M.O. da censura chinesa

Érica Manssour | China 10:00 | 29/03/2010

O Google saiu e o governo chinês rosnou e choramingou – vocês podem ler inúmeras matérias a respeito disso na imprensa nacional e internacional (preguiça de linkar, aproveitem que vocês têm acesso a um Google que FUNCIONA e procurem se tiverem vontade). Mas outra coisa interessante aconteceu essa semana por aqui e que não foi tão divulgada: vazou uma série de recomendações do partidão aos meios de comunicação locais sobre como noticiar a questão do Google. As diretrizes presentes no documento permitem compreender um pouco melhor a dimensão da censura praticada pelo governo.


Google headquarters in Beijing. Foto: Liu Jin/Agence France-Presse — Getty Images”

Com base na versão original em chinês traduzida para o inglês pelo China Digital Times, fiz uso do meu inglês tupiniquim e traduzi a coisa toda para o português EXCLUSIVAMENTE para o Braziu.

A todos os editores chefe e gerentes:

O Google anunciou oficialmente sua retirada do mercado chinês. Este é um acontecimento de alto impacto. Desencadearam-se discussões por parte dos internautas que não se limitam ao âmbito comercial. Portanto, favor prestar rigorosa atenção aos seguintes requisitos de conteúdo durante este período:

A. Setor de Notícias

1. Utilizar apenas conteúdo dos principais meios de comunicação do Governo Central. Não utilizar conteúdos de outras fontes
2. Reproduções não devem alterar o título
3. Indicações de notícias devem remeter aos websites dos principais meios de comunicação do Governo Central
4. Não produzir páginas relevantes sobre o tópico; não criar seções de discussão; não conduzir reportagem investigativa relacionada [ao assunto]
5. Programas online com especialistas e estudiosos deste assunto devem solicitar permissão com antecedência. Produzir este tipo de programa de forma independente é estritamente proibido.
6. Gerenciar cuidadosamente os comentários postados nestas notícias.

B. Fóruns, blogs e outras tipos de mídia interativa

1. Não é permitido realizar discussões ou investigações sobre o tópico do Google
2. Seções interativas não devem referir-se a este tópico, não posicionar este tópico e comentários relacionados no topo [da página]
3. Todos os websites, favor limpar textos, imagens e sons e vídeos que ataquem o Partido, o Estado, agências do governo e políticas de Intenet que usem este evento como pretexto.
4. Todos os websites, favor limpar textos, imagens e som e vídeos que apoiem o Google, dediquem flores ao Google, peçam ao Google que permaneça, torçam pelo Google e outros que tenham um tom diferente da política governamental
5. Em tópicos relacionados ao Google, gerenciar cuidadosamente a troca de informações, comentários e outros meios de interação
6. Gerentes gerais em diferentes regiões, favor designar mão-de-obra específica para monitorar informações relacionadas ao Google; caso haja informações sobre incidentes em massa, favor reportar o quanto antes
Pedimos ao Grupo de Monitoração e Controle que inicie imediatamente ações de monitoração e controle de acordo com as orientações acima; uma vez que qualquer problema seja descoberto, favor comunicar-se com o departamento o quanto antes.

Instruções adicionais:

- Não participar de e nem noticiar comunicados de imprensa e informações vindos do Google
- Não noticiar sobre o Google exercendo pressão ao nosso país através de pessoas ou eventos
- Notícias relacionadas devem colocar [nossa história/perspectiva/informação] no centro, não fornecer material para que o Google ataque políticas relevantes do nosso país
- Utilizar tópicos sobre a saída do Google da China publicados pelos departamentos relevantes

