Mega post: WikiLeaks

braziu.org 15:53 | 04/12/2010

Leandro Demori – Itália

Seguiu a lógica de uma bela capa de jornal a bomba de documentos revelados pelo WikiLeaks: uma notícia importante para a manchete, uma notícia importante para a segunda linha e um maço de gossip para companhia. As pessoas amam.

Quando eu era editor do Terra conseguia fotografar cada minuto da alma do brasileiro olhando para as estatísticas de acessos das notícias na capa do portal. A notícia importante em destaque, em fonte grandona e com várias linhas de apoio tomava uma surra do gossip que mostrava a mais nova briga de um reality show qualquer publicado no rodapé do site.

Não precisamos que a diplomacia americana nos diga que Berlusconi é um babá do sexo, que Angela Merkel é pragmática, que Sarkozy usa Carla Bruni para ajudar nas negociações com outros países ou que Hugo Chávez é um maluco. Mas o gossip foi justamente aquilo que chamou a atenção das pessoas para o vazamento dos dados. Quem se importa com o programa nuclear do Irã ou com a presença do Hammas e do Hezbolah na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai? É tática, e vencedora.

A coluna de fofocas oficializadas pelos embaixadores americanos pelo mundo não significa que a diplomacia americana seja fútil e pior do que a dos outros países. A única diferença entre a diplomacia americana em relação às outras é que seus documentos foram a público. Bastou meia dúzia de documentos saídos do Brasil para mostrar que um ministro do governo brasileiro, Nelson Jobim, estava dando lá suas rasteiras em seus pares de salão. Se abrir o Itamaraty todo não sai coisa muito diferente disso.

É claro que é tudo mentira. Jobim já negou, imagina, que bobagem. Como diz o filósofo, inauguramos a fase do Descartes pós-ideológico: “Nego tudo, portanto existo”. O próximo passo será o Galileu pós-wikilítico: “eppur si muove”, gritará alguém, jurando que a Terra gira, sim, em torno do sol — apesar dos desmentidos oficiais — antes de ser declarado inimigo do povo.

Sérgio Leo: Oliveira, o canalha da redação: “ih, é verdade mesmo, o governo já divulgou até nota de desmentido”. Na capa da Folha online de quatro dias atrás, ao mesmo tempo, três notícias se acotovelavam logo abaixo de uma manchete sobre o WikiLeaks: “Dados são ‘insignificantes’, diz Lula; Jobim nega ter dito que colega ‘odeia os EUA’; Bolívia nega que Evo tenha tumor.” É a Tríplice Confirmação da Verdade.

A China bloqueou acesso aos documentos. O jornal Le Figaro, de propridedade do sarkozista Dassault — vendedor dos caças para o combo Jobim/Lula/Viumanão gosta da Wikileaks. Hillary Clinton acha .

Batendo datas com notícias, parece que a maior preocupação americana na sudamerica continua sendo Hugo Chávez. Desperdício. Oito telegramas saem da embaixada de Brasília pros EUA no dia em que Chávez mandou o embaixador americano embora da Venezuela. Rolam umas boas pesquisas (e teorias da conspiração) com esse método: pega-se os docs. que saem de Brasília, olha-se os dias com bom volume de correspondências e bate-se com os acontecimentos daquele dia em uma simples pesquisa no Google.

Muitos docs. saem de Brasília no dia 12/8/2005, por exemplo. Dá pra especular sobre o motivo: aqui e aqui. Pode-se também ter algumas pistas sobre os novos cenários possíveis de guerra envolvendo os EUA (e os motivo$).

Uma das grandes questões agora é saber quem são os informantes das embaixadas, o que pode dizer mais sobre tudo do que os documentos em si. No caso do Brasil, um dos principais, por hora, é o ministro da Defesa Nelson Jobim, pintado como uma espécie de lobbista e cagueta [palavra pra ficar no clima Rio de Janeiro da semana]. São 250 mil documentos, quase nada ainda veio a público. Teremos semanas tórridas.

Pedro Augusto – Alemanha

Público x impublicável

Nem tudo o que o Estado faz pode ou deve ser público e/ou publicado. Assim como em um relacionamento não se revela absolutamente tudo o que se pensa sobre o companheiro, também nas relações entre os países alguma medida de sigilo e segredo é necessária para uma convivência pacífica.

Nas relações entre duas nações soberanas, os direitos individuais são apenas mediatamente afetados. Desta forma, não há que se falar em um direito individual à informação sobre todos os passos estatais. A própria política, com seus instrumentos de controle e limitação, deve ditar os passos deste tipo de segredo estatal. Isso não quer dizer, de forma alguma, que todos os atos estatais devam ser públicos. Até hoje, como se sabe, os arquivos da Guerra do Paraguai e muitos dos arquivos da ditadura militar ainda estão sob segredo, ficando vedada a sua consulta.

Se tal foi decidido, deve haver razões suficientemente fortes para que se mantenham longe do alcance público. Concordando ou discordando disso, o fato é que qualquer mudança deve se dar pelos meios legítimos da democracia, com votação pelo parlamento ou por mandamento dos tribunais. (Aos entusiastas do vazamento: Imagine que o leitor tenha um processo correndo em segredo de justiça, envolvendo uma briga familiar. O vazamento da WikiLeaks desse processo deve ser comemorado?!)

Na atual lógica, após Wikileaks, não existe mais segredo estatal. Por mais sensível que seja, tudo pode ser público e publicado. Independentemente das consequências (nota necessária: por alguma razão desconhecida, a maioria dos documentos secretos publicados dizem respeito aos Estados Unidos. Teóricos da conspiracão terão meses, quiçá anos, para exercer suas atividades).

Não se tira, obviamente, uma função positiva desses vazamentos. Se isso servir como forma de controle para que atividades de escutas ilegais não sejam ordenadas por chanceleres, estamos dentro do terreno do desenvolvimento das instituições democráticas no plano internacional. Se o vazamento levar à descoberta de agentes infiltrados num país como a Coréia do Norte, que serão invariavelmente torturados e mortos, fica a dúvida se isso, realmente, ajuda no fortalecimento dessas mesmas instituições. Exemplos não faltam.

Maurício Boff – Argentina

Os sete pecados do governo argentino (segundo a diplomacia norte-americana)

“Almost as if according to some natural law, in every century there seems to emerge a country with the power, the will, and the intellectual and moral impetus to shape the entire international system in accordance with its own values”.

Henry Kissinger, em Diplomacy

Em plena efervescência do debate em torno do vazamento dos telegramas trocados entre diplomatas norte-americanas e o QG da Secretaria de Estado, em Washington, confesso que fiquei perdido, atordoado, emocionado, irritado, satisfeito, desinformado e, ao final, soltei um sorriso-maroto-garoto típico de final de uma boa piada. Sedento por analisar cada comentário diplomático norte-americano sobre os presidentes sul-americanos, deixei de lado a leitura de Moby Dick (droga, não quero terminar meus dias como Leonardo Zelig), os estudos, a mulher, o cachorro, a horta de ervas-finas na sacada do apartamento, o trabalho e o show do João Bosco na quinta-feira.

Mentira. Mas sou brazileiro. Logo, nunca saberá, nem mesmo o serviço secreto norte-americano. Esqueça, portanto. Falo sério. Importa, sim, lançar algumas impressões quase uma semana depois de análises de jornalistas, historiadores, diplomatas, sociólogos e pessoas comuns por todo o mundo, sobre a organização de Julian Assange, o @WikiLeaks. A meu ver, concretiza-se um movimento de discussões que, até hoje, era imprevisível e no melhor estilo Black Swan.

Mas desconfie, e desconfie muito. Como já mencionei por aqui, estou mais para a turma da ponta de baixo na escala de 0 a 10 entre os expertos –- e não pretendo sair dessa zona. É muita responsabilidade. Troco-a pela autonomia do (não) pensar. Portanto, humildemente, convido-o a passear pelos meus sentimentos. Shanti.

+ Gula (telegrama 001235, em 09/11/2009)

“Tivemos várias conversas com os dois primeiros chefes de gabinete da [presidenta] Cristina Fernández de Kirchner (CFK), Alberto Fernández e Sérgio Massa. O embaixador tinha uma reunião introdutória em 28 de outubro com Alberto Fernández, que atuou como Chefe do Gabinete em administrações tanto de Néstor [Kirchner] e de CFK (…) O embaixador e DCM tiveram um jantar em novembro com o segundo-chefe de gabinete de CFK, Sérgio Massa, e sua esposa, a eleita vereadora, Malena Galmarini, na casa do ex-assessor de Massa na Casa Rosada, o empresário Jorge O’Reilly. Em cada uma das conversas, os dois peronistas, que durante seus mandatos na Casa Rosada trabalharam todos os dias com os Kirchners no andamento do governo argentino, foram bastante francos ao expressar seu estranhamento do casal Kirchner e seu pessimismo sobre as perspectivas políticas do ‘casal no. 1′ ['first couple', como os K são chamados nos telegramas]. (…) Massa foi contundente em sua crítica do ‘casal no. 1′, especialmente a Néstor. (…) Ele chamou Néstor de ‘psicopata’, ‘um monstro’, e ‘covarde’ cuja abordagem política mascara um profundo sentimento de insegurança e inferioridade. (A esposa de Massa mostrou-se alarmada frente a tais comentários desinibidos ao ponto de pedir que ‘pare de fazer caretas para mim.’) Ele contestou o argumento de que Néstor merecia crédito como um estrategista astuto, e descreve o ex-presidente como equivocado e tão convencido de seu brilho próprio que certamente voltaria a fazer seus erros. (…) Ele disse que Néstor não poderia relacionar-se com quem estivesse fora de suas ambições políticas: ‘Kirchner não é um gênio perverso’, concluiu Massa. ‘Ele é apenas um perverso’.”

