O caro Big Mac brasileiro

Gabriel Brust | França 18:34 | 15/08/2010

Oi, sou um sanduíche imperialista, mas você adora me comer la la

Há algumas semanas tenho ouvido um mesmo relato de amigos que voltam de viagem do Brasil, mais precisamente do Rio de Janeiro e de São Paulo: os preços em geral, por lá, estariam quase mais altos do que aqui em Paris – cidade notória por esfaquear o vivente até no preço do pão.

 O caderno de economia do Le Figaro da última quarta trouxe uma pequena reportagem confirmando este sentimento geral. “Le Brésil confronté à la surévaluation du Real” abre abordando essa comparação de preços: “Para um turista americano cheio de nostalgia, almoçar em um McDonald’s no Brasil é um choque. Apesar de saber que passaria as férias num país de economia dinâmica mas, mesmo assim, “em desenvolvimento”, ele terá que pagar US$ 4,91 por seu Big Mac no Rio de Janeiro, contra US$ 3,73 nos Estados Unidos”, descreve a correspondente Lamia Qualalou.

O valor do Big Mac brasileiro também fica absurdo ao lado dos vendidos na China (US$ 1,95) e Argentina (US$ 1,78), apontando para uma supervalorização do real estimada em 31% — o que significa, na prática, o mesmo nível de 1998. A reportagem do Le Figaro destaca, no entanto, que essa supervalorização não deve ter maiores consequências – ao contrário da crise de 98 – e que a eleição presidencial do próximo dia 3 de outubro não preocupa nenhum investidor. Mas aponta os vários calcanhares de aquiles que o país parece estar esquecendo, em especial a balança comercial, com péssimo resultado no primeiro semestre. Duas medidas recomendáveis para o país, afirma o Le Figaro, “são impensáveis em contexto pré-eleitoral”: política fiscal mais austera e queda na taxa de juros.

Ainda no assunto Big Mag, mas não mais incluindo o Brasil, a última edição da revista Vingtetun (um excelente calhamaço de jornalismo literário misturado com almanaque) traz uma comparação de quanto vale o trabalho pelo mundo, tomando como medida o preço do Big Mac. Alguns números:

  •  Em média, é preciso 37 minutos de trabalho para um cidadão do mundo ganhar o suficiente para comprar um Big Mac;
  •  Entre 73 cidades pesquisadas, através de 14 profissões, o ranking fica assim:

   Tokyo, Chicago e Toronto, sendo necessários 12 minutos de trabalho para se comprar um Big Mac

Londres, Los Angeles e Miami (13 minutos)

Nova York, Sidney e Hong Kong (14 min)

Copenhague (17 min)

Berlim (19 min)

Paris (20 min)

Moscou (21 min)

Madri e Roma (27 min, mas Demori compra em 50 segundos)

 A Vingtetun traz outros bons números sobre quanto vale o trabalho pelo mundo em tempos de crise. Mostro mais deles em um outro post.

Share on Facebook
Post on Twitter
Google Buzz (aka. Google Reader)
Stumble Now!
Bookmark this on Delicious
Bookmark this on Technorati

Melhor levar o guarda-chuva

Leandro Demori | Itália 14:05 | 02/08/2010

Durante sua fala dominical (o Angelus), o Papa Bento XVI expressou ontem “muita satisfação pela entrada em vigor do tratado pelo não-uso das Cluster Bombs“, leio agora no Corriere della Sera [impresso].

Cluster bomb é um armamento militar — uma bomba — que, após lançada de aviões ou do solo, se separa em diversas outras pequenas bombas, causando uma estrago dissipado no alvo.

O problema das Cluster bombs é que, ao tocarem o solo, muitas ogivas não explodem. Permanecem ali por anos até serem descobertas por animais ou pessoas. Muitas são as vítimas no pós-guerra, invariavelmente civis.

