Mega post: WikiLeaks

braziu.org 15:53 | 04/12/2010

Leandro Demori – Itália

Seguiu a lógica de uma bela capa de jornal a bomba de documentos revelados pelo WikiLeaks: uma notícia importante para a manchete, uma notícia importante para a segunda linha e um maço de gossip para companhia. As pessoas amam.

Quando eu era editor do Terra conseguia fotografar cada minuto da alma do brasileiro olhando para as estatísticas de acessos das notícias na capa do portal. A notícia importante em destaque, em fonte grandona e com várias linhas de apoio tomava uma surra do gossip que mostrava a mais nova briga de um reality show qualquer publicado no rodapé do site.

Não precisamos que a diplomacia americana nos diga que Berlusconi é um babá do sexo, que Angela Merkel é pragmática, que Sarkozy usa Carla Bruni para ajudar nas negociações com outros países ou que Hugo Chávez é um maluco. Mas o gossip foi justamente aquilo que chamou a atenção das pessoas para o vazamento dos dados. Quem se importa com o programa nuclear do Irã ou com a presença do Hammas e do Hezbolah na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai? É tática, e vencedora.

A coluna de fofocas oficializadas pelos embaixadores americanos pelo mundo não significa que a diplomacia americana seja fútil e pior do que a dos outros países. A única diferença entre a diplomacia americana em relação às outras é que seus documentos foram a público. Bastou meia dúzia de documentos saídos do Brasil para mostrar que um ministro do governo brasileiro, Nelson Jobim, estava dando lá suas rasteiras em seus pares de salão. Se abrir o Itamaraty todo não sai coisa muito diferente disso.

É claro que é tudo mentira. Jobim já negou, imagina, que bobagem. Como diz o filósofo, inauguramos a fase do Descartes pós-ideológico: “Nego tudo, portanto existo”. O próximo passo será o Galileu pós-wikilítico: “eppur si muove”, gritará alguém, jurando que a Terra gira, sim, em torno do sol — apesar dos desmentidos oficiais — antes de ser declarado inimigo do povo.

Sérgio Leo: Oliveira, o canalha da redação: “ih, é verdade mesmo, o governo já divulgou até nota de desmentido”. Na capa da Folha online de quatro dias atrás, ao mesmo tempo, três notícias se acotovelavam logo abaixo de uma manchete sobre o WikiLeaks: “Dados são ‘insignificantes’, diz Lula; Jobim nega ter dito que colega ‘odeia os EUA’; Bolívia nega que Evo tenha tumor.” É a Tríplice Confirmação da Verdade.

A China bloqueou acesso aos documentos. O jornal Le Figaro, de propridedade do sarkozista Dassault — vendedor dos caças para o combo Jobim/Lula/Viumanão gosta da Wikileaks. Hillary Clinton acha .

Batendo datas com notícias, parece que a maior preocupação americana na sudamerica continua sendo Hugo Chávez. Desperdício. Oito telegramas saem da embaixada de Brasília pros EUA no dia em que Chávez mandou o embaixador americano embora da Venezuela. Rolam umas boas pesquisas (e teorias da conspiração) com esse método: pega-se os docs. que saem de Brasília, olha-se os dias com bom volume de correspondências e bate-se com os acontecimentos daquele dia em uma simples pesquisa no Google.

Muitos docs. saem de Brasília no dia 12/8/2005, por exemplo. Dá pra especular sobre o motivo: aqui e aqui. Pode-se também ter algumas pistas sobre os novos cenários possíveis de guerra envolvendo os EUA (e os motivo$).

Uma das grandes questões agora é saber quem são os informantes das embaixadas, o que pode dizer mais sobre tudo do que os documentos em si. No caso do Brasil, um dos principais, por hora, é o ministro da Defesa Nelson Jobim, pintado como uma espécie de lobbista e cagueta [palavra pra ficar no clima Rio de Janeiro da semana]. São 250 mil documentos, quase nada ainda veio a público. Teremos semanas tórridas.

Pedro Augusto – Alemanha

Público x impublicável

Nem tudo o que o Estado faz pode ou deve ser público e/ou publicado. Assim como em um relacionamento não se revela absolutamente tudo o que se pensa sobre o companheiro, também nas relações entre os países alguma medida de sigilo e segredo é necessária para uma convivência pacífica.

