Just white people or we’re all the same religion

Nannah Pereira, colaboração para o Braziu™ 09:36 | 02/11/2010

Certa vez em Family Guy, Peter disse a seguinte pérola sobre as pessoas do Sul dos Estados Unidos: “THE SOUTH?! Isn’t that where all the black people are lazy and the white people are all lazy too but they’re mad at the black people?“ [O SUL? Não é aquele lugar onde todos os negros são preguiçosos e os brancos também, mas eles se aborrecem mais com os negros?].

Os revolucionários da sece$$ão que explodiram de raivinha no Twitter por causa da eleição de Dilma acham que os nordestinos são prejudiciais ao país. O argumento de que Dilma foi eleita pela região NE cai ao verificarmos algumas matérias que saíram após a eleição. “Considerando apenas Norte, Centro-Oeste, Sul e Sudeste, ela somou 1.873.507 votos a mais do que o tucano José Serra.”

As falas que mandam o Nordeste explodir ou que querem separar o Brasil ecoam também no movimento “São Paulo para os paulistas”. Discriminar alguém é uma forma de se sentir parte de um grupo e de se livrar das responsabilidades: “foram vocês que elegeram, não tenho nada a ver com isso”. A manifestação da menina que teria começado o levante [não daremos link pra não alimentar a idiotia dessa falsa-polêmica] começou como uma conversa entre amigos, o que seria comum em seu dia-a-dia, imagino. A internet, como canal aberto (?) só potencializou a divulgação das ofensas que a maioria fala de forma corriqueira. Não somos mais ou menos idiotas por isso, só que agora temos twitter pra propagar nossa pobreza intelectual.

Na família Silva Brasil, a mãe do seu amigo chama a empregada da casa de “baiana”, o motorista do ônibus de “macaco”, o gay da sala de “viadinho” e o porteiro do prédio de “paraíba”. Postar isso no twitter pode ser apenas uma forma de suicídio social, mas entre amigos é uma brincadeira e representa nada mais que uma necessidade de auto-afirmação. Não que devamos ser tolerantes, mas fazer cyberbulling contra a menina também é uma forma de praticar uma justiça cega, intolerante, onde não há espaço para arrependimento, se for o caso. O que reforça a troca mútua de acusações dos dois lados até que comece a nova edição do Big Brother Brasil, onde todo mundo vai assumir novamente a sua torcida organizada assim como fez nas eleições.

Volto a concordar com Peter quando ele diz: “I think the lesson here is: it really doesn’t matter where you’re from as long as we’re all the same religion” [Eu acho que a lição aqui é: realmente não importa de onde você é enquanto formos todos da mesma religião]. Memorize essa frase se quiser concorrer em 2012. Nós, nordestinos, hoje somos culpados por eleger Dilma, mas amanhã podemos ser beatos por eleger o seu candidato.

* Nannah Pereira colabora com o Braziu™ escrevendo semanalmente o Horóscopo Político. Colabore você também enviando um e-mail. Caso não haja resposta, é porque achamos uma porcaria.

Live blogging | Debate final | TV Globo

Leandro Demori | Itália 21:11 | 29/10/2010

Plantão Braziu: EUA em estado de alerta; caças escoltam avião de passageiros

Fabricio Pontin | Estados Unidos 17:40 | 29/10/2010

O serviço secreto americano lançou um aviso dizendo que diversos objetos suspeitos foram encontrados em aviões de carga da UPS. Os dispositivos em questão são, até onde consegui entender, algo como cartuchos de impressora alterados para parecerem detonadores de bomba.

Tem um avião sendo revistado em um aeroporto na Pennsylvania e agora tem dois aviões da força aérea norte-americana dando cobertura para um avião de passageiros.

Estou no meu escritório, em um PC velho, com a CNN passando muito mal e porcamente. Vou tentar achar um canal alternativo e atualizar aqui conforme as coisas acontecerem (usando nos updates o horário local, 3 horas a menos que no Brasil). Se a coisa ficar mais feia, eu e Dr. Rocco Demori abriremos um live-stream aqui mesmo.