A Cruz Vermelha Internacional estima em 100 milhões o número de ogivas plantadas em antigos campos de guerra pelo mundo.

O Angelus papal foi direcionado à convenção porque o Vaticano foi um dos Estados que pressionou na ONU pelo fim do uso das Cluster Bombs. As expectativas, no entanto, foram resfriadas por um dado importante: “mesmo sendo assinada por 107 nações, não foi reconhecida por países como Estados Unidos, China, Rússia, Israel, Índia, Paquistão e Brasil. Entre os 107 presentes, somente 37 já ratificaram a convenção”, traz o Corriere.

Estados Unidos, Rússia e China são produtores das bombas, vendem a países como Israel (que as usou contra o Líbano, por exemplo), Paquistão e Índia (que brigam pela região da Caxemira).

O Brasil não está em guerra, [mas também produz Cluster Bombs <-- updated 19h54] e não deve espantar o fato de o país ter deixado de assinar o documento. Já que estamos entrando no mundo dos adultos, nada mais natural do que se acostumar com as brincadeiras da parte de cima do beliche.

Dormir em baixo é roubada.

Share on Facebook
Post on Twitter
Google Buzz (aka. Google Reader)
Stumble Now!
Bookmark this on Delicious
Bookmark this on Technorati

Um estado sequestrado pelo banditismo sindical

Gabriel Brust | França 11:16 | 01/08/2010

O noticiário político deste domingo traz uma boa amostra do que o Brasil pode se livrar a partir do dia primeiro de janeiro de 2011. Não completamente, é verdade, já que depois de oito anos mamando no dinheiro público como nunca antes na história desse país, as organizações sindicais no Brasil se tornaram verdadeiras máfias oficializadas, que tendem a sobreviver às mudanças de governo.

É incrível como governos de esquerda conseguem ser previsíveis em sua miséria. Na Venezuela, Chávez segue à risca o roteiro rumo ao fracasso que todas as repúblicas de mesmo molde apresentaram ao longo do século 20. Escassez de alimentos nas prateleiras, racionamento de energia elétrica, empresas públicas destruídas pela invasão sindical, único país que terá encolhimento do PIB na América Latina, e, por fim, escolha do inimigo externo – EUA e Colômbia — para justificar toda a incompetência. Dá até preguiça comentar, de tão previsível.

No Brasil, o roteiro pronto fica por conta do poder dos sindicatos, engolindo o próprio Estado. Oito anos vertendo dinheiro de maneira incontrolável para bandidos, deu no que deu. O próprio governo começa a perder o controle sobre essa sub-casta que indiretamente (ou diretamente?) hoje governa o país, passando longe das boas intenções ou de métodos éticos para conseguir o que quer. A longo prazo, governo e sindicalistas tendem a se destruir mutuamente em sua guerra particular pelo nosso dinheiro. O filme é antigo e um eventual governo de Dilma será uma reprise sonolenta.

Mas vamos ao clipping de domingo, na República do Banditismo Sindical:

Na briga por cargos e poder na administração do presidente Lula, até o ministro Guido Mantega (Fazenda) foi alvo de um dossiê apócrifo que o próprio governo identifica como elaborado pela ala do partido egressa do sindicalismo bancário.

Amostragem extraída do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) aponta irregularidades e pendências em, pelo menos, R$ 162 milhões repassados à CUT, à Força Sindical e a mais quatro entidades, por convênios. Desse montante, R$ 54,9 milhões são de repasses que sequer tiveram as prestações de contas analisadas pelos órgãos federais até o momento.

Entre 2006 e 2010, a variação patrimonial dos 56 deputados da bancada sindical na Câmara que são candidatos este ano foi de R$ 12,7 milhões – mais da metade desse valor (R$ 7 milhões) foi acumulada por apenas dez parlamentares. Encabeçando a lista dos parlamentares ligados ao movimento sindical que maior variação patrimonial apresentaram estão os deputados Geraldo Magela (PT-DF) e Luiz Sérgio (PT-RJ), que duplicaram suas posses, e Paulo Pereira, o Paulinho da Força (PDT-SP).Paulinho teve um crescimento de 493% em seu patrimônio nos últimos quatro anos de mandato.

