Fim

Leandro Demori | Itália 16:39 | 18/12/2010

Entre as resoluções de novo ano que jamais cumpriremos, uma exceção se impõe: este blog acabou.

De fevereiro a dezembro — tempo de vida do site — cumprimos o objetivo traçado desde o início: nenhum. Como não almejamos a perfeição e nos damos por satisfeitos com pouco, decidimos parar por aqui. Aliás, decidi, eu, sozinho, e comuniquei aos outros moradores do condomínio. É praticamente uma ordem de despejo, e eles que vão pedir penico pro Minha Casa, Minha Vida.

A internet é célebre pela velocidade e falta de paciência geral: vídeos precisam ter 30 segundos, textos devem ser curtos, fotos primam por se tornarem esquecíveis no instante posterior. Não ousarei contrariar a lei sob pena de feder a mofo em pouco tempo.

Para quem quiser seguir fracassando, me acompanhe no twitter: http://twitter.com/braziu

Quem sabe um dia voltamos aqui [não] ou armamos outra.

A gente se vê.
Vai o meu abraço,
LD

Bruxas!

Elvis Branchini, colaboração para o Braziu™ 10:00 | 13/12/2010

No site da Atea tem alguns momentos do movimento “ateus saindo do armário” pelo mundo afora, e agora no Brasil, com campanhas sugerindo que pode não existir deus algum, que o melhor é curtir a vida sem se preocupar com religiões e que ateus são até boas pessoas. Ao menos tentam sair do armário, já que aqui, assim como na Itália e Austrália, as mensagens não foram às ruas. As empresas responsáveis pelas veiculações em Porto Alegre e Salvador alegam leis municipais impedindo mensagens religiosas. Talvez seja uma boa lei, resta saber se é o caso, ou se a proibição sofre do mal que a própria campanha tenta combater.

A campanha tenta desmistificar um pouco do preconceito contra ateus. Sim, existe, e se alguém tem dúvidas do tamanho do problema dá uma olhada aqui. Quase metade dos brasileiros julga, antes de qualquer outro defeito que a pessoa possa apresentar, que o fato de não crer em deus a torna odiável. Cruel, insensato, amoral, imoral, devasso, canhestro, maldito, vitriólico, lazarento, desumano, eis um ateu.

Tenho dúvidas se a campanha ajuda de fato nessa desmistificação. Aposto no sim, apesar das mensagens mal construídas, apelativas e até meio agressivas (Hitler? sério? Lei de Godwin ninguém conhece?). Da forma como estão feitas, as mensagens sofrem de um mal que é recorrente no discurso ateísta: batem de frente com a fé e colocam o crente não na posição de alguém que pode vir a ser tolerante, mas de alguém que está sendo atacado.

Esse tipo de mensagem coloca até mesmo ateus mais apáticos (a maior parte) em desconforto. Não é isso que eles querem dizer, na verdade eles não querem dizer nada. São apáticos porque não faz sentido participar da discussão religiosa se não têm uma. Ateísmo não é outra religião, apesar de um certo zumbido que tenta colocar ateus, os mais exaltados ao menos, no mesmo barco que fundamentalistas religiosos. Ateísmo é oposto a teísmo. Religiões estão dentro do teísmo. Faça a conta.

Mas é possível entender que o discurso ateísta seja assim. Nas iniciativas de grupos discriminados buscando espaço na sociedade para sua causa, o primeiro movimento é sempre meio histérico, chocante, barulhento. E afinal tem que começar de algum lugar, vale ressaltar o mérito da Atea quanto a isso. Mas podiam ser melhores, mais sensatas e eficazes, as mensagens.

Além de dar o primeiro passo no trabalho, outra questão é por onde. É bem desconfortável, para não dizer prejudicial, assumir publicamente que se é ateu. Não é só a tia da fila olhando torto como se você tivesse dito um palavrão. Empregos, sentenças judiciais, notas escolares, eleições, muito mais coisas do que se imagina podem ser postas a perder a partir do momento que um ateu se posiciona publicamente como tal (sem eufemismo, ateu só se fode).

As pessoas não estão acostumadas com a hipótese de que alguém não acredite em um deus. É como uma criança que descobre a farsa do papai noel. Momentos de fúria, desespero e choro se seguem, a magia está perdida. Depois tudo tende a se acalmar e voltar ao normal, mas o começo é chocante. Como ninguém nunca desfaz a farsa de deus, a humanidade se apegou demais a ele. Qualquer tentativa é motivo para choradeira, e evidências e razões para se pensar que deus não existe são descartadas sem pensar duas vezes. Não servem, são feias, más, bobas.

Nesse contexto, como mostrar que essas encarnações do demônio que são os ateus podem ser boas pessoas, se não se partir da desconstrução da própria religião? Mais, como passar isso de uma forma rápida, numa mensagem de busdoor? Se imagino certo, a discussão sobre o que veicular deve ter começado mais ou menos por aqui, e daqui não deve ter saído, porque é tanta coisa a dizer que não tem gênio da propaganda que dê jeito. Optaram por contrariar algumas idéias do senso comum da fé. Só a religião pode formar seres morais, sem deus tudo é permitido, as respostas para as perguntas mais complexas da existência estão na fé, nessa linha.

É difícil dizer que escolher esse caminho ajuda a diminuir o preconceito contra ateus. Acho pouco provável e acho que a Atea sabe bem disso. O ponto aqui é abrir a discussão. Que venham os paladinos do discurso perfeito dizer que abrir a discussão não é descupa para escrever qualquer merda. Entendam, nesse caso, uma mensagem suave demais não faria qualquer efeito. A polêmica fará mais pelos ateus do que um discurso melhor encaixado. Não é o fim do mundo, essa meia dúzia de mensagens (4, na verdade). Não há alguém para sair perdendo com a resposta negativa da população, como foi o caso do aborto nas eleições.

