaba de convidar Gianfranco Fini, fundador ao lado dele do Popolo della Libertà (PDL) e presidente da Câmara dos Deputados, a sair do partido. Fini é líder da Alleanza Nazionale (AN), na prática, ex-fascistas que sobreviveram à primeira república e se juntaram à Forza Itália pra formar a maioria em carga.

O caso de desamor entre Berlusconi e Fini vem de alguns meses.

Mas hoje a corda parece ter estourado.

Ventos dizem que o governo não vê o próximo outono (fins de agosto?), com eleições antecipadas pelo próprio Berlusconi. Eleições antecipadas significa dizer que cai todo mundo, de deputados a senadores, de ministros a puxa-sacos. Eleição geral.

Será novamente o caos.
Itália, enfim.

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A tolerância é uma cabeça de cordeiro no banco de trás do carro

Leandro Demori | Itália 13:08 | 19/07/2010

Publico abaixo entrevista com Nello Rega, jornalista italiano ameaçado de morte pelo Hezbollah por ter contado “mentiras sobre o Islã”. O autor das perguntas é Francesco Giurato, amigo e também jornalista italiano. Correções são bem-vindas na caixa de comentários, já que traduzi às pressas porque a vida precisa andar.

Todas as informações foram passadas por Nello Rega, todas as alegações de ameaças foram confirmadas por ele e somente por ele, e podem ser contestadas, também, na caixa de comentários.

Concluo no final.

Nello Rega, 43 anos, de Potenza (Basilicata), trabalha na redação da editoria de Exterior da RAI. Jornalista profissional desde 1993, trabalhou para o Jornal Radio RAI Tre, San Marino RTV e Radio Dimensione Suono. Assinou, como autor, um programa na RAI Tre. Colabora também para jornais e revistas italianos. Formado em Ciência Política, é também diplomado na Escola Superior de Jornalismo de Perugia. Deu aula de jornalismo radiofônico no Istituto per la Formazione al Giornalismo di Urbino e também no Master in Giornalismo dell’Universita degli Studi della Basilicata. Cobriu acontecimentos nos seguintes lugares: Romênia, Grécia, Albânia, Iugoslávia, Algéria, Chipre, Iraque, Kosovo, Líbano, Territórios Palestinos, Israel e Afganistão. É autor dos livros “A Sud di Bagdad” (2003), “Sud dopo Sud” (2006), “In volo, missione dopo missione” (2006). Vencedor de prêmios italianos e internacionais como “Campana d’argento per la Pace” edição 2006. Desde 2005 é presidente da Together Onlus e do progeto humanitário Libanltaly. Tem estreito relacionamento com o Oriente Médio. Há 8 meses publicou um livro chamado “Diversi e Divisi” que descreve a história de amor entre um católico e uma muçulmana. Através das descrições de cena da vida cotidiana, o autor ressalta as diferenças que separam as duas religiões, e também os pontos de interrogação comuns às duas culturas. A sua “culpa”, segundo os extremistas que o ameaçaram e o ameaçam há mais de 6 meses, é de ter contado “mentiras sobre o islã”.

Você mentiu sobre o Islã?
Jamais. Antes fosse. A verdade é que existem profundas diferenças entre essas duas religiões, no modo de entender o que é a religião e para que ela serve. Eu vivi essa diferença na pele, seja antes do lançamento do livro, no qual narro minha história de hoje que termina com o relacionamento com uma mulher muçulmana, mas sobretudo depois, com as ameaças de morte pelo que escrevi. Mas eu disse somente a verdade. A demonstração de que meu objetivo é o de iniciar um percurso de integração é representado por Togheter, a associação no profit da qual sou presidente há muitos anos e que tem como objetivo esse entendimento entre cristãos e muçulmanos. O livro é destinado exatamente a isso, inclusive os lucros, a um projeto chamado LibanItaly, e em particular à realização de um centro já escolhido em uma cidade do norte do Líbano onde crianças cristãs-maronitas e muçulmanas crescem juntas no oratório salesiano de Jounieh, com o ensinamento da convivência, da paz e da esperança de que podemos viver juntos.

