Live Blogging | Eleições 2010, Segundo Turno | Votação, Apuração e Resultados

Fabricio Pontin | Estados Unidos 16:00 | 31/10/2010

História real

Pedro Augusto | Alemanha 22:33 | 26/10/2010

Semana passada minha mulher me pegou nu, na cama, com uma loura formosa, seios fartos, panturrilha definida, corpo bem torneado e boca carnuda. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, saí-me com o clássico:
- Não é nada disso que tu estás pensando, querida. Eu posso explicar.

Ela, não acreditando que eu ainda tinha sequer coragem de falar, aos berros, disse:
- Fala, Pedro, o que aconteceu para tu estares pelado na cama com essa vagabunda?

Parei por um milésimo de segundo e arrisquei:
- Foi em nome da governabilidade, meu amor. Sem transar com ela, não conseguiria aprovar nada lá no trabalho.

Ainda incrédula e babando de raiva ela me atirou um tamanco que me atingiu na testa. Pensei mais um tempo e experimentei uma segunda frase:
-Amor, isso nada mais é do que pragmatismo sexual. Eu fui obrigado pelas circunstâncias a me deitar com essa rapariga.

Vendo que não funcionava, que ela era muito mais inteligente do que muitos dos analistas brasileiros, tentei o que pensei ser a última das desculpas da noite:
- Amor, isso é a Realpolitik sexual; eu tenho o sexo como vocação, Geschlechtsverkehr als Beruf (caprichei no sotaque alemão, por achar que essa era a língua do amor).

Sem conseguir me defender, o segundo tamanco acertou em cheio meu olho direito. Quase chorando consegui balbuciar o que me pareceu a resposta que acabaria com aquela discussão:
- Amor, essa mulher deitada aqui ao lado nada mais é do que um factoide (caprichei no ó, já que a maioria das pessoas escreve a palavra com acento) da imprensa golpista, que sempre tenta de tudo para nos separar.

Minha esposa continuava furiosa e logo vi o abajur se aproximando da minha testa. Ainda me recuperando da pancada , fui ao que pensava ser o fundo do poço das desculpas esfarrapadas:
- Amor e mulher da minha vida, essa loura é mais uma jogada magistral neste tabuleiro de xadrez que transformou as relações interpessoais que são visadas pela velha Igreja.

Objetos continuavam voando em direção à minha cabeça e, infelizmente, a maioria deles me acertava em cheio. Os lençóis já começavam a ficar vermelhos de sangue. Pensando que minha mulher se lembraria da minha bola de boliche guardada no armário, fui ao desespero e lasquei:
- Paixão, eu não conheço essa mulher. Me disseram que o nome dela era Maria Branca, mas eu só a conhecia como Maria da Silva. Aquele apelido era preconceituoso e elitista, por isso que ela está aqui.

Vendo que um vaso de flores se dirigia até a minha têmpora esquerda, gritei antes do baque:
- Flor da minha vida, isso nada mais é do que uma tentativa de golpe no nosso casamento, por aqueles que não aceitam que um gordinho baixinho como eu coma louras peitudas por em virtude da minha imensa popularidade.

Não surtindo o efeito desejado, juntei as mãos, olhei aos céus, e disse, já sentindo o gosto do sangue que me inundava a boca:
- Minha gatinha, o pastor da igreja mandou que eu lesse a Bíblia; eu li e lá consta o “crescei e multiplicai-vos.” Como sou contra o aborto, resolvi engravidar essa perua para provar que eu sou um cristão temente a Deus.

Ela começou a se dirigir ao armário e eu percebia que a bola de boliche seria o próximo objeto a me arrebentar o crânio. Pensei em tudo o que tinha vivido e visto, em tudo que tinha aprendido, em todas as desculpas que eu tinha ouvido em minha vida. Tentei mais uma:
- Fui traído, minha linda. Essa loura jurou que era minha esposa, que me era fiel, e eu não tenho como controlar tudo que acontece na minha vida.

A bola de boliche já estava nas mãos da minha esposa e ela se preparava para arremessá-la quando eu tive uma luz e, com olhos de perdão, disse:
- Eu não sabia de nada!