Nas relações entre duas nações soberanas, os direitos individuais são apenas mediatamente afetados. Desta forma, não há que se falar em um direito individual à informação sobre todos os passos estatais. A própria política, com seus instrumentos de controle e limitação, deve ditar os passos deste tipo de segredo estatal. Isso não quer dizer, de forma alguma, que todos os atos estatais devam ser públicos. Até hoje, como se sabe, os arquivos da Guerra do Paraguai e muitos dos arquivos da ditadura militar ainda estão sob segredo, ficando vedada a sua consulta.

Se tal foi decidido, deve haver razões suficientemente fortes para que se mantenham longe do alcance público. Concordando ou discordando disso, o fato é que qualquer mudança deve se dar pelos meios legítimos da democracia, com votação pelo parlamento ou por mandamento dos tribunais. (Aos entusiastas do vazamento: Imagine que o leitor tenha um processo correndo em segredo de justiça, envolvendo uma briga familiar. O vazamento da WikiLeaks desse processo deve ser comemorado?!)

Na atual lógica, após Wikileaks, não existe mais segredo estatal. Por mais sensível que seja, tudo pode ser público e publicado. Independentemente das consequências (nota necessária: por alguma razão desconhecida, a maioria dos documentos secretos publicados dizem respeito aos Estados Unidos. Teóricos da conspiracão terão meses, quiçá anos, para exercer suas atividades).

Não se tira, obviamente, uma função positiva desses vazamentos. Se isso servir como forma de controle para que atividades de escutas ilegais não sejam ordenadas por chanceleres, estamos dentro do terreno do desenvolvimento das instituições democráticas no plano internacional. Se o vazamento levar à descoberta de agentes infiltrados num país como a Coréia do Norte, que serão invariavelmente torturados e mortos, fica a dúvida se isso, realmente, ajuda no fortalecimento dessas mesmas instituições. Exemplos não faltam.

Maurício Boff – Argentina

Os sete pecados do governo argentino (segundo a diplomacia norte-americana)

“Almost as if according to some natural law, in every century there seems to emerge a country with the power, the will, and the intellectual and moral impetus to shape the entire international system in accordance with its own values”.

Henry Kissinger, em Diplomacy

Em plena efervescência do debate em torno do vazamento dos telegramas trocados entre diplomatas norte-americanas e o QG da Secretaria de Estado, em Washington, confesso que fiquei perdido, atordoado, emocionado, irritado, satisfeito, desinformado e, ao final, soltei um sorriso-maroto-garoto típico de final de uma boa piada. Sedento por analisar cada comentário diplomático norte-americano sobre os presidentes sul-americanos, deixei de lado a leitura de Moby Dick (droga, não quero terminar meus dias como Leonardo Zelig), os estudos, a mulher, o cachorro, a horta de ervas-finas na sacada do apartamento, o trabalho e o show do João Bosco na quinta-feira.

Mentira. Mas sou brazileiro. Logo, nunca saberá, nem mesmo o serviço secreto norte-americano. Esqueça, portanto. Falo sério. Importa, sim, lançar algumas impressões quase uma semana depois de análises de jornalistas, historiadores, diplomatas, sociólogos e pessoas comuns por todo o mundo, sobre a organização de Julian Assange, o @WikiLeaks. A meu ver, concretiza-se um movimento de discussões que, até hoje, era imprevisível e no melhor estilo Black Swan.

Mas desconfie, e desconfie muito. Como já mencionei por aqui, estou mais para a turma da ponta de baixo na escala de 0 a 10 entre os expertos –- e não pretendo sair dessa zona. É muita responsabilidade. Troco-a pela autonomia do (não) pensar. Portanto, humildemente, convido-o a passear pelos meus sentimentos. Shanti.

