Mega post: WikiLeaks

braziu.org 15:53 | 04/12/2010

Leandro Demori – Itália

Seguiu a lógica de uma bela capa de jornal a bomba de documentos revelados pelo WikiLeaks: uma notícia importante para a manchete, uma notícia importante para a segunda linha e um maço de gossip para companhia. As pessoas amam.

Quando eu era editor do Terra conseguia fotografar cada minuto da alma do brasileiro olhando para as estatísticas de acessos das notícias na capa do portal. A notícia importante em destaque, em fonte grandona e com várias linhas de apoio tomava uma surra do gossip que mostrava a mais nova briga de um reality show qualquer publicado no rodapé do site.

Não precisamos que a diplomacia americana nos diga que Berlusconi é um babá do sexo, que Angela Merkel é pragmática, que Sarkozy usa Carla Bruni para ajudar nas negociações com outros países ou que Hugo Chávez é um maluco. Mas o gossip foi justamente aquilo que chamou a atenção das pessoas para o vazamento dos dados. Quem se importa com o programa nuclear do Irã ou com a presença do Hammas e do Hezbolah na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai? É tática, e vencedora.

A coluna de fofocas oficializadas pelos embaixadores americanos pelo mundo não significa que a diplomacia americana seja fútil e pior do que a dos outros países. A única diferença entre a diplomacia americana em relação às outras é que seus documentos foram a público. Bastou meia dúzia de documentos saídos do Brasil para mostrar que um ministro do governo brasileiro, Nelson Jobim, estava dando lá suas rasteiras em seus pares de salão. Se abrir o Itamaraty todo não sai coisa muito diferente disso.

É claro que é tudo mentira. Jobim já negou, imagina, que bobagem. Como diz o filósofo, inauguramos a fase do Descartes pós-ideológico: “Nego tudo, portanto existo”. O próximo passo será o Galileu pós-wikilítico: “eppur si muove”, gritará alguém, jurando que a Terra gira, sim, em torno do sol — apesar dos desmentidos oficiais — antes de ser declarado inimigo do povo.

Sérgio Leo: Oliveira, o canalha da redação: “ih, é verdade mesmo, o governo já divulgou até nota de desmentido”. Na capa da Folha online de quatro dias atrás, ao mesmo tempo, três notícias se acotovelavam logo abaixo de uma manchete sobre o WikiLeaks: “Dados são ‘insignificantes’, diz Lula; Jobim nega ter dito que colega ‘odeia os EUA’; Bolívia nega que Evo tenha tumor.” É a Tríplice Confirmação da Verdade.

A China bloqueou acesso aos documentos. O jornal Le Figaro, de propridedade do sarkozista Dassault — vendedor dos caças para o combo Jobim/Lula/Viumanão gosta da Wikileaks. Hillary Clinton acha .

Batendo datas com notícias, parece que a maior preocupação americana na sudamerica continua sendo Hugo Chávez. Desperdício. Oito telegramas saem da embaixada de Brasília pros EUA no dia em que Chávez mandou o embaixador americano embora da Venezuela. Rolam umas boas pesquisas (e teorias da conspiração) com esse método: pega-se os docs. que saem de Brasília, olha-se os dias com bom volume de correspondências e bate-se com os acontecimentos daquele dia em uma simples pesquisa no Google.

Muitos docs. saem de Brasília no dia 12/8/2005, por exemplo. Dá pra especular sobre o motivo: aqui e aqui. Pode-se também ter algumas pistas sobre os novos cenários possíveis de guerra envolvendo os EUA (e os motivo$).

Uma das grandes questões agora é saber quem são os informantes das embaixadas, o que pode dizer mais sobre tudo do que os documentos em si. No caso do Brasil, um dos principais, por hora, é o ministro da Defesa Nelson Jobim, pintado como uma espécie de lobbista e cagueta [palavra pra ficar no clima Rio de Janeiro da semana]. São 250 mil documentos, quase nada ainda veio a público. Teremos semanas tórridas.

Pedro Augusto – Alemanha

Público x impublicável

Nem tudo o que o Estado faz pode ou deve ser público e/ou publicado. Assim como em um relacionamento não se revela absolutamente tudo o que se pensa sobre o companheiro, também nas relações entre os países alguma medida de sigilo e segredo é necessária para uma convivência pacífica.

Nas relações entre duas nações soberanas, os direitos individuais são apenas mediatamente afetados. Desta forma, não há que se falar em um direito individual à informação sobre todos os passos estatais. A própria política, com seus instrumentos de controle e limitação, deve ditar os passos deste tipo de segredo estatal. Isso não quer dizer, de forma alguma, que todos os atos estatais devam ser públicos. Até hoje, como se sabe, os arquivos da Guerra do Paraguai e muitos dos arquivos da ditadura militar ainda estão sob segredo, ficando vedada a sua consulta.

Se tal foi decidido, deve haver razões suficientemente fortes para que se mantenham longe do alcance público. Concordando ou discordando disso, o fato é que qualquer mudança deve se dar pelos meios legítimos da democracia, com votação pelo parlamento ou por mandamento dos tribunais. (Aos entusiastas do vazamento: Imagine que o leitor tenha um processo correndo em segredo de justiça, envolvendo uma briga familiar. O vazamento da WikiLeaks desse processo deve ser comemorado?!)

Na atual lógica, após Wikileaks, não existe mais segredo estatal. Por mais sensível que seja, tudo pode ser público e publicado. Independentemente das consequências (nota necessária: por alguma razão desconhecida, a maioria dos documentos secretos publicados dizem respeito aos Estados Unidos. Teóricos da conspiracão terão meses, quiçá anos, para exercer suas atividades).

Não se tira, obviamente, uma função positiva desses vazamentos. Se isso servir como forma de controle para que atividades de escutas ilegais não sejam ordenadas por chanceleres, estamos dentro do terreno do desenvolvimento das instituições democráticas no plano internacional. Se o vazamento levar à descoberta de agentes infiltrados num país como a Coréia do Norte, que serão invariavelmente torturados e mortos, fica a dúvida se isso, realmente, ajuda no fortalecimento dessas mesmas instituições. Exemplos não faltam.