+ Avareza (telegrama 001017, em 10/09/2009)

“Aníbal Fernández [chefe de gabinete de CFK] tem sido para nós o membro mais acessível e inclinado do gabinete da presidenta Cristina Fernández de Kirchner, acolhendo governamentais dos Estados Unidos receberam treinamento policial e da cooperação. (…) Mais político do que diplomata, [Fernández] constrõe feudos e detesta perder o controle sobre esses recursos estratégicos. (…) Um interlocutor pragmático e politicamente esclarecido, Fernández prefere não envolver o seu pessoal em reuniões com funcionários da Embaixada [dos EUA]. Embora esteja sempre bem preparado, o seu discurso e comportamento podem às vezes ser grosseiro. Em mais de uma vez, ele fez evidentes comentários sobre uma atraente tradutora durante uma reunião com funcionários dos EUA que estavam de visita. Ele se referiu à existência de uma ‘procura local por órgãos genitais jovens’ enquanto explicava sobre os desafios que enfrenta sua pasta no combate ao tráfico humano com fins de exploração sexual.”

+ Luxúria (telegrama 000071, em 04/02/2010)

“Embora o orçamento militar argentino está mal preparado para qualquer curso de ação que envolva a projeção de poder, o governo da Argentina provavelmente assim se sentiria compelido a pressionar, por qualquer meio possível, a reivindicação histórica [sobre as Ilhas Malvinas/Falklands] logo de uma descoberta de petróleo. Uma estratégia de conversação dura, queixas em fóruns internacionais, e cartas de protesto são esperados, além de sanções econômicas aplicadas contra as empresas atuantes [no arquipélago], mesmo que isso possa prejudicar a produção argentina de petróleo e gás natural.”

+ Ira (telegrama 002345, em 14/12/2007)

“Em 14 de dezembro, a imprensa argentina continuou a dar ampla cobertura à furiosa reação do governo argentino às alegações do FBI de que os U$ 800 mil interceptados 04 de agosto por oficiais argentinos foi uma contribuição em dinheiro da BRV para a campanha presidencial de Cristina F. De Kirchner (CFK). (…) O embaixador usou uma recepção programada para antes das férias para mais de 100 jornalistas de jornal, rádio, TV no dia 14 de dezembro para a divulgação da orientação de Washington sobre o caso. Vários jornalistas de rádio utilizaram seus telefones celulares para transmitir no ar as palavras do embaixador, e muitos deixaram o encontro depois do embaixador concluiu a história. Várias histórias sobre o que disse o embaixador no encontro já bateu estão sendo divulgadas. Esperamos que as observações do embaixador na Argentina domine as manchetes no sábado. (…) O que começou como um dia negro para a imagem dos EUA na Argentina – com manchetes de ataque por CFK e outros sobre as nossas intenções supostamente escuras – está terminando com uma nota mais esperançosa, como um trabalho rápido por parte do Estado, da Justiça e do FBI de revisão e de orientação sobre a questão nos permitiu apresentar nossa versão para um grupo cativo de jornalistas argentinos. Como a primeira semana da administração CFK se aproxima do fim, demos aos pragmáticos informações sobre o governo argentino para que possam trabalhar pelo convencimento de CFK de que saia do precipío que se meteu e volte a dialogar com o governo norte-americano a partir da segunda semana de mandato presidencial. Veremos sua reação e resposta nos próximos dias.”

+ Melancolia (telegrama 000827, em 09/07/2009)

“Há um outro fator externo que faz improvável que a Argentina adote a política bolivariana – a influência crescente do Brasil aqui. O representante local do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o brasileiro Daniel Oliveira, disse ‘econoff’ recentemente que ‘a Argentina tornou-se tão importante para o Brasil como o México é para os Estados Unidos’. Com uma intercâmbio comercial de U$ 31 bilhões e mais de U$ 10 bilhões em investimentos brasileiros sendo injetados na economia argentina desde 1997, o Brasil está fortemente empenhado aqui, e não é tímido sobre a defesa de seus interesses. A imprensa local relatou que Lula chegou a dar telefonemas em julho de 2008 para evitar que os Kirchners abandonassem o poder na sua frustada tentativa de pressionar o Congreso a aumentar os impostos sobre as exportações agrícolas. Lula e seus associados continuarão a ser uma importante influência moderadora sobre os Kirchners.”

+ Preguiça (telegrama 000853, em 22/07/2009. substituída aqui por psicodrama. Leia e entenda)

“Outros observadores apontam fatores de estresse psicológico em suas previsões para uma muito próxima crise democrática. Esta linha de raciocínio encontra duas vertentes: a de que o poderoso Néstor Kirchner é bem centrado em seu conjunto de formas intransigentes de se adaptar, ou a de que ele (ou ele e CFK) estão se tornando cada vez mais instáveis e incapazes de governar. Como um bem relacionado banqueiro nos disse, o casal Kirchner poderia se recuperar alterando o rumo e adotando uma postura mais moderada, mas Néstor Kirchner, em especial, é incapaz de mudar. Em vez disso, ele vai embarcar numa lamúria desastrosa contra os ‘traidores’ os quais culpa pela derrota eleitoral, levando o governo ladeira abaixo. Em apoio desta tese, Fraga [Rosendo Fraga, analista político] defende que a personalidade de Néstor ‘não pode mudar’, mas que a opinião pública argentina pode. Ela não quer mais um lutador obstinado como fez Néstor Kirchner quando tomou posse em 2003; hoje, os argentinos querem uma liderança consensual que os Kirchners não pôdem e não vai proporcionar.”

+ Orgulho (telegrama 001311, em 09/12/2009)

“Mais uma vez, o governo Kirchner tem se mostrado extremamente sensível e intolerante às críticas que recebe. As preocupações sobre a fraqueza das instituições nacionais, e o Estado de Direito, em particular, é uma parte do que é relatado na imprensa argentina por acadêmicos, empresários, juízes, políticos da oposição, especialistas e organizações não-governamentais. Os argentinos são bastante conscientes de que a Argentina não está atraindo tanto investimento quanto Brasil, Chile e outros países da região. A ansiedade da comunidade empresarial sobre as mudanças arbritárias e caprichosas das regras do jogo é bem conhecida do público argentino e do governo. Somente quem é muito Kirchnerista concordará com a afirmação de Randazzo [ministro do Interior, Florencio Randazzo] de que a Argentina oferece ‘todas as garantias institucionais e jurídicas’, ou a afirmação do Ministério de Relações Exteriores de que não tem conhecimento de qualquer insatisfação por parte das empresas americanas. Para a maioria dos argentinos, isso é uma ironia ou declarações falsas e cínicas. Dito isto, esperamos que esses contratempos logo se esgotem, como já aconteceram em episódios semelhantes no passado.”

Não precisa usar a imaginação. Kissinger está com a razão: o ímpeto intelectual e moral norte-americano moldou com seus próprios valores o mundo. Essa é a natureza do Homem e ponto final.

Gabriel Brust – França

Sarkozy e suas mulheres

A reação da imprensa francesa ao cablegate passou por dois momentos diferentes desde domingo. A primeira, imediata, foi a negação escandalizada. Figaro e Liberation, direita e esquerda no espectro dos jornais, condenaram o vazamento. O primeiro com o frágil argumento da segurança internacional. O segundo, mais razoável, criticando o fato de o WikiLeaks mirar e tentar desestabilizar democracias, enquanto se cala ou pouco faz para investigar regimes totalitários. Regimes totalitários, aliás, que seriam o alvo principal do WikiLeaks segundo os conceitos iniciais do site, formulados por seu criador.

A revista eletrônica Rue89 resgatou os textos do blog de Julian Assange, não mais online, escritos antes do lançamento do WikiLeaks. Pelo tom de seus textos na época, parecia que Irã e Coréia do Norte teriam algo a temer diante de sua ideia. O tempo revelou o óbvio: é bem mais fácil (e totalmente legítimo, diga-se de passagem) brincar de justiceiro em democracias do que fazer uma pegadinha do Mallandro com o Kim Jong-Il.

A segunda etapa da reação francesa ao Cablegate é parecida com o que aconteceu no resto do mundo: o desdém em relação ao conteúdo dos arquivos assim que os primeiros foram revelados. De fato, como na maior parte do globo, não há nada que cause maiores estragos para a França nos telegramas revelados (até agora). Mas há material farto para o esporte preferido dos franceses – e da imprensa, principalmente –: praticar o bullying impiedoso de Nicolas Sarkozy.

Sobram passagens desabonadoras, no plano pessoal, para o chef d’état e suas mulheres. Sim, porque os yankees malvados, em seus telegramas, não pouparam nem o tema que o próprio Sarkozy reconhece como seu “calcanhar de aquiles”: a ex-mulher, Cecília Ciganer. Segundo o embaixador americano, em 2007, após o divórcio, havia dúvidas se Sarko teria estabilidade emocional para conduzir o país. Descreveu o presidente como dependente da ex-mulher. Quando começa o novo romance do galã, dessa vez com a modelete Carla Bruni, o embaixador fofoca para seu governo, em Washington, que as aparições públicas do presidente com a nova mulher são mais condizentes com um milionário excêntrico do que com um chefe de estado. Conversa de comadre das boas, para saborear com o chá da tarde.

E é justamente numa passagem sobre Carla Bruni que o Brasil aparece nos telegramas do embaixador americano em Paris. Segundo o diplomata, Sarkozy estaria usando a popularidade de sua mulher no Brasil para estreitar as relações com o país. Charles Rivkin diz que a há um “caso de amor” entre Lula e Sarkozy, e que a população brasileira aprecia muito o fato de o casal presidencial francês passar as farias no país. Particularmente, eu nunca soube que Bruni gozasse de qualquer popularidade no Brasil. Sua carreira como modelo está encerrada há tempos e seus chatíssimos discos, que eu saiba, nunca chegaram perto de serem populares no Brasil. Mas é provável que o embaixador saiba mais sobre a banânia do que eu.