Na semana que vem tem os mid-terms (eleições) aqui nos Estados Unidos e essa histeria por conta desses explosivos deve acabar com qualquer chance que os Democratas tinham de tentar virar a tendência de domínio Republicano no Congresso e no Senado.

Update 1 (2:45 PM – Central Time) Sinagogas e centros culturais judaicos estão em nivel máximo de alerta. Algumas pessoas já começaram a largar “bombas-de-mentirinha” em lugares estratégicos, questão doméstica querendo potencializar o alcance das potenciais bombas dos aviões que, até agora, parecem ser uma questão de interferência externa (mas nunca dá para saber nos Estados Unidos).

Update 2 (2:47 PM – Central Time) A CNN acaba de mandar a manchete: Emirates flight 201 lands at New York’s JFK airport escorted by fighter jets. Ou seja, pousou o avião no JFK. To ligando meu netbook aqui, sem condições de abrir duas ou mais abas nesse computador

Update 3 (2:52) Governo lança nota atribuindo ao Yemen e à Al-Qaeda o incidente. Por enquanto a terminologia gira em torno de “scare” e não “threat”.

Update 4 (2:55) Passageiros saindo do aviao da Emirates ao vivo em vídeo.

Update 5 (2:58) Obama vai falar ao publico em quinze minutos. Ao vivo aqui.

Update 6 (3:04) Destino final do avião seria O’hare, em Chicago.

Interessante que aviões seguem pousando no aeroporto na Filadelfia. (acabou de pousar um doméstico no vídeo aqui). Pelo visto, estão tentando evitar uma parada total das capacidades aereas do pais, como aconteceu em 2001.

Update 7 (3:15) Avião seria procedente de Dubai, não do Yemen, dizem as autoridades americanas para a CNN. “”Emirates Flight EK201, which has just landed at JFK, originated in Dubai not in Yemen, as reported in the US media. More information will follow as soon as we have it. Emirates is co-operating fully with the US authorities.”

Update 8 (3:18) BBC dando (só ela) que não havia bomba alguma no avião. A revista The Atlantic se pergunta se “terroristas do Yemen estariam praticando para uma situacao real de bomba”.

Update 9 (3:23) BBC e MSNBC: o pacote foi retirado em Newark e aberto; dentro havia um cartucho de impressora e um certo pó branco. A teoria da policia é que seria um teste para ver a resposta do Governo Americano diante da situação. As infos no entanto são bem ESPECULATIVAS até agora. MSNBC: mais de uma dúzia desse tipo de dispositivos foram colocados em aviões da UPS no mundo todo.

Discurso do Obama:
“Os pacotes realmente contêm material explosivo, pelo menos em alguns casos”
[Pelo que entendi, esses foram pegos ainda antes do embarque em vôos. Foram pacotes identificados como suspeitos.]

“Os pacotes realmente vieram do Yemen. E pelas mãos da Al Qaeda. Falamos com o presidente do Yemen, que prometeu cooperar”
[fim do que importa no discurso]

that’s all, folks. Voltem depois pro live que importa, o do debate.

Live blogging hoje | Debate final | TV Globo

Leandro Demori | Itália 14:10 | 29/10/2010

Ainda estamos indecisos, mas talvez estaremos aqui para o embate final no gel da democracia.

A transmissão começa depois de Passssssssione.

Live blogging do debate R7/Record entre os presidenciaveis | segundo turno

Fabricio Pontin | Estados Unidos 21:44 | 25/10/2010

Os dois candidatos já deixaram claro que vão tirar o pé nos próximos dois debates. Ou seja, estejamos prontos para uma maratona de bocejos no embate da Record, daqui a pouco, e no da Rede Globo, na noite de sexta. Aliás, quem não quiser assistir ao debate precisa apenas ler este post do Josias de Souza, que prevê as respostas de cada candidato para as perguntas do oponente. Mas aqui no Braziu ninguém se intimida por pouco: eu, nos Estados Unidos, e Gabriel Brust, na França, receberemos os amigos leitores para o já tradicional live blogging apatifado. Serão todos bem vindos para opinar e esculhambar. Daqui a pouco, às 23h.