Share on Facebook
Post on Twitter
Google Buzz (aka. Google Reader)
Stumble Now!
Bookmark this on Delicious
Bookmark this on Technorati

Braziu andando para trás

Gabriel Brust | França 07:08 | 07/07/2010

Duas manchetes da Folha de S.Paulo desta semana são bem interessantes para se entender o Baziu na era Lula. No domingo, cravou o jornal: “Investimentos do governo batem recorde com Lula“. Hoje, quarta-feira, tomo o café e leio “Notificação de dengue quebra recorde no país“.

Há duas observações a serem feitas e que podem explicar estes recordes opostos. Apesar do que diz a primeira manchete, o Brasil segue sendo um dos países com menor índice de investimento em proporção ao seu PIB. Em um ranking de 135 países emergentes divulgado há pouco, o país só não está pior que o Turcomenistão. Exatamente: penúltima posição.

Segundo comentário e, assim como o primeiro, não um comentário, mas um fato que pode ser comprovado com estatística: ainda que o investimento tenha sido um recorde para os padrões brasileiros, ele não produziu qualquer efeito que não seja o crescimento econômico — também modesto. A qualidade dos serviços públicos, que nunca foi boa, mas que vinha melhorando antes de Lula, parou de melhorar e está ladeira abaixo, apesar deste recorde (pobríssimo) de investimento.

Quem diz isso não sou eu ou a Folha de hoje. É o próprio governo.

Um episódio ocorrido há pouco menos de um mês e que não ganhou o destaque merecido foi a (saudável) confissão do governo de que as políticas públicas dos últimos oito anos foram ineficientes. É claro que a avaliação não partiu do próprio governo, mas de técnicos do Ministério do Planejamento que ingenuamente resolveram fazer o seu trabalho e concluíram um relatório de 3 mil páginas que deveria ter ficado escondido numa gaveta, mas que ganhou forma no chamado Portal do Planejamento.

A síntese do estudo, que é um bom e isento resumo do governo Lula, foi, claro, retirada da internet em poucas horas, assim que o governo se deu conta da “cagada” eleitoral. Mas já tinha vazado.

Em resumo, é isso que o Ministério do Planejamento de Lula diz sobre o governo Lula:

1 - a política de reforma agrária não alterou a estrutura fundiária do país nem assegurou aos assentamentos assistência técnica, qualificação, infra-estrutura, crédito e educação;
2 - a qualidade dos assentamentos é baixa;
3 - os programas oficiais não elevam a renda dos agricultores, que ficam dependendo do Bolsa Família;
4 - imposições da legislação trabalhista no campo acabam provocando fluxo migratório para as cidades;
5 - a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ainda não definiu uma política de curto ou médio prazo para a formação de um estoque estratégico e regulador de produtos agrícolas.
6 – em futuro próximo, a produção de biodiesel não será economicamente viável;
7 - a reconstrução de uma indústria nacional de defesa voltada para o mercado interno, prevista na Estratégia Nacional de Defesa, não se justifica;
8 - a educação brasileira avançou muito pouco e apresenta os mesmos índices de 2003 em várias áreas:
9 - é baixa a qualidade da educação em todos os níveis; os que concluem os cursos não têm o domínio dos conteúdos, e as comparações com indicadores internacionais mostram deficiências graves no Brasil;
10 - O analfabetismo funcional, entre jovens e adultos, está em 21% na PNAD de 2008, uma redução pequena com relação à PNAD de 2003, que era de 24,8%. O número absoluto de analfabetos reduziu-se, no mesmo período, de 14,8 para 14,2 milhões, o que aponta a manutenção do problema.