Por fim, o último bulling da imprensa contra Sarkozy – debate dos jornais nesta quarta-feira — é acusá-lo de “cheerleader” dos yankees. Isso porque os telegramas comentam a vida privada de Sarkozy, mas pour outro lado o cobrem de elogios. O descrevem como “o presidente mais pró-Estados Unidos desde a Segunda Guerra”, afirmam que ele “se reconhece nos valores americanos” e teria se revelado, inclusive, ser um grande admirador de George W. Bush. Imperdoável para os franceses.

Érica Manssour – China

Tá tudo bem

A julgar pela cobertura da imprensa chinesa, não há qualquer envolvimento de Beijing com essa história ae. O site encontra-se devidamente bloqueado e o foco de notícias relacionadas ao tema é mais na acusação de estupro e na ordem de prisão do Julian Assange pela Interpol do que qualquer outra coisa. Tudo bem por aqui.

O limite do Tea Party

Fabricio Pontin | Estados Unidos 11:52 | 04/11/2010

Quando eu falei sobre o Tea Party pro Braziu, aqui, uma das coisas que me deixavam curioso era até onde a influência do grupo da Sarah Palin e do Glenn Beck poderia atrapalhar o domínio democrata no Congresso e no Senado. Ontem deu para ter uma dimensão do problema.

Um Congresso na mão dos conservadores, de novo

A política norte-americana é feita com mapas. A natureza da eleição aqui, com a divisão dos delegados por Estado, obriga uma divisão estratégica do voto. Em diversos sentidos o posicionamento ideológico da Pennsylvania é mais importante que o de Nova Iorque para os candidatos. Principalmente porque o posicionamento de Nova Iorque não está em jogo (votará Democratas na próxima eleição), enquanto o da Pennsylvania pode decidir o jogo para um lado ou para o outro.

Agora olhem bem para esse mapa:

Os vermelinhos são os Republicanos, os azuis são os Democratas [em caso de daltonismo, os verdinhos são Republicanos e os vermelinhos são os Democratas, ok?]. Agora respirem fundo e digam com o Obama:

fodeu

Os Democratas perderam em uma noite o domínio completo do Congresso. Para vocês terem uma ideia, no momento da eleição do Obama o domínio dos Democratas era tão grande que permitia que qualquer legislação fosse aprovada apenas com os votos dos democratas. Além de dependerem somente de si, os Democratas podiam ainda catapultar qualquer projeto dos Republicanos para fora da pauta do Congresso. Bastava votar em bloco.

Então qual foi a dificuldade do Governo para passar os projetos pelo Congresso?

É difícil para quem está de fora entender algumas peculiaridades do sistema norte-americano, especialmente do vínculo ideológico e do comportamento dos políticos dentro do Partido Democrata. O que levaria um democrata a votar contra o projeto mais importante do governo Obama (no caso, a reforma do sistema de saúde)?

A resposta está na chamada “política de base”. Os Democratas eleitos por Estados mais conservadores e que pretendiam se reeleger olhavam para a base que iria votar nessa eleição e pensavam: “se eu votar com o Obama nesse plano de saúde, estou frito”. Votaram contra. Daí a dificuldade em passar projetos.

Assim, os projetos que Obama conseguiu passar no Congresso foram exaustivamente negociados com a base Republicana (ainda que minoritária) e com os Democratas “conservadores” que sabiam que tinham uma eleição em um ano. Para os que votaram na plataforma de “hope and change” (tradução livre: “pão e circo”) isso foi uma decepção horrível; para os que já não gostavam do Obama, foi a confirmação de que ele é um incapaz de lidar com política executiva. Os resultados estão no mapa ali de cima.

Ontem foi dia normal aqui nos Estados Unidos, nenhum professor liberou aluno para ir votar, nenhum chefe deu dia livre para quem comprovasse voto. Chegou atrasado? Te rala. Ficou na fila e não conseguiu ir ao trabalho? Perdeu o dia e talvez perdeu o cargo. Nesse contexto, o cara tem que estar muito motivado para ir votar. Vi uma pessoa falando que chegou atrasado por ter ido votar. Compreender a derrota dos Democratas no Congresso passa por entender a motivação para votar.

Mas e o Senado?

Pois é. Com todo o gritedo dos conservadores, toda a campanha para mostrar o completo fracasso do Governo Federal em passar legislação e a desmotivação dos militantes em levantar a bunda e ir votar, o Senado continua na mão dos Democratas. Mas muito menos decisivamente do que no ano passado e com muitos democratas com medo de perder o cargo para um conservador na próxima eleição.

Eis o mapa:

A grande má notícia para Obama nesse mapa: Ohio, Pennysilvania, Indiana, Florida, North Carolina e Winsconsin votaram em senadores republicanos. Se isso for uma tendência, preparem-se para presidente Palin em 2012. Todos esses Estados deram a vitória para Obama em 2008. E, sem exceção, são todos swing states, ou seja, Estados que mudam de lado de uma eleição para outra.

No entanto, várias dessas vitórias foram por margens pequenas de votos e a eleição para o Senado e Congresso, por definição, atrai menos gente que uma eleição presidencial. Ou seja: o Tea Party conseguiu mobilizar a base conservadora a votar em Estados com potencial de virar o jogo, mas não redesenhou o mapa eleitoral no Senado, apenas elegeu candidatos republicanos em estados que historicamente elegem senadores republicanos. Grande coisa.

E os Estados?

A derrota de Toni Tancredo [melhor nome] no Colorado e eleições extremamente disputadas no Sul dos Estados Unidos indicam que os latinos viraram uma força política importante nas eleições norte-americanas. Mais que isso: uma força decisiva. Se em uma eleição “menor” o voto latino empurra todos os candidatos democratas para a casa dos 40% no Sul (não é pouca coisa, se a gente pensar que esses Estados são, nos últimos trinta anos, o parque de diversão dos republicanos), imaginem o que eles podem fazer em uma eleição “grande”.

Toni Tancredo é o grande nome da política anti-imigração e anti-imigrante nos Estados Unidos. A derrota dele é um recado claro para os republicanos de que continuar o discurso da ampliação dos muros na fronteira e da política de exigência de documentos nos Estados com maior influxo de hispânicos pode custar aos republicanos a perda dos votos do latinos, da mesma forma que as políticas segregatórias dos anos sessenta custaram os votos dos afro-americanos.

A história se repete

A história, sabe-se, acontece como tragédia, se repete como farsa e depois de umas quinhentas vezes vira circo no interior da Ucrânia (eu ia dizer Bulgária, mas me deu preguiça de ser chamado de classe média revoltada com a vitória da Dilma). A eleição de um Congresso de oposição ao Executivo, nos Estados Unidos, é uma tendência antiga.

Ela também é óbvia em um país com dois partidos políticos. O camarada vence a eleição, as pessoas se decepcionam, a oposição vence as eleições distritais. A oposição não faz lá grandes coisas diferentes, o presidente é reeleito. O Congresso e o Senado ficam na mão da oposição. O presidente não consegue governar. Quatro anos depois um candidato da oposição vence. Repita a história até cansar.

Com exceção de Reagan, que elegeu o sucessor, e Bush I e Carter, que perderam a campanha para a reeleição, isso tem sido a regra nos Estados Unidos desde Nixon. Carter e Bush são exceções porque perderam, além da Câmara, o Senado — e também sofreram com eventos externos que comprometeram a imagem do chefe de governo. Reagan elegeu o sucessor por ter ganho a Guerra Fria.

Então muita calma ao dizer que o domínio do Congresso pelos Republicanos marca o fim do governo Obama. Os conservadores esperavam uma vitória maior, por mais que estejam comemorando como se já tivessem ganho a próxima eleição presidencial. É claro que as notícias são ruins — péssimas — para os Democratas, especialmente considerando a dificuldade que Obama tem em comunicar as vitórias do próprio governo. Mas os Republicanos também precisam refletir sobre o limite da política dos conservadores vinculados ao Tea Party, que já começam a se dividir em facções.

Os Republicanos sabem onde podem chegar com a atual estratégia: domínio do Congresso e vitória onde conservadores sempre podem vencer. Mas isso não é suficiente para a eleição presidencial. Paradoxalmente, é o limite do Tea Party.

Plantão Braziu: EUA em estado de alerta; caças escoltam avião de passageiros

Fabricio Pontin | Estados Unidos 17:40 | 29/10/2010

O serviço secreto americano lançou um aviso dizendo que diversos objetos suspeitos foram encontrados em aviões de carga da UPS. Os dispositivos em questão são, até onde consegui entender, algo como cartuchos de impressora alterados para parecerem detonadores de bomba.

Tem um avião sendo revistado em um aeroporto na Pennsylvania e agora tem dois aviões da força aérea norte-americana dando cobertura para um avião de passageiros.

Estou no meu escritório, em um PC velho, com a CNN passando muito mal e porcamente. Vou tentar achar um canal alternativo e atualizar aqui conforme as coisas acontecerem (usando nos updates o horário local, 3 horas a menos que no Brasil). Se a coisa ficar mais feia, eu e Dr. Rocco Demori abriremos um live-stream aqui mesmo.

Na semana que vem tem os mid-terms (eleições) aqui nos Estados Unidos e essa histeria por conta desses explosivos deve acabar com qualquer chance que os Democratas tinham de tentar virar a tendência de domínio Republicano no Congresso e no Senado.