O Zio Orco

Leandro Demori | Itália 10:13 | 21/10/2010

Todo mundo conhece o Zio Orco. Zio é a palavra em italiano para ‘tio’. Os ‘gringos’, como são conhecidos os descendentes de italianos no Brasil, têm, na maioria das vezes, uma coleção de Zio Orco na família.

O Zio Orco é um ser humano de modos rudes e beligerantes, mas acredita não falar palavrão. Quando quer xingar alguém, usa a tática do mangione: come pedaços das palavras de modo que elas não machuquem ‘assim tanto’. Em vez de mandar para aquele lugar (onde estaria sua mãe, a mulher que lhe pariu), Zio Orco solta um “apaput!”. Em vez de mandar receber predicados pela porta dos fundos, Zio Orco grita “atomano!”. E assim vai.

Zio Orco acredita que assim limita o dano de seus xingamentos. Bobagem. Quem ouve um ‘apaput’ sabe exatamente que está sendo mandado para a puta que pariu.

Uma de minhas constatações culturais sobre a Itália está justamente no compêndio dos palavrões. É inigualável xingar alguém em italiano, sobretudo com algumas notas de sotaque romano ou napolitano. Os italianos, no entanto, não falam palavrões, ao contrário do que quer a lenda contada no Brasil. É raríssimo ouvir qualquer xingamento por aqui. Quando discutem, discutem e basta. Podem passar horas (mesmo) em um arranca-rabo, mas duas regras sociais são estabelecidas: se trata a outra pessoa sempre por ‘você’, usando o ‘tu’ somente se isso for consentido; não se baixa o nível a ponto de mandar a outra pessoa ‘paput’.

Isso vale de modo geral — há as óbvias e humanas exceções.

No Brasil, se ouve palavrões de modo natural ao longo do dia: em filas, nas ruas, em órgãos públicos e privados. Pessoas indignadas por motivos justos ou injustos perdem a linha facilmente. No trânsito nem se fala: a normalíssima violência começa nas palavras. Dizem que o trânsito de Roma é um caos, e é; mas um caos civilizado. Jamais vi um motorista xingar o outro com palavrões mesmo após ter sido vítima da mais profunda barbeiragem ao volante. As pessoas não são ‘melhores’, são só mais pacientes e educadas. Parou na minha frente para que alguém desça do carro? Tudo bem. É só TRÂNSITO, afinal, e não A Guerra dos Últimos Dias.

Ontem, em uma caminhada, José Serra foi agredido. Pensei muito antes de usar a palavra ‘agredido’, mas foi isso o que aconteceu: uma agressão. Não defendo isso em nome de José Serra, um político menor e sem merecimento de 1% de meu apreço. Defendo pelos mesmos motivos que jamais concordei com os métodos do Zio Orco.

Pessoas que apoiam a candidatura Dilma ou pessoas que simplesmente enxergam ‘frescura’ no ‘teatro’ encenado por Serra após a agressão dizem que foi “apenas uma bolinha de papel“. Poderia ter sido um barbante. Um clip. Uma pena. Não existe ‘mais agressão‘ e ‘menos agressão’. A quantificação técnica, nesse caso, é defesa de militoide. Serra estava caminhando na rua com seus correligionários quando um grupo contrário à sua candidatura tumultuou tudo. E jogaram um objeto nele. Ponto. Isso é uma agressão, é a invasão do espaço privado e pessoal de um ser humano sem seu consentimento e com motivos intimidatórios. Ou a bolinha de papel, ao ser desdobrada, trazia uma mensagem de amor e esperança?

É óbvio e cristalino que Serra usou isso a favor da campanha. Fosse ele do Mundo dos Puros não estaria ali fazendo… campanha [Bom Dia, Vida Real].

