Mega post: WikiLeaks

braziu.org 15:53 | 04/12/2010

Leandro Demori – Itália

Seguiu a lógica de uma bela capa de jornal a bomba de documentos revelados pelo WikiLeaks: uma notícia importante para a manchete, uma notícia importante para a segunda linha e um maço de gossip para companhia. As pessoas amam.

Quando eu era editor do Terra conseguia fotografar cada minuto da alma do brasileiro olhando para as estatísticas de acessos das notícias na capa do portal. A notícia importante em destaque, em fonte grandona e com várias linhas de apoio tomava uma surra do gossip que mostrava a mais nova briga de um reality show qualquer publicado no rodapé do site.

Não precisamos que a diplomacia americana nos diga que Berlusconi é um babá do sexo, que Angela Merkel é pragmática, que Sarkozy usa Carla Bruni para ajudar nas negociações com outros países ou que Hugo Chávez é um maluco. Mas o gossip foi justamente aquilo que chamou a atenção das pessoas para o vazamento dos dados. Quem se importa com o programa nuclear do Irã ou com a presença do Hammas e do Hezbolah na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai? É tática, e vencedora.

A coluna de fofocas oficializadas pelos embaixadores americanos pelo mundo não significa que a diplomacia americana seja fútil e pior do que a dos outros países. A única diferença entre a diplomacia americana em relação às outras é que seus documentos foram a público. Bastou meia dúzia de documentos saídos do Brasil para mostrar que um ministro do governo brasileiro, Nelson Jobim, estava dando lá suas rasteiras em seus pares de salão. Se abrir o Itamaraty todo não sai coisa muito diferente disso.

É claro que é tudo mentira. Jobim já negou, imagina, que bobagem. Como diz o filósofo, inauguramos a fase do Descartes pós-ideológico: “Nego tudo, portanto existo”. O próximo passo será o Galileu pós-wikilítico: “eppur si muove”, gritará alguém, jurando que a Terra gira, sim, em torno do sol — apesar dos desmentidos oficiais — antes de ser declarado inimigo do povo.

Sérgio Leo: Oliveira, o canalha da redação: “ih, é verdade mesmo, o governo já divulgou até nota de desmentido”. Na capa da Folha online de quatro dias atrás, ao mesmo tempo, três notícias se acotovelavam logo abaixo de uma manchete sobre o WikiLeaks: “Dados são ‘insignificantes’, diz Lula; Jobim nega ter dito que colega ‘odeia os EUA’; Bolívia nega que Evo tenha tumor.” É a Tríplice Confirmação da Verdade.

A China bloqueou acesso aos documentos. O jornal Le Figaro, de propridedade do sarkozista Dassault — vendedor dos caças para o combo Jobim/Lula/Viumanão gosta da Wikileaks. Hillary Clinton acha .

Batendo datas com notícias, parece que a maior preocupação americana na sudamerica continua sendo Hugo Chávez. Desperdício. Oito telegramas saem da embaixada de Brasília pros EUA no dia em que Chávez mandou o embaixador americano embora da Venezuela. Rolam umas boas pesquisas (e teorias da conspiração) com esse método: pega-se os docs. que saem de Brasília, olha-se os dias com bom volume de correspondências e bate-se com os acontecimentos daquele dia em uma simples pesquisa no Google.

Muitos docs. saem de Brasília no dia 12/8/2005, por exemplo. Dá pra especular sobre o motivo: aqui e aqui. Pode-se também ter algumas pistas sobre os novos cenários possíveis de guerra envolvendo os EUA (e os motivo$).

Uma das grandes questões agora é saber quem são os informantes das embaixadas, o que pode dizer mais sobre tudo do que os documentos em si. No caso do Brasil, um dos principais, por hora, é o ministro da Defesa Nelson Jobim, pintado como uma espécie de lobbista e cagueta [palavra pra ficar no clima Rio de Janeiro da semana]. São 250 mil documentos, quase nada ainda veio a público. Teremos semanas tórridas.

Pedro Augusto – Alemanha

Público x impublicável

Nem tudo o que o Estado faz pode ou deve ser público e/ou publicado. Assim como em um relacionamento não se revela absolutamente tudo o que se pensa sobre o companheiro, também nas relações entre os países alguma medida de sigilo e segredo é necessária para uma convivência pacífica.

Nas relações entre duas nações soberanas, os direitos individuais são apenas mediatamente afetados. Desta forma, não há que se falar em um direito individual à informação sobre todos os passos estatais. A própria política, com seus instrumentos de controle e limitação, deve ditar os passos deste tipo de segredo estatal. Isso não quer dizer, de forma alguma, que todos os atos estatais devam ser públicos. Até hoje, como se sabe, os arquivos da Guerra do Paraguai e muitos dos arquivos da ditadura militar ainda estão sob segredo, ficando vedada a sua consulta.

Se tal foi decidido, deve haver razões suficientemente fortes para que se mantenham longe do alcance público. Concordando ou discordando disso, o fato é que qualquer mudança deve se dar pelos meios legítimos da democracia, com votação pelo parlamento ou por mandamento dos tribunais. (Aos entusiastas do vazamento: Imagine que o leitor tenha um processo correndo em segredo de justiça, envolvendo uma briga familiar. O vazamento da WikiLeaks desse processo deve ser comemorado?!)

Na atual lógica, após Wikileaks, não existe mais segredo estatal. Por mais sensível que seja, tudo pode ser público e publicado. Independentemente das consequências (nota necessária: por alguma razão desconhecida, a maioria dos documentos secretos publicados dizem respeito aos Estados Unidos. Teóricos da conspiracão terão meses, quiçá anos, para exercer suas atividades).

Não se tira, obviamente, uma função positiva desses vazamentos. Se isso servir como forma de controle para que atividades de escutas ilegais não sejam ordenadas por chanceleres, estamos dentro do terreno do desenvolvimento das instituições democráticas no plano internacional. Se o vazamento levar à descoberta de agentes infiltrados num país como a Coréia do Norte, que serão invariavelmente torturados e mortos, fica a dúvida se isso, realmente, ajuda no fortalecimento dessas mesmas instituições. Exemplos não faltam.

Maurício Boff – Argentina

Os sete pecados do governo argentino (segundo a diplomacia norte-americana)

“Almost as if according to some natural law, in every century there seems to emerge a country with the power, the will, and the intellectual and moral impetus to shape the entire international system in accordance with its own values”.