Update 1 (2:45 PM – Central Time) Sinagogas e centros culturais judaicos estão em nivel máximo de alerta. Algumas pessoas já começaram a largar “bombas-de-mentirinha” em lugares estratégicos, questão doméstica querendo potencializar o alcance das potenciais bombas dos aviões que, até agora, parecem ser uma questão de interferência externa (mas nunca dá para saber nos Estados Unidos).

Update 2 (2:47 PM – Central Time) A CNN acaba de mandar a manchete: Emirates flight 201 lands at New York’s JFK airport escorted by fighter jets. Ou seja, pousou o avião no JFK. To ligando meu netbook aqui, sem condições de abrir duas ou mais abas nesse computador

Update 3 (2:52) Governo lança nota atribuindo ao Yemen e à Al-Qaeda o incidente. Por enquanto a terminologia gira em torno de “scare” e não “threat”.

Update 4 (2:55) Passageiros saindo do aviao da Emirates ao vivo em vídeo.

Update 5 (2:58) Obama vai falar ao publico em quinze minutos. Ao vivo aqui.

Update 6 (3:04) Destino final do avião seria O’hare, em Chicago.

Interessante que aviões seguem pousando no aeroporto na Filadelfia. (acabou de pousar um doméstico no vídeo aqui). Pelo visto, estão tentando evitar uma parada total das capacidades aereas do pais, como aconteceu em 2001.

Update 7 (3:15) Avião seria procedente de Dubai, não do Yemen, dizem as autoridades americanas para a CNN. “”Emirates Flight EK201, which has just landed at JFK, originated in Dubai not in Yemen, as reported in the US media. More information will follow as soon as we have it. Emirates is co-operating fully with the US authorities.”

Update 8 (3:18) BBC dando (só ela) que não havia bomba alguma no avião. A revista The Atlantic se pergunta se “terroristas do Yemen estariam praticando para uma situacao real de bomba”.

Update 9 (3:23) BBC e MSNBC: o pacote foi retirado em Newark e aberto; dentro havia um cartucho de impressora e um certo pó branco. A teoria da policia é que seria um teste para ver a resposta do Governo Americano diante da situação. As infos no entanto são bem ESPECULATIVAS até agora. MSNBC: mais de uma dúzia desse tipo de dispositivos foram colocados em aviões da UPS no mundo todo.

Discurso do Obama:
“Os pacotes realmente contêm material explosivo, pelo menos em alguns casos”
[Pelo que entendi, esses foram pegos ainda antes do embarque em vôos. Foram pacotes identificados como suspeitos.]

“Os pacotes realmente vieram do Yemen. E pelas mãos da Al Qaeda. Falamos com o presidente do Yemen, que prometeu cooperar”
[fim do que importa no discurso]

that’s all, folks. Voltem depois pro live que importa, o do debate.

Nove anos depois

Fabricio Pontin | Estados Unidos 21:53 | 11/09/2010

Todo mundo que eu conheço tem uma história bacaninha de como ficou sabendo dos atentados. Eu não lembro direito. Tudo que eu lembro é que estava na faculdade e ouvi algo sobre um incêndio no World Trade Center. Depois, no ônibus, tinha uma turma rindo e dizendo que parecia que uns nove outros aviões tinham sido sequestrados. Cheguei em casa, a primeira torre já tinha caído e a outra estava lá enquanto o repórter da CNN surtava no vídeo.

Os dias que se seguiram os atentados foram um festival de informação desencontrada. Ninguém realmente acreditava que os Estados Unidos iam demorar mais de um ano para capturar o Osama, ninguém realmente pensava que trilhões de dólares seriam gastos em duas guerras e que o presidente dos Estados Unidos financiaria uma delas com dinheiro chinês (o que certamente vai passar para a história como um dos piores erros estratégicos de uma administração norte-americana).

Nove anos depois, ninguém sabe se Osama está vivo ou morto, e pouco importa. A guerra no Iraque foi um desastre inconclusivo: ainda que houvesse razões para invadir o território e arrancar o Saddam de lá, o erro americano foi parecido com o cometido no Vietnam: ao pensarem que seriam saudados como libertadores, foram recebidos como invasores sem legitimidade.

No Afeganistão, depois de nove anos de ataques e planos, tudo que os americanos conseguiram é garantir a administração de um setor de Kabul, o resto do território tendo sido largado na mão de lutas tribais e uma expansão preocupante do radicalismo via bin-Laden na fronteira com o Paquistão.

Nos Estados Unidos, o noticiário passa as notícias de nove anos atrás sem parar. Enquanto isso, o Congresso discute se os bombeiros, policiais e paramédicos que responderam as chamadas de emergência nos prédios têm direito a tratamento especial para as doenças que eles pegaram durante a operação. Na última votação, o Congresso decidiu que não.

Mais que isso: nesses nove anos, a direita religiosa, que tinha adquirido legitimidade no governo Reagan (que, justiça seja feita, era inteligente o suficiente para usar aquela gente, mas nunca para ser usado por eles), se tornou a vanguarda do partido republicano, empurrando o conservadorismo fiscal para escanteio e criando uma noção delirante de imperialismo democrático aliada com populismo de valores. A chamada Bush Doctrine consiste justamente na articulação dessas duas frentes, que só foram elaboradas após os ataques. Bush alegou, em 2000, ser um conservador amável. Essa faceta foi rapidamente abandonada por um discurso totalmente diferente e o país ainda sofre as consequências dessa reestruturação.

Uma economia no lixo

Os anos Clinton criaram uma sensação enorme de otimismo nos Estados Unidos. Durante os oito anos do governo do bonitão, os americanos gastaram e compraram como nunca. Eles também criaram uma série de expectativas completamente insanas sobre os próprios bens e planos de vida. Criou-se a chamada “loucura dos seis dígitos”, de uma hora para outra, qualquer casa em um subúrbio de Chicago, Nova Iorque ou Los Angeles custava um milhão de dólares.

Essa tendência não foi revertida por Bush, pelo contrário. Um dia depois dos ataques, Bush foi a público dizer para os americanos comprarem mais, consumirem intensamente. Naquele momento, Bush poderia ter tentado reproduzir Roosevelt em 1939, e pedido austeridade, calma e trabalho. Ele pediu o contrário: consumo, ansiedade e lazer. Seis anos depois, os Estados Unidos começavam a pior crise de empregos desde 1981 e a pior crise fiscal desde 1929.

Uma derrota anunciada, uma nova liderança

Com um desastre econômico, duas guerras indo para lugar algum e um desastre ecológico nas costas, Bush começou um processo de queda vertiginosa, que acabou determinando que a grande eleição de 2007 não seria a entre um republicano e um democrata, mas entre os democratas. As primárias entre Hillary e Obama foram sensivelmente mais importantes que a eleição geral, justamente por não existir qualquer chance de eleição para um candidato republicano.

No entanto, os neo-cons encontraram em Sarah Palin um veiculo ainda mais poderoso que Bush. Palin era um grande quadro em branco onde os neo-cons poderiam escrever o que bem entendessem. Ela era perfeita. E melhor ainda, a mídia liberal odiava ela. Os republicanos sabem que a estratégia política pós 9/11 depende da criação de antagonismos, e não poderiam perder a oportunidade de explorar esse cenário.

Com isso, a Sarah Palin surgiu como a grande liderança de oposição, mobilizando uma voz única de negativas às políticas democráticas. Mesmo com um Congresso favorável, Obama se viu cercado de democratas com medo de perder seus respectivos cargos, e foi incapaz de liderar, no primeiro ano de governo, uma politica de situação homogenea.

Resultado: enquanto os republicanos votavam em bloco, os democratas votavam de forma desordenada e sem uma contra-partida aos republicanos. Em dois anos, Obama baixou para a linha dos 40% de aprovação e agora começa a brincar com os 35%, com níveis de rejeição similares aos de Bush em 2006.

Empregos, estrutura e um elitista

Muita gente boa sustenta que o pior da crise econômica já passou. Do ponto de vista da austeridade fiscal, sem dúvida. Mas tem um lado que ninguém tá falando: os empregos perdidos durante a crise não estão voltando. As pessoas continuam sem emprego, sem condições de pagar pelas coisas que adquiriram durante o otimismo dos anos Clinton, na terceira ou quarta hipoteca da segunda ou teceira casa…

Com isso, a estrutura do país está em crise. Em Detroit, os pedidos de falência individual continuam crescendo, um passeio rápido pelas ruas de Memphis ou St. Louis denuncia uma série de negócios fechando e prédios que são abandonados por falta de pessoas para alugar salas.

Enquanto isso, Obama demonstra uma incapacidade notável de articular uma ponte entre a habilidade de fazer discursos geniais com uma comunicação efetiva com o grande público. Ao contrário de Clinton, Obama não tem, hoje, qualquer simpatia com os democratas do meio-oeste, que têm um perfil mais de classe-média baixa, operária-industrial. Enquanto isso, Palin apela forte para o público de direita. Agora, Obama olha para o mapa eleitoral e vê os republicanos com chance de eleger governadores em 30 dos 50 estados, e com alta possibilidade de reverter a maioria democrata no Congresso, e diminuir a vantagem no senado.

Tolerância de mão única

Entre as discussões bobas da mesquita próxima do ground zero e a suposta queima do Corão por um pastor imbecil (pleonasmo, eu sei) na Flórida, uma coisa fica clara sobre o cenário pós 9/11, e que talvez seja a maior vitória dos atentados: os americanos estão extremamente dispostos a abrir mão de liberdades civis conquistadas nos últimos 100 anos em nome da suposta segurança nacional.

