Serra merece perder (mas contratarei um pistoleiro de aluguel)
No final dos anos 90, 14 dos 15 países da União Europeia eram governados pela esquerda. Hoje são apenas sete, e com uma Europa alargada; há mais países no bloco do que havia à época: 27. Para piorar, há governos de esquerda na Grécia, Espanha e em Portugal, países com economias destroçadas. O que aconteceu?
Não existem explicações simples para um post de domingo [ainda estou de pijama e não pretendo tirá-lo até segunda]. Ao menos não sou tão presunçoso quanto analistas políticos que orbitam por aí (ao final dos posts você tem a plena certeza de ter lido o sermão de um pastor evangélico). Duas macro razões podem ser descritas, entre um bocejo e outro.
Materialmente, perdeu-se e mão do Welfare State, a ilha de bem-estar social sonhada por aqui. O Estado deu muito e exigiu pouco. As pessoas não entendem e não têm obrigação de entender porque são, enfim, pessoas, mas o leite está minguando e não dá mais pra todo mundo ficar penduradinho na teta.
A briga na França é exemplar: a expectativa de vida ao nascer em 1980 (quando foi instituída a aposentadoria aos 60 anos) era de 73.7 anos. Hoje, é de 80.98 anos. Em 2050, deve alcançar os 84 anos. O governo queria alargar o pijama para 64 anos; como todo mundo chorou, reduziu o projeto para 62. Mesmo com choro geral, a lei deve passar. Precisa passar. Neste caso, a mudança de regras de um direito adquirido é fundamental para manter aquele próprio direito.
Mentalmente, a esquerda europeia esbanjou soberba, ‘subiu nas tamancas’. E pessoas não gostam de gente arrogante. Os operários, que antes votavam majoritariamente em partidos de orientação socialista, hoje votam na outra ponta, na extrema-direita, onde há partidos mais pragmáticos e menos retóricos. Ninguém quer ficar ouvindo político dizer o quanto ele (o político) é o bonzão.
Não por acaso, esse é um dos claros motivos pelos quais temos segundo turno no Brasil nessas eleições: a prepotência começava no alto e ia escorrendo pelas veias da militância. Se o segundo round serviu para algo (porque ainda acredito na vitória de Dilma) foi para baixar a bola do pessoal que já estava pregando o fim de todos os partidos que não assinaram o tratado da verdade única.
Discursos em que se fala mal dos ricos de modo hipócrita acabarão porque, um dia, no país imaginário desses senhores, seremos todos “ricos”. O discurso terá que mudar, e mudará, porque políticos, como bons papagaios de gaiola, repetem as frases que fazem a plateia sorrir. Polly just want a cracker e paga o preço que for preciso.
Até meses atrás, víamos uma disputa entre dois partidos de centro-esquerda no Brasil. Petistoides tinham dificuldades em defender como o PSDB (“um partido de direita”) tinha um presidente que pregava a descriminalização da maconha, por exemplo. E sim, isso é ponto fundamental para a definição — você jamais verá um partido ‘de direita’, conservador, defender coisas como essa. Jamais.
Além desse, outros preceitos do PSDB representados por boa parte de seus fundadores o colocavam na centro-esquerda do velho espectro de classificação de ordens políticas. Se você quer modernizar o que seria a direita (aka adaptar o conceito a seus inimigos) então chame-a de outra coisa.
Com o avanço da disputa eleitoral — e com o enorme esforço do próprio PSDB em fazer José Serra perder a eleição — o que se viu foi um festival de apatia e, depois, de desorientação política. Panfletinhos com a foto de Serra e uma frase de Jesus? Qual é? Serra se agarra ao catolicismo como se tentasse escalar um pau-de-sebo.
Dilma fez examente a mesma coisa, ou até pior, porque até ontem era ateia e hoje acredita muito em Jesus no coração. Fico imaginando o que ela está pensando de olhinhos fechados em fotos como essa.
A diferença entre ambos é que a campanha de José Serra se apegou somente a isso, ele parece não ter mais nada a oferecer ao Brasil. Talvez tenha, mas se nem mesmo ele próprio acredita nisso, não me peça para acreditar. Se no início da campanha eu tinha certeza de que ele era ‘o mais preparado’ (e ainda é), hoje isso pesa muito pouco na balança. A campanha, que deveria ter sido feito em cima dessas competências, não foi. [aqui vai um link mostrando São Paulo para os petistas que amam tanto falar de números ultimamente]
Os candidatos, ambos, são um desastre. Isso é ponto pacífico. Uma das coisas que mais me faz rir é ver as reações pós-debates, sobretudo de petistas (que são mais passionais, logo, mais engraçados). “Dilma deu show!!! !!!” | “Nossa gente ke emoçaum Dilma no debate!!!“. O parâmetro de ‘show’ e ‘emoção’ desse pessoal deve ser o Zorra Total. É nego que chora ouvindo uma piada do Ary Toledo, imagino.