Henry Kissinger, em Diplomacy

Em plena efervescência do debate em torno do vazamento dos telegramas trocados entre diplomatas norte-americanas e o QG da Secretaria de Estado, em Washington, confesso que fiquei perdido, atordoado, emocionado, irritado, satisfeito, desinformado e, ao final, soltei um sorriso-maroto-garoto típico de final de uma boa piada. Sedento por analisar cada comentário diplomático norte-americano sobre os presidentes sul-americanos, deixei de lado a leitura de Moby Dick (droga, não quero terminar meus dias como Leonardo Zelig), os estudos, a mulher, o cachorro, a horta de ervas-finas na sacada do apartamento, o trabalho e o show do João Bosco na quinta-feira.

Mentira. Mas sou brazileiro. Logo, nunca saberá, nem mesmo o serviço secreto norte-americano. Esqueça, portanto. Falo sério. Importa, sim, lançar algumas impressões quase uma semana depois de análises de jornalistas, historiadores, diplomatas, sociólogos e pessoas comuns por todo o mundo, sobre a organização de Julian Assange, o @WikiLeaks. A meu ver, concretiza-se um movimento de discussões que, até hoje, era imprevisível e no melhor estilo Black Swan.

Mas desconfie, e desconfie muito. Como já mencionei por aqui, estou mais para a turma da ponta de baixo na escala de 0 a 10 entre os expertos –- e não pretendo sair dessa zona. É muita responsabilidade. Troco-a pela autonomia do (não) pensar. Portanto, humildemente, convido-o a passear pelos meus sentimentos. Shanti.

+ Gula (telegrama 001235, em 09/11/2009)

“Tivemos várias conversas com os dois primeiros chefes de gabinete da [presidenta] Cristina Fernández de Kirchner (CFK), Alberto Fernández e Sérgio Massa. O embaixador tinha uma reunião introdutória em 28 de outubro com Alberto Fernández, que atuou como Chefe do Gabinete em administrações tanto de Néstor [Kirchner] e de CFK (…) O embaixador e DCM tiveram um jantar em novembro com o segundo-chefe de gabinete de CFK, Sérgio Massa, e sua esposa, a eleita vereadora, Malena Galmarini, na casa do ex-assessor de Massa na Casa Rosada, o empresário Jorge O’Reilly. Em cada uma das conversas, os dois peronistas, que durante seus mandatos na Casa Rosada trabalharam todos os dias com os Kirchners no andamento do governo argentino, foram bastante francos ao expressar seu estranhamento do casal Kirchner e seu pessimismo sobre as perspectivas políticas do ‘casal no. 1′ ['first couple', como os K são chamados nos telegramas]. (…) Massa foi contundente em sua crítica do ‘casal no. 1′, especialmente a Néstor. (…) Ele chamou Néstor de ‘psicopata’, ‘um monstro’, e ‘covarde’ cuja abordagem política mascara um profundo sentimento de insegurança e inferioridade. (A esposa de Massa mostrou-se alarmada frente a tais comentários desinibidos ao ponto de pedir que ‘pare de fazer caretas para mim.’) Ele contestou o argumento de que Néstor merecia crédito como um estrategista astuto, e descreve o ex-presidente como equivocado e tão convencido de seu brilho próprio que certamente voltaria a fazer seus erros. (…) Ele disse que Néstor não poderia relacionar-se com quem estivesse fora de suas ambições políticas: ‘Kirchner não é um gênio perverso’, concluiu Massa. ‘Ele é apenas um perverso’.”

+ Avareza (telegrama 001017, em 10/09/2009)

“Aníbal Fernández [chefe de gabinete de CFK] tem sido para nós o membro mais acessível e inclinado do gabinete da presidenta Cristina Fernández de Kirchner, acolhendo governamentais dos Estados Unidos receberam treinamento policial e da cooperação. (…) Mais político do que diplomata, [Fernández] constrõe feudos e detesta perder o controle sobre esses recursos estratégicos. (…) Um interlocutor pragmático e politicamente esclarecido, Fernández prefere não envolver o seu pessoal em reuniões com funcionários da Embaixada [dos EUA]. Embora esteja sempre bem preparado, o seu discurso e comportamento podem às vezes ser grosseiro. Em mais de uma vez, ele fez evidentes comentários sobre uma atraente tradutora durante uma reunião com funcionários dos EUA que estavam de visita. Ele se referiu à existência de uma ‘procura local por órgãos genitais jovens’ enquanto explicava sobre os desafios que enfrenta sua pasta no combate ao tráfico humano com fins de exploração sexual.”

+ Luxúria (telegrama 000071, em 04/02/2010)

“Embora o orçamento militar argentino está mal preparado para qualquer curso de ação que envolva a projeção de poder, o governo da Argentina provavelmente assim se sentiria compelido a pressionar, por qualquer meio possível, a reivindicação histórica [sobre as Ilhas Malvinas/Falklands] logo de uma descoberta de petróleo. Uma estratégia de conversação dura, queixas em fóruns internacionais, e cartas de protesto são esperados, além de sanções econômicas aplicadas contra as empresas atuantes [no arquipélago], mesmo que isso possa prejudicar a produção argentina de petróleo e gás natural.”

+ Ira (telegrama 002345, em 14/12/2007)

“Em 14 de dezembro, a imprensa argentina continuou a dar ampla cobertura à furiosa reação do governo argentino às alegações do FBI de que os U$ 800 mil interceptados 04 de agosto por oficiais argentinos foi uma contribuição em dinheiro da BRV para a campanha presidencial de Cristina F. De Kirchner (CFK). (…) O embaixador usou uma recepção programada para antes das férias para mais de 100 jornalistas de jornal, rádio, TV no dia 14 de dezembro para a divulgação da orientação de Washington sobre o caso. Vários jornalistas de rádio utilizaram seus telefones celulares para transmitir no ar as palavras do embaixador, e muitos deixaram o encontro depois do embaixador concluiu a história. Várias histórias sobre o que disse o embaixador no encontro já bateu estão sendo divulgadas. Esperamos que as observações do embaixador na Argentina domine as manchetes no sábado. (…) O que começou como um dia negro para a imagem dos EUA na Argentina – com manchetes de ataque por CFK e outros sobre as nossas intenções supostamente escuras – está terminando com uma nota mais esperançosa, como um trabalho rápido por parte do Estado, da Justiça e do FBI de revisão e de orientação sobre a questão nos permitiu apresentar nossa versão para um grupo cativo de jornalistas argentinos. Como a primeira semana da administração CFK se aproxima do fim, demos aos pragmáticos informações sobre o governo argentino para que possam trabalhar pelo convencimento de CFK de que saia do precipío que se meteu e volte a dialogar com o governo norte-americano a partir da segunda semana de mandato presidencial. Veremos sua reação e resposta nos próximos dias.”