Nesse momento a bola de boliche já havia saído das mãos da minha esposa e se dirigia ao centro da minha testa. Percebendo o enorme erro que cometera, minha esposa gritou:

- Pedro, se tu dizes que não sabia de nada, eu acredito.

Pena que era tarde demais.

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência”

Live blogging do debate R7/Record entre os presidenciaveis | segundo turno

Fabricio Pontin | Estados Unidos 21:44 | 25/10/2010

Os dois candidatos já deixaram claro que vão tirar o pé nos próximos dois debates. Ou seja, estejamos prontos para uma maratona de bocejos no embate da Record, daqui a pouco, e no da Rede Globo, na noite de sexta. Aliás, quem não quiser assistir ao debate precisa apenas ler este post do Josias de Souza, que prevê as respostas de cada candidato para as perguntas do oponente. Mas aqui no Braziu ninguém se intimida por pouco: eu, nos Estados Unidos, e Gabriel Brust, na França, receberemos os amigos leitores para o já tradicional live blogging apatifado. Serão todos bem vindos para opinar e esculhambar. Daqui a pouco, às 23h.

Religião, aborto, voto unilateral e a democracia enquanto piada de mau gosto

Fabricio Pontin | Estados Unidos 13:16 | 18/10/2010

Uma vez, na universidade, eu coordenei uma mesa redonda onde dois professores com doutorado na Inglaterra discutiam alegremente questões de início e fim da vida. Em um certo momento, um dos dois professores, ao ser confrontado por uma pergunta sobre a questão do aborto e do infanticídio falou que,

“Essa questão do aborto não tem uma dimensão moral de verdade, ela é só poluída por fanáticos religiosos. Em verdade, até o décimo primeiro mês, não há problema moral algum em terminar uma gestação ou em matar um infante, se isso traz benefícios para a mãe”

“Décimo primeiro mês, professor?”

“Sim, segundo a definição Lockeana de pessoa” (Nota: a definição do velho Locke diz que uma pessoa é alguém capaz de conceber um passado e ter expectativa de um futuro)

“Décimo-primeiro-mês?”

“Logo vejo que nessa universidade os alunos foram cooptados pela ideologia da Opus Dei e não aceitam evidência científica incontestável. Antes do décimo primeiro mês não há qualquer evidência de processos de expressão de consciência individual, nem de estabelecimento de passado ou futuro para o infante. Aquilo não tem direitos.”

Uns três anos depois, estou passeando aqui pelo campus quando encontro flechas apontando para uma exposição sobre “the greatest holocaust ever made my man”. A exposição era em frente ao prédio onde estudo, de forma que não tinha muito como escapar da coisa. Uns vinte alunos vestidos de branco seguravam cartazes “GOD HATES THE SPILLING OF INNOCENT BLOOD” , “EMBRYO=BABY JESUS”, fotos de bebês loirinhos sorridentes com um balão de história em quadrinhos “I FEEL PAIN WHEN YOU ABORT ME” e “MAMMA DON’T ABORT ME”.

Fiquei curioso com o lance do holocausto, e fiquei procurando onde estavam as fotos da Shoa. Daí me dei conta. “Every year more than two million children are ASSASSINATED with support of the federal government” .

Aqui nos Estados Unidos eles chamam indivíduos que votam baseados em apenas uma questão de “single-issue voters”. Vou chamar de “voto unilateral” essa conduta. Funciona assim: tudo indica que você votaria no Obama; você apoia intervenção do Estado na Economia; você acha que programas sociais são importantes; acredita no aquecimento global; e se bobear até acha que escolas públicas não deveriam ensinar o criacionismo. Mas daí você descobre que o Obama é pro-choice (portanto, contra a criminalização do aborto) e de uma hora para outra todas as tuas outras opiniões sobre o Obama caem por terra. Especialmente quando você descobre que o outro cara é pro-life e tem como vice uma mulher muito parecida contigo.