Que verdades você contou?
Uma verdade incômoda. Ou seja: que nós, ocidentais, somos os “infiéis” na visão de muitos islâmicos. Isso porque vivemos em sociedade laicas, onde as pessoas, homens e mulheres, podem determinar as próprias escolhas com base em direitos civis e não na religião – esta vivida como um momento íntimo e reservado de cada um de nós. A mesma coisa não se pode dizer sobre muitas comunidades islâmicas onde a mulher, por exemplo, é um objeto. Nas últimas páginas do livro, justamente para “desmontar” a dialética desses grupos, que definem como mentirosas as minhas afirmações, eu proponho 9 perguntas para fazer ao islâmico ortodoxo (não ao moderado). Lendo-as, qualquer um pode ver que são perguntas com bom-senso, lógicas, da própria evolução que a mulher merece nesse mundo islâmico. Por exemplo: por que o testemunho de uma mulher em um tribunal vale a metade do testemunho de um homem? Por que ainda hoje a Shaaria [a lei islâmica] aceita a poligamia somente no sentido de homens poderem ter muitas mulheres e não o contrário? Por que uma mulher xiita não pode casar com um homem de outra religião? Por que em Meeca não é possível construir uma igreja católica sendo que em Roma, que é a capital do catolicismo, existe a maior mesquita da Europa? Por que ainda hoje em países árabes as mulheres não podem dirigir? Esses são somente alguns exemplos. Infelizmente, as leis incompreensíveis ao mundo ocidental que existem na Shaaria são muitas mais.

Você acredita que seja possível uma integração entre o islamismo definido como ortodoxo e o cristianismo?
Antes de acreditar eu espero que seja possível, mas devo ser sincero: até que não sejam mudadas as respostas para as questões que fiz acredito que a tentativa de unir esses povos é inútil. Pessoalmente, acredito que um terreno comum possa existir, mas deve ser fora da religião. Me refiro à Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Não por acaso os países muçulmanos não assinaram. Até que parte do mundo islâmico, que hoje, infelizmente, representa o fechamento dominante daqueles países, não se adeque às regras comuns de viver e conviver civilmente, qualquer tentativa falirá.

Quando começaram as ameaças contra você?
O conteúdo do livro me custou ameaças de morte por parte do Hezbollah já poucos dias depois do lançamento, depois de publicar no meu blog que eu lançaria um livro que relataria o amor entre uma mulher muçulmana e um homem cristão. Projéteis vazios e um anúncio de morte, uma “fatwa”, como é chamada, foram encontrados nos estacionamentos dos estúdios da RAI, onde trabalho. Depois disso, eu denunciei à polícia, que prontamente me pôs uma escolta à disposição. Hoje, policiais são avisados sempre que me movo de um lugar para outro e avaliam a situação. A Ordem dos Jornalistas e o Sindicato também se mobilizaram, se posicionaram ao meu lado e me deram forças para continuar. Com o terrorismo não se “chega a um acordo”. Continuei o percurso de divulgação do livro em toda a Itália.

E depois?
Nos dois meses sucessivos ao lançamento do livro recebi mais projéteis e mais ameaças, sempre assinadas pelo Hezbollah. Evidentemente o meu “comportamento” e as minhas declarações após a primeira ameaça não agradaram essas pessoas, que continuaram a ameaçar. Uma espécie de escolta midiática começou naquele momento, graças ao apelo de numerosos colegas e de duas investigações parlamentares iniciadas por dois ex-colegas jornalistas que hoje estão no parlamento. Depois das minhas primeiras aparições na TV por conta do livro e das ameaças, minha mãe recebeu em casa outro pacote com projéteis. Junto, uma carta onde me intimavam a não ir mais para a TV. O silêncio, nesse caso, ajudaria os terroristas. Devo dizer, no entanto: minha situação de perigo em alguns momentos foi avaliada como menos perigosa do que na verdade era. Avaliada pelas forças de ordem. Agradeço aos policiais que me dão escolta, mas não posso deixar de dizer isso.

Em que sentido?
Depois de algumas semanas, lá pelo final de outubro, encontraram um outro envelope nos estacionamentos da RAI, novamente com projéteis e a mensagem “Morirai in nome di Allah con la mano di Hezbollah perche’ vai in televisione e dici bugie”. Em Roma e no Ministério do Interior, mesmo depois disso, não se move uma folha. Devo confessar que, mesmo que tentasse esconder publicamente, comecei a ter medo, muito medo. Na verdade, quando estava em Potenza, minha cidade, me sentia seguro, por que o governador da província tomou medidas de proteção. Foi o único naquele momento. Mas quando eu estava em Roma me sentia somente nas mãos de deus. Fiz muita força para não dar um passo atrás, até porque isso seria a vitória de quem me ameaça. Continuei a divulgação do livro, como faço até hoje. Fui em mais de 100 cidades em 7 meses. Por onde ando encontro apoio.