+ Melancolia (telegrama 000827, em 09/07/2009)

“Há um outro fator externo que faz improvável que a Argentina adote a política bolivariana – a influência crescente do Brasil aqui. O representante local do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o brasileiro Daniel Oliveira, disse ‘econoff’ recentemente que ‘a Argentina tornou-se tão importante para o Brasil como o México é para os Estados Unidos’. Com uma intercâmbio comercial de U$ 31 bilhões e mais de U$ 10 bilhões em investimentos brasileiros sendo injetados na economia argentina desde 1997, o Brasil está fortemente empenhado aqui, e não é tímido sobre a defesa de seus interesses. A imprensa local relatou que Lula chegou a dar telefonemas em julho de 2008 para evitar que os Kirchners abandonassem o poder na sua frustada tentativa de pressionar o Congreso a aumentar os impostos sobre as exportações agrícolas. Lula e seus associados continuarão a ser uma importante influência moderadora sobre os Kirchners.”

+ Preguiça (telegrama 000853, em 22/07/2009. substituída aqui por psicodrama. Leia e entenda)

“Outros observadores apontam fatores de estresse psicológico em suas previsões para uma muito próxima crise democrática. Esta linha de raciocínio encontra duas vertentes: a de que o poderoso Néstor Kirchner é bem centrado em seu conjunto de formas intransigentes de se adaptar, ou a de que ele (ou ele e CFK) estão se tornando cada vez mais instáveis e incapazes de governar. Como um bem relacionado banqueiro nos disse, o casal Kirchner poderia se recuperar alterando o rumo e adotando uma postura mais moderada, mas Néstor Kirchner, em especial, é incapaz de mudar. Em vez disso, ele vai embarcar numa lamúria desastrosa contra os ‘traidores’ os quais culpa pela derrota eleitoral, levando o governo ladeira abaixo. Em apoio desta tese, Fraga [Rosendo Fraga, analista político] defende que a personalidade de Néstor ‘não pode mudar’, mas que a opinião pública argentina pode. Ela não quer mais um lutador obstinado como fez Néstor Kirchner quando tomou posse em 2003; hoje, os argentinos querem uma liderança consensual que os Kirchners não pôdem e não vai proporcionar.”

+ Orgulho (telegrama 001311, em 09/12/2009)

“Mais uma vez, o governo Kirchner tem se mostrado extremamente sensível e intolerante às críticas que recebe. As preocupações sobre a fraqueza das instituições nacionais, e o Estado de Direito, em particular, é uma parte do que é relatado na imprensa argentina por acadêmicos, empresários, juízes, políticos da oposição, especialistas e organizações não-governamentais. Os argentinos são bastante conscientes de que a Argentina não está atraindo tanto investimento quanto Brasil, Chile e outros países da região. A ansiedade da comunidade empresarial sobre as mudanças arbritárias e caprichosas das regras do jogo é bem conhecida do público argentino e do governo. Somente quem é muito Kirchnerista concordará com a afirmação de Randazzo [ministro do Interior, Florencio Randazzo] de que a Argentina oferece ‘todas as garantias institucionais e jurídicas’, ou a afirmação do Ministério de Relações Exteriores de que não tem conhecimento de qualquer insatisfação por parte das empresas americanas. Para a maioria dos argentinos, isso é uma ironia ou declarações falsas e cínicas. Dito isto, esperamos que esses contratempos logo se esgotem, como já aconteceram em episódios semelhantes no passado.”

Não precisa usar a imaginação. Kissinger está com a razão: o ímpeto intelectual e moral norte-americano moldou com seus próprios valores o mundo. Essa é a natureza do Homem e ponto final.

Gabriel Brust – França

Sarkozy e suas mulheres

A reação da imprensa francesa ao cablegate passou por dois momentos diferentes desde domingo. A primeira, imediata, foi a negação escandalizada. Figaro e Liberation, direita e esquerda no espectro dos jornais, condenaram o vazamento. O primeiro com o frágil argumento da segurança internacional. O segundo, mais razoável, criticando o fato de o WikiLeaks mirar e tentar desestabilizar democracias, enquanto se cala ou pouco faz para investigar regimes totalitários. Regimes totalitários, aliás, que seriam o alvo principal do WikiLeaks segundo os conceitos iniciais do site, formulados por seu criador.

A revista eletrônica Rue89 resgatou os textos do blog de Julian Assange, não mais online, escritos antes do lançamento do WikiLeaks. Pelo tom de seus textos na época, parecia que Irã e Coréia do Norte teriam algo a temer diante de sua ideia. O tempo revelou o óbvio: é bem mais fácil (e totalmente legítimo, diga-se de passagem) brincar de justiceiro em democracias do que fazer uma pegadinha do Mallandro com o Kim Jong-Il.

A segunda etapa da reação francesa ao Cablegate é parecida com o que aconteceu no resto do mundo: o desdém em relação ao conteúdo dos arquivos assim que os primeiros foram revelados. De fato, como na maior parte do globo, não há nada que cause maiores estragos para a França nos telegramas revelados (até agora). Mas há material farto para o esporte preferido dos franceses – e da imprensa, principalmente –: praticar o bullying impiedoso de Nicolas Sarkozy.

Sobram passagens desabonadoras, no plano pessoal, para o chef d’état e suas mulheres. Sim, porque os yankees malvados, em seus telegramas, não pouparam nem o tema que o próprio Sarkozy reconhece como seu “calcanhar de aquiles”: a ex-mulher, Cecília Ciganer. Segundo o embaixador americano, em 2007, após o divórcio, havia dúvidas se Sarko teria estabilidade emocional para conduzir o país. Descreveu o presidente como dependente da ex-mulher. Quando começa o novo romance do galã, dessa vez com a modelete Carla Bruni, o embaixador fofoca para seu governo, em Washington, que as aparições públicas do presidente com a nova mulher são mais condizentes com um milionário excêntrico do que com um chefe de estado. Conversa de comadre das boas, para saborear com o chá da tarde.

