Cenas de uma guerra portenha.
Poderia ser um thriller adolescente de questionável bom gosto: o heróico combatente revolucionário que enfrentou o status quo para fazer o bem, mudar o mundo e ganhar a mocinha no final das contas. Mas a realidade é sangrenta. Carros apedrejados; árvores e pneus em chamas; palavrões; agressões; assassinatos; preconceito contra os imigrantes de países limítrofes; vista-grossa policial; e o uso político do caos e da tragédia. Cenas de uma guerra anunciada há alguns anos por essas bandas sul-americanas.
A situação na região do Parque Indoamericano, há 12 quilômetros da zona rica de Buenos Aires, piora desde a terça-feira, quando um grupo de pessoas decidiu ocupar um prédio do complexo popular em Villa Soldati, bairro de gente humilde na capital argentina. Os conflitos somente aumentaram. De um lado, moradores de classe média baixa que passarão os próximos anos pagando a moradia popular que conseguiram receber do governo portenho; do outro, pessoas ainda mais pobres: imigrantes bolivianos e paraguaios – em sua maioria – acampados em uma área pública equivalente a 130 campos de futebol do Barradão e que decidiram ganhar a vida em terras argentinas, buscar mais oportunidade de trabalho e desenvolvimento pessoal e o velho movimento social que escutamos por aí em todo o mundo.
Como mediadores, a vontade política que, sabemos, flutua como o vento. Resultado: o quarto morto havia sido contabilizado na sexta-feira e o quinto pode ser assassinado a qualquer momento, apesar da momentânea trégua.
Buscar explicação apenas para o que acontece em Villa Soldati é restringir um problema que se verifica em outros aspectos do cotidiano portenho. Façamos uma espécie de zoom out e, assim, mexamos a varinha mágica que ajuda a analisar o complexo mundo argentino de fora. Vejamos juntos, portanto, e tentemos concluir alguns pontos.
O chefe do governo portenho, Mauricio Macri, é postulante ao cargo da presidente Cristina Fernández de Kirchner à frente da Casa Rosada. Quer comandar o país e deverá enfrentá-la nas eleições de 2011. Se ganhará é outra história. A julgar apenas pelos seus comentários, pode-se dizer que faz política para as elites.
Obviamente, toda possibilidade de atacar politicamente um ao outro é um ato para movimentar as milícias dos dois lados. Macri disse na quinta-feira que a culpa da disputa em Villa Soldati era de “todo o avanço da imigração ilegal, onde se escondia o narcotráfico e a delinquência”, Cristina disse na sexta-feira “não quero que a Argentina integre o clube dos países xenófobos deste planeta” durante a comemoração do Dia Internacional dos Direitos Humanos. Quem ganha? Eles. Quem perde? A turma da Villa Soldati e de tantas outras bandas.
A presidenta Cristina Fernández de Kirchner levanta a bandeira do Peronismo. Ok, Kirchnerismo. Pro que queremos, não muda muito nossa argumentação. Jogo de cena pra lá, jogo de cena pra cá, digamos que dialoga com as massas. É “mulher do povo”, pensa, apesar dos boatos de que o casal Kirchner aumentou (e como!) seu patrimônio depois que assumiu o governo em 2003 com o falecido ex-presidente Néstor Kirchner (1950-2010). Mas tem feitos importantes no sua trajetória como mandatária nacional, como a luta pelos direitos humanos, mas, no momento, esse também não é nosso foco.
O preconceito na Argentina não é pequeno. O país é, sem dúvida, o que mais recebe imigrantes entre os sul-americanos. Em especial, quem chega a essas terras vêm dos países limítrofes em sua maioria. Hoje, 70% dos imigrantes residentes aqui são da Bolívia, do Perú e do Paraguai, principalmente. Gritos de “voltem para seus países” são escutados em Villa Soldati e em muitos outros lugares.
Entre bolivianos, estima-se o considerável número de 1,8 milhão de pessoas para um país com uma população total de 40 milhões de habitantes. Na sexta-feira, a embaixadora da Bolívia na Argentina, Leonor Arauco, exigiu publicamente que Macri pedisse desculpas. Se vai responder é mais uma vez dessasa histórias de conto de fadas.
Você pode dizer que o CQC não é parâmetro para assuntos sérios (entendo sua preferência pelo Diarinho), mas o vídeo abaixo ilustra uma realidade assustadora.
Em tempo: a Lei de Migração argentina (Ley 25.871, de 2010) está indiscutivelmente entre as mais avançadas do mundo. Foi sancionada pela atual presidenta e faz parte da militância política iniciada pelo seu marido, o falecido ex-presidente. Para simplificar, mudou o status de invasor para o imigrante ilegal – em teoria – para, hoje, serem recebidos pelos braços da República – em teoria, sem dúvida.