(quase) sem luz no fim do túnel

Érica Manssour | China 13:05 | 16/03/2010

Depois de algumas semanas de marasmo, a história do Google contra o baixo-astral (i.e. governo chinês) voltou a aparecer na imprensa. Só pra dar uma atualizada na situação, o que rolou foi o seguinte:
- O Financial Times publicou um artigo falando em 99% de chances de o Google encerrar a versão chinesa de sua ferramenta de busca.
- A Xinhua (agência de notícias estatal) resolveu dizer que a terra não iria parar de girar se o Google deixasse o país e que os internautas chineses continuariam online mesmo sem o Google.
- Autoridades chinesas advertiram empresas que possuem parceria com o Google de que elas devem seguir as lei de censura mesmo que o Google não o faça.
- Vazou a informação de que no dia 31 de março esgota-se o prazo para a renovação da licença de Provedor de Conteúdo na Internet do Google China

O Google ainda deu mais uma declarações mornas na linha do “continuamos buscando uma resolução para o impasse” e o governo chinês seguiu dizendo que sem censura não tem donut’s pro Google. Então, como todo mundo já tinha desconfiado antes, o desfecho mais provável é mesmo o falecimento do google.cn.

OKÁ. Agora, partindo da premissa que o PCC vai bancar o vingativo e bloquear todo e qualquer serviço oferecido pelo Google, me dêem as mãos e venham comigo imaginar uma vida sem ele.
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Sim, é assustador pensar em ter que voltar a usar o Outlook ou o Hotmail, a busca do Yahoo! ou do Bing, outro agregador de feeds, outro tradutor online, etc. Mas eu deixei a pior perda – ainda – hipotética por último: como preservar a brasilidade sem ter acesso ao Orkut? Pior pesadelo.

Categoria(s):  China, Tenéti
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Fruto proibido

Érica Manssour | China 15:00 | 05/03/2010

#1: todo mundo gostaria de ter algum produto da Apple, mesmo quem diz que não, no fundo, quer.

#2: a marca da maçã desfruta (haha) de uma imagem quase mítica entre seus usuários, além de encabeçar diversas listas de companhias mais inovadoras, admiradas, etc.

#3: grande parte dos produtos da Apple saem de fábricas na China.

#4: já faz algum tempo que a empresa vê seu nome envolvido em notícias que falam de greves por melhores condições de trabalho e pagamento, funcionários que se suicidam e sofrem envenenamento, fábricas que empregam menores de idade e jornalista que sofre agressão por estar na calçada pública tirando fotos.

#5: Apple divulga relatório com resultado do processo de auditoria que realiza nas fábricas dos seus fornecedores.

#6: ano passado, o fundo de investimento do governo chinês adquiriu mais de US$ 9 bilhões em ações de algumas das maiores empresas americanas, inclusive… da Apple.

#7: rumores de que um iPhone mais barato estaria a caminho aumentam valor das ações da maçã.

Agora todo mundo juntando os pontinhos e tentando descobrir se a situação das fábricas chinesas vai melhorar ou não. Antes, é bom mencionar que desde o primeiro relatório, em 2007, as coisas parecem só ter piorado.

Categoria(s):  China
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O twitter do Hu

Érica Manssour | China 06:58 | 25/02/2010

Aqui na China, o tópico mais comentado nos últimos dias não foi o encontro do Obama com o Dalai Lama, apesar de autoridades chinesas terem expressado, como era de se esperar, completo repúdio e indignação com o fato (zzz), mas a criação de uma conta em um serviço de micro-blogging chinês por ninguém menos do que Hu Jintao — ou pelo menos foi o que todo mundo pensou.

Na maior inocência, desde internautas chineses até a imprensa internacional (devo confessar, eu também), todos se alvoroçaram e correram pra conferir o perfil do dito cujo, que apesar de ainda não ter escolhido uma foto ou escrito sobre qualquer coisa, descrevia-se como “Secretário Geral do Comitê Central do PCC, Líder de Estado e Presidente da Comissão Militar Central”.

Desde que assumiu o cargo em 2003, o presidente já teria dito coisas emocionantes como “boa a sua sugestão, eu já pesquisei sobre isso na internet” a um médico e que lhe renderam um entusiasmado fã-clube nerd. A intimidade de Hu Jintao com a web é tamanha que, louvavelmente, em 2008 ele se dispôs a responder perguntas do povo chinês através de um fórum on-line. E vocês achando que o Obama era geek, com seu blackberry e conta no twitter atualizada por terceiros. Tsc, tsc.