+ Gula (telegrama 001235, em 09/11/2009)

“Tivemos várias conversas com os dois primeiros chefes de gabinete da [presidenta] Cristina Fernández de Kirchner (CFK), Alberto Fernández e Sérgio Massa. O embaixador tinha uma reunião introdutória em 28 de outubro com Alberto Fernández, que atuou como Chefe do Gabinete em administrações tanto de Néstor [Kirchner] e de CFK (…) O embaixador e DCM tiveram um jantar em novembro com o segundo-chefe de gabinete de CFK, Sérgio Massa, e sua esposa, a eleita vereadora, Malena Galmarini, na casa do ex-assessor de Massa na Casa Rosada, o empresário Jorge O’Reilly. Em cada uma das conversas, os dois peronistas, que durante seus mandatos na Casa Rosada trabalharam todos os dias com os Kirchners no andamento do governo argentino, foram bastante francos ao expressar seu estranhamento do casal Kirchner e seu pessimismo sobre as perspectivas políticas do ‘casal no. 1′ ['first couple', como os K são chamados nos telegramas]. (…) Massa foi contundente em sua crítica do ‘casal no. 1′, especialmente a Néstor. (…) Ele chamou Néstor de ‘psicopata’, ‘um monstro’, e ‘covarde’ cuja abordagem política mascara um profundo sentimento de insegurança e inferioridade. (A esposa de Massa mostrou-se alarmada frente a tais comentários desinibidos ao ponto de pedir que ‘pare de fazer caretas para mim.’) Ele contestou o argumento de que Néstor merecia crédito como um estrategista astuto, e descreve o ex-presidente como equivocado e tão convencido de seu brilho próprio que certamente voltaria a fazer seus erros. (…) Ele disse que Néstor não poderia relacionar-se com quem estivesse fora de suas ambições políticas: ‘Kirchner não é um gênio perverso’, concluiu Massa. ‘Ele é apenas um perverso’.”

+ Avareza (telegrama 001017, em 10/09/2009)

“Aníbal Fernández [chefe de gabinete de CFK] tem sido para nós o membro mais acessível e inclinado do gabinete da presidenta Cristina Fernández de Kirchner, acolhendo governamentais dos Estados Unidos receberam treinamento policial e da cooperação. (…) Mais político do que diplomata, [Fernández] constrõe feudos e detesta perder o controle sobre esses recursos estratégicos. (…) Um interlocutor pragmático e politicamente esclarecido, Fernández prefere não envolver o seu pessoal em reuniões com funcionários da Embaixada [dos EUA]. Embora esteja sempre bem preparado, o seu discurso e comportamento podem às vezes ser grosseiro. Em mais de uma vez, ele fez evidentes comentários sobre uma atraente tradutora durante uma reunião com funcionários dos EUA que estavam de visita. Ele se referiu à existência de uma ‘procura local por órgãos genitais jovens’ enquanto explicava sobre os desafios que enfrenta sua pasta no combate ao tráfico humano com fins de exploração sexual.”

+ Luxúria (telegrama 000071, em 04/02/2010)

“Embora o orçamento militar argentino está mal preparado para qualquer curso de ação que envolva a projeção de poder, o governo da Argentina provavelmente assim se sentiria compelido a pressionar, por qualquer meio possível, a reivindicação histórica [sobre as Ilhas Malvinas/Falklands] logo de uma descoberta de petróleo. Uma estratégia de conversação dura, queixas em fóruns internacionais, e cartas de protesto são esperados, além de sanções econômicas aplicadas contra as empresas atuantes [no arquipélago], mesmo que isso possa prejudicar a produção argentina de petróleo e gás natural.”

+ Ira (telegrama 002345, em 14/12/2007)

“Em 14 de dezembro, a imprensa argentina continuou a dar ampla cobertura à furiosa reação do governo argentino às alegações do FBI de que os U$ 800 mil interceptados 04 de agosto por oficiais argentinos foi uma contribuição em dinheiro da BRV para a campanha presidencial de Cristina F. De Kirchner (CFK). (…) O embaixador usou uma recepção programada para antes das férias para mais de 100 jornalistas de jornal, rádio, TV no dia 14 de dezembro para a divulgação da orientação de Washington sobre o caso. Vários jornalistas de rádio utilizaram seus telefones celulares para transmitir no ar as palavras do embaixador, e muitos deixaram o encontro depois do embaixador concluiu a história. Várias histórias sobre o que disse o embaixador no encontro já bateu estão sendo divulgadas. Esperamos que as observações do embaixador na Argentina domine as manchetes no sábado. (…) O que começou como um dia negro para a imagem dos EUA na Argentina – com manchetes de ataque por CFK e outros sobre as nossas intenções supostamente escuras – está terminando com uma nota mais esperançosa, como um trabalho rápido por parte do Estado, da Justiça e do FBI de revisão e de orientação sobre a questão nos permitiu apresentar nossa versão para um grupo cativo de jornalistas argentinos. Como a primeira semana da administração CFK se aproxima do fim, demos aos pragmáticos informações sobre o governo argentino para que possam trabalhar pelo convencimento de CFK de que saia do precipío que se meteu e volte a dialogar com o governo norte-americano a partir da segunda semana de mandato presidencial. Veremos sua reação e resposta nos próximos dias.”