Mais do que reeducar os religiosos para aceitar seus irmãozinhos desprovidos de deuses, é preciso fazer com que mais ateus tomem consciência do fato de são discriminados pelo que decidiram acerca de sua vida espiritual. É menos para desconverter fiéis e mais para unir infiéis, mostrar que o problema existe, que o grupo existe e que está alerta contra as investidas que vierem a sofrer. E nesse ponto, antes mesmo de ser veiculada, a campanha da Atea já começa a surtir efeito. Certamente a Atea já esperava o tipo de censura que está sofrendo. As matérias falando da proibição fazem mais pela causa do que a própria campanha faria.

Resta a questão legal sobre se ateus tem o direito de se manifestar dessa forma ou não. Meu desconhecimento do direito não me dá qualquer luz sobre o assunto, mas me parece bastante evidente que se o objetivo desse tipo de lei é evitar discursos de ódio e discriminação, este não é o caso.

O combate de Villa Soldati

Maurício Boff | Argentina 10:06 | 12/12/2010


Cenas de uma guerra portenha.

Poderia ser um thriller adolescente de questionável bom gosto: o heróico combatente revolucionário que enfrentou o status quo para fazer o bem, mudar o mundo e ganhar a mocinha no final das contas. Mas a realidade é sangrenta. Carros apedrejados; árvores e pneus em chamas; palavrões; agressões; assassinatos; preconceito contra os imigrantes de países limítrofes; vista-grossa policial; e o uso político do caos e da tragédia. Cenas de uma guerra anunciada há alguns anos por essas bandas sul-americanas.

A situação na região do Parque Indoamericano, há 12 quilômetros da zona rica de Buenos Aires, piora desde a terça-feira, quando um grupo de pessoas decidiu ocupar um prédio do complexo popular em Villa Soldati, bairro de gente humilde na capital argentina. Os conflitos somente aumentaram. De um lado, moradores de classe média baixa que passarão os próximos anos pagando a moradia popular que conseguiram receber do governo portenho; do outro, pessoas ainda mais pobres: imigrantes bolivianos e paraguaios – em sua maioria – acampados em uma área pública equivalente a 130 campos de futebol do Barradão e que decidiram ganhar a vida em terras argentinas, buscar mais oportunidade de trabalho e desenvolvimento pessoal e o velho movimento social que escutamos por aí em todo o mundo.

Como mediadores, a vontade política que, sabemos, flutua como o vento. Resultado: o quarto morto havia sido contabilizado na sexta-feira e o quinto pode ser assassinado a qualquer momento, apesar da momentânea trégua.

Buscar explicação apenas para o que acontece em Villa Soldati é restringir um problema que se verifica em outros aspectos do cotidiano portenho. Façamos uma espécie de zoom out e, assim, mexamos a varinha mágica que ajuda a analisar o complexo mundo argentino de fora. Vejamos juntos, portanto, e tentemos concluir alguns pontos.

O chefe do governo portenho, Mauricio Macri, é postulante ao cargo da presidente Cristina Fernández de Kirchner à frente da Casa Rosada. Quer comandar o país e deverá enfrentá-la nas eleições de 2011. Se ganhará é outra história. A julgar apenas pelos seus comentários, pode-se dizer que faz política para as elites.

Obviamente, toda possibilidade de atacar politicamente um ao outro é um ato para movimentar as milícias dos dois lados. Macri disse na quinta-feira que a culpa da disputa em Villa Soldati era de “todo o avanço da imigração ilegal, onde se escondia o narcotráfico e a delinquência”, Cristina disse na sexta-feira “não quero que a Argentina integre o clube dos países xenófobos deste planeta” durante a comemoração do Dia Internacional dos Direitos Humanos. Quem ganha? Eles. Quem perde? A turma da Villa Soldati e de tantas outras bandas.

A presidenta Cristina Fernández de Kirchner levanta a bandeira do Peronismo. Ok, Kirchnerismo. Pro que queremos, não muda muito nossa argumentação. Jogo de cena pra lá, jogo de cena pra cá, digamos que dialoga com as massas. É “mulher do povo”, pensa, apesar dos boatos de que o casal Kirchner aumentou (e como!) seu patrimônio depois que assumiu o governo em 2003 com o falecido ex-presidente Néstor Kirchner (1950-2010). Mas tem feitos importantes no sua trajetória como mandatária nacional, como a luta pelos direitos humanos, mas, no momento, esse também não é nosso foco.

O preconceito na Argentina não é pequeno. O país é, sem dúvida, o que mais recebe imigrantes entre os sul-americanos. Em especial, quem chega a essas terras vêm dos países limítrofes em sua maioria. Hoje, 70% dos imigrantes residentes aqui são da Bolívia, do Perú e do Paraguai, principalmente. Gritos de “voltem para seus países” são escutados em Villa Soldati e em muitos outros lugares.

Entre bolivianos, estima-se o considerável número de 1,8 milhão de pessoas para um país com uma população total de 40 milhões de habitantes. Na sexta-feira, a embaixadora da Bolívia na Argentina, Leonor Arauco, exigiu publicamente que Macri pedisse desculpas. Se vai responder é mais uma vez dessasa histórias de conto de fadas.

Você pode dizer que o CQC não é parâmetro para assuntos sérios (entendo sua preferência pelo Diarinho), mas o vídeo abaixo ilustra uma realidade assustadora.

Em tempo: a Lei de Migração argentina (Ley 25.871, de 2010) está indiscutivelmente entre as mais avançadas do mundo. Foi sancionada pela atual presidenta e faz parte da militância política iniciada pelo seu marido, o falecido ex-presidente. Para simplificar, mudou o status de invasor para o imigrante ilegal – em teoria – para, hoje, serem recebidos pelos braços da República – em teoria, sem dúvida.