Maurício Boff – Argentina

Os sete pecados do governo argentino (segundo a diplomacia norte-americana)

“Almost as if according to some natural law, in every century there seems to emerge a country with the power, the will, and the intellectual and moral impetus to shape the entire international system in accordance with its own values”.

Henry Kissinger, em Diplomacy

Em plena efervescência do debate em torno do vazamento dos telegramas trocados entre diplomatas norte-americanas e o QG da Secretaria de Estado, em Washington, confesso que fiquei perdido, atordoado, emocionado, irritado, satisfeito, desinformado e, ao final, soltei um sorriso-maroto-garoto típico de final de uma boa piada. Sedento por analisar cada comentário diplomático norte-americano sobre os presidentes sul-americanos, deixei de lado a leitura de Moby Dick (droga, não quero terminar meus dias como Leonardo Zelig), os estudos, a mulher, o cachorro, a horta de ervas-finas na sacada do apartamento, o trabalho e o show do João Bosco na quinta-feira.

Mentira. Mas sou brazileiro. Logo, nunca saberá, nem mesmo o serviço secreto norte-americano. Esqueça, portanto. Falo sério. Importa, sim, lançar algumas impressões quase uma semana depois de análises de jornalistas, historiadores, diplomatas, sociólogos e pessoas comuns por todo o mundo, sobre a organização de Julian Assange, o @WikiLeaks. A meu ver, concretiza-se um movimento de discussões que, até hoje, era imprevisível e no melhor estilo Black Swan.

Mas desconfie, e desconfie muito. Como já mencionei por aqui, estou mais para a turma da ponta de baixo na escala de 0 a 10 entre os expertos –- e não pretendo sair dessa zona. É muita responsabilidade. Troco-a pela autonomia do (não) pensar. Portanto, humildemente, convido-o a passear pelos meus sentimentos. Shanti.

+ Gula (telegrama 001235, em 09/11/2009)

“Tivemos várias conversas com os dois primeiros chefes de gabinete da [presidenta] Cristina Fernández de Kirchner (CFK), Alberto Fernández e Sérgio Massa. O embaixador tinha uma reunião introdutória em 28 de outubro com Alberto Fernández, que atuou como Chefe do Gabinete em administrações tanto de Néstor [Kirchner] e de CFK (…) O embaixador e DCM tiveram um jantar em novembro com o segundo-chefe de gabinete de CFK, Sérgio Massa, e sua esposa, a eleita vereadora, Malena Galmarini, na casa do ex-assessor de Massa na Casa Rosada, o empresário Jorge O’Reilly. Em cada uma das conversas, os dois peronistas, que durante seus mandatos na Casa Rosada trabalharam todos os dias com os Kirchners no andamento do governo argentino, foram bastante francos ao expressar seu estranhamento do casal Kirchner e seu pessimismo sobre as perspectivas políticas do ‘casal no. 1′ ['first couple', como os K são chamados nos telegramas]. (…) Massa foi contundente em sua crítica do ‘casal no. 1′, especialmente a Néstor. (…) Ele chamou Néstor de ‘psicopata’, ‘um monstro’, e ‘covarde’ cuja abordagem política mascara um profundo sentimento de insegurança e inferioridade. (A esposa de Massa mostrou-se alarmada frente a tais comentários desinibidos ao ponto de pedir que ‘pare de fazer caretas para mim.’) Ele contestou o argumento de que Néstor merecia crédito como um estrategista astuto, e descreve o ex-presidente como equivocado e tão convencido de seu brilho próprio que certamente voltaria a fazer seus erros. (…) Ele disse que Néstor não poderia relacionar-se com quem estivesse fora de suas ambições políticas: ‘Kirchner não é um gênio perverso’, concluiu Massa. ‘Ele é apenas um perverso’.”

+ Avareza (telegrama 001017, em 10/09/2009)

“Aníbal Fernández [chefe de gabinete de CFK] tem sido para nós o membro mais acessível e inclinado do gabinete da presidenta Cristina Fernández de Kirchner, acolhendo governamentais dos Estados Unidos receberam treinamento policial e da cooperação. (…) Mais político do que diplomata, [Fernández] constrõe feudos e detesta perder o controle sobre esses recursos estratégicos. (…) Um interlocutor pragmático e politicamente esclarecido, Fernández prefere não envolver o seu pessoal em reuniões com funcionários da Embaixada [dos EUA]. Embora esteja sempre bem preparado, o seu discurso e comportamento podem às vezes ser grosseiro. Em mais de uma vez, ele fez evidentes comentários sobre uma atraente tradutora durante uma reunião com funcionários dos EUA que estavam de visita. Ele se referiu à existência de uma ‘procura local por órgãos genitais jovens’ enquanto explicava sobre os desafios que enfrenta sua pasta no combate ao tráfico humano com fins de exploração sexual.”

+ Luxúria (telegrama 000071, em 04/02/2010)

“Embora o orçamento militar argentino está mal preparado para qualquer curso de ação que envolva a projeção de poder, o governo da Argentina provavelmente assim se sentiria compelido a pressionar, por qualquer meio possível, a reivindicação histórica [sobre as Ilhas Malvinas/Falklands] logo de uma descoberta de petróleo. Uma estratégia de conversação dura, queixas em fóruns internacionais, e cartas de protesto são esperados, além de sanções econômicas aplicadas contra as empresas atuantes [no arquipélago], mesmo que isso possa prejudicar a produção argentina de petróleo e gás natural.”