Dilma não merece ganhar, mas Serra merece perder. E merece perder para ver se o PSDB acorda e areja seus quadros, volta minimamente a ser um partido com ares de século XXI como um dia acreditou ser.
Para manter a tradição que eu mesmo me impus desde 2002, vou abster go$toso meu voto. Serra merece perder e você será meu pistoleiro de aluguel. Se tudo ficar como está, Dilma vencerá e o PSDB, caso não capitule ao governo e não seja uma oposição tão inútil como nos últimos 8 anos, terá tempo para repensar o universo. E não votarei em Dilma porque tenho restrições profundas à sua candidatura — a começar pela falta de primárias para decidir o candidato em um partido que se promete democrático.
A principal força de centro-esquerda da Itália, o Partito Democratico, faz eleições internas onde todos os cidadãos italianos que possuem título de eleitor podem votar para definir quem será o candidato. Isso mesmo: é uma primária aberta aos italianos, e não somente aos militantes. No PT, nem isso. Se eu fosse filiado e deixasse parte dos meus ganhos no caixa do partido me sentiria um idiota útil.
Uma das frases clássicas no mercado de trabalho aqui na Bota é “mi manda papà” (“me manda papai”), que resume bem como são as relações de poder em um país que é descendente direto do Império Romano, onde a meritocracia não existia. Dilma subirá a rampa no dia da posse e, lá de cima, dirá ao brasileiros: “mi manda papà”, certamente com espaços de 10 segundos entre cada palavra. Desculpem se não consigo levar a sério toda essa gente.
Tags: aborto, Desastre, Dilma, Jesus, Lula, Papa, PSDB, Religião, Serra
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Live blogging do debate entre os presidenciáveis | Domingo 17/10 | 21h10
[colagem. as cabeças são da Rolling Stone BR. os afrescos são de Giotto]
Tags: ao vivo, blogging, debate, Dilma, Folha, live, Rede TV!, Serra
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“Apenas que… busquem conhecimento”
A essa hora todo mundo já conhece Bilu, o ET entrevistado pela TV Record no domingo passado e que se tornou a celebridade do momento na internet (já havia sido entrevistado pelo SBT). Bilu, além de ET e celebridade, tem uma vantagem em relação a Michael Jackson: é alfabetizado em português brasileiro. O domínio do idioma por Bilu é uma prova de nossa força como nação emergente para além da camada de ozônio.
Em Nova York, Paris ou Roma, as lojas já começam a contratar atendentes que falem a nossa língua. Agora sabemos que nosso capitalismo pode verdadeiramente dominar o cosmos, com uma legião de Bilus espalhados pelas galáxias usando bermudão e sandálias Havaianas e arrancando pedaços dos planetas para levar de lembrança.
Bilu é um ET acanhado, não gosta de ficar dando uma de superpoderosão. No vídeo levado ao ar pela Record ele mal aparece; se limita a fazer algumas traquinagens com sua luz interior. Em certo momento, quando mal e mal dá para ver o que seria seu ‘rosto’, a impressão que se tem é de que ele usa uma máscara do Jiraya. E Bilu tem mesmo a panca de ninja do personagem do seriado japonês: lá pelas tantas, dá um pulo ágil em meio à vegetação antes de mergulhar novamente na mata. A luz, a máscara e o pulo ninja parecem ter aterrorizado o repórter, que pediu para que Bilu “não o tocasse”.
Bilu, o ET que fala português PT-br, tem uma voz quase infantil, um fiozinho de nada. É como se Tiririca respirasse um balão de gás hélio. Que gás Bilu respiraria? Aliás: Bilu precisa respirar? O terror da equipe de reportagem foi tamanho que eles fracassaram em desvendar os negros mistérios que envolvem o nosso Michael Jackson do coqueiral.
Os curadores de Bilu no nosso planeta dizem que corremos um grande risco (nós, raça humana) e que Bilu está aqui para nos proteger. Não dizem que ameaça seria essa, mas desconfio que eles estejam se referindo aos candidatos à Presidência da República.