Mas, não, por toda a sociedade argentina. Na sexta-feira, em Villa Soldati, uma senhora que preferiu o anonimato disparou, sem medo: “Esse espaço é nosso. Não podemos viver sem a área verde [do Parque Indoamericano, onde centenas estão acampados]. Aqui, são favelas por todos os lados. Eles que saiam daqui. Este país não é dos bolivianos, mas dos imigrantes italianos e espanhóis que chegaram antes”, dizia. Ok.

Agora, pergunto-me se não seria de fazer justamente o caminho inverso do que prega parte da população? Nações como os EUA não utilizaram o mecanismo da imigração para gerar uma população economicamente ativa capaz de realizar feitos tecnológicos notáveis e ser uma massa interna capaz de fazer girar a roda do consumo? A imigração mexicana, por questionável que possa ser, não foi – ou vem sendo – fundamental?

E quanto à Europa, cada vez mais envelhecida? Terá sistema de previdência que sustente uma população apenas de idosos? É claro que há critério para tudo, mas não seria a chance da Argentina aproveitar essa onda de imigrantes para crescer ao invés de atacá-la?

"Heil" | Foto: Sandra Hernández/GCBA (18/06/2010)

Logo, olhemos um pouco a história recente do país. Especialmente, o fim do regime “1 peso, 1 dólar”, o chamado Plano da Convertibilidade, que nasceu para controlar a hiperinflação e que se foi extinguindo, aos poucos, a partir da recessão de 1998 até a crise econômica de dezembro de 2001. O default das dívidas externas pública e privada significou que o país, simplesmente, não tinha dinheiro para pagar o que devia.

Hoje, o cenário é diferente. Como a economia segue se recuperando, o caixa público arrecada mais impostos. Néstor Kirchner, inclusive, negociou o pagamento do que o país devia ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e, internamente, a população argentina se deu conta da importância de não gastar tudo o que recebe, uma atitude oposta a dos anos da convertibilidade.

Sem dúvida, há medo de que anos sombrios regressem. É comum ouvir relatos como “aos 40 anos, sentir-se um inválido sem ter emprego”, ou a afirmação “é duro ter um filho e pensar que ele não terá um futuro”. Desde a década de 70, muitas cabeças pensantes deixaram a Argentina por motivos de repressão e por também querer buscar uma vida melhor. Parte dessa população foi substituída por imigrantes da região, sendo muitos gente humilde do campo. Relacionar a tragédia social e econômica com a leva migrante é uma dessas infelizes soluções que a varinha mágica nos apresenta.

Ah, mas há a violência, a criminalidade, o narcotráfico… Culpam a base humilde quando, pergunto-me, mais uma vez, se essa ação marginal não é consequência dos próprios erros sociais?

Para encerrar – porque esse texto está longo demais – tento entender qual seria o limite da intolerância, mas não encontro resposta. A estupidez, não tenho dúvida em afirmar, seria sanada com o entendimento de que a solução passa por uma ação conjunta além das divergências políticas e econômicas. Ganhariam todos. Quer dizer, se ganhariam todos, não haveria especialidade e o homogêneo infringiria os conceitos liberais de maximizar o que cada um faz melhor…

Oh, céus. Deixe pra lá. Curta seu domingo.

Em desenvolvimento

Leandro Demori | Itália 15:26 | 09/12/2010

Minha história com a WikiLeaks vem de outro carnaval, um tanto distante do #cablegate das últimas duas semanas. Em 2008, recebi documentação que predizia uma bomba em um setor econômico importante no Brasil. Sondei alguns jornais e algumas revistas buscando saber sobre a possibilidade de investigação aprofundada em cima do que eu tinha em mãos. Estava basicamente atrás de uma parceria: algum jornalista brasileiro que ajudasse com a reportagem no Brasil, já que moro na Itália. Não encontrei.

Fiquei pensando em um modo de fazer a reportagem, mas sobretudo em uma forma de vendê-la para alguém que segurasse a barra em possíveis processos judiciais (que eu tinha certeza, viriam). Como eu disse, é um setor econômico importante, anuncia pesadamente em rádios, TV e impresso, tem boa participação no PIB e penetração nos governos. Quer dizer: é um tipo de reportagem que não interessa a ninguém mesmo, exceto ao público. Esse setor já matou gente.

Busquei pela rede possíveis projetos que investissem em reportagens como aquela que eu queria fazer. Existem vários fundos — sobretudo americanos mas também europeus — que tutelam esse tipo de trabalho e pagam para que você o faça. Vivo disso, afinal, e jamais arriscaria postar nada daquilo em um blog, de graça, correndo altos riscos por isso.

Foi por essas buscas que conheci o WikiLeaks, que na época atuava através de uma organização chamada Sunshine Press. Havia várias formas de entrar em contato com eles, usei um chat criptografado que garantiria minha privacidade. Conversei por cerca de 20 minutos com alguém na outra ponta, que disse que o site tinha interesse no material, que o considerava importante e prioritário, mas que havia um problema: os pagamentos por reportagens estavam suspensos por seis meses. E de graça eu não estava disposto a trabalhar.

O que o Sr. Sunshine me explicou é que os fundos que os financiavam tinham secado por conta da crise nos EUA, e que temiam, inclusive, que o WikiLeaks fosse fechar por falta de grana. Fiquei com o contato para enviar o material, e ele ficou de me avisar quando (e se) a grana recomeçasse a entrar. Nunca mais obtive resposta.

Quando o WikiLeaks voltou com força divulgado dados sobre a guerra infinita e um vídeo de militares matando gente a esmo, entendi tudo. O foco, que antes era regionalizar investigações, tinha sido ampliado e restrito ao mesmo tempo: a metralhadora fora apontada para os EUA em particular.

Não sei quem é Julian Assange e nem de onde veio a grana que manteve o WikiLeaks em pé. Estamos no meio de um processo importante para a informação, mesmo que eu acredite que seja utópico um mundo onde toda e qualquer movimentação diplomática seja pública. País algum fará isso, jamais.