+ Ira (telegrama 002345, em 14/12/2007)

“Em 14 de dezembro, a imprensa argentina continuou a dar ampla cobertura à furiosa reação do governo argentino às alegações do FBI de que os U$ 800 mil interceptados 04 de agosto por oficiais argentinos foi uma contribuição em dinheiro da BRV para a campanha presidencial de Cristina F. De Kirchner (CFK). (…) O embaixador usou uma recepção programada para antes das férias para mais de 100 jornalistas de jornal, rádio, TV no dia 14 de dezembro para a divulgação da orientação de Washington sobre o caso. Vários jornalistas de rádio utilizaram seus telefones celulares para transmitir no ar as palavras do embaixador, e muitos deixaram o encontro depois do embaixador concluiu a história. Várias histórias sobre o que disse o embaixador no encontro já bateu estão sendo divulgadas. Esperamos que as observações do embaixador na Argentina domine as manchetes no sábado. (…) O que começou como um dia negro para a imagem dos EUA na Argentina – com manchetes de ataque por CFK e outros sobre as nossas intenções supostamente escuras – está terminando com uma nota mais esperançosa, como um trabalho rápido por parte do Estado, da Justiça e do FBI de revisão e de orientação sobre a questão nos permitiu apresentar nossa versão para um grupo cativo de jornalistas argentinos. Como a primeira semana da administração CFK se aproxima do fim, demos aos pragmáticos informações sobre o governo argentino para que possam trabalhar pelo convencimento de CFK de que saia do precipío que se meteu e volte a dialogar com o governo norte-americano a partir da segunda semana de mandato presidencial. Veremos sua reação e resposta nos próximos dias.”

+ Melancolia (telegrama 000827, em 09/07/2009)

“Há um outro fator externo que faz improvável que a Argentina adote a política bolivariana – a influência crescente do Brasil aqui. O representante local do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o brasileiro Daniel Oliveira, disse ‘econoff’ recentemente que ‘a Argentina tornou-se tão importante para o Brasil como o México é para os Estados Unidos’. Com uma intercâmbio comercial de U$ 31 bilhões e mais de U$ 10 bilhões em investimentos brasileiros sendo injetados na economia argentina desde 1997, o Brasil está fortemente empenhado aqui, e não é tímido sobre a defesa de seus interesses. A imprensa local relatou que Lula chegou a dar telefonemas em julho de 2008 para evitar que os Kirchners abandonassem o poder na sua frustada tentativa de pressionar o Congreso a aumentar os impostos sobre as exportações agrícolas. Lula e seus associados continuarão a ser uma importante influência moderadora sobre os Kirchners.”

+ Preguiça (telegrama 000853, em 22/07/2009. substituída aqui por psicodrama. Leia e entenda)

“Outros observadores apontam fatores de estresse psicológico em suas previsões para uma muito próxima crise democrática. Esta linha de raciocínio encontra duas vertentes: a de que o poderoso Néstor Kirchner é bem centrado em seu conjunto de formas intransigentes de se adaptar, ou a de que ele (ou ele e CFK) estão se tornando cada vez mais instáveis e incapazes de governar. Como um bem relacionado banqueiro nos disse, o casal Kirchner poderia se recuperar alterando o rumo e adotando uma postura mais moderada, mas Néstor Kirchner, em especial, é incapaz de mudar. Em vez disso, ele vai embarcar numa lamúria desastrosa contra os ‘traidores’ os quais culpa pela derrota eleitoral, levando o governo ladeira abaixo. Em apoio desta tese, Fraga [Rosendo Fraga, analista político] defende que a personalidade de Néstor ‘não pode mudar’, mas que a opinião pública argentina pode. Ela não quer mais um lutador obstinado como fez Néstor Kirchner quando tomou posse em 2003; hoje, os argentinos querem uma liderança consensual que os Kirchners não pôdem e não vai proporcionar.”

+ Orgulho (telegrama 001311, em 09/12/2009)

“Mais uma vez, o governo Kirchner tem se mostrado extremamente sensível e intolerante às críticas que recebe. As preocupações sobre a fraqueza das instituições nacionais, e o Estado de Direito, em particular, é uma parte do que é relatado na imprensa argentina por acadêmicos, empresários, juízes, políticos da oposição, especialistas e organizações não-governamentais. Os argentinos são bastante conscientes de que a Argentina não está atraindo tanto investimento quanto Brasil, Chile e outros países da região. A ansiedade da comunidade empresarial sobre as mudanças arbritárias e caprichosas das regras do jogo é bem conhecida do público argentino e do governo. Somente quem é muito Kirchnerista concordará com a afirmação de Randazzo [ministro do Interior, Florencio Randazzo] de que a Argentina oferece ‘todas as garantias institucionais e jurídicas’, ou a afirmação do Ministério de Relações Exteriores de que não tem conhecimento de qualquer insatisfação por parte das empresas americanas. Para a maioria dos argentinos, isso é uma ironia ou declarações falsas e cínicas. Dito isto, esperamos que esses contratempos logo se esgotem, como já aconteceram em episódios semelhantes no passado.”

Não precisa usar a imaginação. Kissinger está com a razão: o ímpeto intelectual e moral norte-americano moldou com seus próprios valores o mundo. Essa é a natureza do Homem e ponto final.

Gabriel Brust – França

Sarkozy e suas mulheres

A reação da imprensa francesa ao cablegate passou por dois momentos diferentes desde domingo. A primeira, imediata, foi a negação escandalizada. Figaro e Liberation, direita e esquerda no espectro dos jornais, condenaram o vazamento. O primeiro com o frágil argumento da segurança internacional. O segundo, mais razoável, criticando o fato de o WikiLeaks mirar e tentar desestabilizar democracias, enquanto se cala ou pouco faz para investigar regimes totalitários. Regimes totalitários, aliás, que seriam o alvo principal do WikiLeaks segundo os conceitos iniciais do site, formulados por seu criador.

A revista eletrônica Rue89 resgatou os textos do blog de Julian Assange, não mais online, escritos antes do lançamento do WikiLeaks. Pelo tom de seus textos na época, parecia que Irã e Coréia do Norte teriam algo a temer diante de sua ideia. O tempo revelou o óbvio: é bem mais fácil (e totalmente legítimo, diga-se de passagem) brincar de justiceiro em democracias do que fazer uma pegadinha do Mallandro com o Kim Jong-Il.

A segunda etapa da reação francesa ao Cablegate é parecida com o que aconteceu no resto do mundo: o desdém em relação ao conteúdo dos arquivos assim que os primeiros foram revelados. De fato, como na maior parte do globo, não há nada que cause maiores estragos para a França nos telegramas revelados (até agora). Mas há material farto para o esporte preferido dos franceses – e da imprensa, principalmente –: praticar o bullying impiedoso de Nicolas Sarkozy.