E é justamente numa passagem sobre Carla Bruni que o Brasil aparece nos telegramas do embaixador americano em Paris. Segundo o diplomata, Sarkozy estaria usando a popularidade de sua mulher no Brasil para estreitar as relações com o país. Charles Rivkin diz que a há um “caso de amor” entre Lula e Sarkozy, e que a população brasileira aprecia muito o fato de o casal presidencial francês passar as farias no país. Particularmente, eu nunca soube que Bruni gozasse de qualquer popularidade no Brasil. Sua carreira como modelo está encerrada há tempos e seus chatíssimos discos, que eu saiba, nunca chegaram perto de serem populares no Brasil. Mas é provável que o embaixador saiba mais sobre a banânia do que eu.

Por fim, o último bulling da imprensa contra Sarkozy – debate dos jornais nesta quarta-feira — é acusá-lo de “cheerleader” dos yankees. Isso porque os telegramas comentam a vida privada de Sarkozy, mas pour outro lado o cobrem de elogios. O descrevem como “o presidente mais pró-Estados Unidos desde a Segunda Guerra”, afirmam que ele “se reconhece nos valores americanos” e teria se revelado, inclusive, ser um grande admirador de George W. Bush. Imperdoável para os franceses.

Érica Manssour – China

Tá tudo bem

A julgar pela cobertura da imprensa chinesa, não há qualquer envolvimento de Beijing com essa história ae. O site encontra-se devidamente bloqueado e o foco de notícias relacionadas ao tema é mais na acusação de estupro e na ordem de prisão do Julian Assange pela Interpol do que qualquer outra coisa. Tudo bem por aqui.

Obituário de um ministério populista (e a sobrevida de seus herdeiros)

Gabriel Brust | França 12:20 | 16/11/2010

Duas palavrinhas mágicas se tornaram o estopim mais frequente de discussões na imprensa e nos cafés das universidades na França ao longo do governo Sarkozy: identidade nacional. Promessa de campanha do então candidato da UMP, trazer essas duas palavrinhas mágicas para o tabuleiro era ponto fundamental para se discutir uma terceira palavra ainda mais safadinha, a imigração. Foi com esta política farejadora de votos de direita que Sarkozy criou, em 2007, o pomposo Ministério da Imigração, da Integração, da Identidade Nacional e do Desenvolvimento Solidário, falecido no início desta semana com pouca repercussão e quase nenhuma lágrima da viúva. Mas deixando herdeiros saudáveis e prontos para seguir seu legado.

Na prática, com a dança dos ministros e ministérios empreendida por Sarkozy e seu mais forte do que nunca primeiro-ministro François Fillon, a “imigração” voltou a fazer parte do nome de outro ministério, o do “Interior, de Ultramar, das Coletividades Territoriais e da Imigração”. A famigerada “identidade nacional” que, segundo a esquerda francesa e mesmo alguns integrantes da direita, dava uma conotação xenófoba à questão da imigração, desapareceu. Mas pouco há de simbólico na extinção do ministério e desse remanejamento. Ele apenas confirma o que sempre se soube: a criação da pasta se deu por motivos eleitorais, para ir ao encontro da crescente – e justificável – inquietação dos franceses com a questão da imigração. O problema é que, passados quatro anos de sua implantação – e um verão de 2010 intenso em combate a imigrantes romenos e búlgaros da comunidade cigana –, tudo leva a crer que a tática não funcionou. O eleitor de esquerda continua a ver Sarkozy como o diabo, o de direita não parece ter se comovido com a ação do governo e a popularidade do presidente nunca foi tão baixa.

Mas as políticas de imigração do governo Sarkozy, mesmo que agora com menos visibilidade, não devem mudar. E dois nomes de confiança do presidente, consolidados na reforma ministerial que expurgou do governo muita gente ao longo desta semana, nos levam a crer nisso. A viúva da pasta, o ministro Eric Besson, ganhou poder com a reforma, e foi alçado à área de Indústria e Energia. E em sua primeira entrevista afirmou que carregar a questão da identidade nacional “não foi nenhuma cruz” e que a assume “perfeitamente”. Mas talvez o sinal mais claro de que a política não muda é que a imigração foi parar logo na pasta de Brice Hortefeux. Expoente direitista da UMP, Hortefeux geriu a pasta da Identidade Nacional no início do governo, antes de Besson, entre 2007 e 2009. Para se ter idéia do brilhantismo de Hortefeux, basta dizer que ele foi condenado, em junho deste ano, em primeira instância, por “injúria racial”, após largar uma piadinha maldosa na cara de um militante de seu próprio partido, de origem magrebina: “Quando tem um só deles tudo bem. O problema é quando estão em bando”, falou, abraçando o jovem aos risos (vídeo abaixo). Enquanto não é condenado definitivamente, o amigo de 30 anos de Sarkozy segue firme no governo.

Hortefeux sacaneia o argelino aí em cima com tanta naturalidade que parece nem ter idéia do contexto político em que vive hoje, uma França em que tudo vira acusação de racismo, seja quando há racismo (no caso do próprio Hortefeux claramente), seja quando não há. A questão racial serve ao discurso político permanentemente, e mais um exemplo surgiu esta semana, com o lançamento da Carte Musique, uma espécie de “bolsa-mp3”. Pois é, o governo que o pessoal da Sorbonne chama de ultra-fascista-neoliberal-direitista-destruidor-do-Estado acaba de criar MAIS uma subvenção estatal, desta vez uma ajuda para incentivar os jovens a comprarem mais música mp3, e não piratearem. Uma das propagandas que estão na TV traz um jovem negro ouvindo hip hop, usando roupas não muito diferentes das de seus ídolos (vídeo abaixo). O deputado Nicolas Dupont-Aignan não teve dúvida em chamar o anúncio de racista, denunciando que ele mostra “um jovem negro como um idiota fingindo de pseudo-rap”. “Os jovens do nosso país, seja qual for sua origem, não são idiotas de circo”, completou o deputado.


Spot carte musique Rap
envoyé par culture-gouv. – Clip, interview et concert.