No mesmo ano de 2008, eu e uns amigos investigamos a movimentação financeira das contas de publicidade do governo do Rio Grande do Sul por termos certeza de que algo cheirava mal. Mais tarde se “descobriu” que fedia. Conversamos com políticos, promotores, procuradores, jornalistas. Queríamos ver os contratos, quem pagava e quem recebia, quanto recebia e, sobretudo, qual era a medida para avaliar o mérito dos gastos.

As dúvidas eram simples: o que faz o governo gastar dinheiro público, o meu dinheiro, com publicidade? Um governo que precisou pedir 1,1 bilhão de dólares emprestado para não falir e gasta 168 milhões de reais com anúncios. Por que isso é tão prioritário assim? Como se mede o quanto vale um banner em um site, por exemplo? Audiência? Relevância? Público-alvo?

Este post explica um pouco a situação que fotografamos na época.

O valor bruto de um banner em um site no RS era de 60 mil reais por ano. Um site. Um banner. Eram (e são ainda) vários e insignificantes sites, como você pode ler no post acima. Tempos depois, o valor foi retirado do ar (os banners não). Como a gente volta e meia usa Tico & Teco, fizemos print screen de tudo e deixamos aqui, público, novamente, no melhor espírito WikiLeaks.

O que conseguimos arrancar da “Transparência” oficial na época? Nada. Nem mesmo os deputados do PT com quem conversamos se mostraram dispostos e colaborar. Eram da oposição, deveriam querer alguma transparência, certo? Não seria na base do governo, no PSDB, que conseguiríamos as coisas. Demoramos para entender que o modus operandi que hoje beneficia Chico amanhã pode ser usado por Francisco.

Para terminar de modo leve, deixamos aqui algumas dicas culturais para você. Dicas patrocinadas pela bondade do dinheiro público, esse lindão. Caso a página saia do ar, podem pegar o print. Mas confiamos que ficará onde está há 3 anos, exatamente da mesma forma, “em desenvolvimento” eterno. Igualzinho à transparência no Braziu.

Refúgio dos covardes

Leandro Demori | Itália 16:41 | 08/12/2010

“Operador telefônico H3G: 137 milhões; Operador telefônico Wind: 10 milhões; Cesare Geronzi: 10 milhões; Mario Ciancio Sanfilippo: 10 milhões; Salvatore Ligresti: 5 milhões.”

Começa assim a lista lida pela jornalista Milena Gabanelli, uma lenda da TV italiana que todos os domingos leva ao ar seu Report — duas horas de investigação intravenal que fazem qualquer jornalista apaixonado pela profissão se arrepiar no sofá.

Os nomes e os valores são referentes aos processos movidos contra ela e seu programa por gente das mais diferentes áreas da vida pública e privada do país. Ao fim, Milena soma todos e chega ao total de 251 milhões de euros. Sublinha: “são os processos ainda vivos, não contei os já vencidos”.

O Report está há 14 anos no ar e perdeu somente um processo até hoje: 30 mil euros em primeira instância, ainda em fase de recurso.

É vital o direito de defesa em qualquer sociedade. Jornalistas, como diz a própria Gabanelli, podem fazer muito mal com seu trabalho quando desprovidos de escrúpulos e cuidados técnicos. A Justiça, no entanto, vem servindo para outra coisa nesses 14 anos de Report: intimidar.

Os jornalistas do programa são acusados muitas vezes de coisas que as matérias jamais disseram. “É evidente que são causas intimidatórias”, diz.

Causas como essas são possíveis porque no direito italiano, assim como no brasileiro, as sanções para quem movimenta a Justiça à toa não existem ou são inócuas. Posso contratar um advogado amanhã e processar qualquer pessoa pelo motivo mais estapafúrdio do mundo e ainda assim meu processo será acolhido, girará por tribunais e corredores do poder até que seja declarado inepto ou improcedente. Isso leva tempo, frequentemente anos, e faz o processado se incomodar e gastar dinheiro.

Na Itália e no Brasil você ainda precisa mover outro processo contra a pessoa que lhe processou para tentar reaver o que gastou com advogado — sob risco de perder a causa e pagar mais um processo. Ou seja: se gastei 5 mil reais para me defender de um demente que me processou para me intimidar, preciso mover outro processo, pagar mais 5 mil reais para reaver os 10. Se perco, morro com todos os custos.

No final de sua participação no ótimo programa Vieni Via Con Me, Milena Gabanelli diz que no direito anglo-saxão esse comportamento intimidatório e covarde é tutelado pela própria lei da seguinte forma: se você pede 10 milhões por uma causa sem sentido e ocupa o tempo da Justiça de forma descabida, paga, ao final e automaticamente, 20 milhões de multa, o dobro do que pretendia. Isso evita o entupimento dos tribunais com causas como aquelas contra Report.

O processo criminal movido pelo jornalista Felipe Vieira (âncora da Band-RS) contra Walter Valdevino, ex-integrante do blog A Nova Corja, foi julgado improcedente. Justamente por ser um processo sem sentido, sem razão para ocupar as horas da Justiça e sobretudo do réu. O jornalista e âncora da Band-RS, Felipe Vieira, terá somente que pagar as custas judiciais. Se quiser reaver o que gastou com advogado, Walter terá que entrar com outro processo, gastar mais dinheiro e esperar o bom entendimento do juiz.

A decisão de improcedência é semelhante àquela do processo criminal movido pelo advogado Polibio Braga (inépcia). Tanto Polibio Braga quanto Felipe Vieira sabem que não é possível processar criminalmente alguém que não é autor do fato (no caso, do post que gerou os processos). O advogado do jornalista Felipe Vieira, Norberto Flach, é professor de direito, e também sabia e sabe disso.

Mais claro, impossível: são processos intimidatórios, cujo objetivo não é vencê-los, mas calar quem está “incomodando”.