Quer dizer, com mais dinheiro, se fez menos. Quer dizer, incompetência pura. É provável que nada disso soe novidade para você, qualificado leitor do Braziu.org. Mas se parecer novidade e você não acreditar, dê uma telefonada para o ministro Paulo Bernardo. Ele pode te dar mais detalhes sobre este retumbante fracasso.

Paulo Bernardo: "Callma, não é nada di$$o que vcs tão pensando!"

Share on Facebook
Post on Twitter
Google Buzz (aka. Google Reader)
Stumble Now!
Bookmark this on Delicious
Bookmark this on Technorati

O despertar dos gringos

Gabriel Brust | França 08:44 | 15/06/2010

Um artigo publicado ontem no Wall Street Journal sobre a política externa brasileira dos últimos anos chama a atenção não só pela boa análise, mas por ser uma boa análise feita por um estrangeiro, e não só por ser sobre a política externa, mas por tentar decifrar quem é o atual presidente do Brasil escapando aos clichês ingênuos. Este não é, aliás, o primeiro bom artigo de Mary Anastasia O’Grady sobre o Brasil. Foi também de sua autoria o já célebre “Contenha seu Entusiasmo pelo Brasil“, publicado em abril, em que analisa a política econômica de Lula – herdada do governo anterior –, para concluir que “a melhor coisa que Lula fez como chefe-executivo do País foi não fazer nada”.

Quem acompanha a cobertura da imprensa internacional sobre o Brasil sabe que isso não é pouca coisa. A quantidade de bobagens que se lê na Europa sobre o país e, principalmente, sobre Lula, é enorme. Aqui na França, é 100%. Jamais li qualquer artigo realmente lúcido – não estou pedindo nem que seja crítico, mas simplesmente lúcido – sobre Lula. Para os franceses, o Brasil segue sendo o vale encantado de povo bom e selvagem e, neste contexto, a única figura política possível de surgir é a de um pajé caridoso e redentor, talvez com poderes sobrenaturais advindos da floresta. Se tivesse que resumir, diria que, na França, o filme de Fábio Barreto “Lula, o Filho do Brasil” teria sido levado mais a sério do que em Garanhuns.

De forma direta, O’Grady diz mais uma vez o óbvio na edição de segunda-feira do Wall Street Journal:

“O Partido dos Trabalhadores de Lula é de esquerda, mas não se deve confundir Lula com um aplicado bolchevique. Ele é simplesmente um político esperto, que veio das ruas e ama as limousines. Como primeiro presidente brasileiro do Partido dos Trabalhadores, ele teve de equilibrar as coisas úteis que aprendeu sobre os mercados e as restrições monetárias com a ideologia de sua base de apoio.”

A tese de O’Grady no artigo “Lula’s Dance With the Despots” (A Dança de Lula com os Déspotas, original aqui para assinantes e resumo traduzido aqui) é a de que a política externa se tornou uma moeda de troca do “político esperto” com a sua base mais radical. Para satisfazer à esquerda do partido, Lula entrega um setor importante nas mãos de um notório anticapitalista, Celso Amorim. Dessa forma, tem sido chamado a defender e exaltar os seus heróis, que são alguns dos mais célebres violadores dos direitos humanos do planeta.

Embora qualquer pessoa sensata lamente ver o Brasil nessa posição constrangedora a que Amorim vem nos colocando, a verdade é que a dança lulista com os déspotas tem pelo menos um lado bom: está finalmente abrindo os olhos do mundo para a miséria intelectual que há por trás do tão aclamado governo brasileiro. Aos poucos, os gringos vão percebendo o que qualquer brasileiro bem informado e com dois neurônios já viu há muito tempo: os últimos oito anos foram bons para o Brasil apesar de seu governo, e não por causa dele.