Sobram passagens desabonadoras, no plano pessoal, para o chef d’état e suas mulheres. Sim, porque os yankees malvados, em seus telegramas, não pouparam nem o tema que o próprio Sarkozy reconhece como seu “calcanhar de aquiles”: a ex-mulher, Cecília Ciganer. Segundo o embaixador americano, em 2007, após o divórcio, havia dúvidas se Sarko teria estabilidade emocional para conduzir o país. Descreveu o presidente como dependente da ex-mulher. Quando começa o novo romance do galã, dessa vez com a modelete Carla Bruni, o embaixador fofoca para seu governo, em Washington, que as aparições públicas do presidente com a nova mulher são mais condizentes com um milionário excêntrico do que com um chefe de estado. Conversa de comadre das boas, para saborear com o chá da tarde.

E é justamente numa passagem sobre Carla Bruni que o Brasil aparece nos telegramas do embaixador americano em Paris. Segundo o diplomata, Sarkozy estaria usando a popularidade de sua mulher no Brasil para estreitar as relações com o país. Charles Rivkin diz que a há um “caso de amor” entre Lula e Sarkozy, e que a população brasileira aprecia muito o fato de o casal presidencial francês passar as farias no país. Particularmente, eu nunca soube que Bruni gozasse de qualquer popularidade no Brasil. Sua carreira como modelo está encerrada há tempos e seus chatíssimos discos, que eu saiba, nunca chegaram perto de serem populares no Brasil. Mas é provável que o embaixador saiba mais sobre a banânia do que eu.

Por fim, o último bulling da imprensa contra Sarkozy – debate dos jornais nesta quarta-feira — é acusá-lo de “cheerleader” dos yankees. Isso porque os telegramas comentam a vida privada de Sarkozy, mas pour outro lado o cobrem de elogios. O descrevem como “o presidente mais pró-Estados Unidos desde a Segunda Guerra”, afirmam que ele “se reconhece nos valores americanos” e teria se revelado, inclusive, ser um grande admirador de George W. Bush. Imperdoável para os franceses.

Érica Manssour – China

Tá tudo bem

A julgar pela cobertura da imprensa chinesa, não há qualquer envolvimento de Beijing com essa história ae. O site encontra-se devidamente bloqueado e o foco de notícias relacionadas ao tema é mais na acusação de estupro e na ordem de prisão do Julian Assange pela Interpol do que qualquer outra coisa. Tudo bem por aqui.

Nobel da Paz, salmão da censura

Érica Manssour | China 18:45 | 08/10/2010

Enquanto no Brasil muito se tem falado sobre liberdade de imprensa e expressão, a China vem mais uma vez mostrar como é que não se faz.

Há pouco mais de 12 horas o mundo ficou sabendo que o Prêmio Nobel da Paz de 2010 foi concedido ao dissidente chinês Liu Xiaobo, que atualmente cumpre a sentença de 11 anos de prisão que lhe foi imposta no ano passado, quando foi condenado por “subversão”. Os principais feitos na carreira de ativista de Liu são sua participação nos protestos da praça Tiananmen em 1989 e seu envolvimento com a Carta 08, manisfesto em que intelectuais chineses pediam por diversas reformas no país.

A reação do PCC foi de definir Liu como um criminoso e  procurar deslegitimizar a premiação. Além do tradiconal mimimi, a declaração feita pelo porta-voz, disponível no site do ministério das relações exteriores, termina de forma soturnamente profética e que certamente deixou os norugueses preocupadíssimos.

O Prêmio Nobel da Paz deveria ser concecido para ‘pessoas que promovem a harmonia nacional, promovem a amizade internacional e promovem o desarmamento e a paz’, tal qual o desejo de Nobel. Liu violou a lei chinesa e foi sentenciado à prisão pelos orgãos do judiciário chinês, seu comportamento vai de encontro ao propósito do Prêmio Nobel da Paz. O fato de o comitê ter concecido o Nobel da Paz à tal pessoa é totalmente contrário ao objetivo do prêmio, além de ser uma profanação do Nobel da Paz

Nos últimos anos as relações Sino-norueguesas têm mantido um bom desenvolvimento, o que é útil para os interesses de ambos os países e povos. A decisão do comitê de conceder o prêmio a Liu Xiaobo é contrária à finalidade do Prêmio Nobel da Paz e prejudicará as relações sino-norueguesas.

(A espressão “contrária ao propósio do Prêmio”  foi mesmo repetida todas essas vezes em tão poucas linhas. Aqui na tradução eu ainda tentei dar uma variada pra coisa não ficar tão monótona.)

Até o momento, a agência de notícias estatal Xinhua divulgou apenas uma notícia sobre a premiação, que não aparece em destaque – ou sequer na página inicial – tanto na versão em chinês, quanto na versão em inglês do site. O mesmo acontece no site chinês do People’s Daily, enquanto na versão em inglês a notícia aparece no topo da página.

Do lado de lá da “grande muralha de fogo chinesa”, ONU, Dalai Lama e Barack Obama já se pronunciaram sobre a premiação, louvando a escolha e pedindo a libertação de Liu.

Do lado de cá, como de costume, buscas referentes ao tema resultam em mensagens de erro e há quem diga que até mensagens de texto via celular que possuam os termos “nobel” ou “liu xiaobu” estão sendo bloqueadas. O noticiário nortuno do canal estatal CCTV não fez qualquer menção ao assunto e os canais BBC e CNN tiveram suas transmissões interrompidas em determinados momentos.

Mesmo com toda a censura, no twitter choveram mensagem de apoio e comemoração. Muitos chineses disseram que comeriam salmão pra comemorar o feito, o que faz com que o próximo passo lógico de Beijing para abafar o caso seja censurar a palavra “salmão” na internet, sms e cardápios de restaurantes em todo o país.

Se alguém resolver reclamar da falta de relevância do assunto com o cenário eleitoral atual do nosso braziu, acho recomendável ficarem bem atentos, pois do salmão pra lula é um pulo.

Categoria(s):  China

27 comentários

Estátua: só se for dura

Érica Manssour | China 08:00 | 22/06/2010

A cidade de Shaoshan, na província de Hunan, terra natal do grande Mao Tsé-Tung, resolveu dar uma basta numa situação absurda: a produção de estátuas toscas do líder.