Quantificar uma agressão, no entanto, é como desprezar o poder das palavras. Talvez seja incorreto falar em processo civilizatório, mas minha impressão pessoal é que uma sociedade é mais ‘civil’ e respeitosa quando os limites estabelecidos são respeitados — e quando nos importamos com eles. Dizer que “é apenas uma bolinha de papel” é apagar a linha que separa a sua individualidade do mundo. Amanhã, se baterem no seu carro e for “só um arranhão” você vai abrir mão de pedir ressarcimento dos danos? Se lhe empurrarem e você tropeçar e cair no chão vai aceitar a desculpa de que o empurrão “foi bem fraquinho”? Se alguém cuspir em você vai levar na boa o papo de que “foram só umas gotinhas de nada”?

O Zio Orco entende muito bem disso.

– Mas eu não disse “Porco Dio”, eu disse “Orco Zio”, defende-se ele.

Ah, tá. Então tá tudo bem.

Política e religião na Finlândia

Gabriel Brust | França 20:59 | 20/10/2010

O debate cristão, graças a Deus, parece estar arrefecendo na campanha eleitoral brasileira e voltando para seus guetos religiosos. Silas Malafaia, da Assembléia de Deus, e Edir Macedo, da Igreja Universal, travam agora um embate pessoal – briga de pastor, sem ringue de gel nem biquíni, mas ainda assim divertida.

Enquanto isso, uma polêmica sobre o tema inquieta um pessoal lá daquelas bandas geladas para onde o mundo, e mesmo a Europa, não costuma olhar muito: os países nórdicos. Mais especificamente, a Finlândia. Nos últimos sete dias, nada menos do que 25 mil fieis abandonaram a Igreja Luterana da Finlândia, após assistirem a um debate na televisão. Na ocasião, a líder do partido Democrata-Cristão, ligado à igreja, fez duras críticas à legislação do país, que permite a união legal de casais homossexuais e a adoção de crianças.

Da polêmica, surge uma informação provavelmente desconhecida para muitos: o país, um dos mais desenvolvidos do mundo, tem duas igrejas consideradas “nacionais”: a Igreja Ortodoxa da Finlândia (com apenas 1% dos finlandeses entre seus fieis) e a Igreja Luterana da Finlândia (a qual pertence 80% da população). Nesta condição, ambas estão habilitadas a cobrar o dízimo através dos impostos estatais. A porcentagem do imposto-dízimo é proporcional à renda do cidadão. Quem não quer mais ter seu imposto descontado, basta pedir, mas a imensa maioria dos finlandeses paga. Calcula-se que a fuga em massa de fieis desta semana deve trazer um preju de 7 milhões de euros. Além de terem seus orçamentos atrelados ao do Estado, as duas igrejas ocupam um papel importante em cerimônias nacionais.

Não só a Finlândia, mas boa parte dos nórdicos, como Islândia, Dinamarca e Noruega, ainda têm igrejas nacionais. A Suécia teve até recentemente. O curioso é que a proximidade entre igreja e Estado acabou por forçar a adaptação da igreja ao comportamento moderno, e não o contrário. A Igreja Luterana Finlandesa, por exemplo, aceita o divórcio e o casamento de pessoas divorciadas. Em relação ao aborto, é parecida com a lei brasileira: aceita em caso de estupro, ameaça à vida da mãe ou deformações graves. Em 2009, a Igreja aceitou que um de seus pastores, pai de família, passasse por uma operação de mudança de sexo, sem prejuízo para suas funções religiosas. Desde 1986 a igreja aceita pastoras mulheres, e há pouco elegeu sua primeira bispa. Tanto homens quanto mulheres precisam ter um “master degree” para se tornarem pregadores, quase como no mercado de trabalho convencional.

A questão da homossexualidade é a bola da vez e, assim como todas as outras questões que foram sendo superadas ao longo do século 20, deve acabar sendo aceita pela igreja. É o que indica esta enorme pressão popular após as declarações da líder partidária e religiosa no tal programa de televisão.