Mas, não, por toda a sociedade argentina. Na sexta-feira, em Villa Soldati, uma senhora que preferiu o anonimato disparou, sem medo: “Esse espaço é nosso. Não podemos viver sem a área verde [do Parque Indoamericano, onde centenas estão acampados]. Aqui, são favelas por todos os lados. Eles que saiam daqui. Este país não é dos bolivianos, mas dos imigrantes italianos e espanhóis que chegaram antes”, dizia. Ok.
Agora, pergunto-me se não seria de fazer justamente o caminho inverso do que prega parte da população? Nações como os EUA não utilizaram o mecanismo da imigração para gerar uma população economicamente ativa capaz de realizar feitos tecnológicos notáveis e ser uma massa interna capaz de fazer girar a roda do consumo? A imigração mexicana, por questionável que possa ser, não foi – ou vem sendo – fundamental?
E quanto à Europa, cada vez mais envelhecida? Terá sistema de previdência que sustente uma população apenas de idosos? É claro que há critério para tudo, mas não seria a chance da Argentina aproveitar essa onda de imigrantes para crescer ao invés de atacá-la?
Logo, olhemos um pouco a história recente do país. Especialmente, o fim do regime “1 peso, 1 dólar”, o chamado Plano da Convertibilidade, que nasceu para controlar a hiperinflação e que se foi extinguindo, aos poucos, a partir da recessão de 1998 até a crise econômica de dezembro de 2001. O default das dívidas externas pública e privada significou que o país, simplesmente, não tinha dinheiro para pagar o que devia.
Hoje, o cenário é diferente. Como a economia segue se recuperando, o caixa público arrecada mais impostos. Néstor Kirchner, inclusive, negociou o pagamento do que o país devia ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e, internamente, a população argentina se deu conta da importância de não gastar tudo o que recebe, uma atitude oposta a dos anos da convertibilidade.
Sem dúvida, há medo de que anos sombrios regressem. É comum ouvir relatos como “aos 40 anos, sentir-se um inválido sem ter emprego”, ou a afirmação “é duro ter um filho e pensar que ele não terá um futuro”. Desde a década de 70, muitas cabeças pensantes deixaram a Argentina por motivos de repressão e por também querer buscar uma vida melhor. Parte dessa população foi substituída por imigrantes da região, sendo muitos gente humilde do campo. Relacionar a tragédia social e econômica com a leva migrante é uma dessas infelizes soluções que a varinha mágica nos apresenta.
Ah, mas há a violência, a criminalidade, o narcotráfico… Culpam a base humilde quando, pergunto-me, mais uma vez, se essa ação marginal não é consequência dos próprios erros sociais?
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Para encerrar – porque esse texto está longo demais – tento entender qual seria o limite da intolerância, mas não encontro resposta. A estupidez, não tenho dúvida em afirmar, seria sanada com o entendimento de que a solução passa por uma ação conjunta além das divergências políticas e econômicas. Ganhariam todos. Quer dizer, se ganhariam todos, não haveria especialidade e o homogêneo infringiria os conceitos liberais de maximizar o que cada um faz melhor…
Oh, céus. Deixe pra lá. Curta seu domingo.










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Os imigrantes que realizaram feitos tecnológicos nos EUA são os altamente capacitados, nada a ver com 90% dos mexicanos que ali entram. Esses contribuem na diminuição dos custos de produção – o que sem dúvida também é benéfico à maiorias dos americanos.
Isso de “ação conjunta” é algo muito bonito, mas se não há consenso em relação à solução do problema fica difícil qualquer ação conjunta. E realmente não há solução fácil para esse imbróglio.
E é inevitável que a população “nativa” (a que já estava ali antes) se sinta prejudicada quando se defende que ela financie (obrigatoriamente, via impostos) casa para grandes grupos de imigrantes – um privilégio que eles mesmo, os locais, não tem nem tiveram.
E dizer que “ganhariam todos” não implica de jeito nenhum que haveria homogeinização. O liberalismo (acusado no caso) defende justamente o contrário. É da diversidade que vem as vantagens comparativas que fazem com que todos ganhem.
Importante comentário, Paulo. Tentarei acrescentar alguns elementos aqui baseando-me no pouco que conheço e conforme minhas convicções:
* É bem isso, Paulo. Um feito tecnológico requer qualificação. Aliás, muita qualificação. Busquei era mostrar que o sem qualificação de hoje pode ser o cidadão genial de amanhã, mesmo que isso leve uma ou duas gerações. É e não é óbvio dizer isso. O vídeo The World’s Thinking, do MBA da , conta a história do filho de imigrantes mexicanos Jaime Mendez, aluno por aquela bandas. A história fala por si.
* O importante é que pensemos em modelos para solucionar esse problema. Confesso que gostaria de saber. O mundo só pode ser algo belo com o esforço coletivo. Não vejo outra saída.
* Acredito que o fato da população local se sentir prejudicada não justifica agressão, racismo ou xenofobia.