Um voto unilateral pode vir de diferentes “perfis” ou “problemas” e com diferente força. Por exemplo: ninguém se elege nem síndico de prédio nos Estados Unidos sem falar que acredita em Deus. A questão da pena de morte pode ser decisiva para um lado ou para o outro, dependendo de qual estado você tá querendo seduzir. A questão da eutanásia também.

Isso vai variar, é claro, dependendo da eleição e de quem vai decidir a eleição no fim das contas. Eleições onde os indecisos são pessoas que votam em cima desses issues acabam indo para essa direção naturalmente. Eleições onde esses mesmos indecisos são irrelevantes se movem para um terreno diferente, são eleições que focam mais em políticas públicas e menos em valores. Digamos que o primeiro tipo de eleição geralmente é ganha por um democrata e o segundo é geralmente ganho por um republicano. Uma olhada na história dos Estados Unidos desde 1962 ilustra como o processo eleitoral geralmente funciona.

Enquanto isso, no Braziu, candidatos tentam seduzir a massa evangélica (cerca de 20% da população, no mínimo) sem tomar uma posição. Dilma e Serra se posicionam de forma covarde e tal qual uma gangorra ficam subindo e descendo em questões de liberdades civis e religiosas. Para os dois candidatos, a resposta à pergunta do casamento homossexual e do aborto depende, de forma geral, de quem está perguntando.

De qualquer forma, Dilma só precisa ganhar cinco por cento dos votos que permaneceram para Marina ou se abstiveram no primeiro turno. Serra tem uma missão mais complicada e precisa transformar o atual domínio em São Paulo em um domínio na região Sul e Sudeste, tentando engessar a candidatura da Dilma no Nordeste.

Talvez por isso seja mais fácil para Dilma aumentar o volume do apelo aos que votam de forma unilateral. Ao se apresentar como amiga dos evangélicos e mudar de forma vergonhosa a própria opinião sobre o aborto, Dilma confia que ainda que parte da população identifique esse recurso como uma retórica sem-vergonha, um número suficiente de pessoas vai apoiar a iniciativa e votar nela. Ela não precisa do voto da maior parte dos evangélicos ou dos que votaram na Marina no primeiro turno. Ela precisa de uma parte pequena, suficiente para se eleger.

Ao contrário da pena de morte, que considero um atraso intolerável em democracias modernas, a questão do aborto tem uma complexidade maior. Não acho que ser contra o aborto é uma aberração. Por sinal, boa parte das pessoas que se posicionam a favor da descriminalização do aborto não são favoráveis a prática. Acontece que existem elementos de saúde pública, de imprevisibilidade e sobretudo de coerência legislativa que precisam ser levados em conta. Um país que identifica a potencialidade de um embrião como uma “pessoa” não poderia permitir metade das práticas de pesquisa em genética que o Brasil permite. Um país que permite aborto em caso de estupro não pode argumentar que um feto já tem direitos enquanto pessoa (não tem se é resultado de estupro? Por favor, isso não faz o menor sentido).

O debate no Brasil precisa ser confrontado com a pobreza argumentativa dos dois lados. Não é uma questão tranquila essa de que “não existem problemas morais no aborto”. O professor que apelou para uma certa definição de pessoa tinha um argumento tão ridículo quanto o dos crentes na frente do prédio das Humanas da SIUC. É claro que é uma questão moral. Justamente por ser uma questão moral a gente acaba discutindo isso por tanto tempo. Mas a hipocrisia da legislação brasileira é notável. Existe um consenso em não punir mulheres que praticam aborto. Então por que a prática é considerada ilegal? Existe a permissibilidade do uso de embriões em pesquisa. Então porque o aborto embrionário é considerado ilegal? Permite-se o aborto em caso de estupro, mas se essa circunstância mitiga o interesse potencial do feto, porque outras circunstâncias não são relevantes? A vida decorrente de estupro é menos digna de proteção?