O que parece acontecer na Finlândia é que a igreja vem se adaptando às resoluções do Estado, com o qual mantém um relacionamento mais próximo do que aquele que observamos na maioria dos países ocidentais. Enfim, um modelo que não me parece o ideal, mas que dá o que pensar.

Veja aqui a lista de artistas e intelectuais que apoiam Dilma

Leandro Demori | Itália 15:06 | 19/10/2010

Quer dizer, você deveria ver aqui a lista.

Acontece que a lista não está mais ali. Istranhu, néam?

Vamos pedir ajuda ao Sr. Google. Buscamos pelo link e vem… mmmm…. opis… zzzzz…. plóf………. zzzzzzzzzz……… bãrf………. opa, isso:

É importante que você clique na imagem para ver grandãum

O que diz ali? Que o Diretor de Tropa de Elite está com Dilma. Não foi exatamente o que ele disse:

”Parafraseando o filósofo americano Henry David Thoreau, gostaria de esclarecer que eu não pertenço a nenhum partido, grupo polí­tico, agremiação, sindicato ou lista de apoio a candidatos, na qual eu não tenha me inscrito voluntariamente; e que ao contrário do que certos sites e tweets têm afirmado, e do que consta em lista de apoio enviada por um grupo que apóia a candidata do PT para os grandes jornais brasileiros, eu não aderi a candidato algum nesta eleição pelos motivos explícitos em ‘Tropa de Elite 2′. É uma pena que a falta de crítica e de compromisso com a verdade esteja sendo a principal marca dos dois lados desta campanha presidencial. Um desrespeito ao eleitor brasileiro” – José Padilha [via Lauro Jardim]


“Não apoio ninguém, mas se precisar tem aqui um pé de apoio, companhêru”

O mais interessante disso tudo não é publicar uma lista de apoiadores em que ao menos um deles veio a público dizer que não apoia nada de nada de coisa alguma. O mais interessante mesmo é o tratamento dado à informação. Imagino um diálogo totalmente fictício e sem personagens reais:

– Erramos?
– É, parece que publicamos uma mentira. O cara lá do “pede pra sair” disse que não assinou nada e pediu pra sair
– Ops, apaga o link
– Apagando….
– Ufa. Tem que ver issoaê
– Pronto
– Não existe mais?
– Não
– Ai meu coração, Jesus. Que bom que é essa tal de tenéti, né? Imagina se fosse no papel. Íamos ter que assumir
– Temos que publicar uma errata?
– ‘Cê tá louco, bicho?
– É… acho
– Quem tem que publicar errata é a Mídia Má, Feia e Bobona. É por isso que passamos o dia no pé dos jornalões e da Globo (da Record não, essa nós amamos). Nós não somos imprensa, não temos compromisso algum com a informação.

Matematicamente, o resumo dessa história fica assim:

1. Estamos falando de um manifesto de intelectuais que apoiam Dilma;
2. Padilha estaria na lista, mas na verdade não está porque jamais aderiu a candidato algum;
3. A conclusão óbvia disso tudo? É que Padilha não é um intelectual, né ô.

Dois e dois nem sempre são 4.

Aprende, meu filho!

Religião, aborto, voto unilateral e a democracia enquanto piada de mau gosto

Fabricio Pontin | Estados Unidos 13:16 | 18/10/2010

Uma vez, na universidade, eu coordenei uma mesa redonda onde dois professores com doutorado na Inglaterra discutiam alegremente questões de início e fim da vida. Em um certo momento, um dos dois professores, ao ser confrontado por uma pergunta sobre a questão do aborto e do infanticídio falou que,

“Essa questão do aborto não tem uma dimensão moral de verdade, ela é só poluída por fanáticos religiosos. Em verdade, até o décimo primeiro mês, não há problema moral algum em terminar uma gestação ou em matar um infante, se isso traz benefícios para a mãe”

“Décimo primeiro mês, professor?”

“Sim, segundo a definição Lockeana de pessoa” (Nota: a definição do velho Locke diz que uma pessoa é alguém capaz de conceber um passado e ter expectativa de um futuro)

“Décimo-primeiro-mês?”