Share on Facebook
Post on Twitter
Google Buzz (aka. Google Reader)
Stumble Now!
Bookmark this on Delicious
Bookmark this on Technorati

Neodeslumbrados

Gabriel Brust | França 20:39 | 09/06/2010

Há uma faceta bastante irritante (na verdade, há várias) da imprensa francesa que é a do deslumbre com o poder. Não no sentido de querer se aproximar do poder, mas no de conferir um glamour excessivo às atividades do “chef d’État”. Sarkozy costuma ser capa de 90% das revistas semanais por aqui. Mesmo que não haja assunto relevante que envolva o presidente e mesmo que a sua eleição ou sua vida pessoal já tenham deixado de ser novidade há muito tempo, vejo  nas bancas reportagens forçando a barra na linha “o lado oculto de Sarko” ou “a rede de intrigas que cerca Sarko”.

E aí você vai ler, e não há nada. O texto é uma peça vazia. A chamada da capa era uma fantasia, aparentemente para vender revistas. É espantoso que os editores franceses avaliem como realmente apelativa uma capa que traz Sarkozy estampado. No Brasil, capa com apelo de banca é “as 100 maneiras de curar o câncer comendo rabanete” ou “o caso do pai torturador”, jamais a banalidade da política.

Uma boa ilustração desse papel ridículo da imprensa na França — obviamente incentivada pelo ainda mais ridículo interesse das pessoas no suposto glamour da vida do chef d’État — chegou às livrarias esta semana. “Sarkozy Côté Vestiaire” é nada menos do que um livro de 256 páginas falando sobre… os hábitos esportivos de Sarko! E não se trata de uma edição obscura, fadada ao esquecimento precoce. É assinada por dois jornalistas relativamente conhecidos (Bruno Jeudy e Karim Nedjari, do Le Figaro e Canal +) e ganhou até resenha positivíssima na Le Point desta semana. A capa do livro traz uma patética foto de Sarkozy correndo.

Lembrei deste meu incômodo com o deslumbre da imprensa francesa — e de seus leitores — ao ler as manchetes dos jornais brasileiros hoje pela manhã a respeito do crescimento do PIB trimestral divulgado pelo governo. O que parece estar em curso na imprensa brasileira é outro tipo de deslumbramento, mas igualmente costrangedor e ainda mais nocivo que o francês. No lugar do glamour dos bastidores do poder, o deslumbre é com a chegada de uma suposta “nova era” na banânia. A recuperação da economia do país pós-crise é admirável, sem dúvida, mas vender isso como “índice chinês” é enganar o leitor e o pior: é publicar o release do governo. A maior parte dos jornais, para poder dizer que saiu com algum “olhar crítico” apesar da manchete, apostou em uma linha de apoio, no final, lembrando “o risco de superaquecimento”. Pois era esse tipo de crítica ingênua que  Guido Mantega esperava dos jornais ontem ao dar a notícia. É o mesmo que você dizer para o seu amigo “é, mas a ressaca do dia seguinte foi terrível…” depois de contar que passou a noite bebendo whisky no apê da Ellen Roche!

O que Guido Mantega não queria ler na capa é o óbvio, que o pulo de 9% do primeiro trimestre de 2010 só aconteceu porque partiu de outro recorde: queda de 2,1% do PIB no primeiro trimestre de 2009. O fato é que o Brasil encolheu 0,2% em 2009 e a China cresceu 8,7%.

O caso do PIB é só um entre muitos outros exemplos, que passam pelo Bolsa Família, pelo Luz para Todos e pelo PAC. Em cada um destes casos a versão do governo pode ser desmontada facilmente fazendo apenas jornalismo. A questão é que esse neodeslumbre da imprensa brasileira é fato e me parece claramente mais grave nos veículos locais ou regionais. Enquanto os grandes jornais, praticamente todos baseados no Rio de Janeiro e em São Paulo, costumam ser chamados de “ranzinzas” simplesmente porque fazem jornalismo, e não propaganda do governo, vemos uma tendência, entre os regionais, em celebrar “um novo Brasil” de uma forma incrivelmente perigosa para o seu leitor e para  o país.

