Bom dia, Giuseppe Garibaldi

Leandro Demori | Itália 08:34 | 06/09/2010

Tenho por hábito conversar todas as manhãs com Giuseppe Garibaldi, o herói de dois mundos. Em tempos de pelejas políticas das grossas, nada melhor do que os conselhos do velho general. Garibaldi tecla de sua casa em Caprera, na Sardenha.

– Bom dia Sr. Garibaldi. E esse verão que se encaminha pro fim?

– Acho ótimo, o verão é a pior estação para as guerras, sobretudo pelos mosquitos

– Os mosquitos atrapalham?

– Não ajudam. Mas guerra é guerra, não podemos nos entregar assim por causa dos insetos. Os insetos, aliás, precisam ser mortos e esmagados, sobretudo aqueles que lutam pelas dinastias e contra a unificação dos estados nacionais. Só falei sobre os mosquitos para ser tão banal quanto a sua pergunta sobre o tempo

– Eu só quiser ser amenamente introdutório

– Amenizar a introdução é coisa de francês

– Bem… vamos falar de política?

– Logo, que preciso regar minhas orquídeas

– O Sr. tem acompanhado essa coisa de quebra de sigilos fiscais e montagem de dossiês no Brasil?

– Tenho, sem dúvida alguma. A política brasileira sempre me interessou depois que estive aí. Gostei tanto do seu povo que até trouxe um exemplar comigo pra Itália, a Anita, que infelizmente está em Roma

– Não acredito que esses senhores de partidos políticos sejam anjinhos, e nem me espanta a quebra de sigilos em um país onde as coisas funcionam como funcionam (não funcionando), mas o senhor não acha que essa brigaiada toda desvia a atenção dos eleitores daquilo que realmente importa?

– Não, não acho. Eleitor não sabe o que realmente importa, é preciso dizer a ele, se necessário, com a força das armas. O povo só está certo quando escolhe a coisa certa, entende? O povo votar em massa no candidato que apoiamos é sábio e democrático, é a coisa certa a ser feita. O povo eleger um candidato que odiamos é manipulação e falta de amadurecimento político, logo, é errado. Política é metafísica. O que é real? O que é irreal? Não existem respostas prontas para essas questões. Temos que dá-las por decreto.

– Mas e a questão dos dossiês?

– Eu, como bom revolucionário, preciso ver para crer. Jamais acreditei que um inimigo estivesse morto em um campo de batalha: fui lá e enfiei a espada na jugular. Vai me avisar que está morto por tele-mensagem? Pra mim, esses dossiês não existem

– Então está todo mundo discutindo sobre o nada?

– Não é “discutir sobre o nada”, jovem, e sinto o tom de deboche nos seus dedos. A questão é que o PSDB teve lá seus sigilos quebrados. Primeiro, va detto que sigilo e segredinho é coisa de francês. Segundo: o Serra anda acusando o PT de ter feito essa coisarada toda. Tem provas disso? Não tem

– E como fica?

– O PT arranjou a maneira mais sábia de rebater uma versão fantasiosa e sem provas como a do PSDB

– E qual foi?

– Criou outra versão, igualmente fantasiosa e sem provas. Acho que o Lula anda lendo “A Arte da Guerra”, o que é um espanto duplo.

– O Sr. acredita que essa coisa de dossiês vai afetar a eleição?

– Meu filho, dossiê vende na padaria? Dossiê tem IPI reduzido? Dossiê dá frio na barriga igual a brinquedo da Disneylândia? Acorda pra cuspir, jovem. As pessoas estão pouco se lixando pra dossiê. Dossiê é igual a faculdade de comunicação: todo mundo já ouviu falar, acha que é uma coisa importante, mas ninguém sabe pra quê serve

– (telefone, já volto)

– Vou botar um Coldplay

– Tá aí?

– Tá aí? (tou achando Coldplay meio coisa de francês, mas a Anita gosta)

– Opa, desculpa. Era minha mãe, queria saber em quem votar

– Sua mãe deve votar com a consciência dela, e não pedir seus conselhos. Você é um péssimo conselheiro. Alguém que sabe o significado da palavra dossiê e entende suas implicações não pode jamais estar em sintonia com o povo brasileiro

– Eu disse pra ela viajar e esquecer essa bobagem de eleições

– Pois veja como você não sabe nada. Eu percorri a Itália toda na Expedição dos Mil para dar às pessoas o direito de votar, e você, em um telefonema, quer destruir a história de pessoas como eu. Diga para ela votar no Lula

– O Lula não está concorrendo, Sr. Garibaldi…

– Não? Mas que merda de país vocês se tornaram! Dá licença que vou lá cuidar das minhas orquídeas. Toma juízo.

– vlw

– flw té +

Receba por e-mail:

Arquivo