“Logo vejo que nessa universidade os alunos foram cooptados pela ideologia da Opus Dei e não aceitam evidência científica incontestável. Antes do décimo primeiro mês não há qualquer evidência de processos de expressão de consciência individual, nem de estabelecimento de passado ou futuro para o infante. Aquilo não tem direitos.”

Uns três anos depois, estou passeando aqui pelo campus quando encontro flechas apontando para uma exposição sobre “the greatest holocaust ever made my man”. A exposição era em frente ao prédio onde estudo, de forma que não tinha muito como escapar da coisa. Uns vinte alunos vestidos de branco seguravam cartazes “GOD HATES THE SPILLING OF INNOCENT BLOOD” , “EMBRYO=BABY JESUS”, fotos de bebês loirinhos sorridentes com um balão de história em quadrinhos “I FEEL PAIN WHEN YOU ABORT ME” e “MAMMA DON’T ABORT ME”.

Fiquei curioso com o lance do holocausto, e fiquei procurando onde estavam as fotos da Shoa. Daí me dei conta. “Every year more than two million children are ASSASSINATED with support of the federal government” .

Aqui nos Estados Unidos eles chamam indivíduos que votam baseados em apenas uma questão de “single-issue voters”. Vou chamar de “voto unilateral” essa conduta. Funciona assim: tudo indica que você votaria no Obama; você apoia intervenção do Estado na Economia; você acha que programas sociais são importantes; acredita no aquecimento global; e se bobear até acha que escolas públicas não deveriam ensinar o criacionismo. Mas daí você descobre que o Obama é pro-choice (portanto, contra a criminalização do aborto) e de uma hora para outra todas as tuas outras opiniões sobre o Obama caem por terra. Especialmente quando você descobre que o outro cara é pro-life e tem como vice uma mulher muito parecida contigo.

Um voto unilateral pode vir de diferentes “perfis” ou “problemas” e com diferente força. Por exemplo: ninguém se elege nem síndico de prédio nos Estados Unidos sem falar que acredita em Deus. A questão da pena de morte pode ser decisiva para um lado ou para o outro, dependendo de qual estado você tá querendo seduzir. A questão da eutanásia também.

Isso vai variar, é claro, dependendo da eleição e de quem vai decidir a eleição no fim das contas. Eleições onde os indecisos são pessoas que votam em cima desses issues acabam indo para essa direção naturalmente. Eleições onde esses mesmos indecisos são irrelevantes se movem para um terreno diferente, são eleições que focam mais em políticas públicas e menos em valores. Digamos que o primeiro tipo de eleição geralmente é ganha por um democrata e o segundo é geralmente ganho por um republicano. Uma olhada na história dos Estados Unidos desde 1962 ilustra como o processo eleitoral geralmente funciona.

Enquanto isso, no Braziu, candidatos tentam seduzir a massa evangélica (cerca de 20% da população, no mínimo) sem tomar uma posição. Dilma e Serra se posicionam de forma covarde e tal qual uma gangorra ficam subindo e descendo em questões de liberdades civis e religiosas. Para os dois candidatos, a resposta à pergunta do casamento homossexual e do aborto depende, de forma geral, de quem está perguntando.

De qualquer forma, Dilma só precisa ganhar cinco por cento dos votos que permaneceram para Marina ou se abstiveram no primeiro turno. Serra tem uma missão mais complicada e precisa transformar o atual domínio em São Paulo em um domínio na região Sul e Sudeste, tentando engessar a candidatura da Dilma no Nordeste.

Talvez por isso seja mais fácil para Dilma aumentar o volume do apelo aos que votam de forma unilateral. Ao se apresentar como amiga dos evangélicos e mudar de forma vergonhosa a própria opinião sobre o aborto, Dilma confia que ainda que parte da população identifique esse recurso como uma retórica sem-vergonha, um número suficiente de pessoas vai apoiar a iniciativa e votar nela. Ela não precisa do voto da maior parte dos evangélicos ou dos que votaram na Marina no primeiro turno. Ela precisa de uma parte pequena, suficiente para se eleger.