Na causa de Felipe Vieira, por exemplo, foi processada uma pessoa errada, o homônimo de Jones Rossi, um metalúrgico de Caxias do Sul que teve que se deslocar até Porto Alegre, provavelmente pagando também os custos de contratação e deslocamento de um advogado, para dizer que ele, bem, era um outro. Não há alguma indenização prevista para o Jones Rossi metalúrgico caso ele não pague um advogado e faça causa.

Os paladinos da Liberdade de expressão que pipocam pela internet contra os Impérios do Mau, em vez de ficar vociferando contra jornais, deveriam olhar mais atentamente para o modo como as coisas funcionam na vida real. Não há imprensa livre se nem mesmo onde a liberdade de publicar (no caso, a internet) é tutelada. Amanhã, não adianta chorar se for processado e precisar gastar R$ 19.500 como gastou o Walter até agora. Hoje, enquanto alguns poucos sensatos apontam para a lua, você fica aí olhando pro dedo.

Pitagóricas XXV (o retorno/edição WikiLeaks)

Leandro Demori | Itália 22:38 | 07/12/2010

“Berlusconi faz festas selvagens e se mostra cansado e abatido fisicamente por causa disso.” O homem tem 74 anos, gente. Mania de americano de querer sempre máximo nível de desempenho.

“Angela Merkel é pouco criativa.” É o que supostamente os alemães fazem, não?

Sarkozy usa Carla Bruni para ajudar nas negociações diplomáticas.” Voa, imaginação.

“Hugo Chávez é maluco.” AH.

“EUA suspeitam de terrorismo islâmico na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina.” Boa oportunidade de negócios para o Natal: fabricar o Bin Ladenzinho e vender pela metade do preço na Ponte da Amizade.

“Jobim diz a embaixador que ministro odeia os EUA.” Premiado.

“China contrata hackers desde 2002 e invade computadores do Google.” É o emprego de vento em popa no terzo mondo.

“Muammar al-Khadafi, o ditador líbico que só anda com uma voluptuosa enfermeira ucraniana loira a seu lado, mandou os ingleses soltarem um preso e causa fascínio e medo nos EUA.” Período histórico que pode ser conhecido, futuramente, como a Revolta dos Camelos.

“Países que seguem leis islâmicas matam mulheres que traem os maridos, mas suas realezas fazem festas regadas a ‘sexo, drogas e rock’ nos porões dos palácios.” Maomé não deve ter feito nada muito diferente disso (mas sem rock, que já naquela época era coisa do diabo, parece).

“Rei saudita pediu para que os EUA bombardeassem o Irã.” Mas suplicou para que fosse depois da suruba real.

“Brasil teria negociado com os EUA apoio à oposição venezuelana.” Bem que o PCO diz que nosso governo é neoliberal e lambe-botas do Império, viu.

“A Rússia é um estado ‘virtualmente mafioso‘.” Itália perdendo competitividade até no crime.

“Máfia russa está ativa na Tailândia.” Tou falando. Reage, Sicília!

Mega post: WikiLeaks

braziu.org 15:53 | 04/12/2010

Leandro Demori – Itália

Seguiu a lógica de uma bela capa de jornal a bomba de documentos revelados pelo WikiLeaks: uma notícia importante para a manchete, uma notícia importante para a segunda linha e um maço de gossip para companhia. As pessoas amam.

Quando eu era editor do Terra conseguia fotografar cada minuto da alma do brasileiro olhando para as estatísticas de acessos das notícias na capa do portal. A notícia importante em destaque, em fonte grandona e com várias linhas de apoio tomava uma surra do gossip que mostrava a mais nova briga de um reality show qualquer publicado no rodapé do site.

Não precisamos que a diplomacia americana nos diga que Berlusconi é um babá do sexo, que Angela Merkel é pragmática, que Sarkozy usa Carla Bruni para ajudar nas negociações com outros países ou que Hugo Chávez é um maluco. Mas o gossip foi justamente aquilo que chamou a atenção das pessoas para o vazamento dos dados. Quem se importa com o programa nuclear do Irã ou com a presença do Hammas e do Hezbolah na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai? É tática, e vencedora.

A coluna de fofocas oficializadas pelos embaixadores americanos pelo mundo não significa que a diplomacia americana seja fútil e pior do que a dos outros países. A única diferença entre a diplomacia americana em relação às outras é que seus documentos foram a público. Bastou meia dúzia de documentos saídos do Brasil para mostrar que um ministro do governo brasileiro, Nelson Jobim, estava dando lá suas rasteiras em seus pares de salão. Se abrir o Itamaraty todo não sai coisa muito diferente disso.

É claro que é tudo mentira. Jobim já negou, imagina, que bobagem. Como diz o filósofo, inauguramos a fase do Descartes pós-ideológico: “Nego tudo, portanto existo”. O próximo passo será o Galileu pós-wikilítico: “eppur si muove”, gritará alguém, jurando que a Terra gira, sim, em torno do sol — apesar dos desmentidos oficiais — antes de ser declarado inimigo do povo.

Sérgio Leo: Oliveira, o canalha da redação: “ih, é verdade mesmo, o governo já divulgou até nota de desmentido”. Na capa da Folha online de quatro dias atrás, ao mesmo tempo, três notícias se acotovelavam logo abaixo de uma manchete sobre o WikiLeaks: “Dados são ‘insignificantes’, diz Lula; Jobim nega ter dito que colega ‘odeia os EUA’; Bolívia nega que Evo tenha tumor.” É a Tríplice Confirmação da Verdade.

A China bloqueou acesso aos documentos. O jornal Le Figaro, de propridedade do sarkozista Dassault — vendedor dos caças para o combo Jobim/Lula/Viumanão gosta da Wikileaks. Hillary Clinton acha .

Batendo datas com notícias, parece que a maior preocupação americana na sudamerica continua sendo Hugo Chávez. Desperdício. Oito telegramas saem da embaixada de Brasília pros EUA no dia em que Chávez mandou o embaixador americano embora da Venezuela. Rolam umas boas pesquisas (e teorias da conspiração) com esse método: pega-se os docs. que saem de Brasília, olha-se os dias com bom volume de correspondências e bate-se com os acontecimentos daquele dia em uma simples pesquisa no Google.