Qual foi o pior momento?
Dia 26 de novembro do ano passado: eu estava em Potenza e, ao me afastar do carro por cerca de 30 minutos para comprar jornais, quando volto encontro no banco de trás uma cabeça de cordeiro. Naquele momento foi tudo ao extremo: tensão, medo, e ver que a minha situação continuava a ser avaliada como “nem tão perigosa” [ele estava sem escolta] me fazia pensar em parar. Encontrei aquela cena macabra em plena luz do dia, e isso que me dá mais medo. Tomei uma medida extrema: pedi para ser interrogado pela Justiça por “provocado alarme”, ou seja, como se eu próprio tivesse botado aquela cabeça lá, pois estava cansado e indignado com as autoridades que deveriam me proteger. No dia 4 de janeiro, mais um envelope, mais balas. E um mês atrás, no dia 7 de abril, uma última ameaça, com mais projéteis. O meu medo é que, depois que passe a “novidade”, do primeiro jornalista na Itália ameaçado por fundamentalistas islâmicos, as pessoas esqueçam. A indiferença é o que mais me assusta.

A Síria baniu hoje a burca em universidades. Antes dela, outro país islâmico havia tomado medida semelhante: o Egito. O polêmico véu que cobre praticamente toda a mulher que o veste não é mais somente uma relação de forças entre “O Ocidente” — França, Bélgica e Dinamarca, por exemplo — e o “Mundo islâmico”.

Alguns valores precisam urgentemente sair do senso comum da luta do “bem contra o mal” caso se queira chegar a algum lugar. Caso se queira.

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Liga Norte ou “cruzada de honra contra o Islã” ou “homossexualismo é uma doença”

Leandro Demori | Itália 13:05 | 15/04/2010

Se você perdeu o mais recente programa da Braziu TV (o “Braziu 004″, vídeos: bloco 1 e bloco 2) ficou de fora da dicussão sobre a Liga Norte (Lega Nord), partido polêmico aqui da Itália e força que mais cresceu nas eleições de março.

Escrevi hoje um texto para o Portal Terra explicando de forma um pouco mais aprofundada o que é a Lega e qual seu papel no cenário atual aqui da península. Colo ele na íntegra logo abaixo. Antes, porém, vai o vídeo que fiz na semana passada pro braziu 004.

No pé, textos da Lúcia Müzell (correspondente do Terra em Paris) sobre partidos extremistas na França e no Reino Unido.

“Acusada de xenófoba, Liga Norte duplica de tamanho na Itália

LEANDRO DEMORI
Direto de Roma

São quilômetros quase infindáveis os que separam as margens dos rios Volga, na Rússia, das do Pó, na Itália. Nos anos 60, no entanto, um nome aproximou as duas correntes: Palmiro Togliatti, secretário-geral do Partido Comunista Italiano (PCI), que em 1964 viu a principal cidade do Volga mudar de Stavropol-na-Volga – nomenclatura que trazia desde o século XVIII – para Togliattigrado, aos moldes de Leningrado e Stalingrado. A homenagem concedida por Moscou a Togliatti desenhava os ares políticos da época: a Itália era o ponto mais importante além da cortina de ferro, ligação focal entre o regime comunista Russo e a Europa ocidental. O PCI tinha, em meados nos anos 70, 35% dos votos na península mediterrânea. O posto de maior partido comunista do ocidente, contudo, durou pouco: mais precisamente até o assassinato do premiê Aldo Moro, atribuído às Brigadas Vermelhas, milícias ligadas à esquerda nacional. O crime fez o sonho vermelho italiano ruir – os votos evaporaram no ar da história.

Mais de três décadas após a efervescência ideológica daqueles tempos, o cenário da política italiana de hoje soaria como apocalíptico para a maior parte dos italianos se contado como previsão do futuro à época. O antigo Partido Comunista é voz praticamente desaparecida, afundado juntamente com o voto ideológico. Entre jogos de cena e cartadas televisivas focadas em problemas cotidianos, a força em ascensão em 2010 chama-se Liga Norte (Lega Nord), partido fundado em meados dos anos 90 com tons separatistas, xenófobos, racistas e homofóbicos e que hoje exerce função de segunda força mais importante dentro do governo de Silvio Berlusconi.

A votação alcançada pela Liga Norte nas eleições regionais de março sedimentou o poder do partido: seu eleitorado dobrou em comparação às eleições regionais anteriores, realizadas em 2005, saltando de 6% para 12,7%. Posicionada, inclusive, à frente do Popolo della Libertà (PDL, partido de Berlusconi) no Vêneto, pela primeira vez na história a Lega assume a liderança de uma região – e faz melhor: vence em duas, além do próprio Vêneto, seu berço eleitoral, leva também o Piemonte.