Ao contrário da pena de morte, que considero um atraso intolerável em democracias modernas, a questão do aborto tem uma complexidade maior. Não acho que ser contra o aborto é uma aberração. Por sinal, boa parte das pessoas que se posicionam a favor da descriminalização do aborto não são favoráveis a prática. Acontece que existem elementos de saúde pública, de imprevisibilidade e sobretudo de coerência legislativa que precisam ser levados em conta. Um país que identifica a potencialidade de um embrião como uma “pessoa” não poderia permitir metade das práticas de pesquisa em genética que o Brasil permite. Um país que permite aborto em caso de estupro não pode argumentar que um feto já tem direitos enquanto pessoa (não tem se é resultado de estupro? Por favor, isso não faz o menor sentido).

O debate no Brasil precisa ser confrontado com a pobreza argumentativa dos dois lados. Não é uma questão tranquila essa de que “não existem problemas morais no aborto”. O professor que apelou para uma certa definição de pessoa tinha um argumento tão ridículo quanto o dos crentes na frente do prédio das Humanas da SIUC. É claro que é uma questão moral. Justamente por ser uma questão moral a gente acaba discutindo isso por tanto tempo. Mas a hipocrisia da legislação brasileira é notável. Existe um consenso em não punir mulheres que praticam aborto. Então por que a prática é considerada ilegal? Existe a permissibilidade do uso de embriões em pesquisa. Então porque o aborto embrionário é considerado ilegal? Permite-se o aborto em caso de estupro, mas se essa circunstância mitiga o interesse potencial do feto, porque outras circunstâncias não são relevantes? A vida decorrente de estupro é menos digna de proteção?

Por outro lado, perde-se tempo com essa discussão por motivos puramente eleitorais (enquanto sabemos que tanto Serra quanto Dilma parecem ser favoráveis à descriminalização da prática Brust me corrigiu ali nos comentários, mais detalhes aqui), quando poderia-se discutir, por exemplo, como diminuir o número de gravidez em menores de idade nas classes mais pobres. Pergunte para qualquer professor do ensino médio em uma escola pública quantas alunas grávidas ele vê todo semestre. Pergunte para um professor de sexta série. A questão é extremamente relevante. Jovens pobres no Brasil não usam preservativo, não sabem como usar a pílula e muitas vezes engravidam porque isso vai fazer o namorado parar de bater nelas – pelo menos por nove meses. Ao menos, poderíamos discutir como diminuir o número de gravidez indesejáveis, para que menos mulheres sequer precisem pensar em abortar. No entanto, o governo federal só se preocupa em falar de camisinha durante o carnaval. Ninguém discute isso, até porque ninguém decide o voto com esses problemas em mente. Ou melhor, não existem pessoas suficiente decidindo com isso em mente. Então é mais fácil dizer que Jesus é Rei, que Toda Vida É Sagrada e que Aborto é um Crime Horrível.

Acho especialmente interessante perceber como essa minoria acaba transformando o debate eleitoral. A gente espera que, de uma forma ou de outra, o processo democrático acabe representando uma certa vontade geral. De verdade, representa a vontade de quem quer ganhar mais. Tudo bem, o voto racional pode ser uma grande de uma piada, pode ser que a gente não saiba de verdade o motivo pelo qual as pessoas votam (ziriguidum comanda o universo, apud Valdevino, Walter). Ainda que a conduta dos candidatos seja baseada em uma ficção (e.g.: pessoas votam com apenas um problema em mente), a conduta desses candidatos passa a ser consistente com essa ficção.

Após um primeiro turno sobre o nada, agora temos um segundo turno onde os candidatos tentam desesperadamente agradar uma parte da população que não fala pela maioria, que não tem uma dimensão muito clara do que está em jogo nos assuntos que são discutidos (e, justiça seja feita, não é informada sobre assuntos de forma adequada) e, no entanto, sequestra o debate.

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