Por um lado, existe a tentativa de legitimar o Islã no contexto norte-americano após os ataques. Depois dos abusos praticados pelo governo Bush contra prisioneiros de guerra e o evidente estabelecimento de elementos religiosos dentro do Imperialismo Democrático da doutrina Bush, agora o esforço passa por legitimar o Islã. Exceto que tentar legitimar algo já presume a ilegitimidade da coisa. E ai temos a primeira dimensão do problema, ao tentar justificar as atividades normais de muçulmanos nos Estados Unidos, surge a pergunta “porque esses indivíduos precisam justificar essas atividades, quando outros não precisam?”.

Do outro lado, existe uma preocupação especial com as sensibilidades do Islã. Todas as religiões podem ser objeto de chacota, menos o Islã. Esse tratamento especial acaba denotando a construção de uma via de mão única, onde se permitem a construção de mesquitas, mas se aceita que essas mesmas mesquitas não permitam que cachorros passem na frente do estabelecimento (cachorros são animais impuros, entenda). Nada disso ajuda no processo de integração, pelo contrário.

Acontece que Obama não tem exatamente um histórico fabuloso na questão de direitos humanos. Guantánamo continua ativa, prisioneiros são mantidos no local sem julgamento e sem direito a Habeas Corpus. E aí?

Um país na encruzilhada

Sem dúvida, a eleição de Obama foi um evento extremamente relevante do ponto de vista socio-cultural, Obama venceu em estados onde 40 anos atrás um negro não poderia sentar na mesma mesa de um branco. Mas o momento de euforia com a eleição se esvaziou antes da posse do Obama. Já no terceiro mês, a aprovação de Obama era normal, e depois de um ano, a queda começou a se tornar vertiginosa.

Parece que houve, sim, uma mudança substancial no país, mas não era a que os democratas esperavam. Pelo contrário, a eleição mobilizou os conservadores e rapidamente frustrou os democratas. Agora, Obama vai ter que lidar com a potencial eleição de republicanos extremamente conservadores para o Congresso (os moderados estão sendo obliterados pela Palin), e esperar que essa tendência não se reverta na eleição da Palin como presidente em 2012 (o que sigo achando pouco provável).

Ainda assim, o crescimento do conservadorismo religioso enquanto vanguarda política é um fato incontestável desde 2001, e Obama perdeu a chance de parar essa tendência no momento da posse. Agora, ela retornou com mais força e mais poder de organização e talvez possa desenhar uma mudança política maior que a protagonizada por Reagan.

Morrendo na América

Fabricio Pontin | Estados Unidos 18:30 | 03/09/2010

Em Junho recebi da secretaria para alunos internacionais aqui do departamento um pedido de ajuda para uma aluna estrangeira. A aluna, no caso, estava com câncer e precisava de apoio financeiro para enfrentar a doença. Já tinha algum tempo que ela tinha recebido o diagnóstico e ela tava brigando para conseguir algum tipo de cobertura no sistema de saúde local.

Acontece que o plano de saúde obrigatório que a faculdade oferece para os alunos tem uma cobertura ambulatorial bastante restrita. Na realidade, ela cobre cerca de 70% das despesas médicas ambulatoriais, e deixa o aluno na mão com os custos de exames extras, tratamentos excepcionais e a temida ‘condição prévia’. A condição prévia é uma cláusula no contrato com o plano de saúde dizendo que eles não são responsáveis pela cobertura de doenças crônicas ou hereditárias já presentes no momento da assinatura do plano. No caso dessas doenças, portanto, você tem o atendimento emergencial, mas tá sozinho no atendimento ambulatorial.

Por exemplo: digamos que você quebra o dente jogando futebol. O plano garante que você vai chegar no hospital e ter um remendo feito no dente, mas não garante nada além disso. Fica sob a responsabilidade do aluno o pagamento dos remédios para dor, da anestesia geral e mesmo de uma eventual prótese. Mesma coisa se você quebra uma perna.

No caso de câncer, o furo é ainda mais embaixo. Muitos planos tem uma clausula de exclusão de cobertura, ou seja, tem que comprar separadamente a cobertura para câncer. Enquanto aluno internacional, é bem possível que o plano de saúde desconsidere o perfil do aluno (falido, estrangeiro) e negue cobertura.

Foi o caso dessa moça. Aluna internacional, sem visto permanente e com apenas o plano de saúde da universidade. Quando a gente chega aqui, o pessoal orienta que se procure outros planos. Mas esquecem de mencionar que para contratar um plano de saúde privado é necessária uma história de crédito constituída e uma conta bancária ativa. A maioria dos alunos internacionais não tem condições, com bolsas que variam entre $700 e $1800, de 1) constituir uma história de crédito e 2) ter uma conta que não viva no vermelho. Já que conseguir um empréstimo é impossível, resta ao aluno internacional com uma doença crônica a dependência da caridade alheia.

Americanos adoram doar dinheiro. Se for para alguém de um país pobre, oprimido e com uma religião exótica, mais ainda. Acontece que doações são troco para o tipo de gasto relacionado com um câncer. Mesmo mobilizando a faculdade inteira para conseguir doações, a menina conseguiu impressionantes $1800, que ela usou para voltar para a Malásia e morrer junto da família.

Não sei se isso é melhor ou pior do que morrer na fila do SUS. Mas o interessante é pensar que as pessoas ficam doentes e morrem sem sequer passar pela consideração de algum cuidado médico. No entanto, preciso dizer que toda vez que eu precisei de cuidados médicos aqui (e paguei – caro – por isso), o serviço prestado foi absolutamente primoroso.

E o Obamacare? Antes de mais nada, vale lembrar que o plano ainda está na fase de implementação e que mesmo quando for totalmente ativo (em dois anos), não vai cobrir imigrantes sem green card. Ou seja, para os alunos internacionais a situação permanece a mesma.

O papo que rola entre os alunos é o seguinte: não fique doente. Tenha um plano de saúde no seu país de origem e a grana para a passagem de volta pronta, caso tenha uma emergência.

Enquanto isso, no meio-oeste…

Fabricio Pontin | Estados Unidos 14:57 | 26/08/2010

Ontem, na porta de um dos pubs aqui de Carbondale, IL:


(clica para aumentar)

Traduzindo:

A partir de 18 de novembro de 2010
PESSOAS VESTINDO QUALQUER UM DOS SEGUINTES ITENS DE VESTIMENTA NÃO SERÃO ADMITIDOS NO RECINTO:

- Roupas largas de qualquer tipo
- Boné com aba reta
- Qualquer boné não utilizado com a aba para frente ou para trás
- Bonés com etiquetas ou adesivos visíveis
- Calças baggy, rasgadas ou de cintura muito baixa
- Camisas ou tops largos;
- Bandanas e do rags

OBRIGADO POR SUA COOPERAÇÃO
A DIREÇÃO


ay, y’ll


Discutindo as cores do trenó

Fabricio Pontin | Estados Unidos 20:25 | 22/08/2010

Dentro de uns vinte dias fará nove anos que um bando de retardados mentais ativistas radicais islâmicos resolveu sequestrar quatro aviões. Dois desses aviões, como vocês bem sabem, acabaram atingindo o World Trade Center. Não tem muito o que dizer sobre o evento que já não tenha caído no lugar comum, então os pouparei de ter que ouvir coisas como “a unilateralidade norte-americana foi atingida no seu coração e a organização geopolítica do globo nunca mais foi a mesma”.

Corta para dois meses atrás, quando um grupo de muçulmanos decidiu construir, a quatro quadras de onde era o World Trade Center, um centro cultural islâmico que teria, inclusive, uma pequena mesquita. De uma hora para outra, a construção desse centro cultural adquire uma relevância nacional. Gente começa a falar contra a tal da mesquita “no ground zero“, os colunistas conservadores surtam citando o suposto [ta, nem tão suposto assim, o cidadão fez um monte de bobagens e falou coisas bem idiotas, de fato] passado horroroso do cara que idealizou o projeto. Pessoas falam sobre “agressão à memória das vítimas do terrorismo islâmico que vitimou Nova Iorque” e por aí vai. O mais interessante é que quase todos (especialmente os contrários) falam do tal centro islâmico como se ele fosse ser construido dentro do projeto da Freedom Tower — que será levantada no local onde estavam as Torres Gêmeas.

Não vai. Como eu disse, o centro fica a quatro quadras de onde era o World Trade Center, na mesma distância onde se pode encontrar igrejas, uma simpática loja de acessórios para drag queens, dois ou três clubes de Yoga, lojas de departamento… enfim, qualquer coisa.

Ao mesmo tempo que o presidente dos Estados Unidos e o prefeito de Nova Iorque perdem dias tendo que justificar o direito de um grupo em construir um local de culto e um memorial, parte da população local gasta energia protestando contra a construção deste mesmo local.

Com esse debate adquirindo relevância nacional, nem parece que os Estados Unidos estão perdendo a guerra no Afeganistão, recuando no Iraque depois de constatar a completa estagnação da região e tendo dificuldades em se recuperar de uma recessão violenta. Mais ainda: discute-se a relevância de um projeto satélite à construção do World Trade Center enquanto, depois de nove anos, esse é o atual estado do ponto dos atentados:

Se eu perder, não brinco mais

Fabricio Pontin | Estados Unidos 15:47 | 12/08/2010

Para começar, um pouco de contexto:

Na Califórnia, e em vários estados aqui na terra do Tio Sam, o camarada que arrumar um certo número de assinaturas pode colocar uma proposta de lei entre os ítens para serem votados em uma determinada eleição. Em 2008, as seguintes propostas entraram em campo:

1A) Aprovar o financiamento público de um trem-bala de Los Angeles para San Francisco
2) Implementar padrões mínimos para o tratamento ético de animais em confinamento
3) Autorizar o financiamento público e benefícios fiscais para hospitais de crianças
4) Emenda constitucional (na constituição do Estado da Califórnia, bem entendido) regulando autorização paternal para abortar gravidez de menores de idade
5) Novo estatuto regulando fiança, sentença e liberdade condicional para crimes não violentos
6) Implementação de um financiamento para um novo programa de penas criminais e segurança pública
7) Implementação de um programa de energia renovável na Califórnia
8 ) Emenda constitucional (no Estado da Califórnia, de novo) definindo casamento como a união entre um homem e uma mulher e banindo o casamento homossexual.
9) Emenda constitucional sobre sistema criminal, especialmente direitos das vítimas e punição de crimes violentos.
10) Autorização para implementar títulos públicos de financiamento de energia renovável e combustível renovável.
11) Emenda constitucional regulando mudança de endereço
12) Autorização para implementar títulos públicos para financiar a compra de imóveis para ex-veteranos.