Muitos docs. saem de Brasília no dia 12/8/2005, por exemplo. Dá pra especular sobre o motivo: aqui e aqui. Pode-se também ter algumas pistas sobre os novos cenários possíveis de guerra envolvendo os EUA (e os motivo$).

Uma das grandes questões agora é saber quem são os informantes das embaixadas, o que pode dizer mais sobre tudo do que os documentos em si. No caso do Brasil, um dos principais, por hora, é o ministro da Defesa Nelson Jobim, pintado como uma espécie de lobbista e cagueta [palavra pra ficar no clima Rio de Janeiro da semana]. São 250 mil documentos, quase nada ainda veio a público. Teremos semanas tórridas.

Pedro Augusto – Alemanha

Público x impublicável

Nem tudo o que o Estado faz pode ou deve ser público e/ou publicado. Assim como em um relacionamento não se revela absolutamente tudo o que se pensa sobre o companheiro, também nas relações entre os países alguma medida de sigilo e segredo é necessária para uma convivência pacífica.

Nas relações entre duas nações soberanas, os direitos individuais são apenas mediatamente afetados. Desta forma, não há que se falar em um direito individual à informação sobre todos os passos estatais. A própria política, com seus instrumentos de controle e limitação, deve ditar os passos deste tipo de segredo estatal. Isso não quer dizer, de forma alguma, que todos os atos estatais devam ser públicos. Até hoje, como se sabe, os arquivos da Guerra do Paraguai e muitos dos arquivos da ditadura militar ainda estão sob segredo, ficando vedada a sua consulta.

Se tal foi decidido, deve haver razões suficientemente fortes para que se mantenham longe do alcance público. Concordando ou discordando disso, o fato é que qualquer mudança deve se dar pelos meios legítimos da democracia, com votação pelo parlamento ou por mandamento dos tribunais. (Aos entusiastas do vazamento: Imagine que o leitor tenha um processo correndo em segredo de justiça, envolvendo uma briga familiar. O vazamento da WikiLeaks desse processo deve ser comemorado?!)

Na atual lógica, após Wikileaks, não existe mais segredo estatal. Por mais sensível que seja, tudo pode ser público e publicado. Independentemente das consequências (nota necessária: por alguma razão desconhecida, a maioria dos documentos secretos publicados dizem respeito aos Estados Unidos. Teóricos da conspiracão terão meses, quiçá anos, para exercer suas atividades).

Não se tira, obviamente, uma função positiva desses vazamentos. Se isso servir como forma de controle para que atividades de escutas ilegais não sejam ordenadas por chanceleres, estamos dentro do terreno do desenvolvimento das instituições democráticas no plano internacional. Se o vazamento levar à descoberta de agentes infiltrados num país como a Coréia do Norte, que serão invariavelmente torturados e mortos, fica a dúvida se isso, realmente, ajuda no fortalecimento dessas mesmas instituições. Exemplos não faltam.

Maurício Boff – Argentina

Os sete pecados do governo argentino (segundo a diplomacia norte-americana)

“Almost as if according to some natural law, in every century there seems to emerge a country with the power, the will, and the intellectual and moral impetus to shape the entire international system in accordance with its own values”.

Henry Kissinger, em Diplomacy

Em plena efervescência do debate em torno do vazamento dos telegramas trocados entre diplomatas norte-americanas e o QG da Secretaria de Estado, em Washington, confesso que fiquei perdido, atordoado, emocionado, irritado, satisfeito, desinformado e, ao final, soltei um sorriso-maroto-garoto típico de final de uma boa piada. Sedento por analisar cada comentário diplomático norte-americano sobre os presidentes sul-americanos, deixei de lado a leitura de Moby Dick (droga, não quero terminar meus dias como Leonardo Zelig), os estudos, a mulher, o cachorro, a horta de ervas-finas na sacada do apartamento, o trabalho e o show do João Bosco na quinta-feira.

Mentira. Mas sou brazileiro. Logo, nunca saberá, nem mesmo o serviço secreto norte-americano. Esqueça, portanto. Falo sério. Importa, sim, lançar algumas impressões quase uma semana depois de análises de jornalistas, historiadores, diplomatas, sociólogos e pessoas comuns por todo o mundo, sobre a organização de Julian Assange, o @WikiLeaks. A meu ver, concretiza-se um movimento de discussões que, até hoje, era imprevisível e no melhor estilo Black Swan.

Mas desconfie, e desconfie muito. Como já mencionei por aqui, estou mais para a turma da ponta de baixo na escala de 0 a 10 entre os expertos –- e não pretendo sair dessa zona. É muita responsabilidade. Troco-a pela autonomia do (não) pensar. Portanto, humildemente, convido-o a passear pelos meus sentimentos. Shanti.

+ Gula (telegrama 001235, em 09/11/2009)

“Tivemos várias conversas com os dois primeiros chefes de gabinete da [presidenta] Cristina Fernández de Kirchner (CFK), Alberto Fernández e Sérgio Massa. O embaixador tinha uma reunião introdutória em 28 de outubro com Alberto Fernández, que atuou como Chefe do Gabinete em administrações tanto de Néstor [Kirchner] e de CFK (…) O embaixador e DCM tiveram um jantar em novembro com o segundo-chefe de gabinete de CFK, Sérgio Massa, e sua esposa, a eleita vereadora, Malena Galmarini, na casa do ex-assessor de Massa na Casa Rosada, o empresário Jorge O’Reilly. Em cada uma das conversas, os dois peronistas, que durante seus mandatos na Casa Rosada trabalharam todos os dias com os Kirchners no andamento do governo argentino, foram bastante francos ao expressar seu estranhamento do casal Kirchner e seu pessimismo sobre as perspectivas políticas do ‘casal no. 1′ ['first couple', como os K são chamados nos telegramas]. (…) Massa foi contundente em sua crítica do ‘casal no. 1′, especialmente a Néstor. (…) Ele chamou Néstor de ‘psicopata’, ‘um monstro’, e ‘covarde’ cuja abordagem política mascara um profundo sentimento de insegurança e inferioridade. (A esposa de Massa mostrou-se alarmada frente a tais comentários desinibidos ao ponto de pedir que ‘pare de fazer caretas para mim.’) Ele contestou o argumento de que Néstor merecia crédito como um estrategista astuto, e descreve o ex-presidente como equivocado e tão convencido de seu brilho próprio que certamente voltaria a fazer seus erros. (…) Ele disse que Néstor não poderia relacionar-se com quem estivesse fora de suas ambições políticas: ‘Kirchner não é um gênio perverso’, concluiu Massa. ‘Ele é apenas um perverso’.”