Mas no país da GFW não demorou muito para vir o balde de água fria e cairmos todos na real: o perfil do presidente havia sido criado pelo próprio serviço de micro-blogging, tipo assim pra RESERVAR o lugar caso o tio Hu resolvesse querer falar sobre, sei lá, a última passada no salão pra manter a vasta e retinta cabeleira em ordem — característica praticamente compulsória pra qualquer um que ambicione seguir carreira política no país.


“Não foi dessa vez gente, malzaê.”

Em tempo: um dia depois da notícia do twitter chinês do Hu Jintao, um alento: @dalailama está entre nós ;P

Harmonia Chinesa

Érica Manssour | China 08:18 | 18/02/2010
“O Braziu já começa com a moral alta aqui na China…”

Desde o fim das Olimpíadas de Pequim, em agosto de 2008, que se observa uma escalada da censura na internet chinesa. Blogs, redes sociais, sites de compartilhamento de vídeo e até encurtadores de URL são bloqueados ou, como dizem os internautas chineses, “harmonizados” – em uma alusão debochada ao slogan do governo chinês de “construção de uma sociedade harmoniosa”.

Na prática, toda essa censura resulta em outro tipo de escalada, aquela que burla os esforços da chamada GFW (Great Firewall of China) de impedir o acesso e a difusão de determinadas informações consideradas “delicadas” pelo partido. Proxys e VPNs permitem que se tenha contato com outras versões da história – e não só aquela aprovada pelos oficiais.

Dia 12 de janeiro o Google anunciou que contas de e-mail de ativistas chineses pró-direitos humanos haviam sofrido ataques vindos de dentro do país. A empresa declarou não estar mais disposta a censurar o resultados de buscas do google.cn, ameaçando encerrar as atividades do site chinês e fechar seus escritórios no império do meio caso não seja possível oferecer uma versão sem filtros de sua ferramenta de buscas. Mais de um mês e um discurso da Hillary depois, a história parece ter esfriado e nada de concreto aconteceu. Em um evento do TED na semana passada, Sergey Brin teria dito que as negociações com o governo chinês talvez só obtenham algum tipo de sucesso em um ou dois anos, uma bela diferença em comparação com o “nas próximas semanas” citado inicialmente no blog oficial do Google.

Analistas especulam os motivos que levaram a esse ultimato: seria uma manifestação genuína da filosofia “don’t be evil” que a empresa defende ou apenas uma forma de encobrir a saída já planejada de um mercado onde enfrenta dificuldades? Para os usuários as razões são o que menos importa – ver alguém enfrentar o governo é sempre um prazer, independe da motivação -, o que pesa mesmo são as consequências que a saída do google pode ter.

Antes mesmo de toda essa história, o acesso ao Google já podia ser considerado intermitente – não são raras as vezes em que no meio da busca mais aleatória possível o usuário depara-se com mensagens de erro e só após atualizar a página algumas vezes consegue finalmente acessar os resultados. Se outros serviços da empresa já estão na lista negra há algum tempo, retaliar bloqueando o google.com, gmail e outros seria apenas o próximo, e mais óbvio, passo do governo chinês.

Em junho do ano passado o partido anunciou que todos os novos computadores vendidos no país deveriam trazer instalados o Green Dam Youth Escort, software de “controle de conteúdo” desenvolvido pelos camaradas. Após internautas se mostrarem descontentes e falhas graves de segurança no programa serem expostas, o governo voltou atrás na decisão e hoje ninguém mais ouve falar no assunto.

Ainda assim, simplesmente não vejo o governo chinês se curvando para uma empresa que detém apenas 30% do mercado — Baidu lidera com 60%. Eu diria, bem sombriamente, que dias piores na internet chinesa estão por vir.

“Banana pra vocês”
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