+ Melancolia (telegrama 000827, em 09/07/2009)

“Há um outro fator externo que faz improvável que a Argentina adote a política bolivariana – a influência crescente do Brasil aqui. O representante local do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o brasileiro Daniel Oliveira, disse ‘econoff’ recentemente que ‘a Argentina tornou-se tão importante para o Brasil como o México é para os Estados Unidos’. Com uma intercâmbio comercial de U$ 31 bilhões e mais de U$ 10 bilhões em investimentos brasileiros sendo injetados na economia argentina desde 1997, o Brasil está fortemente empenhado aqui, e não é tímido sobre a defesa de seus interesses. A imprensa local relatou que Lula chegou a dar telefonemas em julho de 2008 para evitar que os Kirchners abandonassem o poder na sua frustada tentativa de pressionar o Congreso a aumentar os impostos sobre as exportações agrícolas. Lula e seus associados continuarão a ser uma importante influência moderadora sobre os Kirchners.”

+ Preguiça (telegrama 000853, em 22/07/2009. substituída aqui por psicodrama. Leia e entenda)

“Outros observadores apontam fatores de estresse psicológico em suas previsões para uma muito próxima crise democrática. Esta linha de raciocínio encontra duas vertentes: a de que o poderoso Néstor Kirchner é bem centrado em seu conjunto de formas intransigentes de se adaptar, ou a de que ele (ou ele e CFK) estão se tornando cada vez mais instáveis e incapazes de governar. Como um bem relacionado banqueiro nos disse, o casal Kirchner poderia se recuperar alterando o rumo e adotando uma postura mais moderada, mas Néstor Kirchner, em especial, é incapaz de mudar. Em vez disso, ele vai embarcar numa lamúria desastrosa contra os ‘traidores’ os quais culpa pela derrota eleitoral, levando o governo ladeira abaixo. Em apoio desta tese, Fraga [Rosendo Fraga, analista político] defende que a personalidade de Néstor ‘não pode mudar’, mas que a opinião pública argentina pode. Ela não quer mais um lutador obstinado como fez Néstor Kirchner quando tomou posse em 2003; hoje, os argentinos querem uma liderança consensual que os Kirchners não pôdem e não vai proporcionar.”

+ Orgulho (telegrama 001311, em 09/12/2009)

“Mais uma vez, o governo Kirchner tem se mostrado extremamente sensível e intolerante às críticas que recebe. As preocupações sobre a fraqueza das instituições nacionais, e o Estado de Direito, em particular, é uma parte do que é relatado na imprensa argentina por acadêmicos, empresários, juízes, políticos da oposição, especialistas e organizações não-governamentais. Os argentinos são bastante conscientes de que a Argentina não está atraindo tanto investimento quanto Brasil, Chile e outros países da região. A ansiedade da comunidade empresarial sobre as mudanças arbritárias e caprichosas das regras do jogo é bem conhecida do público argentino e do governo. Somente quem é muito Kirchnerista concordará com a afirmação de Randazzo [ministro do Interior, Florencio Randazzo] de que a Argentina oferece ‘todas as garantias institucionais e jurídicas’, ou a afirmação do Ministério de Relações Exteriores de que não tem conhecimento de qualquer insatisfação por parte das empresas americanas. Para a maioria dos argentinos, isso é uma ironia ou declarações falsas e cínicas. Dito isto, esperamos que esses contratempos logo se esgotem, como já aconteceram em episódios semelhantes no passado.”

Não precisa usar a imaginação. Kissinger está com a razão: o ímpeto intelectual e moral norte-americano moldou com seus próprios valores o mundo. Essa é a natureza do Homem e ponto final.