Vamos acompanhar essa importante decisão, noticiada pelo Global Times:

Estátuas de Mao recebem normas

A província de Hunan promulgou nesta segunda-feira normas para a fabricação de estátuas de Mao a fim de reduzir a produção de produtos de baixa qualidade.

O Gabinete de Qualidade e Supervisão Técnica de Hunan promulgou oficialmente as normas em Shaoshan, cidade natal de Mao Tsé-Tung.

“Espera-se que a medida reduza a produção e venda de estátuas de Mao de baixa qualidade que prejudicam o mercado de turismo e o sentimento do povo pelo grande homem”, disse o engenheiro-chefe do gabinete, Jiang Tao.

Os turistas que visitam Shaoshan se queixaram da qualidade inferior das estátuas vendidas por vendedores ambulantes e pequenas bancas.

Alguns souvenirs vendidos eram fisicamente desproporcionais, enquanto outros foram feitos com materiais de baixa qualidade, de forma desleixada, disse Jiang.

O regulamento que entra em vigor 01 de julho prevê a aparência, materiais, espessura da superfície e dureza para as estátuas. Estátuas produzidas em massa devem passar por um exame rigoroso para garantir que elas refletem a aparência real de Mao, diz o regulamento.

A partir de Julho, as estátuas que não cumprirem os critérios técnicos podem ser confiscadas e destruídas pelas autoridades competentes.

“O estabelecimento das normas reflete o respeito e o amor do povo pelo meu avô. Impactará significativamente a promoção das tradições revolucionárias da China e do patriotismo”, disse Mao Xinyu, 40 anos, neto do presidente Mao.

A venda de souvenirs em Shaoshan bateu 124 milhões de yuans (18,2 milhões de dólares) em 2009, 70 por cento sendo de estátuas de Mao, disse o bureau de turismo da cidade.”

A decisão é muito pertinente, ainda mais se considerarmos que qualquer pessoa pode dar um pulo até Pequim e passar no mausoléu do ditador para conferir as verdadeiras e preservadas feições do tio Mao.


Maior e mais perfeita estátua do fundador da “Nova China”

Extraoficialmente ouvi dizer que quem produzir estátuas fora de padrão vai ter o mesmo fim que o pessoal da foto abaixo.


Mentira, agora injeções letais estão ficando mais populares.

E falando em humilhação e execução, semana passada os moradores de Tongzi, na província de Guizhou, puderam conferir um desfile muito especial. Caminhões carregados com suspeitos de tráfico de drogas, roubo e furto circularam pelas ruas da cidade como parte de uma “atividade para desencorajar o abuso de drogas antes do Dia Internacional contra o Abuso e Tráfico Ilícito de Drogas”, que acontece no dia 26 de junho.


ONU, estamos fazendo a nossa parte. E o resto mundo? Um beijo e um abraço carinhosos, China.

O homem que faz pensar a Alemanha pós-crise

Gabriel Brust | França 21:48 | 13/06/2010

Com o futebol pragmático de sempre, a Alemanha goleou a Austrália por 4×0 esta noite, legando aos franceses, como de costume nos últimos tempos, uma inveja silenciosa. Não há nada de novo na objetividade alemã frente ao proselitismo inútil aqui destas bandas, mas o que mais espanta os franceses nesta ensolarada primavera europeia é que esta objetividade está mais uma vez transbordando para além dos campos de futebol. A Alemanha se recupera bem da crise econômica se comparada ao restante dos países da Europa ocidental, às custas de muitas medidas impopulares e que, ao contrário do que acontece na França, estão encontrando relativo apoio dos sindicatos e dos trabalhadores.

A mistura implementada pelo governo alemão é simples, mas suficiente para fazer com que seja acusado de “maquiavélico” por outros governos social-democratas europeus: redução de salários, redução de gastos públicos e nenhuma redução de impostos. As medidas não são de agora, o país vem se preparando para a crise desde a metade da década. Um símbolo dessa unidade nacional para se preparar para crise foi a negociação salarial da Volkswagen em 2006: nada menos do que todos os 100.000 trabalhadores de uma das maiores empresas nacionais aceitaram trabalhar mais horas sem ter nenhum reajuste salarial por isso. Tente imaginar isso na França ou mesmo no Brasil e dê gargalhadas.

Embora a previsão de crescimento para os dois países vizinhos não passe de 1,6% para este ano, a Alemanha apresenta alguns números invejáveis em relação à França nestes tempos de crise. A indústria daqui ainda não achou um meio de enfrentar a chinesa e amarga um déficit na balança comercial de 53 bilhões de euros. Nenhum desastre, você dirá, até ver os números alemães: 153 bilhões de euros de superávit na balança, com 36 bi exportados para a China em 2009, contra 7,9 da França. Quer dizer, se não nadam de braçada, também não perdem o sono os alemães com a atual crise.

Há uma nova Alemanha no ar, dizem os franceses, e que vai além dos números da economia. Como a que representar o abismo que separa os dois países está Richard Precht, o mais popular filósofo alemão da atualidade, um best-seller que usa camisa aberta, cabelo comprido, 45 anos com cara de 30. Nada mais francês do que um filósofo pop, você dirá mais uma vez. Só que Precht sabe colocar os franceses em seu lugar:

– É verdade que Badiou faz sucesso na França? – disparou ele em direção a um repórter da Le Point incumbido da de decifrá-lo. Prosseguiu: – Um maoísta? Vocês são loucos? Vocês não aprenderam nada com a história? Na Alemanha, um maoísta jamais será escutado.

A fala óbvia de Precht já seria suficiente para torná-lo o maior gênio da Europa atual, especialmente na terra da Sorbonne, o Campus do Vale francês em que Mao e Fidel seguem sendo nortes morais. Mas Precht foi além no ataque às farsas francesas. Sem pedir permissão ao repórter do Le Point, disparou contra o principal articulista da revista:

– E Bernard-Henry Lévy? Para mim ele é só um jornalista político talentoso.