Pois bem, o primeiro choque foi que quase todas as legislações progressistas levaram um sonoro não. Os californianos decidiram que não iam financiar legislação ambiental alguma, não iam diminuir o volume do poder punitivo do Estado sobre a vida nua dos cidadãos desfavorecidos que são hordienamente massacrados pela malha Estatal-Soberana, impositora de um certo domínio higiênico-populacional de regras (que na realidade expressam o caráter de exceção do regime de poder Estatal) de forma agônica e atemporal.

Um choque, mas nem tanto, afinal, a Califórnia tem uma população carcerária enorme e elegeu Conan para governador (isso depois de ter eleito o Cowboy do Brooklyn).


pega na minha espada

Mas a coisa realmente deu polêmica com a tal da Proposta 8. A que define casamento como a união entre papai e mamãe, que nem Jesus disse e a Bíblia falou. Todo o beautiful people californiano (pensem no Sean Pean, na Susan Sarandon, enfim, no povo de Hollywood) começou um gritedo sem limite na hora que a legislação foi introduzida para ser votada. Algumas organizações de direitos civis entraram na Justiça, requisitando que a proposta fosse retirada da ordem do dia. A Suprema Corte da Califórnia se manifestou dizendo que não via nada de errado no formato da proposta e que ela tinha todos os requerimentos para entrar na ordem do dia. Ou seja: vai ter voto.

Acontece que o Estado da Califórnia já estava casando homossexuais. A proposta 8 buscava justamente cessar a prática e os efeitos dos casamentos realizados desde a implementação da legislação anterior. O slogan da campanha era “restaure o casamento” e focava nos efeitos nocivos (!!!) do casamento homossexual para a sociedade e os bons costumes.

Mas pera aí, a Califórnia não era o paraíso liberal?

A imagem que a maior parte das pessoas tem da Califórnia se confunde com a imagem de Hollywood e de São Francisco. Algo mais ou menos assim:


Demori, me liga!

Acontece que a Califórnia, sozinha, tem o quinto maior PIB do mundo. Boa parte dos conservadores fiscais dos Estados Unidos ou moram na Califórnia, ou tem negocios lá. Fora do centro de influência de Hollywood e São Francisco (as cidades universitárias, as comunidades hippies e os paraísos para os podres de rico), o Estado é extremamente conservador. Uma boa olhada na lista de governadores desde 1953 dá um quadro da coisa: apenas três governadores democratas. Poderia-se argumentar que os Republicanos que governam a Califórnia são conservadores fiscais, mas não de valores. Isso era verdade até a transformação profunda que o Partido Republicano sofreu nos últimos quinze anos. Hoje, um republicano que é apenas um conservador fiscal é um republicano sem grana para financiar a campanha.

The Big Money

A restituição dos valores de família, tradição e propriedade falou muito alto para todo mundo que não era da panelinha Hollywood-San Francisco e mesmo com o Arnold dizendo que achava melhor votar contra a proposta, os proponentes da restituição do casamento “tradicional” foram direto ao ponto:

Traduzindo tudo: “quem vai proteger nossas crianças desse bando de pervertido?”. Isso é o canto da sereia para a dona de casa entediada do Vale do Silício, que não aguenta mais ver o professor do jardim de infância do filho dela desfilando de sunga na parada gay pride de São Francisco. A dona de casa, então, fala para o marido magnata dar a grana para a campanha e vai votar. Ela também vai falar com todas as amigas dela, igualmente de saco cheio, irem votar.

Somem a isso o fato de que os conservadores fiscais que injetam grana na economia californiana são, em boa parte, de Utah. E Utah, sabe-se, acredita que homossexualidade é uma doença e oferece tratamento para pessoas acometidas da enfermidade (até 1980, sodomia era crime no Estado inteiro, hoje, é considerada uma contravenção leve e os praticantes são remetidos a clínicas de re-habilitação). Com isso, a campanha tinha muito dinheiro para queimar.

Participação, interesse e resultados

Ainda assim, não dá para acreditar que o lobby pró-casamento tradicional tinha mais dinheiro que o lobby contra a passagem da lei. Se os conservadores fiscais têm muito dinheiro, Hollywood tem muito mais. Ainda que as donas de casa chateadas com o professor gay tenham mandado cheques de 10$ para a campanha pela familia tradicional, o sindicato dos professores da Califórnia doou 1.5 milhão de dólares para a campanha contra. No mínimo, houve um empate na quantidade de grana investida.

Só que não houve mobilização significativa do lado contra a legislação. Enquanto os conservadores cooptavam diversos setores da sociedade (inclusive Democratas religiosos, como os Batistas), o outro lado ficava em uma lenga-lenga aborrecida sobre igualdade formal, fugindo desesperadamente do debate sobre a questão da homossexualidade, focando nos direitos iguais. Claramente, a disputa era pelo voto dos negros e dos latinos na Califórnia, que são em grande parte religiosos e teriam mais simpatia pelo discurso da igualdade, mas talvez nem tanta sobre a parte envolvendo os homossexuais.

Isso foi um erro estratégico por parte dos opositores da proposta oito. Alguns homossexuais se sentiram alienados da campanha e o assunto perdeu uma identidade, perdeu o rosto. Ninguém sabia quem é que eram essas pessoas que perderiam o direito a casar, porque a campanha escondia isso. Enquanto isso, em São Francisco e em LA ninguém realmente acreditava que os conservadores tinham chance. Resultado: não foram votar.

Do outro lado, todo mundo votou. Os negros e latinos de forma decisiva com os conservadores. Mesmo com a indicação contrária do Obama, do Arnold e do Sean Penn, a proposta 8 passou como lei.

Assim não brinco mais

No dia seguinte, os liberais de Hollywood e São Francisco acordaram da festa do dia anterior e descobriram que, bem, eles tinham esquecido de ir votar. Seguiu-se grande comoção pública. De uma hora para a outra, a questão adquiriu o rosto que não tinha na época da campanha. Uma das melhores iniciativa foi “não divorcie meus pais”:

Organizaçõs de direitos civis novamente entraram na justiça, dessa vez para pedir a inconstitucionalidade da proposta e sustar os efeitos da lei imediatamente. Semana passada o pedido foi reconhecido por uma corte distrital na Califórnia e agora a lei será julgada pela Suprema Corte californiana. Se a Suprema Corte californiana negar o pedido e revalidar a decisão do referendo, o único caminho para as organizações civis na Califórnia seria apelar para a Suprema Corte de Washington, com base em princípios constitucionais.

Acontece que a decisão da corte distrital foi claramente política e a Suprema Corte da Califórnia pode, sim, reverter a decisão do tribunal. Na realidade, ela deve reverter a decisão, já que ela foi mobilizada antes do referendo e disse que a matéria sendo discutida não era inconstitucional. O que mudou?

De certa forma o que mudou foi a pressão social. A decisão sobre a legalidade do referendo foi recebida com relativa calma na Califórnia, já que as organizações de direitos civis acreditavam poder ganhar o jogo. Uma vez que elas perderam, resolveram apelar novamente.

E se fosse o contrário?

O problema todo é o seguinte: se o referendo foi ilegal, ele foi ilegal para os dois lados. E se a decisão tivesse privilegiado o interesse dos que favorecem o casamento homossexual? Onde estariam essas organizações de direitos civis agora? Continuariam alegando a ilegalidade do referendo?

Parece que, e eu lamento dizer isso, o pessoal não está sabendo perder. A atitude correta, do ponto de vista procedimental, seria esperar pela próxima eleição e inserir uma proposta cancelando a legislação anterior.

Ainda assim, existe uma chance da Suprema Corte tomar uma decisão política hoje e voltar atrás na decisão tomada há poucos meses. Qualquer que seja o resultado, existe um risco da parte que perder ir apelar para a Suprema Corte em Washington. Mas é um risco grande, uma vez que a Suprema Corte em DC pode decidir por nem receber o protesto – para evitar uma posição nacional sobre o casamento homossexual; ou pode receber e julgar o protesto válido, tornando qualquer legislação banindo casamento homossexual inconstitucional, em qualquer lugar dos Estados Unidos.

Obama, as mulheres de Palin e 2012

Fabricio Pontin | Estados Unidos 09:15 | 02/08/2010

O Real Clear Politics, da CNN, mandou a primeira bomba: 49% da população acha que o Obama não está fazendo um bom trabalho. Depois, os números gerais sobre a reeleição: Obama: 37 – Um Republicano Qualquer: 42. Finalmente, a Gallup lança um mapa com a aprovação do Obama por Estado:


Clique para ampliar

Pois bem, comparem este mapa com o mapa que deu a vitória ao Obama. O que acontece é o seguinte: se os lugares onde o Obama tem a aprovação abaixo de 50% votassem AGORA, ele perderia a eleição.