Ao ser perguntado, ao fim da filmagem, que conselho daria para a humanidade, Bilu foi sucinto: “Apenas que… busquem conhecimento”. Olhando para os olhos de Serra e Dilma, sugiro buscar o coqueiral mais próximo.
Tags: Bilu, busquem conhecimento, Dilma, ET brasileiro, Record, SBT, Serra
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Dom Pedro Segundo entrevista: Carl Marx
Tags: aborto, ateísmo, ateu, Carl Marx, Deus, Dom Pedro II, Engels, fé
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Gerador automático de frases do tucano anti-petista raivoso
Aproveitando que a militâm$ia petistoide parece ter acordado pra vida nesse segundo turno, este Braziu republica nosso fantá$tico e €xclusivo “Gerador de frases do tucano anti-petista raivoso”. O funcionamento (simples) foi feito pensando em quem estuda em escola públicagratuitaedequalidade: tasca-lhe infinitamente F5 (também conhecido como “reload” ou “recarregar”) para obter uma nova e deliciosa sentença. Esperamos que as frases elevadas inspirem o dilmismo a esmagar essa gente boba, feia e direitosa que defende união civil de homossexuais e descriminalização da maconha. Aleluia, irmãos!
Tags: campanha, Dilma, frases, gerador, tucano
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Partido do Movimento Ditocrático Brasileiro | Dividir
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Os nossos muçulmanos estão certos
Leandro viaja pelo mundo cobrindo guerras. Leandro não sou eu, é um outro. Quando esteve no Líbano pouco antes da invasão de 2006, fez o que frequentemente faz quando viaja: foi a uma escola conversar com crianças sobre religiões, Ocidente e Oriente Médio. Antes de começar a falar, Leandro sempre pede que as crianças escrevam em um papel uma resposta simples à pergunta “Quem você é?”. Recolhe todos os bilhetinhos e lê as respostas somente no final da lição — quando então pede para que as crianças confirmem a resposta, ou a mudem.
A coisa que mais chama sua atenção quando viaja a lugares como o Líbano é o padrão das respostas. Ao ouvirem a pergunta “quem você é?”, a maior parte das crianças desses países respondem em uma só palavra: “muçulmano”. Nenhuma criança responde “cristão” quando Leandro faz a mesma brincadeira em território ocidental; preferem dizer que são “filhos de alguém”, “estudantes” ou “jogadores de algum time de futebol”.
No Brasil de hoje, mais de 30 milhões de pessoas se declaram “evangélicos”. Evangélicos, sobretudo os neopentecostais, são os nossos muçulmanos. Não existe ‘evangélico não-praticante’, modalidade criada por cristãos apostólicos romanos para ficar de bem com o cara lá de cima ao mesmo tempo em que batem a carteira de alguém aqui em baixo.
Os ‘nossos muçulmanos’ são, além de numerosos, ativos em todas as camadas da sociedade. Esse ‘tipo de religião’ não é ‘coisa de pobre’, como a imagem estereotipada e já desgastada pelo tempo que nos acostumamos a ver. É um grupo heterogêneo, de poder aquisitivo crescente e espalhado pelo país.
Os evangélicos, em regra, são contra o aborto, e têm todo o direito de defender essa trincheira. Seus generais, os pastores, estão guiando as tropas contra qualquer projeto que permita alargar a lei atual. Gente como Silas Malafaia está em sintonia com seu povo, mas não somente com ele: apenas 7% dos brasileiros acreditam que a prática deva deixar de ser punida pela lei.
Brasileiros não são ‘conservadores’ (no sentido de ‘retrógrados’); na mesma pesquisa, 7 em cada 10 declara que a legislação deve ficar como está — e a legislação permite o procedimento para fetos que ponham em risco a vida da mãe ou em casos de estupro. Considero a legislação brasileira sobre o tema uma das melhores do mundo. Mesmo sendo contra o aborto por motivos pessoais, não sou a favor de levar aos tribunais mulheres que o praticarem nessas duas circunstâncias.
Repare que há diferenças fundamentais entre ser ‘contra o aborto’ e a favor da ‘criminalização’. Você pode ser contra o ato de abortar, como eu, e acreditar que a prática é um crime em qualquer circunstância, por exemplo; ou ser contra mas defender o direito de toda mulher poder abortar até os três meses de gravidez sem sanções penais. Uma coisa não está ligada a outra.