Enquanto isso, na França…

Gabriel Brust | França 11:24 | 12/10/2010

Acima uma amostra da manifestação que ocorre neste momento no Boulevard Saint-Germain, região central de Paris, na Rive Gauche. Pelo volume de pessoas nas ruas, essa parece ser a greve mais bem sucedida das últimas semanas — todas elas dedicadas a barrar o projeto de reforma das aposentadorias proposto por Nicolas Sarkozy.

Na última sexta-feira, o senado aprovou a primeira medida que dá iníco à reforma: com 185 votos a favor e 153 contra, foi decidido elevar a idade mínima para aposentadoria de 60 para 62 anos. A generosa aposentadoria aos 60 anos havia sido  instaurada em 1982 pelo então presidente socialista François Mitterrand. O argumento do governo atual é o óbvio: após alguns anos, as contas simplesmente não fecham mais.

A queda de braço entre governo e sindicatos já dura bastante tempo, mas tudo leva a crer que Sarkozy vencerá. Apesar da mobilização popular hoje ser grande aqui em Paris, não se pode falar em adesão total da população. A greve segue restrita aos setores de sindicato mais forte, como os ligados ao transporte. O trânsito está caótico, mas a maior parte dos serviços funciona normalmente. Um movimento iniciado na Universidade de Paris 4 tentou convocar os estudantes a se unir às manifestações, mas, a julgar pelo que vi na Paris 5 pela manhã — e segundo relatos de amigos da Paris 1 –, a adesão estudantil também é pequena. Abaixo, algumas estrelas que desfilam na avenida neste momento:

A censura no Figaro, os aviões Rafale e o governo Lula na imprensa francesa

Gabriel Brust | França 19:22 | 06/10/2010


Brasil, Terreno fértil para empresas francesas“, diz o Figaro

Lembra dos Rafales, aqueles aviões militares fabricados pelos franceses que ninguém no mundo queria comprar a não ser o Lula? O presidente atropelou as Forças Armadas ao anunciar o negócio bilionário, por razões políticas, mesmo com todos os especialistas apontando os Rafales como a pior opção do mercado, verdadeiras sucatas voadoras. Lula voltou atrás, e a compra segue em suspenso. Pois os Rafales voltaram ao noticiário francês de forma meio enviesada. O caso é sobre o jornal conservador Le Figaro e foi denunciado pelo Le Monde, em solidariedade aos colegas jornalistas do concorrente. Senta que lá vem a história.

O Figaro é assumidamente a voz conservadora da França – mesmo que isso signifique, para os padrões franceses, ser tão de direita quanto o Frei Betto. Acontece que nos últimos tempos começou a haver uma debandada de importantes jornalistas, ao ponto de a SDJ do jornal (as SDJs são as associações de jornalistas que cada redação tem) abrir uma investigação para saber o que estava acontecendo. O objetivo era apurar as denúncias de que os jornalistas estariam trabalhando sob níveis excessivos de pressão do diretor de redação e da empresa proprietária do jornal no sentido de radicalizar a linha editorial. O proprietário do Le Figaro é nada menos que o grupo Dassault, uma holding gigante que atua em diferentes mercados – incluindo a fabricação dos aviões Rafale.

A principal reclamação dos jornalistas, segundo a investigação do SDJ, é a linha exageradamente favorável a Nicolas Sarkozy, o que estaria emudecendo inclusive outras vozes conservadoras do país. Um exemplo, segundo declarou um redator em depoimento obviamente anônimo, foi a declaração do papa Bento XVI criticando a política de deportação dos ROMS, um das obsessões de Sarkozy. O jornal teria ignorado o discurso do Papa, mesmo que a forte cobertura católica seja uma das tradições do Figaro.

O outro exemplo que surgiu nessa investigação – e agora chegamos finalmente aos Rafales – foi o de uma reportagem publicada no mês de junho que denunciava a compra de “materiais de segurança” israelense por parte dos Emirados Árabes Unidos. Acontece que o governo dos Emirados não gostou nem um pouco da reportagem investigativa do Le Figaro. E pior: estava em plena negociação para comprar uma meia-dúzia de Rafales e finalmente desencalhar o estoque da Dassault.

Baixou-se então uma ordem clara na redação do jornal — que foi fundado em 1826 e tinha justamente na cobertura internacional independente um de seus pilares –: artigos que envolvessem países com os quais a Dassault estava negociando os Rafales teriam que passar por uma leitura “sob a lupa”, antes de serem publicados. E, dessa forma, todos os artigos sobre Brasil, Líbia, Emirados Árabes e Suíça entraram na roda. Segundo jornalistas, pelo menos duas reportagens foram inteiramente censuradas no último mês de agosto. Nenhuma das duas envolve o Brasil. Já a página inteira dedicada pelo jornal a Lula no mês passado, intitulada “Como Lula Mudou o Brasil” (reprodução no fim deste post), um amontoado de mistificações e clichês, não sofreu, obviamente, nenhum retoque.

O episódio ajuda a explicar por que não se publica, na imprensa francesa, uma única linha verdadeiramente crítica ao governo Lula. De um lado, há a imprensa de direita, de Sarkozy e dos empresários, querendo vender seus aviões e quetais. Do outro, com a imprensa de esquerda, muda apenas a natureza do interesse, se tornando mais ideológico. Jornais como o Liberation e revistas as mais diversas, sedentos em ter um exemplo de sucesso esquerdista depois de seu fracasso retumbante administrando a Europa, costumam traduzir releases do PT e do governo brasileiro e publicá-los como sendo reportagens. Tente contar a qualquer francês que dois ministros da Casa Civil do governo Lula caíram por corrupção – fato provavelmente inédito na história da república – e que o serviço de saúde pública e a criminalidade urbana no Brasil nunca estiveram piores. Surgirá uma cara de espanto. Não será pela imprensa de seu país que eles ficarão sabendo disso.

Como Lula Transformou o Brasil“, na opinião do fabricante dos aviões Rafale

Pesquisas: incompetência ou má-fé? E uma comparação com a França

Gabriel Brust | França 19:11 | 04/10/2010

Como bem destacou um leitor num comentário do post abaixo, são de arrancar gargalhadas as desculpas apresentadas hoje pelos entusiastas das pesquisas Sensus e Vox Populi. Os dois institutos se tornaram referência para os eleitores, fieis e seguidores da candidatura de Dilma Rousseff. Não por sua perícia técnica ou comprovada imparcialidade ao levantar dados, mas simplesmente porque, nos últimos dois meses, apresentavam  intenções de voto em Dilma e nos candidatos governistas oscilando entre 100 e 130%. Netinho de Paula, o infame pagodeiro com longo histórico de agressões, estava praticamente eleito. Vimos o que aconteceu – não ficou nem com a segunda posição, no caso mais escandaloso entre todos os erros das pesquisas desta eleição.