Por outro lado, perde-se tempo com essa discussão por motivos puramente eleitorais (enquanto sabemos que tanto Serra quanto Dilma parecem ser favoráveis à descriminalização da prática Brust me corrigiu ali nos comentários, mais detalhes aqui), quando poderia-se discutir, por exemplo, como diminuir o número de gravidez em menores de idade nas classes mais pobres. Pergunte para qualquer professor do ensino médio em uma escola pública quantas alunas grávidas ele vê todo semestre. Pergunte para um professor de sexta série. A questão é extremamente relevante. Jovens pobres no Brasil não usam preservativo, não sabem como usar a pílula e muitas vezes engravidam porque isso vai fazer o namorado parar de bater nelas – pelo menos por nove meses. Ao menos, poderíamos discutir como diminuir o número de gravidez indesejáveis, para que menos mulheres sequer precisem pensar em abortar. No entanto, o governo federal só se preocupa em falar de camisinha durante o carnaval. Ninguém discute isso, até porque ninguém decide o voto com esses problemas em mente. Ou melhor, não existem pessoas suficiente decidindo com isso em mente. Então é mais fácil dizer que Jesus é Rei, que Toda Vida É Sagrada e que Aborto é um Crime Horrível.

Acho especialmente interessante perceber como essa minoria acaba transformando o debate eleitoral. A gente espera que, de uma forma ou de outra, o processo democrático acabe representando uma certa vontade geral. De verdade, representa a vontade de quem quer ganhar mais. Tudo bem, o voto racional pode ser uma grande de uma piada, pode ser que a gente não saiba de verdade o motivo pelo qual as pessoas votam (ziriguidum comanda o universo, apud Valdevino, Walter). Ainda que a conduta dos candidatos seja baseada em uma ficção (e.g.: pessoas votam com apenas um problema em mente), a conduta desses candidatos passa a ser consistente com essa ficção.

Após um primeiro turno sobre o nada, agora temos um segundo turno onde os candidatos tentam desesperadamente agradar uma parte da população que não fala pela maioria, que não tem uma dimensão muito clara do que está em jogo nos assuntos que são discutidos (e, justiça seja feita, não é informada sobre assuntos de forma adequada) e, no entanto, sequestra o debate.

Live blogging do debate Folha/Rede TV! entre os presidenciáveis | segundo turno

Leandro Demori | Itália 19:34 | 17/10/2010

Os nossos muçulmanos estão certos

Leandro Demori | Itália 09:43 | 13/10/2010

Leandro viaja pelo mundo cobrindo guerras. Leandro não sou eu, é um outro. Quando esteve no Líbano pouco antes da invasão de 2006, fez o que frequentemente faz quando viaja: foi a uma escola conversar com crianças sobre religiões, Ocidente e Oriente Médio. Antes de começar a falar, Leandro sempre pede que as crianças escrevam em um papel uma resposta simples à pergunta “Quem você é?”. Recolhe todos os bilhetinhos e lê as respostas somente no final da lição — quando então pede para que as crianças confirmem a resposta, ou a mudem.

A coisa que mais chama sua atenção quando viaja a lugares como o Líbano é o padrão das respostas. Ao ouvirem a pergunta “quem você é?”, a maior parte das crianças desses países respondem em uma só palavra: “muçulmano”. Nenhuma criança responde “cristão” quando Leandro faz a mesma brincadeira em território ocidental; preferem dizer que são “filhos de alguém”, “estudantes” ou “jogadores de algum time de futebol”.

No Brasil de hoje, mais de 30 milhões de pessoas se declaram “evangélicos”. Evangélicos, sobretudo os neopentecostais, são os nossos muçulmanos. Não existe ‘evangélico não-praticante’, modalidade criada por cristãos apostólicos romanos para ficar de bem com o cara lá de cima ao mesmo tempo em que batem a carteira de alguém aqui em baixo.

Os ‘nossos muçulmanos’ são, além de numerosos, ativos em todas as camadas da sociedade. Esse ‘tipo de religião’ não é ‘coisa de pobre’, como a imagem estereotipada e já desgastada pelo tempo que nos acostumamos a ver. É um grupo heterogêneo, de poder aquisitivo crescente e espalhado pelo país.