As causas? São muitas. Incluem sim um maior grau de dependência a uma tradicional política de “cordialidade” de seus proprietários com o governo federal, mas creio que passa muito mais pela incompetência e por uma terrível cultura da “boa notícia”, do “jornal que sorri para o leitor”, que anda cada vez mais popular entre os chefes de redação. Temos no Brasil jornais que são verdadeiros “cases” de arrevistamento bem sucedido, o que passa muito pela maneira “amigável” através da qual conseguem se comunicar com seu leitor. Isso é ótimo. Só que essa maneira amigável, às vezes, resvala para o mau jornalismo – ou simplesmente a falta dele. Fazer jornalismo implica em encarnar o chato, aquele cara que te lembra, depois da noitada com a Ellen Roche, que o problema não é a ressaca. É o cara que te pergunta: “Tu tem certeza que tu dormiu com a Ellen Roche? Tu bebeu demais, sabe como é… As loiras todas se parecem….”. E por aí vai.

Share on Facebook
Post on Twitter
Google Buzz (aka. Google Reader)
Stumble Now!
Bookmark this on Delicious
Bookmark this on Technorati

Quem são os Luis XIV da banânia?

Gabriel Brust | França 17:18 | 08/06/2010

Ao contrário da requintada classe política brasileira, os homens públicos franceses não têm a mínima sensibilidade para apreciar a beleza, a magnitude, a opulência e o encanto únicos de um castelo. Mesmo que no Brasil este tipo de construção não tenha nenhuma tradição, não faltam tentativas de dar início a uma, ainda que tardiamente. O belo trabalho de incentivo ao patrimônio histórico realizado pelo deputado Edmar Moreira (sem partido-MG), por exemplo, é louvável. Contou, inclusive, com apoio irrestrito do Congresso Nacional na defesa do projeto urbanístico “Reino de São João do Nepomuceno”, orgulhando a todos nós.

Mas aqui na França, meus caros, a coisa anda difícil para quem defende os castelos. E a culpa, claro, é da – sempre ela – cruel crise econômica, que já se tornou desculpa até para o árabe que vende quebab aqui na esquina de casa começar a cobrar pelo uso do banheiro e pelo palito de dente.

– C’est la crise, chef – diz o canalha, antes de sacar o palito, limpinho, direto do bolso esquerdo da calça jeans.

Pois a crise é o motivo da vez para que as subvenções estatais aos proprietários de castelo sofram uma redução ainda maior. O fim da mamata vem de longe: entre 2003 e 2007, a ajuda estatal para os reis e rainhas wannabe caiu 33%. 2010 começou com uma medida ainda mais drástica: 34 departamentos anunciaram o fim da ajuda ao proprietário privado de castelo. Um drama que você, que não tem alma aristocrata como a do deputado Edmar, jamais vai compreender. Mas que está se tornando, segundo especialistas ouvidos pelo Le Figaro, uma ameaça ao patrimônio histórico francês.

O país conta com nada menos do que 6.450 castelos, sendo que apenas 900 pertencem ao Estado. Como os proprietários franceses não têm mais condições de manter em dia os salários dos carrascos do calabouço e do bobo da corte – há a informação de que o sindicato das duas categorias estaria convocando greve para este mês –, nada menos do que 400 castelos estão sendo vendidos por ano. O preço médio despencou pela metade por causa da crise – dá pra se tornar um orgulhoso e gordo soberano por módicos 750 mil euros.

O pior, para os franceses, é que os novos proprietários são, em parte, estrangeiros. Não há números precisos, mas a diretora do grupo imobiliário internacional Mercure, espécie de “corretora de imóveis de castelo”, contou ao Figaro que 20% de seus clientes são gringos e, o mais intrigante, é crescente o interesse de duas clientelas “exotiques”, segundo ela: os chineses e os… brasileiros!