Gabriel Brust – França

Sarkozy e suas mulheres

A reação da imprensa francesa ao cablegate passou por dois momentos diferentes desde domingo. A primeira, imediata, foi a negação escandalizada. Figaro e Liberation, direita e esquerda no espectro dos jornais, condenaram o vazamento. O primeiro com o frágil argumento da segurança internacional. O segundo, mais razoável, criticando o fato de o WikiLeaks mirar e tentar desestabilizar democracias, enquanto se cala ou pouco faz para investigar regimes totalitários. Regimes totalitários, aliás, que seriam o alvo principal do WikiLeaks segundo os conceitos iniciais do site, formulados por seu criador.

A revista eletrônica Rue89 resgatou os textos do blog de Julian Assange, não mais online, escritos antes do lançamento do WikiLeaks. Pelo tom de seus textos na época, parecia que Irã e Coréia do Norte teriam algo a temer diante de sua ideia. O tempo revelou o óbvio: é bem mais fácil (e totalmente legítimo, diga-se de passagem) brincar de justiceiro em democracias do que fazer uma pegadinha do Mallandro com o Kim Jong-Il.

A segunda etapa da reação francesa ao Cablegate é parecida com o que aconteceu no resto do mundo: o desdém em relação ao conteúdo dos arquivos assim que os primeiros foram revelados. De fato, como na maior parte do globo, não há nada que cause maiores estragos para a França nos telegramas revelados (até agora). Mas há material farto para o esporte preferido dos franceses – e da imprensa, principalmente –: praticar o bullying impiedoso de Nicolas Sarkozy.

Sobram passagens desabonadoras, no plano pessoal, para o chef d’état e suas mulheres. Sim, porque os yankees malvados, em seus telegramas, não pouparam nem o tema que o próprio Sarkozy reconhece como seu “calcanhar de aquiles”: a ex-mulher, Cecília Ciganer. Segundo o embaixador americano, em 2007, após o divórcio, havia dúvidas se Sarko teria estabilidade emocional para conduzir o país. Descreveu o presidente como dependente da ex-mulher. Quando começa o novo romance do galã, dessa vez com a modelete Carla Bruni, o embaixador fofoca para seu governo, em Washington, que as aparições públicas do presidente com a nova mulher são mais condizentes com um milionário excêntrico do que com um chefe de estado. Conversa de comadre das boas, para saborear com o chá da tarde.

E é justamente numa passagem sobre Carla Bruni que o Brasil aparece nos telegramas do embaixador americano em Paris. Segundo o diplomata, Sarkozy estaria usando a popularidade de sua mulher no Brasil para estreitar as relações com o país. Charles Rivkin diz que a há um “caso de amor” entre Lula e Sarkozy, e que a população brasileira aprecia muito o fato de o casal presidencial francês passar as farias no país. Particularmente, eu nunca soube que Bruni gozasse de qualquer popularidade no Brasil. Sua carreira como modelo está encerrada há tempos e seus chatíssimos discos, que eu saiba, nunca chegaram perto de serem populares no Brasil. Mas é provável que o embaixador saiba mais sobre a banânia do que eu.

Por fim, o último bulling da imprensa contra Sarkozy – debate dos jornais nesta quarta-feira — é acusá-lo de “cheerleader” dos yankees. Isso porque os telegramas comentam a vida privada de Sarkozy, mas pour outro lado o cobrem de elogios. O descrevem como “o presidente mais pró-Estados Unidos desde a Segunda Guerra”, afirmam que ele “se reconhece nos valores americanos” e teria se revelado, inclusive, ser um grande admirador de George W. Bush. Imperdoável para os franceses.

Érica Manssour – China

Tá tudo bem

A julgar pela cobertura da imprensa chinesa, não há qualquer envolvimento de Beijing com essa história ae. O site encontra-se devidamente bloqueado e o foco de notícias relacionadas ao tema é mais na acusação de estupro e na ordem de prisão do Julian Assange pela Interpol do que qualquer outra coisa. Tudo bem por aqui.

“E se eu te disser que essa lei ancestral pode mudar?”

Leandro Demori | Itália 21:10 | 27/07/2010

Bem, “se tu me disser que essa lei ancestral pode mudar” eu tenho certeza de que estaremos diante da maior revolução de costumes da civilização nos últimos mil e quinhentos anos.

O Irã segue a Sharia, lei islâmica baseada no Corão e na vida de Maomé — a vivida e a contada. É a Sharia que prevê apedrejamento e, sendo o Corão ditado por deus a Maomé e estando o próprio Maomé morto (confere?), fica um pouco difícil “tu me dizer que essa lei ancestral pode mudar”.