As palavras do secretário-geral e fundador do partido, Umberto Bossi, no pôr-do-sol da mais recente abertura de urnas falam por si: “A Lega é um tsunami”.

A ascensão do partido de Bossi causou arrepios em boa parte dos italianos e europeus. Motivos existem. A Lega foi denunciada pela Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância por “uso intenso de propaganda racista e xenófoba”. Membros mais radicais do partido defendem posições duras como a expulsão de imigrantes e dizem que o homossexualismo é uma doença. A fama de racista, xenófoba e homofóbica vem sobretudo dos discursos e posições de um nome em particular: Mario Borghezio.

Membro fundador da Lega, Borghezio é deputado representante da Itália no Parlamento Europeu desde 2001 e protagonista de primeira ficha de episódios extremos: já fez comícios raivosos declarando uma “cruzada de honra contra o Islã” enquanto parte da multidão reduzia a chamas a própria bandeira italiana cantando “vamos queimar a tricolor”, opondo a Itália à Padânia, país imaginário defendido pela Liga Norte, supostamente composto por regiões do norte e do centro da península.

Em setembro de 2007, Borghezio foi preso em Bruxelas em uma manifestação contra a “islamização” da Europa. Por conta de suas posições, o euro-parlamentar já foi agredido duas vezes. Em um delas, dentro de um trem, um desconhecido quebrou seu nariz com um soco.

Mesmo que não seja consenso entre seus pares, Borghezio continua a representar o partido no Parlamento.

Esquerda, direita, fascista?
Para entender a Liga Norte é preciso deixar na estante os velhos livros de teoria política. Ao mesmo tempo em que abriga extremistas acusados de xenofobia como Mario Borghezio, o partido defende posições historicamente consideradas “de esquerda”.

Estão em seus discursos bandeiras como direitos dos trabalhadores (estes, por sua vez, ligados aos sindicatos) e investimentos nos pequenos empreendedores a despeito das grandes multinacionais. “É um partido fortemente ligado ao território local, exatamente como era o Partido Comunista Italiano”, explica Maria Sofia Corciulo, professora de História das Instituições Políticas na universidade La Sapienza de Roma.

Acusados de neofascistas, os leguistas se defendem. Alegam que o fascismo era um movimento de motivações nacionalistas, justamente o contrário do que a Lega prega: regionalização da Itália, menos poder ao Estado central e mais força às comunidades. “Não são neofascistas, nem da direita tradicional”, explica Giacomo Pacini, historiador dedicado à política italiana a partir dos anos 70. “A Lega, nos últimos anos, está crescendo e colhendo votos da esquerda e da direita justamente por ser um partido pragmático que não aposta em ideologias”.

O fermento do movimento leguista parece estar na observação atenta das mudanças do mundo na última década. Pacini explica: “o voto ideológico desapareceu juntamente com as classes sociais no velho estilo monolítico. Hoje, as pessoas se preocupam mais com a própria carteira do que com os grandes ideais”. Exemplo disso são os operários. Com o dissolução da “classe operária” – que votava maciçamente na esquerda – a Lega consegue colher votos dos próprios trabalhadores de fábricas, algo impensável em um passado não muito distante.

A estrutura da Lega deve ser seguida por outros grupos no país. O Partido Democrático (PD), maior força da esquerda, deve ser o primeiro. Cambaleante após as eleições regionais, o PD, que governava 11 regiões e ficou com sete depois da abertura de urnas, já discute a possibilidade de mudança. Na semana passada, o ex-premiê Romano Prodi declarou à imprensa que seu partido precisa se modernizar, descentralizando poder. Justamente uma das características mais fortes da Lega. “Seu poder está no investimento feito em líderes regionais”, anota Maria Sofia Corciulo. “É um modelo que se provou vencedor e que muitos outros partidos deverão seguir”.

O pragmatismo da Liga Norte pode ser facilmente compreendido em sua relação com o hoje premiê Silvio Berlusconi. Em 1995, Umberto Bossi, número 1 da Lega, comparou Berlusconi a Mussolini ao dizer que ambos faziam uso de monopólios televisivos para sustentar o próprio poder. Berlusconi, em resposta, declarou que “jamais se sentaria em uma mesa em que Umberto Bossi estivesse sentado”. Dois anos depois, Bossi voltou a apontar os canhões contra Il Cavaliere, dizendo que havia provas de que o dinheiro que ajudou a formar o império financeiro de Berlusconi era investimento direto da máfia siciliana Cosa Nostra.