O elemento mais crítico das eleições nos Estados Unidos são os swing states — os Estados que mudam de voto mais facilmente. Qualquer candidato Republicano sabe que não tem chance em Illinois ou em Nova Iorque na próxima eleição e nem o depoimento de Jesus em pessoa consegue fazer um Democrata ganhar no Tennessee ou em Kentucky. Mas a coisa muda de figura em estados como Ohio, Indiana, North Dakota, Pennsylvania, West Virginia e Florida: nesses Estados, um detalhe na propaganda eleitoral ou uma mudança na situação econômica podem alterar o voto de parte da população. No mapa, já dá para perceber que Obama tem uma aprovação baixa em alguns desses Estados, o suficiente para colocá-los no campo de influência dos Republicanos.

Obrigado, Carter
Os Republicanos começam a se movimentar agressivamente para tornar o Obama o novo Carter. A missão é mais fácil do que parece: Obama está tendo um ano terrível. Apesar de ter passado duas reformas importantes (a financeira e a do sistema de saúde), ninguém parece lá muito otimista com o estado da economia, e os crescimentos foram muito pequenos para criar qualquer mudança de perspectiva na população. Mesmo com um Congresso de maioria Democrata, Obama parece estar de mãos atadas e, de quebra, tem uma dificuldade enorme em comunicar as suas vitórias.

Para alguém com uma capacidade enorme de fazer discursos memoráveis, Obama tem mostrado uma incapacidade notável na hora de falar ao público. A reforma do sistema de saúde foi uma vitória importante, mas ninguém entendeu o novo sistema. Obama passou semanas, talvez meses, tentando explicar como tudo funciona. De nada adiantou. Uma olhada rápida no website do New York Times sobre o assunto dá uma medida do tamanho da complicação: a reforma foi aprovada meses atrás e detalhes da implementação continuam sendo discutidos, pessoas continuam fazendo perguntas simples e recebendo respostas mirabolantes. A reforma do sistema financeiro surtiu efeito parecido: passou alguma coisa no Senado, mas os efeitos da passagem da reforma não foram sentidos no dia-a-dia.

Os Republicanos têm aproveitado isso para polarizar ainda mais a eleição de 2012. A pergunta deles parece ser: “se esse cara não consegue nem mobilizar um Congresso favorável e se comunicar com os eleitores, como a gente espera que ele consiga ganhar duas guerras e resolver a maior crise econômica institucional desde 1929?”. É uma boa pergunta.

A militancia e “the big fat Clinton money machine”
Algumas das grandes críticas da Hillary a Obama, ainda da época da definição do candidato dos Democratas, têm se confirmado: Obama tem muita capacidade de fala, mas falta poder de definição; Obama tem pouca experiencia, e “hope” não é uma estratégia assim como “change” não é uma política; e por aí vai.

No entanto, foi para os Clintons que o Obama correu quando foi eleito. Isso depois de tudo que a Hillary havia feito durante as primárias para a eleição de 2012.

Mas qual o motivo para isso?

Em primeiro lugar, não foi uma opção do Obama. Foi uma necessidade. Ainda que a campanha de 2007 tenha sido marcada pela participação de voluntários e uma chuva de dinheiro de doadores de pequeno porte, assim que Obama foi eleito ficou claro que a quantidade de dinheiro que eles eram capazes de arrecadar online era patética diante da grana que os congressistas precisavam para poder prometer apoio. E mais patética ainda diante das campanhas necessárias para passar a reforma do sistema de saúde, por exemplo.

Com isso, Obama teve que ir para onde está o dinheiro. E o dinheiro está com os Clintons. Acontece que isso comprometeu o apoio de parte da militância do “hope”, que queria uma mudança na politica externa e uma reforma radical do sistema financeiro. Com os Clintons, a politica externa mudaria pouco e o sistema financeiro menos ainda.

No entanto, Obama continuou sendo tachado de socialista radical, possivelmente muçulmano e totalmente preto pela oposição Republicana. Enquanto ele perdia tempo se defendendo — dizendo que era um liberal clássico, totalmente batista e só preto na parte camarada e cantora de soul music –, os Republicanos foram aumentando o volume da critica, usando o pessoal do Tea Party como idiotas úteis [vídeo: O que é o Tea Party movement].

A volta do pop-conservadorismo

“Die, monster, die”

Essa senhora aí em cima é a Karen Handel, futura governadora da Georgia, um dos Estados mais desiguais dos Estados Unidos. A dona Handel é apenas uma das diversas mulheres que fazem parte de uma espécie de tropa de choque de apoio a Sarinha Palin em 2012. Em uma entrevista recente, a Palin caracterizou a dona Handel como “pro-life, pro-Constituição e cumpridora”, essas três qualidades que, podemos dizer, são o pacote mais importante para eleger um Republicano no sul dos Estados Unidos. Não que seja difícil eleger um Republicano no sul dos Estados Unidos, é claro.

Por muito tempo, desde a eleição de Bush I, os Republicanos têm uma estratégia clara para ganhar eleições. A chamada “deep south strategy” consiste em garantir os Estados ao sul de Illinois e ganhar em outros quatro ou cinco Estados (incluindo a Califórnia). A estratégia falhou toda vez que a situação econômica não beneficiava os Republicanos: em 1992, Bush I perdeu a eleição por uma crise econômica atribuída ao presidente. Em 96, Clinton foi reeleito com uma boa margem de vantagem, em um clima econômico fantástico. Em 2000, Bush II foi derrotado por Al Gore em uma eleição insossa que acabou sendo decidida pela Suprema Corte, em favor de Bush II. Bush acabou sendo reeleito por um reconhecimento da liderança durante o período dos atentados e também pela completa falta de carisma de John Kerry, seu opositor. Com as crises econômicas de 2007, nenhum candidato Republicano teria qualquer chance. McCain foi para o sacrifício, sabendo que perderia a eleição, e os Republicanos usaram a campanha para lançar novas lideranças, esperando poder ganhar em 2012 – redesenhando o mapa eleitoral nos termos de 1988.

Para isso, os republicanos estão reciclando a ideia do “amavel conservador” (“compasionate conservative), que ganhou as eleições para Bush I e II. A ideia é focar em valores do candidato como “gente como a gente”, e consolidar o opositor como um elitista incapaz de plantar uma alface. Nesse sentido, e em muitos outros, a estratégia dos Republicanos lembra muito a do Partido dos Trabalhadores para eleger Lula. Focar nos pontos pessoais, elaborar uma política econômica de relativa austeridade e prometer desenvolvimento social. No entanto, a diferença é que, enquanto no Brasil um candidato não pode, sob pena de suicídio político, falar contra políticas sociais governamentais, os republicanos podem montar plataformas inteiras demonizando a própria ideia de política social governamental.


“Olhe para os meus olhos”

As mulheres que surgem agora, na surdina da Palin, são o exemplo mais bem elaborado dessa estratégia. São, todas elas, mulheres casadas, religiosas, com filhos, que sabem atirar, sabem pilotar caminhão e “nunca precisaram do governo para nada na vida”. As eleições regionais estão cheias dessas mulheres que surgem na cola da Sarah Palin, imitando o estilo. Nos Estados ao sul, a vitória dessas candidatas é lógica. Mas a surpresa (para o horror dos Democratas) é que algumas pessoas com esse perfil têm tido sucesso fora do bible belt.


“Manterei minhas armas, liberdade & dinheiro. Você pode ficar com o ‘troco’”. [Clique para ampliar]

Cronica de uma derrota anunciada?
Devemos esperar a Presidente Palin em 2012?

Em geral, o clima é de decepção com o governo Obama. O papelão na administração do desastre do Golfo do México certamente não pode ser atribuída ao governo passado e a estagnação no Iraque, a derrota no Afeganistão e as duas batidas na trave de atentados em território americano (somados ao ataque bem-sucedido no Kansas) certamente não ajudam. De quebra, a situação econômica não melhorou.

No entanto, seria um equívoco pensar que os republicanos vão ganhar essa eleição facilmente. Sarah Palin é uma piada ambulante e pode perder o pleito em alguma declaração desastrada. As outras lideranças Republicanas parecem ter alguma cautela ao entrar na próxima eleição e arriscar uma derrota que acabaria com suas reputações. A tendência é que Palin seja a candidata em 2012 para incomodar Obama e criar um antagonismo ainda maior – perdendo a eleição, mas mobilizando os Republicanos para eleger um Congresso claramente oposto aos Democratas e inviabilizando o segundo mandato do Obama na prática. Com isso, o caminho estaria livre para Huckabee ou Mitt Romney em 2016.

A politica externa não será tão importante quanto a interna. Qualquer que seja a impressão sobre Obama nas questões internas, ela vai ser repassada para a externa. Se ele for visto como incapaz de liderar e decidir internamente, essa vai ser a impressão para a política externa. Esse não é um fenômeno da próxima eleição americana, mas de qualquer eleição. Um papelão na política externa de Clinton não o impediu de ser reeleito, e Reagan, que deve ser responsável por 90% da confusão que os americanos armaram no Afeganistão, foi reeleito com uma margem de votos impressionante. Ambos têm em comum um período de bonança na política interna.

Com isso, é fácil presumir que as próximas eleições vão mudar o mapa eleitoral americano sensivelmente, indicando a perda de popularidade de Obama e dos Democratas. Mas o quadro ainda está longe de ser definitivo. Se Obama seguir perdendo popularidade, talvez Mitt ou Huckabee decidam concorrer na próxima eleição. Os Republicanos teriam um novo Reagan depois do novo Carter.