Os motivos eleitoreiros pelos quais o assunto ganhou os holofotes são do jogo, e o jogo foi, é e sempre será esse. Política nos moldes democráticos e representativos é a arte da garganta pura e simples (e que vença o menos pior). Nem por isso os candidatos podem achar justo se esquivar da conversa porque ela foi puxada pelo mais bêbado da mesa. In vino veritas.
Argumentar que vivemos em um Estado laico para dizer que os religiosos estão errados em defender suas ideias é, veja só, errado. A separação entre Estado e Igreja no Ocidente teve sua pá de cal com a unificação italiana e todo mundo do lado de cá do planeta parece ter entendido bem o recado. Tanto que os pastores não estão postulando que o Estado emposse um bispo como chefe da nação — estão defendendo sua ética de comunidade com pressões no Executivo e Legislativo, democraticamente, assim como fazem as bancadas das armas, dos ruralistas, dos sindicalistas, dos direitos humanos, dos GLS, dos…
O laicismo não excomunga Deus da vida social, apenas o põe em seu lugar, mantendo sua voz e seu direito de defender dogmas que para nós, ateus, são muito similares a historinhas de gnomos e potes de ouro no fim do arco-íris. O bom da religião é que ela abre precedentes para que eu possa acreditar em todas as lendas cantadas nas músicas do Black Sabbath, Iron Maiden ou Pink Floyd, no que agradeço imensamente e de coração.
Na Itália, a pressão política da poderosa Igreja nem sempre traz resultados. Aqui, o aborto é consentido na rede pública até o terceiro mês de gravidez, apoiado em uma lei aprovada em 1978 e que passou por um histórico plebiscito popular em 1981, quando 68% dos italianos disseram ‘sim’ à prática, ferindo gravemente o coração do Vaticano. A pílula do dia seguinte, apesar de todos os protestos do mundo católico, começou a ser distribuída neste ano.
Em Roma, não se caminha 200 metros sem passar por uma propriedade da Santa Sé, representada por seu escudo. Nem por isso, Roma — e a Itália — são uma ‘teocracia’. Evite a retórica do desespero e pare de acreditar que algum bispo de voz rouca e gel no cabelo dará um golpe de Estado. Caso se torne presidente por meio do voto em um futuro não muito distante haverá pouco para chorar; as regras do jogo estão aí para todos, inclusive pro pessoal que acredita em duendes.
Tags: aborto, debate, Dilma, evangélicos, lei, política, Religião, segundo turno, Serra, Silas Malafaia
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Dom Pedro Segundo entrevista: Deus
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Apelo divino
A entrada de Deus no debate político aumenta as chances de atrair de volta a atenção do eleitor médio e entediado para o centro do picadeiro político. Chega de Serra e Dilma fingirem passes de mágica ultrapassados, tirando milhões de empregos da cartola e fazendo desaparecer todos os problemas do país com um toque de varinha mágica. Se o convidado especial tem o poder de lançar pragas ou te mandar pro inferno, porque deixar o espetáculo da democracia nas mãos de dois cidadãos comuns e sem graça nenhuma? O povo quer sangue e sexo! Ou sexo misturado com sangue. Tanto faz. Como tanto faz o fato de Serra e Dilma entrarem em igreja ou templo somente para casamento ou missas de sétimo dia. Ninguém está ligando pra isso. O importante é defender os valores cristãos diante da sociedade, é dizer “não ao aborto” e “sim ao direito à vida”.
A impossibilidade de uma candidatura divina à presidência (não existe foto de Deus para colocar na urna eleitoral, além disso, pelo que ouvi, Ele é monarquista) relegou aos dois candidatos oficiais a responsabilidade de ser porta-voz do projeto comum de “direito à vida” outorgado pelo Todo Poderoso.
Quem está ligando para os já tão batidos problemas básicos de saúde, saneamento, violência, educação e corrupção que continuam sendo um freio para o desenvolvimento da sociedade brasileira? A moda agora é falar de aborto! Deus não tá nem aí se você morre de fome ou de hepatite na fila do SUS. O que ele não perdoa é a sua filha de 14 anos abortar um feto que ela não poderá criar, deixando, assim, de perpetuar a sua miséria. Não, meu caro, a coisa aqui é séria. Levante você também a bunda do sofá, desligue a TV de plasma comprada em 36 parcelas e saia por aí defendendo a vida, que, por sinal, não é a sua… “Graças a Deus”.
Tags: aborto, Deus, Dilma, Eleições, Serra, voto cristão
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