Quanto ao seu próprio pensamento, bem, Richard Precht se orgulha de dizer que não é nenhum gênio, que fala de uma ética do cotidiano e que produz aquilo que seus conterrâneos mais querem: um pensamento prático, pragmático, útil para enfrentar a contemporaneidade. Cruza lições básicas de filosofia com questões atuais, como a cibercultura, a neurociência e os avanços da genética. Dessa forma, se tornou conselheiro de três dos mais altos dirigentes da Alemanha, com quem conversa a portas fechadas sobre a Europa, o capitalismo e a “alma do liberalismo”. Nas horas vagas, recusa três convites por semana para talk-shows populares – e aceita tantos outros.

– A necessidade dos meus compatriotas é imensa, e ninguém os responde. Eu sou um engenheiro do pensamento, eu desmonto os problemas e dou as ferramentas.

Objetivo como foi o ataque da seleção alemã esta noite, Precht acalenta seus conterrâneos em meio a uma crise que, por lá, parece já ter ares de passado.

Boa de papo

Érica Manssour | China 10:12 | 28/05/2010

Apesar de ter sido levemente ofuscada pela onda de suicídios na Foxconn, a visita de Hillary Clinton à China nesta semana rendou bons frutos.

Nada de avanços em questões como as sanções ao Irã ou um posicionamento claro de Beijing em relação à crescente tensão entre as Coréias.

As divergências quanto à valorização do Yuan também ficaram longe de ser resolvidas. Segundo noticiado pelo China Daily, o vice-ministro de Finanças Zhu Guangyao teria dito o seguinte:

“A China e os EUA chegaram a um consenso em que os EUA entende que a China vai decidir as medidas específicas de suas reformas na taxa de câmbio de forma independente, com base em seus próprios interesses, tendo em conta as condições da economia mundial e as tendências de desenvolvimento da própria China”.

O que quer dizer, basicamente, que continua tudo do jeito que estava e que as reuniões a esse respeito foram pura perda de tempo.

Os quatro dias que a Secretária de Estado americana passou na China foram produtivos em outros aspectos. Clinton e o secretário do tesouro Timothy Geithner foram entrevistados pela Oprah chinesa, a apresentadora Chen Yulu. Em um clima de muita descontração e azaração, foi possível conhecer o lado humano dessas duas importantes figuras:

“Acho que estava elogiando o seu cabelo”, disse Hillary sobre o Geithner quando a apresentadora do programa mostrou-lhes uma foto dos dois conversando em uma reunião do Gabinete. “Ele está sempre tão bonito, sabe? É enlouquecedor.”
“Eu gasto muito mais tempo [me arrumando] e nem sequer fico tão bem”, disse ela.
Geithner protestou quando a apresentadora (…) disse-lhe que ela tinha ouvido muitos americanos falarem que ele é “um dos rapazes mais bonitos na administração (Obama)”.
“Isso não pode ser verdade, não pode ser verdade”, Geithner disse, antes de uma risonha Clinton intervir.
“Eu tenho autoridade para afirmar que isso é verdade”, disse ela.

Clinton admitiu que o casamento da filha Chelsea é “a atividade mais importante acontecendo na minha vida agora” , explicando para a audiência chinesa o conceito americano do “chá de panela”.

Hillary ainda revelou a diferença entre o seu gosto cinematográfico e o do marido: Bill prefere filmes de ação, “quanto mais violentos melhor”, enquanto ela escolhe comédias e romances.


Não acho relaxante sentar e assistir às pessoas atirarem umas nas outras

A Secretária de Estado americana encontrou um tempinho na agenda para passear no pavilhão americano da Expo de Xangai.

No ano passado Clinton precisou fazer campanha para atrair patrocinadores e levantar o montante necessário para garantir a participação do seu país no evento. Quando questionada sobre o pavilhão, Hillary deu uma declaração morna: “Está bom. Imagine se não estivéssemos aqui?”.

Foi durante a visita à Exposição Mundial que aconteceu o ponto alto da passagem de Clinton pela China. A Secretária de Estado viveu um reencontro emocionado, documentado abaixo.


Separados no nascimento

Semana Xinjiang feliz

Érica Manssour | China 16:14 | 21/05/2010

Xinjiang, a “nova fronteira”, não é só uma região “‘autônoma” chinesa, ela compreende mais de um sexto do território chinês, faz fronteira com 8 países, possui valiosas reservas minerais e energéticas e, para azar do partidão, é a terra de uma minoria étnica muçulmana com sonhos separatistas.

A região ganhou os noticiários internacionais em julho do ano passado após protestos de representantes da etnia Uigur tornarem-se violentos e acabarem em pancadaria com chineses Han (maioria étnica) e com a polícia. O resultado: mais 190 mortos, pelo menos 1700 feridos e umas 25 penas de morte já emitidas pela Justiça. Quase imediatamente após os confrontos, Internet, mensagens de texto e ligações internacionais foram suspensas na região. Quando visitei o local em outubro o clima ainda era tenso, com batalhões especiais da polícia e do exército patrulhando as ruas da capital Urumqi e realizando inspeção de documentos e carros em diversos pontos da cidade de Kashgar — chegavam ao cúmulo de bisbilhotar até mesmo as carteiras das pessoas mais humildes que passavam.

Não é de hoje que Xinjiang é uma dor de cabeça crônica, quase, assim, uma enxaqueca, para o PCC. Com os ataques às torres gêmeas de 2001, a China viu uma oportunidade de ganhar o apoio gringo para lidar com a etinia-problema e deixou de refererir-se a eles como “separatistas de Xinjiang”, passando a descrevê-los como “terroristas do Turquestão Oriental”. A estratégia deu tão certo que o Movimento pela Independência do Turquestão Oriental ganhou status de organização terrorista pelos EUA e pela ONU e mais de 20 uigures foram parar em Guantánamo.

Buenas, chega de falar do passado e vamos aos acontecimentos que fizeram com que o projeto “xinjiang semana feliz” do partidão fosse alcançado com sucesso.

Sexta-feira passada, 14 de maio, Xinjiang voltou a fazer parte do mundo que consideramos normal quando teve o acesso à Internet totalmente restaurado (totalmente = Internet – sites bloqueados pela #GFW). Euforia, lágrimas e preocupação tomaram conta da população, como nos conta o China Daily:

“Nosso lucro quase dobrou depois que a Internet foi cortada “, disse um gerente chamado Zhang no Karaoke Bayinhe Club em Urumqi, capital regional.” Mas as reservas caíram drasticamente no fim de semana porque a Internet está de volta. Parece que nossos bons tempos acabaram.”