“WikiLeaks falha big bang mediático”

braziu.org 11:46 | 31/07/2010

Por Jorge Almeida Fernandes – do publico.pt

A guerra não precisa das “revelações” do WikiLeaks para ser o pesadelo da NATO e de Obama. Se o site pôs em risco a vida de informadores afegãos, diz o seu fundador, a culpa é da Casa Branca, que não respondeu ao seu pedido de ajuda. A “maior fuga de informação da história militar” está a redundar em fiasco. Ao fim de dois dias saiu das primeiras páginas. Por Jorge Almeida Fernandes

“A operação do site WikiLeaks foi inédita pela sua escala – uma fuga de informação de mais de 90 mil documentos militares – e demonstra que a Internet pode mudar as regras do jogo da guerra, agravando a vulnerabilidade do “segredo militar”. Foi um sucesso de propaganda para Julian Assange, fundador do WikiLeaks. Era o esboço de uma revolução nos media, em que um site participativo ditava a sua lei de “transparência” a três jornais históricos. Mas, ao terceiro dia, o tema desapareceu das primeiras páginas. Terá sido um flop?

O WikiLeaks é uma organização peculiar. Especializada na divulgação de documentos confidenciais, é uma máquina “blindada” em termos de segurança informática e, refugiada em “paraísos informativos”, não está sujeita a nenhum sistema legal. “É a primeira organização informativa do mundo sem Estado”, anotou Jay Rosen, professor de Jornalismo em Nova Iorque. “Isto é novo. Tal como a Internet, o WikiLeaks não tem endereço territorial nem sede central.”

A operação foi cuidadosamente montada. A informação foi antecipadamente passada a três “jornais de papel” – The New York Times, The Guardian e o semanário Der Spiegel. Por que não colocaram a documentação em linha para que os media de todo o mundo a ela pudessem ter acesso?

Assange explicou há meses que a “transparência” passa pelas leis do mercado: “Acredita-se que quanto mais importante é um documento mais divulgado ele será. É absolutamente falso. Tem a ver com a oferta e a procura. Uma oferta fraca arrasta uma procura forte e é isto que tem valor. Quando difundimos uma coisa em todo o mundo, a oferta é infinita e, portanto, o valor aproxima-se do zero.”

Os três jornais de referência serviram para caucionar a fuga e maximizar o seu impacto. E prestaram um serviço: reuniram especialistas para descodificar a linguagem, as siglas e o calão das comunicações militares. Em bruto, este tipo de documentação é ilegível.

Jornalismos
Cada jornal explorou a informação segundo a sua óptica. O NY Times sublinhou a duplicidade do Paquistão; o Guardian focou os relatórios sobre vítimas civis; o Spiegel realçou o encobrimento da difícil situação das tropas alemãs pelo Governo de Berlim. São três ópticas em consonância com as sensibilidades nacionais.

O título de primeira página do NY Times – Paquistão ajuda a insurreição no Afeganistão – mereceu uma ironia de Anne Applebaum, no (concorrente) Washington Post: será isto “notícia”, quando o NY Times reportou e analisou, dezenas e dezenas de vezes, a cumplicidade entre os serviços secretos militares paquistaneses e os taliban?

Esta ironia liga-se ao paradoxo da fuga: os documentos não têm praticamente novidade. Mostram, disse um jornalista, que a guerra é um inferno e é suja, que as operações provocam mais vítimas civis do que a estatística oficial reconhece, que o Paquistão é dúplice, que o Governo de Cabul é corrupto, que há incompetência e desorientação entre os militares da força internacional. A fuga pretendia explorar o “efeito de massa” e os imensos detalhes inseridos em milhares de documentos.

Assange assume-se como um justiceiro, que “adora esmagar patifes”, e qualifica a actividade do seu site como “bom jornalismo” e “um serviço de informação do povo”. Quanto ao objectivo da operação, diz: “Há uma tendência para acabar com a guerra no Afeganistão. Esta informação não é isolada e provocará uma viragem política significativa.”

O repórter italiano Gian Micalessin, que tem coberto a guerra afegã, denuncia o “bom jornalismo” do WikiLeaks. Na conferência de imprensa em Londres, na segunda-feira, Assange colocou a diferença entre boa e má informação “na autenticidade das fontes, capazes de transmitir uma indiscutível verdade”. Ora, os 92 mil documentos são “informações” recolhidas no campo, ao mais baixo nível de intelligence. O equivalente a um relatório de polícia “no local do crime”.

Resume Micalessin: “A procura da verdade – tanto no campo da intelligence como no do jornalismo – não se baseia apenas no acesso às fontes e aos documentos, mas também na capacidade de os analisar e construir uma trama capaz de fazer compreender o encadeamento dos acontecimentos e da estratégia.” Fontes em bruto são matéria-prima, não informação.

O jornalismo, dizia-se outrora, é o primeiro rascunho da História.

A arte da fuga
As fugas de informação são o nervo do jornalismo político desde que a liberdade de imprensa se afirmou. Há pequenas e grandes fugas, as de revolta moral, as de ressentimento e as de intoxicação. E há fugas que marcam a História. Dois exemplos americanos clássicos são os “Pentagon Papers” e as revelações do “Garganta Funda” no caso Watergate.

Ao contrário dos documentos do Afeganistão, os “Pentagon Papers” eram um conjunto de análises e relatórios das mais elevadas fontes – Casa Branca, Pentágono, CIA… – que cobriam, em 7000 páginas, a intervenção americana na Indochina ao longo de 22 anos (1945-67). Os papéis foram laboriosamente fotocopiados por Daniel Ellsberg, um analista da Rand Corporation que participou na sua elaboração. Crítico da guerra no Vietname, Ellsberg passou-os ao NY Times, em 1971.

Eles permitiam dizer categoricamente que a “Administração Johnson mentiu sistematicamente não só ao público como ao Congresso sobre um assunto de transcendente interesse nacional”. Teve grande impacto, porque o sentimento antiguerra já estava maduro. E o efeito foi reforçado quando Nixon tentou impedir a sua publicação, que feria a nova estratégia de alargar o conflito ao Laos e ao Camboja para negociar em posição de força.

Radical foi a eficácia do “Garganta Funda”, que hoje se sabe ter sido Mark Felt, subdirector do FBI: gota a gota, foi desfiando informações que culminaram na demissão de Nixon, em 1974.

Ellsberg, que admira Assange, fez um paralelo entre os seus casos. Declarou numa entrevista que esta fuga de informação é a mais importante desde os “Pentagon Papers”. Com uma diferença: “Tem uma escala muito mais larga e, graças à Internet, deu a volta ao mundo muito mais rapidamente.”

Ellsberg pôde fazer a fuga, porque tinha sido inventada a fotocópia. Assange não só beneficia da Internet, como da vulnerabilidade da informação electrónica. É uma das razões de alarme do Pentágono, que fez da identificação do informador ou informadores do WikiLeaks “um objectivo estratégico”. O problema é que todos os militares mobilizados no Afeganistão, os analistas do Pentágono e seus parceiros privados podem aceder, via Intranet, a este tipo de informação.

“A Web tornou-se uma ameaça para as nações em guerra, porque a informação secreta é decisiva para o sucesso ou o fracasso no conflito. Quem revele um segredo e o difunda numa escala gigantesca pode influenciar a guerra”, anota o diário alemão Süddeutsche Zeitung.

A guerra
A operação teve efeitos políticos. Na Europa, os sectores críticos da guerra subiram a pressão sobre os governos, exigindo a retirada do Afeganistão. Poderá ser este o efeito mais imediato. Em Washington, Obama enfrenta a pressão dos “pacifistas” democratas. Um ponto crítico é a nova quebra de confiança entre os EUA e o Paquistão. As revelações confirmam a ideia de atolamento e inutilidade da guerra, mas, ao contrário da previsão inicial de alguns analistas, não produziram um sobressalto dramático na opinião pública americana.

O fundamental está noutro plano: a guerra do Afeganistão não precisa do WikiLeaks para ser um pesadelo da NATO e dos americanos. Em Agosto de 2009, uma fuga de informação filtrada pelo Washington Post atribuía ao general Stanley McChrystal a afirmação de que os EUA só tinham 12 meses para inverter o curso da guerra. Que se passa um ano depois?

Richard Haass, presidente do Council on Foreign Relations e que foi conselheiro de Colin Powell na era Bush, assina na Newsweek um artigo intitulado: Não estamos a vencer. E não vale a pena. A estratégia da contra-insurreição não está a resultar, diz. E nenhuma das opções que Obama tem à disposição é agradável. Restará ao general Petraeus reduzir as operações e poupar a vida de soldados, aguardando uma aproximação aos taliban. “Quanto mais depressa aceitarmos que o Afeganistão não é um problema a resolver mas uma situação a gerir, tanto melhor.”

Flop?
Na quinta-feira, Assange defendia-se de ter divulgado, na versão bruta colocada em linha, documentos com nomes de informadores afegãos, denúncia feita pelo jornal britânico The Times após investigação. Argumentou que tinha pedido à Casa Branca, na semana passada, que colaborasse com o site de modo “a minimizar a possibilidade de nomes de informadores serem divulgados”. Não teve resposta!

O magazine Slate chama a atenção para o facto de, após dois dias de estrondo, o assunto ter desaparecido da primeira página do NY Times. “A rapidez com que a imprensa e os políticos normalizaram o material como “não notícia” indicia que Julian Assange, líder do WikiLeaks, se poderá ter equivocado no desejo de produzir o grande bang mediático.” O segredo da gestão das fugas é administrá-las gota a gota. “Mas a estratégia gota a gota requer determinar o que é mais importante na história.” A falta de novidade torna essa escolha problemática.

No seu blogue na Foreign Policy, Tom Ricks ironizou: “Os milhares de documentos lembram-me o que é ser repórter: imensas pessoas diferentes a contar coisas diferentes. Leva algum tempo a distinguir o lixo do ouro.”

O antigo hacker Julian Assange diz ter outras munições na manga. Aguardemos a próxima “bomba”.”

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