Como nomes, endereços e telefones não são coisas fáceis de se obter neste meio dos proprietários de castelo – compreensível questão de segurança nacional dos reinos –, fica no ar o mistério sobre quem são os novos Luis XIV da banânia que estão investindo por aqui. Se forem tipos com a sensibilidade e a sofisticação do deputado Edmar Moreira, é possível que parte do seu dinheiro, caro leitor, esteja, neste momento, circulando imponente pelos corredores de algum chateau Du Vale do Loire.

Share on Facebook
Post on Twitter
Google Buzz (aka. Google Reader)
Stumble Now!
Bookmark this on Delicious
Bookmark this on Technorati

Golpismo tucano-israelense

Walter Valdevino | Brasil 20:20 | 03/06/2010

O PIG direitista monstruoso golpista imperialista neoliberal anda espalhando por essa tal de internet o vídeo abaixo. Total afronta. Produzir bomba atômica URG.

O Brasil – por culpa do “cara” – é motivo de piada no programa de humor “Latma”, de Israel.

Share on Facebook
Post on Twitter
Google Buzz (aka. Google Reader)
Stumble Now!
Bookmark this on Delicious
Bookmark this on Technorati

Paris-Brasília. (ou por que você jamais encontrará explicações sobre o acordo Irã-Brasil-Turquia sem olhar para o deserto)

Leandro Demori | Itália 14:00 | 28/05/2010

Antes de ler o post é obrigatório assistir ao vídeo. Não precisa ver tudo — a narração é em italiano — mas ao menos entenda o que está acontecendo.

Os corpos do filme acima foram encontrados no Saara. São uma amostra sobre a areia dos mortos que o deserto consome em nome de uma guerra bilionária promovida na África — tantos outros foram engolidos sem honras fúnebres ou sepultura. Essa gente deveria ser enterrada em Roma, em Tripoli, em Paris ou em Brasília. Ou em Washington, em Teerã, em Pequim, em Moscou. Ou no quintal da sua casa se você confia na democracia participativa somente quando ela serve para aplaudir qualquer acordo diplomático que poderia ter sido assinado em um rolo de papel higiênico.

O vídeo foi obtido pelo repórter da revista L’Espresso, Fabrizio Gatti. Gatti infiltrou-se em um grupo de imigrantes ilegais, andou de caminhão, ônibus e a pé por parte do norte da África até pegar uma embarcação clandestina na Líbia, destino Lampedusa, o ponto mais ao sul da Itália, pedaço de paraíso desejado por milhares de africanos que fogem da miséria e de conflitos armados todos os anos.

O que Gatti descobriu? Que a imigração feita em barcos como esse aí de cima não é desordenada e ocasional como muitos pensam. E que por trás da indústria de exportação de seres humanos montada por africanos e europeus — que chegam a cobrar 1,5 mil euros por pessoa pela travessia até a terra prometida — está uma guerra promovida pela França em nome de uma das matérias-primas mais importantes da atualidade: o urânio, tão discutido no Brasil dos últimos dias, aquele mesmo que o Irã quer enriquecer sob “fins pacíficos” e que o nosso país apoia e acha que está tudo bem.

Escreve Gatti:

“A estrada dos traficantes de homens foi aberta graças à guerra dos tuaregues. Uma guerra pelo urânio sustentada pela França na região de Agadez, no Níger. Os tuaregues, ajudados e armados pela França, desencadearam uma ofensiva no Saara pelo controle da região de Imouraren, onde está a segunda maior mina de urânio do mundo, menor somente do que a de Mc Arthur River, no Canadá.”

O Níger foi colônia francesa até 1958. Em 1960, depois de uma período de transição, proclamou independência. Desde aquela época, o frágil governo se equilibra entre períodos republicanos e juntas militares, golpe atrás de golpe. No meio disso estão os tuaregues, etnia que vive espalhada por diversos países da África Ocidental. Os tuaregues querem um país e, para isso, parte deles, como os que vivem no Níger, estão armados.