Mas voltando ao anedotário dos progre$$istas, que hoje resolveram “analisar” como estes institutos erraram, vale registrar algumas teses ÇenÇaÇionais:

* Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi, que em entrevista na semana passada cravou, sem titubear, “Dilma no primeiro turno”, ontem atribuiu o fiasco das previsões de seu instituto a uma suposta irracionalidade de parte do eleitorado na escolha de último momento.

* Luis Nassif, blogueiro progre$$ista, veio com teoria: Vox e Sensus fazem a pesquisa na casa do entrevistado, enquanto o Datafolha faz pesquisa em “pontos de fluxo”. Essa metodologia, segundo Nassif, favorece a captação de “ondas” ou “bolhas”, como teria sido o fenômeno Marina Silva. Se eu entendi, a tese de Nassif é a de que as pessoas que estão caminhando na rua tendem a se deslocar mais e a convencer os demais transeuntes a votar em seu candidato, enquanto caminham (???). Ok, três linhas em branco para você rir e voltamos em seguida.



Não riu o suficiente? Então reflita um pouco sobre outras teorias muito sérias, essas vindas dos leitores dos blogs progre$$istas que – não sei como! – não acreditaram muito na teses de seus gurus e criaram as suas próprias:

Eleitores direitistas maquiavélicos mentiram para os institutos de pesquisa para criar uma falsa ilusão de vitória no primeiro turno. Hmmm…. pode ser. Essa gente, sabe como é, nunca se sabe do que são capazes…

* Houve claríssima manipulação das urnas eletrônicas em todo país. Faz $entido. A tecnologia trabalha sempre a favor da burguesia. Em 2002 e 2006 as urnas elegeram Lula apenas porque acordaram bem dispostas naquele dia. Pura coincidência.

Bom, agora chega de piada (ou não).

Além dessas desculpas furadíssimas de institutos e jornalistas que até ontem davam como certa a vitória de Dilma, há também um movimento para se criar a falsa impressão de que “todos os institutos de pesquisa erraram”. Podemos dizer que ninguém acertou – e isso já é um absurdo, sem dúvida, como veremos a seguir numa comparação com as pesquisas na França. Mas dizer que todos erraram feio é uma simplificação fácil para livrar a cara de Vox e Sensus e tentar camuflar o óbvio: os dois institutos trabalharam com números irreais do início ao fim – sempre favorecendo amplamente os candidatos governistas em todas as esferas.

Em resumo, não são institutos de pesquisa, são apenas mais um braço do polvo – que, em breve, deve inaugurar também padarias e açougues influenciados pela opinião do partido. Está ficando difícil achar um mísero setor da sociedade em que os fatos reais e a opinião do PT não se misturem.

Datafolha também não acertou, mas foi o único a apontar a tendência de queda de Dilma e ascensão de Marina na reta final. O movimento detectado pelo instituto se confirmou e em escala ainda maior, como se viu. Nos dias que antecederam a eleição, o Datafolha foi, ironicamente, defenestrado pelos governistas justamente por estar acertando.

O que há de errado com o eleitor brasileiro?

Essa é a questão que surge quando observamos a distância entre o que captaram os institutos de pesquisa e o que os brasileiros fizeram ao encarar a urna. Afinal, você dirá, técnicas e metodologias de pesquisa não surgiram hoje, elas prevêem resultados de eleição e medem mil outras preferências de público há muito tempo, no mundo todo, e com reconhecida eficiência. O problema, então, só pode ser o povo brasileiro. Um professor meu na universidade por aqui costuma dizer que o Brasil é o maior laboratório da pós-modernidade – este caldeirão de hedonismo, volatilidade e despolitização em que toda a humanidade vai acabar mergulhando, mais dia menos dia. Vai ver que é isso: o povo brasileiro é pós-moderno demais para nossos institutos de pesquisa! Ora, por favor…

É claro que o problema são os institutos, que erraram por incompetência em alguns casos, e por má-fé em outros, e agora estão querendo nos convencer de que são normais os abismos entre o que eles previram e o que aconteceu. Não são. Ontem à noite, enquanto acompanhávamos a apuração e o fiasco dos institutos ia ficando cada vez mais evidente, o colega aqui do blog Mario Camera me lembrou das pesquisas da última eleição presidencial na França. Por aqui, os institutos divulgam sua boca de urna poucas horas depois da eleição e isso basta para que os vencedores e derrotados reconheçam suas condições. Não é necessário esperar a contagem oficial. Por que? Porque espera-se dos institutos que simplesmente façam seu trabalho. Na última eleição, acertaram com bastante precisão. Para que isso não pareça papo furado, nós cavocamos alguns números das presidenciais de 2007 e voilá:

1º turno

Pesquisa do Ipsos/Dell           Resultado final

N. Sarkozy  30,8 %                        31,1 %

S. Royal  25,2 %                             25,8 %

F. Bayrou  19 %                              18,5 %

JM. LePen : 10,8 %                      10,4 %

2º turno

Pesquisa do Ipsos/Dell           Resultado final

N. Sakorkozy  53 %                        53,06 %

S. Royal          47 %                         46,94 %

E não é só na boca de urna. Na mesma noite da votação do primeiro turno, ou seja, faltando duas semanas para o segundo turno, o Ipsos/Dell fez uma pesquisa sobre segundo turno POR TELEFONE COM APENAS 1089 PESSOAS. O resultado: Sarkozy 54%, Segolene Royal 46%. Outro exemplo, para encerrar: de acordo com a boca de urna, o Ipsos/Dell cravou a participação dos eleitores no segundo turno. Disse que a abstenção seria de 16%. Foi de 16,03%.

Claro que comparações sempre são problemáticas. O Brasil não é a França, o eleitor brasileiro não é o francês, a última eleição francesa não teve um fenômeno de última hora como Marina Silva. Mas, se tivesse, tudo me leva a crer que o Ipsos/Dell, por exemplo, teria detectado e cravado isso na boca de urna. O que tivemos, no Brasil, foi o Ibope nos dando, na boca de urna, 51% para Dilma (foram quase 47), 30% para Serra (beirou os 33) e 18% para Marina (quase 20).