Os evangélicos, em regra, são contra o aborto, e têm todo o direito de defender essa trincheira. Seus generais, os pastores, estão guiando as tropas contra qualquer projeto que permita alargar a lei atual. Gente como Silas Malafaia está em sintonia com seu povo, mas não somente com ele: apenas 7% dos brasileiros acreditam que a prática deva deixar de ser punida pela lei.

Brasileiros não são ‘conservadores’ (no sentido de ‘retrógrados’); na mesma pesquisa, 7 em cada 10 declara que a legislação deve ficar como está — e a legislação permite o procedimento para fetos que ponham em risco a vida da mãe ou em casos de estupro. Considero a legislação brasileira sobre o tema uma das melhores do mundo. Mesmo sendo contra o aborto por motivos pessoais, não sou a favor de levar aos tribunais mulheres que o praticarem nessas duas circunstâncias.

Repare que há diferenças fundamentais entre ser ‘contra o aborto’ e a favor da ‘criminalização’. Você pode ser contra o ato de abortar, como eu, e acreditar que a prática é um crime em qualquer circunstância, por exemplo; ou ser contra mas defender o direito de toda mulher poder abortar até os três meses de gravidez sem sanções penais. Uma coisa não está ligada a outra.

Os motivos eleitoreiros pelos quais o assunto ganhou os holofotes são do jogo, e o jogo foi, é e sempre será esse. Política nos moldes democráticos e representativos é a arte da garganta pura e simples (e que vença o menos pior). Nem por isso os candidatos podem achar justo se esquivar da conversa porque ela foi puxada pelo mais bêbado da mesa. In vino veritas.

Argumentar que vivemos em um Estado laico para dizer que os religiosos estão errados em defender suas ideias é, veja só, errado. A separação entre Estado e Igreja no Ocidente teve sua pá de cal com a unificação italiana e todo mundo do lado de cá do planeta parece ter entendido bem o recado. Tanto que os pastores não estão postulando que o Estado emposse um bispo como chefe da nação — estão defendendo sua ética de comunidade com pressões no Executivo e Legislativo, democraticamente, assim como fazem as bancadas das armas, dos ruralistas, dos sindicalistas, dos direitos humanos, dos GLS, dos…

O laicismo não excomunga Deus da vida social, apenas o põe em seu lugar, mantendo sua voz e seu direito de defender dogmas que para nós, ateus, são muito similares a historinhas de gnomos e potes de ouro no fim do arco-íris. O bom da religião é que ela abre precedentes para que eu possa acreditar em todas as lendas cantadas nas músicas do Black Sabbath, Iron Maiden ou Pink Floyd, no que agradeço imensamente e de coração.

Na Itália, a pressão política da poderosa Igreja nem sempre traz resultados. Aqui, o aborto é consentido na rede pública até o terceiro mês de gravidez, apoiado em uma lei aprovada em 1978 e que passou por um histórico plebiscito popular em 1981, quando 68% dos italianos disseram ‘sim’ à prática, ferindo gravemente o coração do Vaticano. A pílula do dia seguinte, apesar de todos os protestos do mundo católico, começou a ser distribuída neste ano.

Em Roma, não se caminha 200 metros sem passar por uma propriedade da Santa Sé, representada por seu escudo. Nem por isso, Roma — e a Itália — são uma ‘teocracia’. Evite a retórica do desespero e pare de acreditar que algum bispo de voz rouca e gel no cabelo dará um golpe de Estado. Caso se torne presidente por meio do voto em um futuro não muito distante haverá pouco para chorar; as regras do jogo estão aí para todos, inclusive pro pessoal que acredita em duendes.

Pesquisas: incompetência ou má-fé? E uma comparação com a França

Gabriel Brust | França 19:11 | 04/10/2010

Como bem destacou um leitor num comentário do post abaixo, são de arrancar gargalhadas as desculpas apresentadas hoje pelos entusiastas das pesquisas Sensus e Vox Populi. Os dois institutos se tornaram referência para os eleitores, fieis e seguidores da candidatura de Dilma Rousseff. Não por sua perícia técnica ou comprovada imparcialidade ao levantar dados, mas simplesmente porque, nos últimos dois meses, apresentavam  intenções de voto em Dilma e nos candidatos governistas oscilando entre 100 e 130%. Netinho de Paula, o infame pagodeiro com longo histórico de agressões, estava praticamente eleito. Vimos o que aconteceu – não ficou nem com a segunda posição, no caso mais escandaloso entre todos os erros das pesquisas desta eleição.