+ Avareza (telegrama 001017, em 10/09/2009)

“Aníbal Fernández [chefe de gabinete de CFK] tem sido para nós o membro mais acessível e inclinado do gabinete da presidenta Cristina Fernández de Kirchner, acolhendo governamentais dos Estados Unidos receberam treinamento policial e da cooperação. (…) Mais político do que diplomata, [Fernández] constrõe feudos e detesta perder o controle sobre esses recursos estratégicos. (…) Um interlocutor pragmático e politicamente esclarecido, Fernández prefere não envolver o seu pessoal em reuniões com funcionários da Embaixada [dos EUA]. Embora esteja sempre bem preparado, o seu discurso e comportamento podem às vezes ser grosseiro. Em mais de uma vez, ele fez evidentes comentários sobre uma atraente tradutora durante uma reunião com funcionários dos EUA que estavam de visita. Ele se referiu à existência de uma ‘procura local por órgãos genitais jovens’ enquanto explicava sobre os desafios que enfrenta sua pasta no combate ao tráfico humano com fins de exploração sexual.”

+ Luxúria (telegrama 000071, em 04/02/2010)

“Embora o orçamento militar argentino está mal preparado para qualquer curso de ação que envolva a projeção de poder, o governo da Argentina provavelmente assim se sentiria compelido a pressionar, por qualquer meio possível, a reivindicação histórica [sobre as Ilhas Malvinas/Falklands] logo de uma descoberta de petróleo. Uma estratégia de conversação dura, queixas em fóruns internacionais, e cartas de protesto são esperados, além de sanções econômicas aplicadas contra as empresas atuantes [no arquipélago], mesmo que isso possa prejudicar a produção argentina de petróleo e gás natural.”

+ Ira (telegrama 002345, em 14/12/2007)

“Em 14 de dezembro, a imprensa argentina continuou a dar ampla cobertura à furiosa reação do governo argentino às alegações do FBI de que os U$ 800 mil interceptados 04 de agosto por oficiais argentinos foi uma contribuição em dinheiro da BRV para a campanha presidencial de Cristina F. De Kirchner (CFK). (…) O embaixador usou uma recepção programada para antes das férias para mais de 100 jornalistas de jornal, rádio, TV no dia 14 de dezembro para a divulgação da orientação de Washington sobre o caso. Vários jornalistas de rádio utilizaram seus telefones celulares para transmitir no ar as palavras do embaixador, e muitos deixaram o encontro depois do embaixador concluiu a história. Várias histórias sobre o que disse o embaixador no encontro já bateu estão sendo divulgadas. Esperamos que as observações do embaixador na Argentina domine as manchetes no sábado. (…) O que começou como um dia negro para a imagem dos EUA na Argentina – com manchetes de ataque por CFK e outros sobre as nossas intenções supostamente escuras – está terminando com uma nota mais esperançosa, como um trabalho rápido por parte do Estado, da Justiça e do FBI de revisão e de orientação sobre a questão nos permitiu apresentar nossa versão para um grupo cativo de jornalistas argentinos. Como a primeira semana da administração CFK se aproxima do fim, demos aos pragmáticos informações sobre o governo argentino para que possam trabalhar pelo convencimento de CFK de que saia do precipío que se meteu e volte a dialogar com o governo norte-americano a partir da segunda semana de mandato presidencial. Veremos sua reação e resposta nos próximos dias.”

+ Melancolia (telegrama 000827, em 09/07/2009)

“Há um outro fator externo que faz improvável que a Argentina adote a política bolivariana – a influência crescente do Brasil aqui. O representante local do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o brasileiro Daniel Oliveira, disse ‘econoff’ recentemente que ‘a Argentina tornou-se tão importante para o Brasil como o México é para os Estados Unidos’. Com uma intercâmbio comercial de U$ 31 bilhões e mais de U$ 10 bilhões em investimentos brasileiros sendo injetados na economia argentina desde 1997, o Brasil está fortemente empenhado aqui, e não é tímido sobre a defesa de seus interesses. A imprensa local relatou que Lula chegou a dar telefonemas em julho de 2008 para evitar que os Kirchners abandonassem o poder na sua frustada tentativa de pressionar o Congreso a aumentar os impostos sobre as exportações agrícolas. Lula e seus associados continuarão a ser uma importante influência moderadora sobre os Kirchners.”

+ Preguiça (telegrama 000853, em 22/07/2009. substituída aqui por psicodrama. Leia e entenda)

“Outros observadores apontam fatores de estresse psicológico em suas previsões para uma muito próxima crise democrática. Esta linha de raciocínio encontra duas vertentes: a de que o poderoso Néstor Kirchner é bem centrado em seu conjunto de formas intransigentes de se adaptar, ou a de que ele (ou ele e CFK) estão se tornando cada vez mais instáveis e incapazes de governar. Como um bem relacionado banqueiro nos disse, o casal Kirchner poderia se recuperar alterando o rumo e adotando uma postura mais moderada, mas Néstor Kirchner, em especial, é incapaz de mudar. Em vez disso, ele vai embarcar numa lamúria desastrosa contra os ‘traidores’ os quais culpa pela derrota eleitoral, levando o governo ladeira abaixo. Em apoio desta tese, Fraga [Rosendo Fraga, analista político] defende que a personalidade de Néstor ‘não pode mudar’, mas que a opinião pública argentina pode. Ela não quer mais um lutador obstinado como fez Néstor Kirchner quando tomou posse em 2003; hoje, os argentinos querem uma liderança consensual que os Kirchners não pôdem e não vai proporcionar.”