Se depender de França e Itália, tem segundo turno

Gabriel Brust | França 16:17 | 03/10/2010

(Fila para votação em Paris hoje à tarde)

Apesar da fila de mais de uma hora impressionar, hoje à tarde, apenas metade dos 4 mil eleitores cadastrados para votar em Paris compareceu, segundo os números recém divulgados. E, a julgar pelo voto dos brasileiros “franceses”, tem segundo turno. Dilma obteve 46,2% dos votos na capital francesa. De acordo com o consulado, cerca de 2,1 mil brasileiros foram às urnas. José Serra (PSDB) teve 29,6% dos votos e Marina Silva (PV), 22,1%. Na Itália, Dilma recebeu 44% dos votos válidos. José Serra ficou com 32 % e Marina Silva obteve 19%.

É claro que nenhum destes dois países pode servir de comparação para o voto no Brasil. Mas apontam uma tendência. Voltamos logo mais.

Boca de urna em Paris

Mario Camera | França 14:06 | 03/10/2010

Pra botar na baguette

Em 2014, espero encontrar o vendedor de churrasquinho de gato e o cara do isopor de cerveja. Juntos com o rapaz do pandeiro avistado pelo Gabriel, faremos uma grande e verdadeira “Festa da democracia” para aguentar uma hora e meia de fila pra votar.

As eleições brasileiras na França e os documentos para domingo

Gabriel Brust | França 15:24 | 28/09/2010

Havia fila hoje à tarde no Consulado do Brasil em Paris no período das 14h às 15h30, faixa de horário que diariamente é dedicada à “retirada de documentos”. A fila de hoje – que deve se repetir ao longo da semana – se explica pela grande quantidade de pessoas buscando seu título eleitoral para votar no domingo. Segundo o Consulado, são cerca de de 4 mil os brasileiros aptos a votar aqui em Paris no próximo fim de semana – de um total de 200 mil eleitores brasileiros que vivem no exterior. Fazendo-se uma contagem a partir das listas de antigos (de 1986 a 2008) e novos inscritos, esse número parece ainda maior, quase chegando aos 5 mil. E se percebe também que, deste total, cerca de 2,3 mil solicitaram a transferência de domicílio eleitoral recentemente – ou seja, praticamente a metade do total deve votar em Paris pela primeira vez. O número parisiense não é tão inexpressivo se comparado, por exemplo, a Buenos Aires, de um país vizinho ao Brasil, onde apenas 3,8 mil brasileiros estão aptos a votar.

Os dados sobre a imigração brasileira na França são pouco precisos – a contagem oficial dos que moram hoje por aqui é falha, já que boa parte dos brasileiros jamais se cadastra junto ao consulado. Alguns palpites falam em 40 mil pessoas – sendo 10% ilegais. O que se sabe é que, desde 1996, quando caiu a exigência de visto de entrada, o fluxo migratório aumentou e modificou o perfil do brasileiro que vive na França (como descreve bem esta matéria, já um pouco antiga, da RFI). No lugar de intelectuais, ricos e artistas, começaram a chegar pessoas interessadas em fazer dinheiro com faxinas e serviços de pedreiro. A maioria, é verdade, se decepciona, já que não há dinheiro algum para se ganhar na arcaica economia francesa, se comparada às dos vizinhos europeus.

Apesar disso, os números sobre o cadastro eleitoral corroboram com a tese de que, a despeito da boa década econômica vivida pelo Brasil, a emigração para a França acelerou. A transferência de domicílio eleitoral passa a ser um índice confiável na medida em que, geralmente, é solicitada por quem decidiu viver aqui definitivamente, excluindo, portanto, o grande contingente de estudantes universitários que todo ano chega para passar uma temporada, virar “dotô”, e retornar ao Brasil.

De resto, os títulos eleitorais hoje eram entregues no Consulado sem qualquer explicação de como proceder no domingo. O que me leva a crer que não será surpresa se a exigência de um segundo documento com foto derrubar muita gente, por aqui também, na hora de votar. No Brasil, o PT atentou para este “fator documento” na reta final. Sabe que seu eleitorado mais pobre, vindo dos grotões, em geral não dispõe de muitos papéis. E um aumento na abstenção dos eleitores de Dilma, por menor que seja, poderá ser decisivo na votação apertada que as pesquisas estão prometendo para o fim de semana.

Sarkozy quer a CPMF mundial (eu, como Menino do MEP, acho bom)

Leandro Demori | Itália 20:50 | 20/09/2010

Nicolas Sarkozy defendeu hoje, em Nova York, que se crie um imposto sobre transações financeiras. Pelo que declarou, seria algo nos moldes da CPMF que tínhamos no Brasil. O nano francês diz que esse dinheiro deve servir para ajudar a combater a fome e derrubar pela metade o número de miseráveis no mundo até 2015.

Estive na FAO aqui em Roma quando esse objetivo foi discutido pelos chefes de Estado. A princípio achei a meta muito otimista; caso um imposto desses seja mesmo criado e caso roubem pouco, dá.

Lula (de barba) e Menino do MEP

Dias desses eu pensava justamente sobre a CPMF. Acredito que o seu fim tenha sido a maior vitória política da oposição nos anos do governo petista. As outras (as inúmeras quedas de ministros, 9 em 8 anos, por exemplo) foram obras do próprio PT. O PT, como disse um amigo dia desses, “passou quase uma década em Brasília e ainda não aprendeu e roubar direito. O PSDB ficou o mesmo tempo e foi muito mais competente nesse quesito”.

[Maldoso, ele. Não existe corrupção ou dossiês em Brasília, somente factoides e bancos de dados. O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde. É, no fundo, como editar capa de jornal.]