Mas voltando ao anedotário dos progre$$istas, que hoje resolveram “analisar” como estes institutos erraram, vale registrar algumas teses ÇenÇaÇionais:

* Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi, que em entrevista na semana passada cravou, sem titubear, “Dilma no primeiro turno”, ontem atribuiu o fiasco das previsões de seu instituto a uma suposta irracionalidade de parte do eleitorado na escolha de último momento.

* Luis Nassif, blogueiro progre$$ista, veio com teoria: Vox e Sensus fazem a pesquisa na casa do entrevistado, enquanto o Datafolha faz pesquisa em “pontos de fluxo”. Essa metodologia, segundo Nassif, favorece a captação de “ondas” ou “bolhas”, como teria sido o fenômeno Marina Silva. Se eu entendi, a tese de Nassif é a de que as pessoas que estão caminhando na rua tendem a se deslocar mais e a convencer os demais transeuntes a votar em seu candidato, enquanto caminham (???). Ok, três linhas em branco para você rir e voltamos em seguida.



Não riu o suficiente? Então reflita um pouco sobre outras teorias muito sérias, essas vindas dos leitores dos blogs progre$$istas que – não sei como! – não acreditaram muito na teses de seus gurus e criaram as suas próprias:

Eleitores direitistas maquiavélicos mentiram para os institutos de pesquisa para criar uma falsa ilusão de vitória no primeiro turno. Hmmm…. pode ser. Essa gente, sabe como é, nunca se sabe do que são capazes…

* Houve claríssima manipulação das urnas eletrônicas em todo país. Faz $entido. A tecnologia trabalha sempre a favor da burguesia. Em 2002 e 2006 as urnas elegeram Lula apenas porque acordaram bem dispostas naquele dia. Pura coincidência.

Bom, agora chega de piada (ou não).

Além dessas desculpas furadíssimas de institutos e jornalistas que até ontem davam como certa a vitória de Dilma, há também um movimento para se criar a falsa impressão de que “todos os institutos de pesquisa erraram”. Podemos dizer que ninguém acertou – e isso já é um absurdo, sem dúvida, como veremos a seguir numa comparação com as pesquisas na França. Mas dizer que todos erraram feio é uma simplificação fácil para livrar a cara de Vox e Sensus e tentar camuflar o óbvio: os dois institutos trabalharam com números irreais do início ao fim – sempre favorecendo amplamente os candidatos governistas em todas as esferas.

Em resumo, não são institutos de pesquisa, são apenas mais um braço do polvo – que, em breve, deve inaugurar também padarias e açougues influenciados pela opinião do partido. Está ficando difícil achar um mísero setor da sociedade em que os fatos reais e a opinião do PT não se misturem.

Datafolha também não acertou, mas foi o único a apontar a tendência de queda de Dilma e ascensão de Marina na reta final. O movimento detectado pelo instituto se confirmou e em escala ainda maior, como se viu. Nos dias que antecederam a eleição, o Datafolha foi, ironicamente, defenestrado pelos governistas justamente por estar acertando.

O que há de errado com o eleitor brasileiro?