A guerra tuareg foi inflamada pela França porque, em 2007, o país perdeu o monopólio da extração do minério no Níger. Paris gozava do benefício desde o fim da colônia, apoiado em um direito de prioridade de compra imposto ao Níger quando este se tornou independente. O governo local enfraqueceu a França ao conceder direitos de exploração na região de Agadez, a zona tuareg, ao Canadá (15 permissões), Austrália (7), África do Sul (6), França (4), Índia (3), China (2), Rússia (2), Estados Unidos (1), Emirados Árabes (1), Reino Unido (1) e Ilhas Virgens (1). A França, em contrapartida, desestabilizou o país e a região ao promover novamente o levante étnico tuareg justamente na zona mineira.

Essa é a Areva Tower, sede da empresa estatal Areva, gigante atômico francês responsável pela exploração de urânio no Níger. Sabe o que aconteceu depois de 2007, quando a guerra civil botou a região de Agadez nas mãos dos tuaregues? Fabrizio Gatti conta:

“O Níger concedeu à sociedade Areva mais áreas de extração no país. A partir de 2012, a Areva terá tanto urânio que, para amortizar o prejuízo de 1,2 bilhões de euros com a empreitada, deve encontrar clientes.”

A Areva já encontrou seus clientes. O Brasil é um deles.

“A empresa francesa Areva, líder no setor de energia nuclear, anunciou nesta segunda-feira, em Paris, a assinatura de um contrato com as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) para o fornecimento de serviços de conversão de urânio no valor de US$ 32 milhões.”

Mas o grosso está aqui:
O que diz o acordo com a Areva? A Areva fornecerá os equipamentos e financiará o projeto?

A Areva, resultante da fusão da empresa alemã Siemens KWU com a francesa Framatome, tem um contrato comercial válido para sua participação na construção de Angra 3, através do fornecimento de bens de serviços importados. Como esses contratos são muito antigos, encontram-se em andamento negociações para atualização dos mesmos. O financiamento para esse escopo importado de bens e serviços – cerca de 770 milhões de euros – deverá vir de empréstimos de bancos europeus, alguns dos quais, reiteradas vezes, vêm confirmando o interesse em participar do financiamento do empreendimento” [Eletrobras]

O mapa abaixo mostra a rota do urânio e a rota dos imigrantes. Ambos se movem, como se vê, em uma zona de conflitos internos, desestabilizada. A quantidade de gente que arrisca a própria vida em botes pelo Mediterrâneo está diretamente ligada ao jogo sujo promovido pelos interesses nucleares na região. [clique nas abas para ver o infográfico em flash]

O tamanho da confusão na intrincada diplomacia internacional é tão grande que confunde. Parece ser feito para isso. Considere que o Irã é, hoje, um bode na sala. Enquanto todo mundo olha pra ele, muita sujeira corre pelas laterais.

Por que China e Rússia, que até dias atrás preferiam o diálogo com o Irã, agora apoiam sanções após o acordo firmado entre Teerã e Brasil/Turquia? Não por acaso, China e Rússia desfrutam de concessões nas minas do Níger.

Por que Obama pediu para que o Brasil firmasse o acordo exatamente nos mesmos termos assinados por Lula e depois deixou Hillary Clinton partir para o ataque?

Música para refletir:

Share on Facebook
Post on Twitter
Google Buzz (aka. Google Reader)
Stumble Now!
Bookmark this on Delicious
Bookmark this on Technorati

Jogo dos 7 erros

Leandro Demori | Itália 08:08 | 26/05/2010

Juro que tem diferença.

Share on Facebook
Post on Twitter
Google Buzz (aka. Google Reader)
Stumble Now!
Bookmark this on Delicious
Bookmark this on Technorati
Receba por e-mail:

Arquivo