A maior vitória política da oposição — acabar com a CPMF — foi uma “ignorância”. Quem disse isso foi o próprio Lula (meu amigo, de barba, ali na foto), e eu, como amigo, concordo. É claro que o discurso em torno é falso (depois de anos, o recurso não estava sendo exclusivo da Saúde, motivo pelo qual foi criado) e eleitoreiro até o osso (desculpaê, cumpanhêro). Eu, como gosto mais da bandidagem que envolve o circo do que da política partidária, achava a CPMF um excelente instrumento de controle:

No final de 2000, o governo decidiu permitir o cruzamento de informações bancárias com as declarações de Imposto de Renda dos contribuintes. Assim, caso um contribuinte tenha declarado ser isento do IR e, ao mesmo tempo, movimentado milhões em sua conta bancária –o que é possível saber de acordo com o valor de CPMF paga–, sua declaração tem maior risco de ser colocada na malha fina pela Receita. [Folha]

Além disso, havia o aspecto de justiça no imposto. Como era cobrado sobre um percentual do valor das transferência$, quem movimentasse mais, pagava mais. É a síntese de tudo o que penso sobre impostos para qualquer governo que queira distribuir renda de forma eficaz, e na fonte.

O trem da alegria da nova União Europeia

Gabriel Brust | França 16:13 | 25/08/2010

O tema imigração povoa o noticiário francês de uma maneira quase camuflada. Uma nova polêmica envolvendo imigrantes surge praticamente a cada semana nas páginas dos jornais. Mas os textos são invariavelmente formulados como se o redator estivesse caminhando sobre ovos: o temor de soar preconceituoso é permanente. O politicamente correto impera na maneira como o francês se relaciona com este tema, e isso é perceptível não apenas na imprensa, mas também na convivência do dia a dia.

Puxar o assunto em rodas, seja na universidade ou no boteco, é certeza de receber olhares enviesados, que preferem mudar de conversa, ou discursos prontos vitimizando o imigrante em todos os casos – mesmo nos casos em que ele não tem razão. E, às vezes, de fato, não tem. Não há, portanto, um debate franco. Da mesma forma, não há manifestações explícitas de preconceito como verifiquei, por exemplo, na Itália, no breve tempo em que vivi por lá, e que verifico entre alguns dos italianos que conheci aqui na França. A relação do italiano com o tema é mais aberta e menos hipócrita: com frequência, o italiano assume seu pavor por africanos, árabes em geral e povos do leste europeu sem nenhum constrangimento.

Não há melhor ilustração para esse comportamento do francês do que as palavras do notório conservador Jean-Marie Le Pen no vídeo abaixo, que está sendo divulgado pelo L’Express. Ele flagra uma “tirada” engraçadinha de Le Pen disparando contra os árabes que vivem em Paris, mas a parte mais curiosa é a sequência, quando ele antevê a forma como sua piada será recebida.

“Comprei uma casa de campo para que meus filhos, que antes viviam no 15éme [região de Paris], pudessem ver vacas no lugar de árabes”.

E emenda:

“Não tenho medo de perseguição. Se eu fosse do UMP [União pelo Movimento Popular, partido de centro-direita de Sarkozy] diriam que [essa frase] foi uma derrapada. Mas já faz tempo que eu não derrapo mais, eu já estou fora da pista há muito tempo!”

Quase às gargalhadas, Le Pen ironiza: nem a direita francesa tem coragem de explicitar sua aversão à invasão árabe em Paris.

Sarkozy e os ciganos

A verdade é que, mesmo sem frases polêmicas como as de Le Pen, Sarkozy e seu UMP vem sim enfrentando a imigração em diferentes frentes de batalha – ainda que a política francesa para imigrantes seja uma mãe generosa se comparada a da maioria dos outros países europeus. Basta caminhar nas ruas de Paris para constatar. Os “sans-papier” (ilegais), por aqui, são classe organizada que faz até greve.

O episódio mais recente da política de imigração de Sarkozy, no entanto, tem contornos insólitos. Neste mês, o governo teria supostamente deportado cerca de 200 ciganos da etnia Rom para a Romênia. O “supostamente” fica por conta de dois aspectos: 1) os ciganos receberam em troca uma ajuda em dinheiro, sendo, portanto, uma “deportação voluntária” e 2) a Romênia agora faz parte da União Européia, o que permite que estas pessoas voltem a qualquer momento para a França, sem enfrentar nenhum tipo de impedimento. O governo anunciou simplesmente que fará um cadastro para que, no caso de estas pessoas voltarem, elas não ganhem o auxílio financeiro pela segunda (ou terceira ou quarta) vez. O que o governo fez, basicamente, foi caracterizar cerca de 50 assentamentos de membros da etnia Rom como ilegais. Mas ilegal não é a situação do cidadão. Confuso?

O trem da alegria da cidadania européia

Essas são algumas das contradições que começam cada vez mais a surgir conforme a União Europeia vai se ampliando. Outro dado que circulou pelos jornais franceses este mês e que dá a dimensão de como as reclamações do oeste vão aumentar é a quantidade de pessoas que poderão se naturalizar européias a partir da entrada de Hungria, Romênia e Bulgária no bloco: nada menos do que 5 milhões, além da própria população destes países. São moldavos, macedônios, sérvios, ucranianos e turcos: seus países não fazem parte da UE, mas 5 milhões deles poderão ser beneficiados por leis compensatórias de Hungria, Romênia e Bulgária destinadas a seus descendentes de imigrantes, como bem ilustra este gráfico do Le Figaro (clique para ampliar):

Em recente reportagem sobre o tema, o jornal destacou também outra frente de “invasão” de neo-europeus: a Espanha e seus latino-americanos. 225 mil pessoas, principalmente de Cuba, Argentina e Venezuela, entraram com pedido, em 2010, de cidadania europeia, baseando-se na lei sancionada pelo socialista José Luiz Zapatero que beneficia os filhos e netos de exilados da ditadura do general Francisco Franco. 117 mil já obtiveram o reconhecimento da cidadania. Os guichês da naturalização estarão abertos até o fim de 2011 e espera-se que até lá 500 mil latino-americanos venham a se tornar europeus.

A mais permissiva das leis de naturalização de descendentes de imigrantes europeus, no entanto, é praticamente ignorada neste debate, pelo menos aqui na França. É a da Itália, que desde a década de 90 dá direito a descendentes com qualquer grau de parentesco de buscar a cidadania italiana. A lei é amplamente aproveitada por brasileiros e argentinos desde então. Nada menos do que 35 milhões de brasileiros, em tese, estão aptos a solicitar a naturalização por descendência italiana. Resta saber se, com o novo trenzinho da alegria inaugurado pelos países do leste, todos terão que fechar a torneira ou, pelo contrário, abrirão cada vez mais.

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