(…)

“Temos realmente nos beneficiado com o bloqueio da Internet, por isso, embora eu pessoalmente esteja contente de ver que a Internet está de volta, para lojas de DVD não é uma boa notícia”, disse Li Ping, dono de uma loja de DVD, no domingo.

(…)

“Eu derramei lágrimas quando visitei o Baidu (ferramenta de busca mais popular na China)”, escreveu um internauta na iyaxin.com.cn, um site baseado em Xinjiang, apenas uma hora depois [da volta da Internet]. “A retomada do serviço mostra que o tprotestos foram organizados através da Internet) e não tem medo deles.”

Li Bin, um trabalhador do banco de 32 anos de idade, Urumqi, foi acordado no meio da noite às 2 da manhã por um de seus animados amigos.

“Meu amigo estava, literalmente, gritando do outro lado do telefone”, disse ele. “Ele me disse que a Internet estava de volta. Eu não acreditei no início, porque tem havido muitos rumores circulando sobre quando a proibição será levantada e nenhum deles era verdadeiro. Você pode ver como o povo de Xinjiang está desesperado para ser reconectado.”

Tantas declarações emocionadas parecem contradizer os resultados da pesquisa realizada pelo mesmo jornal e que perguntou aos moradores de Urumqi como suas vidas foram afetadas pelas restrições. 69% afirmaram que sua vidas tinham sido apenas “levemente afetadas”, 21% disseram que não foram afetadas de modo algum e 10% responderam que tiveram suas vidas severamente afetadas.

Após 312 dias de praticamente nenhuma possibilidade de contato com o mundo exterior (ao longo desses 10 meses o governo foi gradualmente liberando algumas funcionalidades), a “novidade” não veio sozinha e, junto com o anúncio, uma carta aberta do governo regional direcionada ao internautas foi publicada. O texto destaca a importância da internet como ferramenta de aproximação entre o governo e o povo e, sutilmente, recomenda cautela dos usuários:

Devemos valorizar a estabilidade duramente conquistada hoje, valorizar do ambiente completamente aberto da Internet e usar a Internet para a expressão do bem e a serviço do que é bom.

Ainda se recuperando do choque positivo causado pela volta da Internet, ontem Xinjiang foi novamente surpreendida por boas novas vindas do governo central. Foi revelado um pacote de apoio com “a ambiciosa meta de impulsionar o desenvolvimento e manter a estabilidade na região, que possui ‘uma particular e estratégica significância’”. Segundo Hu Jintao, a manutenção da estabilidade social e a obtenção de um rápido desenvolvimento são prioridades gêmeas. No texto que estampa a capa do China Daily de hoje a palavra “estabilidade” é citada 5 vezes, mas, além disso, também são descritas as medidas que visam o desenvolvimento econômico da região.

Agora resta saber até quando tanto otimismo vai durar. Se depender do novo governador de Xinjiang, Zhang Chunxian, a coisa não vai muito longe:

“Devemos combater duramente todas as atividades separatistas e destrutivas provocadas pelas três forças do terrorismo, separatismo e extremismo religioso.”

A China odeia crianças

Érica Manssour | China 11:01 | 06/05/2010

“Crianças são o futuro da nação” é um clichê universal propagado à exaustão pelos adultos do presente que detêm o poder de fazer acontecer, mas que preferem se isentar da responsabilidade de, no mínimo, construir alicerces decentes para que essas crianças tenham condições de realizar alguma coisa no tal futuro.

Na China isso também é verdade, e se você acha que em um país onde vigora a lei do filho único as crianças deveriam ser ainda mais valorizadas, pense de novo, pois recentes escândalos indicam exatamente o contrário.

Quarta-feira da semana passada (28 de abril), 15 crianças e uma professora de uma escola primária da província de Guangdong foram vítimas de um homem que os atacou com facadas. O incidente aconteceu no mesmo dia em que outro homem era executado por ataque semelhante no mês de março, na província de Fujian, e que resultou em 8 vítimas fatais – todas crianças.

Na quinta e sexta-feira sucederam-se outros dois ataques. Em Jiangsu, 28 alunos e 3 adultos sofreram ferimentos, com 5 vítimas em estado grave. Em Shangdong, a faca foi substituída por um martelo e 5 crianças foram feridas.

O caso da província de Fujian, em março, recebeu bastante cobertura da mídia nacional e pouco mais de um mês depois o responsável pelos ataques foi executado. O incidente de Guangdong também foi bastante noticiado, mas a confusão começou a se instaurar a partir do segundo caso consecutivo, na quinta-feira da semana passada. Controvérsias em relação ao número de feridos e possíveis mortos emergiram, e a escassez de notícias causou estranhamento – o Ministério da Verdade contra-atacara emitindo recomendações de que fossem minimizadas as notícias sobre o assunto, afinal a inauguração da Expo Shanghai aconteceria em alguns dias e essa história prejudicaria a imagem de sociedade harmoniosa tão propagandeada pelo partidão.

Esse tipo de ataques não é novidade – em 2004 casos semelhantes também chocaram o país.

Ainda em março deste ano, crianças eram novamente vítimas de adultos inescrupulosos. Dessa vez vinha à tona o escândalo das vacinas na província de Shanxi. Uma reportagem relacionou a morte de 4 crianças após terem recebido vacinas que haviam sido armazenas inapropriadamente. Como consequência da administração de vacinas estragadas, pelo menos outras 74 crianças também teriam adoecido e algumas ficaram permanentemente deficientes.

Em 2008, outros dois grandes escândalos envolvendo a morte de crianças.

Em maio, o terremoto de Sichuan deixou mais 60 mil mortos e aproximadamente 7 mil escolas ruíram, enquanto prédios do governo mantiveram-se intactos a apenas poucos metros de distância. Se São Paulo tem escolas de lata, as de Sichuan foram apelidadas de “escolas de tofu”.