Caso “essa lei mude” (#ligalula) eles terão que mudar também o nome do país (República Islâmica do Irã) e mandar embora do território todos os que seguem esses preceitos. Não por acaso, 89% dos iranianos são xiitas e defendem, por exemplo, casamentos temporários nos quais a mulher pode ser comprada. Quatro casamentos temporários garantem um lugar no Paraíso. No Afeganistão, xiitas também podem se negar a dar comida às esposas caso elas se neguem a fazer sexo.

Se é pra salvar o mundo, salva direito.

Ou não.

Vai que dá, né?

Enquanto isso, no Irã…

Gabriel Brust | França 04:38 | 06/07/2010

Fiquem tranquilos, Lula já está a caminho do Irã para acompanhar o caso. Assim como o programa nuclear do país, esta condenação também não é “nada disso do que vocês estão pensando”. É tudo manipulação da mídia-global-sionista-imperialista (PIG univer$al):

Iraniana será apedrejada até a morte após ser forçada a confessar adultério

Um ativista de direitos humanos iraniano alertou nesta segunda-feira que Sakineh Mohammadie Ashtiani, mãe de duas crianças, será apedrejada até a morte a qualquer momento, de acordo com a pena de morte dada por autoridades iranianas.

Sakineh, de 42 anos, será enterrada até o peito, informou a Anistia Internacional, citando o código penal iraniano. As pedras lançadas contra a mulher serão grandes o suficiente para causar dor, mas não grandes para matá-la imediatamente.

A mulher, que é da cidade de Tabriz, foi condenada por adultério em 2006. Ela foi forçada a confessar depois de levar 99 chibatadas, afirmou o advogado de direitos humanos  Mohammad Mostafaei. Em seguida, Sakineh retirou a confissão e negou o adultério. Sua condenação não foi baseada em provas, mas na determinação de três dos cinco juízes que participaram do julgamento. Desde então, já pediu perdão, mas os juízes não concederam clemência.

Foram registradas 126 execuções no Irã do início do ano até o dia 6 de junho.

Adeo$, $afada!

Categoria(s):  Irã
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20 comentários

Enquanto isso, no New York Times:

Fabricio Pontin | Estados Unidos 08:24 | 19/05/2010

O acordo [do Irã] de última hora anunciado nesta semana com os líderes do Brasil e da Turquia foi muito similar àquele alcançado com as grandes potências no último outono.

Mas, depois de quase um semestre,

O atual acordo deixa o Irã com muito combustível, não coloca qualquer limite no enriquecimento de urânio em alta densidade e permite que Teerã retome o combustível estocado na Turquia quando bem entender e sem qualquer compromisso de negociação.

O Brasil e a Turquia, no entanto,

estão ansiosos para ter um papel mais importante na arena internacional. E também estão ansiosos em evitar um conflito com o Irã. Respeitamos esses desejos. Mas assim como todo o resto do mundo, eles [Brasil e Turquia] foram feitos de bobos por Teerã.

Portanto, o Brasil e a Turquia

devem se juntar com as demais maiores potências e votarem a favor da resolução do Conselho de Segurança. Mas, antes disso, eles deveriam voltar para Teerã e pressionar os mulás na direção de um acordo confiável e iniciar negociações sérias.

Conclusão: bonitinho esse pedaço de papel que vocês conseguiram, agora voltem lá e arrumem um que preste.

Alinhamentos

Fabricio Pontin | Estados Unidos 17:10 | 18/05/2010

Não tem nada de errado em um país buscar independência diplomática.

Muita gente, e gente boa, tem interpretado este movimento do Itamaraty de querer dialogar com o Irã e com os Estados Unidos na posição de um ator com interesses independentes como uma tentativa de adquirir um “passe livre” na arena internacional. Para ficar nos termos das relações internacionais: o Brasil quer poder atuar em palcos diferentes, que normalmente estariam em conflito. Quer poder jogar pelo Flamengo e pelo São Paulo – ao mesmo tempo.

Já consigo ouvir alguém gritando “mas isso não é um jogo de futebol”. Talvez, pode ser uma comparação desastrada. De qualquer forma, podemos indicar que existem diversas atitudes com relação ao Irã na arena internacional (esta grande ficção). Vou dividir a coisa aqui, vamos pensar que tem atitudes negativas, atitudes neutras, e atitudes simpáticas. Pois bem, isso seria o que chamei ali no título de alinhamento, okey?