+ Orgulho (telegrama 001311, em 09/12/2009)

“Mais uma vez, o governo Kirchner tem se mostrado extremamente sensível e intolerante às críticas que recebe. As preocupações sobre a fraqueza das instituições nacionais, e o Estado de Direito, em particular, é uma parte do que é relatado na imprensa argentina por acadêmicos, empresários, juízes, políticos da oposição, especialistas e organizações não-governamentais. Os argentinos são bastante conscientes de que a Argentina não está atraindo tanto investimento quanto Brasil, Chile e outros países da região. A ansiedade da comunidade empresarial sobre as mudanças arbritárias e caprichosas das regras do jogo é bem conhecida do público argentino e do governo. Somente quem é muito Kirchnerista concordará com a afirmação de Randazzo [ministro do Interior, Florencio Randazzo] de que a Argentina oferece ‘todas as garantias institucionais e jurídicas’, ou a afirmação do Ministério de Relações Exteriores de que não tem conhecimento de qualquer insatisfação por parte das empresas americanas. Para a maioria dos argentinos, isso é uma ironia ou declarações falsas e cínicas. Dito isto, esperamos que esses contratempos logo se esgotem, como já aconteceram em episódios semelhantes no passado.”

Não precisa usar a imaginação. Kissinger está com a razão: o ímpeto intelectual e moral norte-americano moldou com seus próprios valores o mundo. Essa é a natureza do Homem e ponto final.

Gabriel Brust – França

Sarkozy e suas mulheres

A reação da imprensa francesa ao cablegate passou por dois momentos diferentes desde domingo. A primeira, imediata, foi a negação escandalizada. Figaro e Liberation, direita e esquerda no espectro dos jornais, condenaram o vazamento. O primeiro com o frágil argumento da segurança internacional. O segundo, mais razoável, criticando o fato de o WikiLeaks mirar e tentar desestabilizar democracias, enquanto se cala ou pouco faz para investigar regimes totalitários. Regimes totalitários, aliás, que seriam o alvo principal do WikiLeaks segundo os conceitos iniciais do site, formulados por seu criador.

A revista eletrônica Rue89 resgatou os textos do blog de Julian Assange, não mais online, escritos antes do lançamento do WikiLeaks. Pelo tom de seus textos na época, parecia que Irã e Coréia do Norte teriam algo a temer diante de sua ideia. O tempo revelou o óbvio: é bem mais fácil (e totalmente legítimo, diga-se de passagem) brincar de justiceiro em democracias do que fazer uma pegadinha do Mallandro com o Kim Jong-Il.

A segunda etapa da reação francesa ao Cablegate é parecida com o que aconteceu no resto do mundo: o desdém em relação ao conteúdo dos arquivos assim que os primeiros foram revelados. De fato, como na maior parte do globo, não há nada que cause maiores estragos para a França nos telegramas revelados (até agora). Mas há material farto para o esporte preferido dos franceses – e da imprensa, principalmente –: praticar o bullying impiedoso de Nicolas Sarkozy.

Sobram passagens desabonadoras, no plano pessoal, para o chef d’état e suas mulheres. Sim, porque os yankees malvados, em seus telegramas, não pouparam nem o tema que o próprio Sarkozy reconhece como seu “calcanhar de aquiles”: a ex-mulher, Cecília Ciganer. Segundo o embaixador americano, em 2007, após o divórcio, havia dúvidas se Sarko teria estabilidade emocional para conduzir o país. Descreveu o presidente como dependente da ex-mulher. Quando começa o novo romance do galã, dessa vez com a modelete Carla Bruni, o embaixador fofoca para seu governo, em Washington, que as aparições públicas do presidente com a nova mulher são mais condizentes com um milionário excêntrico do que com um chefe de estado. Conversa de comadre das boas, para saborear com o chá da tarde.

E é justamente numa passagem sobre Carla Bruni que o Brasil aparece nos telegramas do embaixador americano em Paris. Segundo o diplomata, Sarkozy estaria usando a popularidade de sua mulher no Brasil para estreitar as relações com o país. Charles Rivkin diz que a há um “caso de amor” entre Lula e Sarkozy, e que a população brasileira aprecia muito o fato de o casal presidencial francês passar as farias no país. Particularmente, eu nunca soube que Bruni gozasse de qualquer popularidade no Brasil. Sua carreira como modelo está encerrada há tempos e seus chatíssimos discos, que eu saiba, nunca chegaram perto de serem populares no Brasil. Mas é provável que o embaixador saiba mais sobre a banânia do que eu.

Por fim, o último bulling da imprensa contra Sarkozy – debate dos jornais nesta quarta-feira — é acusá-lo de “cheerleader” dos yankees. Isso porque os telegramas comentam a vida privada de Sarkozy, mas pour outro lado o cobrem de elogios. O descrevem como “o presidente mais pró-Estados Unidos desde a Segunda Guerra”, afirmam que ele “se reconhece nos valores americanos” e teria se revelado, inclusive, ser um grande admirador de George W. Bush. Imperdoável para os franceses.

Érica Manssour – China

Tá tudo bem

A julgar pela cobertura da imprensa chinesa, não há qualquer envolvimento de Beijing com essa história ae. O site encontra-se devidamente bloqueado e o foco de notícias relacionadas ao tema é mais na acusação de estupro e na ordem de prisão do Julian Assange pela Interpol do que qualquer outra coisa. Tudo bem por aqui.

Receba por e-mail:

Arquivo