Em julho, surgiram as primeiras notícias ligando crianças com pedra nos rins ao consumo de leite em pó “envenenado”. Mais de 300 mil crianças adoeceram e pelo menos 6 morreram após ingerirem leite em pó adulterado (melamina, composto químico que causa insuficiência renal, havia sido adicionada à formula do produto). Com os jogos olímpicos de Beijing por acontecer, o governo foi acusado de acobertar o caso e adiar medidas.

Se nada disso parece o suficiente pra sustentar a teoria de que a china tem uma estranha relação com suas crianças, só me resta usar como argumento a foto abaixo:


Fralda é supérfluo.

O vírus e a China

Érica Manssour | China 14:00 | 28/04/2010

Enquanto na África do Sul o presidente Zuma dá sinais de ter finalmente aprendido que tomar uma ducha após o sexo não é nada além de relaxante, na China o partidão também parece ter feito o dever de casa e anunciou, às vésperas da abertura da Exposição Mundial de Shanghai, que permitirá a entrada de estrangeiros portadores do vírus HIV (ou outras doenças sexualmente transmissíveis E também leprosos) ao país.

Do China Daily, tradução minha e do Google Translate (abençoado seja), vamos conferir a sabedoria adquirida pelo governo chinês:

“De acordo com um comunicado divulgado terça-feira pelo Conselho de Estado, depois de ganhar mais conhecimento sobre as doenças, o governo percebeu que tal proibição tem um efeito muito limitado na prevenção e controle de doenças no país. [a proibição] Tem, pelo contrário, causado transtornos para o país quando ele sedia diversas atividades internacionais”
(…)
“Anteriormente, a China via o HIV/AIDS como uma doença ‘importada’ relacionada a um estilo de vida pervertido. Mas agora o governo lida com a questão sob uma perspectiva de saúde pública”
(…)
“O comunicado diz que o levantamento da proibição não trará um surto da doença no país, uma vez que pesquisas científicas provaram que o contato diário não causa infecção.”

Segundo o NY Times, há chances de que dessa vez a revogação da proibição seja pra valer – e não temporária como foi o caso do período das Olimpíadas. O secretário-geral da ONU já se apressou e parabenizou o presidente Hu Jintao pela decisão. Eu, que aprendi a ser mais pessimista desde que vim pra cá, prefiro esperar pra ver o que vai acontecer após o encerramento da Expo, no ainda longínquo 31 de outubro.

Prefiro também lembrar que dia 14 de abril, exatamente duas semanas atrás, o Shanghai Daily informou que um funcionário do Ministério da Saúde teria dito que transfusões de sangue são perigosas e devem ser evitadas a não ser quando realmente necessárias (pois é). Em Janeiro, a descoberta de que pelo menos 80 pacientes hospitalares foram infectados pelo vírus HIV após receberem sangue contaminado foi notícia. Em 2007, um relatório alertava: “sangue na China ainda é perigoso”.

Tudo isso nos leva aos anos 90, quando milhares de chineses pobres em áreas rurais se envolveram na chamada “Economia do Plasma”. A venda de sangue virou um escândalo porque a coleta do material era feita da forma mais precária imaginável, seringas eram reutilizadas e o sangue não era testado pra coisa nenhuma e posteriormente utilizado em hospitais. Segundo dados oficiais de 2001 (nada confiáveis, é bom que se diga) o esquema resultou na infecção de 30 a 50 mil pessoas com o vírus HIV, além do surgimento de uma vila completamente anômala, em que 65% da população é HIV positiva.

Então a China parece ter aprendido que HIV/AIDS não é privilégio dos “dêmonios estrangeiros” e que o contato diário não causa contaminação, mas tudo indica que não caiu ainda a ficha de como exatamente acontece o contágio. Além dessa história deprimente da venda de sangue, educação sexual não é nem de longe o forte do país. Do China Daily, de novo:

Mais de 70 por cento das pessoas que ligaram para uma linha telefônica sobre gravidez de um hospital de Shanghai não sabia quase nada sobre contracepção e apenas 17 por cento estavam cientes das doenças venéreas. Mais de 70 por cento são sabia que o HIV/AIDS pode ser transmitido sexualmente.

É bom lembrar que ignorância tem cura, então sugiro que o empolgado Ban Ki-moon promova um encontro maroto entre Hu Jintao e Zuma pra ver se, definitivamente, os chineses aprendem essa lição. Se os moços quiserem, podem até tomar um ducha depois pra relaxar.

O luto chinês

Érica Manssour | China 07:23 | 22/04/2010

Dia 21 de abril o terremoto que atingiu o município de Yushu completa uma semana e o governo chinês declarou luto oficial. A decisão é a mesma tomada em 2008 com o tremor que assolou a província de Sichuan. Diversos jornais e sites amanheceram em preto e branco como forma de homenagear as mais de 2000 vítimas fatais.

Além de bandeiras a meio-mastro e 3 minutos de silêncio sendo observados em diversos locais, na China o decreto de luto oficial inclui uma menos tradicional proibição de atividades relacionadas à diversão. Segundo a ótica do partidão, isto implica no fechamento de cinemas, bares e karaokês, assim como a suspensão da transmissão de jogos e outros programas de entretenimento pelas emissoras TV. Na internet, jogos, download de música e chats tornam-se inacessíveis durante o dia. Por aqui tudo vira motivo pra algum tipo de censura.

Grande parte da população do munícipio de Yushu é da minoria étnica tibetana e, apesar da possibilidade de que terremoto ganhasse um viés político, até o momento o governo chinês tem conseguido administrar bem a situação e a imprensa (internacional, claro, a nacional jamais se atreveria) tem explorado pouco assunto.

A visita que o Dalai Lama pediu permissão para fazer à região, no entanto, parece que vai ficar pra próxima encarnação mesmo.

Categoria(s):  China
Tags: , , , ,

Comente

Suicídio > honra ao mérito

Érica Manssour | China 14:03 | 09/04/2010

Do Shanghai Daily:

“Mais de 20 suicídios de oficiais chineses foram noticiados desde 2009. Suas mortes alimentaram especulações de que tenham sido “sacrifícios” para prevenir investigações de outros funcionários corruptos.”

Não seria desolador se isso começasse a acontecer no Braziu?

Receba por e-mail:

Arquivo