No começo dos anos 2000, parte da Liga Norte aliou-se à coligação de centro-esquerda liderada por Romano Prodi para derrotar Silvio Berlusconi. Como sinal do mar agitado da política italiana, em 2006 a Lega participou da coligação que reelegeu Berlusconi e hoje ocupa importantes ministérios. A primeira semana de abril deste ano selou mais uma fase emblemática do partido mais polêmico da Itália: após o sucesso nas urnas, Bossi e Berlusconi se reuniram reservadamente para decidir o futuro do país. Na pauta, federalismo fiscal (sonhado pela Lega), reforma da Justiça e presidencialismo (encampados por Berlusconi).

Sobre separatismo e sobre a Padania, nenhuma palavra. “A Lega não quer mais a Padania, isso é claro. Um que outro político ainda defende isso, mas o partido entendeu que quando parou de falar nesse assunto a se concentrou em temas concretos como trabalho e segurança seus votos se multiplicaram”, aponta Pacini. A ideologia não é a luz a iluminar os salões do norte.”

LÚCIA MÜZELL
Direto de Paris

Pró-supremacia branca, extrema-direita britânica vive ascensão

Eleitor da extrema-direita francesa quer Sarkozy mais radical

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Cesare Battisti? Ninguém se importa

Leandro Demori | Itália 16:35 | 11/04/2010

Lula se reunirá amanhã com Silvio Berlusconi. Ambos estarão em Washington para a cúpula sobre segurança nuclear convocada por Barack Obama. Lula e Berlusconi, reservadamente, devem falar sobre Cesare Battisti.

No Brasil e na Itália, o assunto Battisti morreu. A repercussão da reunião de Lula e Berlusconi é zero. Nada. Acontecesse meses atrás, o encontro estaria na pauta da imprensa e guiaria as discussões de quem acredita que a) Battisti é um injustiçado e cometeu crimes políticos b) Battisti é bandido comum.

No Brasil, Cesare Battisti ganhou mais exposição do que sua figura comporta na Itália. Por aqui, qualquer pessoa que conheça o assunto sabe que Battisti é, como se diz, “peixe-pequeno” perto daqueles que o governo italiano realmente quer de volta.

Peixe pequeno, mas de boca grande. Battisti virou alvo por falar de mais. Livre em Paris, escreveu livros, fez amigos importantes, ficou famoso. Estava vivendo “alla grande”, como dizem aqui na Bota — “por cima da carne seca”, em bom português brasileiro. As famílias das quatro pessoas mortas por Battisti ou por seus companheiros consideraram que o ex-revolucionário estava pisando nos cadáveres que deixou. Nem mesmo a esquerda, que presumivelmente deveria defendê-lo, o fez.

O encontro de amanhã pode jogar mais alguma luz sobre essas questões. Poucas, ao que tudo indica. Lula precisa cuidar da sucessão no Brasil, Berlusconi quer começar uma fase de reformas institucionais na Itália. O caso, até ontem de vida ou morte, com declarações exageradas de ambas as nações [aqui e aqui], é hoje uma nota de rodapé.

Na política, assim como no futebol, a torcida logo apaga um campeonato quando outro começa.

Quem tiver curiosidade para saber como vivem os refugiados italianos em Paris pode ler esta reportagem aqui, escrita por mim e pelo Mário Camera para a revista IstoÉ.

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Como vencer a crise

Leandro Demori | Itália 08:54 | 16/03/2010

A Itália venceu a crise. Como? Com financiamento público de campanha.

Monte uma lista eleitoral e receba de volta cerca de 4 euros por eleitor inscrito. Dinheiro público em forma de reembolso. Limpinho. Veja nosso vídeo e aprenda como tirar o pé da lama.

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Pelos, direitos humanos

Leandro Demori | Itália 15:58 | 14/03/2010

O portal G1 listou aleatoriamente 10 políticos que “saíram do armário”. O top ten encabeçado [inevitável duplo sentido] por americanos mostra clara perda de poder e influência da Itália nas questões de relevância mundial. De cabeça [!] me lembro de ao menos três políticos da Bota merecedores(as) de um lugar no time.

Vladimir Luxuria

“Cadê mim?”

Nichi Vendola

“Fiz teatro”

Piero Marrazzo

“Rezando forte, cardeal

Não quero criar celeuma, mas o pessoal aí de cima é tudo de esquerda.

[pausa pra desenho]


“!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”

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