* Tem toda razão, Paulo. Brincar com o liberalismo não é assim. Quem sou eu pra fazer uma brincadeira dessas? É inegável que a abertura é muito melhor do que a planificação. Essa, sim, é bem menos heterogênea. O que pretendi mostrar – e sacou na mosca – é que por ser o mundo liberal tão diversificado, gera seus extremos. O problema, acredito, é que não há espaço pra todos ganharem muito, como muito menos não ganharem. Esses são os extremos prejudiciais. Ao mesmo tempo que a diversidade é importante, também pode ser nefasta. Logo, o que estamos chamando de “homogêneo” desequilibra esse universo diferenciado. Não saco muito de lógica, Paulo, mas considero importante buscar um espaço mais harmônico, um caminho do meio nessa história cheia de extremos dos extremos. Vai lá que conseguimos salvar umas almas e ir pro céu? Abraço pra você.
Maurício, observações pertinentes.
Sobre a qualificação, os filhos de nativos também podem fazer feitos tecnológicos, ou seja, isso não é bem relacionado à imigração, especialmente a de migrantes de baixa qualificação. O simples aumento populacional tende a provocar um aumento no número absoluto de inovações, mas sempre há outros custos, e claro, dependendo de como isso ocorrer há outros problemas. O benefício dessa imigração acho que está mais relacionado à maior oferta de mão de obra barata e conseqüente pressão para diminuição de custos – e preços.
Acho ótimo esforços coletivos, especialmente os voluntários.
E sem dúvida, nada justifica racismo, xenofobia, e afins.
Abraço
“Os imigrantes que realizaram feitos tecnológicos nos EUA são os altamente capacitados, nada a ver com 90% dos mexicanos que ali entram. Esses contribuem na diminuição dos custos de produção – o que sem dúvida também é benéfico à maiorias dos americanos.”
Negativo.
Em países com taxa de desempregro alarmantes – como é o caso da Banania e da Argentina – os imigrantes serao sempre um problema, independentemente se forem pós-doutores ou analfabetos.
Um pós-doutor peruana vai tirar o emprego de um similar argentino; um lixeiro paraguaio, idem. Nesse caso nao há como nao “nascer” (quase naturalmente) uma sensacao de desconforto com a imigracao.
No mais, baita texto, Boff!
@Maurício
“O mundo só pode ser algo belo com o esforço coletivo. Não vejo outra saída.”
A outra saída é um mundo nao belo, sub-ótimo, feio. Bem mais plausível, dada a natureza do homem. Sendo um animal necessariamente egoísta, megalômano e imperfeito, nao há como almejar um “mundo belo”, muito menos “um mundo melhor”.
O contrário disso é acreditar nas capacidades e habilidade humanas o que é, como a história mostra, um perigo!
@Paulo:
“Acho ótimo esforços coletivos, especialmente os voluntários.”
E quem paga a conta do Zaffari no final do mês?!
PAULO > “O simples aumento populacional tende a provocar um aumento no número absoluto de inovações”. É isso. Não devemos esquecer que os movimentos populacionais fizeram a América. Sem juízo de valor, por favor.
FABRÍCIO > Desdobra tua argumentação porque estou curioso!
PEDRO I > “Em países com taxa de desempregro alarmantes – como é o caso da Banania e da Argentina (…)”. Lê abaixo e pensa no que isso pode gerar na cabeça das pessoas:
“El incremento del grado de subutilización de mano de obra fue primero suavizado por el efecto del trabajador desalentado por la baja de salarios y el incremento de la informalidad. A medida que la tendencia se profundizaba se verificó un notable crecimiento de la tasa de desocupación (del 4,2 por ciento en 1974 al 7,4 por ciento en 1990) y de la tasa de subocupación (del 5 por ciento en 1974 al 9 por ciento en 1990).”
Kosacoff, Bernardo, “Hacia un nuevo modelo industrial: idas y vueltas del desarrollo argentino”. Capital Intelectual. 1a ed., Buenos Aires, 2007.
E a gente sequer tocou na crise de 2001-2002… A rapadura não é mole.
PEDRO II > Sou um tanto idealista. Acho, até, que acredito em Papai Noel. Tu não?
Vou defender o Paulo. Quem lançou a ideia do esforço coletivo por aqui fui eu. Sou o culpado, tchê. Sobre a tua pergunta, vocês que recebem em Euro! É brincadeira. Por hora, fico cagando tese numa onda bem Sul-Sul…
“O idealismo invade-me quando estou enfraquecido”. Vou te contar… Fui!
“Eles que saiam daqui. Este país não é dos bolivianos, mas dos imigrantes italianos e espanhóis que chegaram antes”
profundo isso.
dá pra explicar, agora, justificar… deve ser mesmo populista a afirmação da Cristina, mas eu considero bem importante. é claro, não pode parar no discurso…
Vai lá que isso esclarece alguma coisa. Mas, alerto: ando numa onda de contínuo idealismo…