Nos últimos dias, a China e a Russia, que estavam em uma posição de neutralidade com relação ao Irã, se moveram para o terreno “negativo” ao apoiar as sanções capitaneadas pelo Pentágono. Tanto a Russia quanto a China são (ou eram) parceiros do Irã em algumas empreitadas econômicas. Com este novo posicionamento, o Irã precisa de aliados, e rápido.

Sobraram no terreno neutro uma meia dúzia de países que não importam. Não tem voz. Não apitam. Estes não servem. Mas o que me interessa é que a entrada do Brasil enquanto parcero comercial do Irã no comércio de urânio, junto com a Turquia, nos coloca na posição de ter uma atitude simpática com o país dos aiatolás.

Energia é uma questão militar. Então me poupem do papo-aranha de “fins pacíficos”. Alinhamento político-comercial em questões de energia é um alinhamento militar. É mais ou menos como ajudar um país a produzir mísseis, por exemplo. Portanto, não é exagero algum dizer que o Brasil escolheu um alinhamento militar-comercial com o país que mais rapidamente perde apoio na arena internacional.

Eu não sei quais são as razões do Itamaraty para isso. Cada vez mais o enriquecimento de urânio entra no discurso executivo brazuca. Mas, para o Brasil, qual é a vantagem de negociar com o Irã, especialmente no longo prazo?

A Turquia poderia alegar razões estratégicas-geográficas “O Irã fica aqui do lado!”, mas o Brasil não tem razões históricas ou contingenciais para fazer esse acordo agora. Quer dizer, só se a razão for querer aparecer e adquirir algum tipo de relevância.

A história não tá pegando muito bem. Duas colunas no Washington Post nos últimos sete dias resolveram sentar o cacete no governo brasileiro (aqui e aqui). Achei os argumentos bestas. Especialmente do segundo cronista, que acha um escândalo o Brasil “ignorar o brutal governo Iraniano”. Por favor, o maior parceiro comercial dos Estados Unidos é a China. Ninguém se importa com a brutalidade alheia.

O problema desta nova atitude da diplomacia brasileira é o alinhamento. Estamos ignorando aliados históricos e procurando novos aliados. Fico curioso dos benefícios para a diplomacia brasileira em mostrar simpatia por um barco que está afundando. O governo iraniano mal dá conta das pressões internas e agora vai virar um grande parceiro comercial-militar do governo brasileiro?

Claro, o Irã – mesmo se conseguir a bomba – não vai correr o risco de virar uma grande piscina de vidro ao atacar Israel. Mas este não é o ponto para o Brasil: enquanto o Marco Aurélio Garcia fala do “escândalo” das sanções externas, o Irã perde a neutralidade da China e da Rússia. Os ratos vão abandonando o navio iraniano, e o Brasil vai alegremente a bordo com toda sua bagagem diplomática – esperando poder pular de volta para o porto seguro dos aliados históricos caso a coisa fuja de controle. Mas cabe a pergunta: e se o porto seguro negar entrada, para onde vai a diplomacia brasileira?

Waldemar golpista

Walter Valdevino | Brasil 13:51 | 18/05/2010

Estava vendo os últimos posts daquele que – você já sabe – é o maior blog do univer$o, e achei genial o post com desenhos do ilustrador russo Waldemar Kazak.

O problema é que, lá pelo meio dos desenhos, tem este, publicado em dezembro passado na revista Medved (clica na imagem para ver melhor quem é o a$$ador):

Chamar o Ahmadinejad para bombardear a Rússia e seus Papais Noéis golpistas URG.

Sentando na mesa dos adultos

Fabricio Pontin | Estados Unidos 14:51 | 07/03/2010

Constatação rápida: a imprensa americana está cagando e andando para a história da compra dos aviões.

ã?

Assim: sabe a história que o Brasil estava criando um episódio diplomático porque insistia em comprar os caças franceses e blah? Pois é, ninguém se importa com isso no Pentágono. A Clinton não está dando o tour pela América Latina para pressionar a compra de material militar. Ela está dando uma banda pela América Latina para apresentar uma nova política externa para a região.

Parte disso é a constatação que a América Latina quer ter uma agenda internacional própria. Não que isso constitua, necessariamente, um problema. Mas, abre a cortina e Ahmadinejad aparece abraçado no Lulão e no Chavão.