Essa é a questão que surge quando observamos a distância entre o que captaram os institutos de pesquisa e o que os brasileiros fizeram ao encarar a urna. Afinal, você dirá, técnicas e metodologias de pesquisa não surgiram hoje, elas prevêem resultados de eleição e medem mil outras preferências de público há muito tempo, no mundo todo, e com reconhecida eficiência. O problema, então, só pode ser o povo brasileiro. Um professor meu na universidade por aqui costuma dizer que o Brasil é o maior laboratório da pós-modernidade – este caldeirão de hedonismo, volatilidade e despolitização em que toda a humanidade vai acabar mergulhando, mais dia menos dia. Vai ver que é isso: o povo brasileiro é pós-moderno demais para nossos institutos de pesquisa! Ora, por favor…

É claro que o problema são os institutos, que erraram por incompetência em alguns casos, e por má-fé em outros, e agora estão querendo nos convencer de que são normais os abismos entre o que eles previram e o que aconteceu. Não são. Ontem à noite, enquanto acompanhávamos a apuração e o fiasco dos institutos ia ficando cada vez mais evidente, o colega aqui do blog Mario Camera me lembrou das pesquisas da última eleição presidencial na França. Por aqui, os institutos divulgam sua boca de urna poucas horas depois da eleição e isso basta para que os vencedores e derrotados reconheçam suas condições. Não é necessário esperar a contagem oficial. Por que? Porque espera-se dos institutos que simplesmente façam seu trabalho. Na última eleição, acertaram com bastante precisão. Para que isso não pareça papo furado, nós cavocamos alguns números das presidenciais de 2007 e voilá:

1º turno

Pesquisa do Ipsos/Dell           Resultado final

N. Sarkozy  30,8 %                        31,1 %

S. Royal  25,2 %                             25,8 %

F. Bayrou  19 %                              18,5 %

JM. LePen : 10,8 %                      10,4 %

2º turno

Pesquisa do Ipsos/Dell           Resultado final

N. Sakorkozy  53 %                        53,06 %

S. Royal          47 %                         46,94 %

E não é só na boca de urna. Na mesma noite da votação do primeiro turno, ou seja, faltando duas semanas para o segundo turno, o Ipsos/Dell fez uma pesquisa sobre segundo turno POR TELEFONE COM APENAS 1089 PESSOAS. O resultado: Sarkozy 54%, Segolene Royal 46%. Outro exemplo, para encerrar: de acordo com a boca de urna, o Ipsos/Dell cravou a participação dos eleitores no segundo turno. Disse que a abstenção seria de 16%. Foi de 16,03%.

Claro que comparações sempre são problemáticas. O Brasil não é a França, o eleitor brasileiro não é o francês, a última eleição francesa não teve um fenômeno de última hora como Marina Silva. Mas, se tivesse, tudo me leva a crer que o Ipsos/Dell, por exemplo, teria detectado e cravado isso na boca de urna. O que tivemos, no Brasil, foi o Ibope nos dando, na boca de urna, 51% para Dilma (foram quase 47), 30% para Serra (beirou os 33) e 18% para Marina (quase 20).

Cobertura da apuração de votos | Eleições 2010 | Primeiro turno

Leandro Demori | Itália 16:55 | 03/10/2010

Onde nós estamos?

Leandro Demori | Itália 15:23 | 03/10/2010

Cheguei cedo na frente da Embaixada brasileira em Roma. Poucas pessoas. A massa começou a chegar mesmo lá pelas 11 horas. Os madrugadores eram, na maioria, religiosos — quase sempre freiras. Fiz algumas fotos, mandei matéria para o Terra e voltei pra casa.

Almocei, tirei uma pestana de Jesus e voltei pra lá. Terminada a votação, percorri as portas da embaixada para contar o número de votos de cada candidato, expostos nos boletins impressos pelas urnas após fechamento dos trabalhos [aqui os resultados de Roma]. Os brasileiros que ainda estavam lá ficaram curiosos e se aproximaram. Falavam-se entre eles.

“Eymael é o José Serra?”

“Já contei quase todos, mãe. Dilma fez bastante 13, Serra fez 45″
“Ih, intãoJusé Serra”

“A Dilma que é do Lula, né?”

“Como eu faço pra votar?”
“Já acabou o horário, minha senhora, faz mais de uma hora”

“Amor, já acabou a votação”
“Já?”
“Já”
“Tem informação sobre turismo pro Brasil ali”
“Mas temos que pegar o trem”
“Onde nós estamos?”

Onde?

Abriremos o live blogging daqui há pouco. Fiquem por aí.

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braziu.org 07:05 | 03/10/2010

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