Clinton começa a sangrar pelo nariz. O passeio do Ahmadinejad pela América Latina, sorrindo para as câmeras, saudado como líder legítimo de uma nação soberana,  é o principal fator que motiva a viagem da Sra. Clinton. Afinal de contas, não interessa para ninguém que um dos países membros do Conselho de Segurança da ONU (ainda que membro não-permanente) possa permanecer neutro diante dos interesses atômicos do Irã.

O ponto da política externa brasileira é que o programa atômico iraniano tem a mesma função que o brasileiro, ou seja, é um programa pacífico voltado para a produção de energia limpa. Claro, a gente pode questionar aqui o quanto a produção de energia pode ser “pacífica” – me parece que isso exige um tipo de crença similar com a que acredita no interesse unicamente científico de mandar um míssil para a Lua.

Mas a diplomacia brasileira sustenta, por enquanto, uma neutralidade diante do programa nuclear iraniano. Assim como é neutra diante do regime cubano e ainda não lançou nenhuma nota de repúdio contra as FARC. Tudo bem, tu podes argumentar que é uma questão de consistência, já que o Brasil historicamente não toma lado em questões da chamada “soberania interna” e tu poderias argumentar que energia e defesa são questões de soberania interna.

Este posicionamento é muito compatível com potências como Luxemburgo, Mauritânia, Uruguai ou Trinidad e Tobago. Acontece que se tu estás na mesa com gente adulta é bastante possível que tu tenhas que se posicionar de forma mais assertiva do que “é, legal, eles nas deles nós na nossa, beijas!”. Por enquanto, o Brasil segue na posição confortável de dizer que não adianta sancionar o regime iraniano.

Esta posição, do ponto de vista americano, é totalmente inaceitável. E a Clinton esteve no Brasil justamente para tentar argumentar a necessidade de um discurso homogêneo por parte do Conselho de Segurança da ONU – e para mostrar uma mão amiga com relação ao Chile. Para a política externa brasileira poderia ser interessante tentar mostrar força e manter uma posição neutra. Seria interessante na medida que mostraria capacidade de resistir à pressão do Pentágono. Mas o problema é que daí a neutralidade é apenas retórica. Ao resistir à pressão de posicionamento contrário ao programa nuclear de um país que adota um discurso um tanto belicista quanto aos seus vizinhos, o Brasil não está sendo neutro.

Vale lembrar, o Brasil é o único país do BRIC (Brasil-Russia-India-China) sem a bomba nuclear. Também é o único país que permanece sem um posicionamento claro neste debate. Não quero fazer mais uma crítica barata da política externa brasileira ao indicar esta posição neutra, apenas constatar que os Estados Unidos parecem saber que a política externa brasileira condiciona o posicionamento dos demais países na América do Sul e o atual conflito político do governo norte-americano com o Irã pode escalar para um conflito militar rapidamente – e aí? Como fica a história? O secretário assistente da Hillary tem a declaração chave na Foreign Policy:

“While we’re cognizant of the fact that the Brazilian government has reached out to Iran and has been approaching the Iranians, it’s very much on our agenda to try to insist with the Brazilians that in their engagement with Iran, we would like them to encourage the Iranians, of course, to meet their international obligations,” he said, adding that the State Department views Brazil’s opposition to new sanctions as a “mistake.”

Ou seja: a gente sabe que o Brasil está falando com o Irã. A gente quer que o Brasil comunique nossa agenda para o Irã como nosso aliado. Seria um erro deixar de se comportar como um aliado dos Estados Unidos.

O recado é mais ou menos assim: olha, a gente tá deixando vocês sentarem na mesa com a gente. Mas mantenham em mente que na hora que vocês começam a derramar vinho caro no chão e falar babaquice, a gente vai botar vocês de volta na mesa com as crianças.

Isso tudo no contexto dos Estados Unidos retomando uma posição de multi-lateralidade e tentando resolver as coisas pela via das Nações Unidas. Seria uma oportunidade interessante para o Itamarati se colocar como parte de uma deliberação da ONU que fosse resultar em alguma coisa concreta – e pode ser uma má idéia ficar do lado “neutro” da história quando a comissão de energia atômica e o conselho de segurança da ONU parecem estar se movendo para realmente colocar o Irã na parede.

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