“Governar é roubar, toda a gente sabe. Mas há maneiras e maneiras. Por mim, roubarei francamente”

Leandro Demori | Itália10:25 | 30/08/2010
Categoria(s): Argentina
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O Ariel Palácios, um dos melhores correspondentes brasileiros no exterior, publicou ontem em seu excelente blog as reações de parte da imprensa argentina contra o Casal Kirchner.

Driblando as crises: fortuna dos Kirchners aumentou 710% desde que chegaram ao poder

Driblando as crises econômicas e a disparada da inflação, a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner prosperaram de forma exponencial desde que chegaram em 2003 à Casa Rosada, o palácio presidencial. Nesse ano, quando Kirchner foi eleito presidente, a fortuna do casal era de US$ 1,74 milhão. De lá para cá – e especialmente depois da posse de Cristina como sucessora em 2007 – a fortuna do casal aumentou aceleradamente.

No ano passado, segundo a declaração de bens oficial do casal, apresentada ao Departamento Anticorrupção e divulgada recentemente, o patrimônio era de US$ 14,16 milhões, o equivalente a um aumento de 20,65% em relação a 2008. No entanto, no total dos sete anos em que estão no poder, a casal Kirchner registrou um aumento de 710,55% de seu patrimônio.

A fúria foi desencadeada pela série de lapidações que o governo vem fazendo na empresa proprietária do Clarín, obrigando o jornal e se desfazer de seu provedor de internet (1 milhão de assinantes, líder em banda larga no país) e revendo os preços pagos pelo papel no qual o Clarín é impresso.

O papel em questão vem da empresa Papel Prensa, que tem como sócios o próprio Grupo Clarín (49%), o jornal La Nación (22,49%) e o Estado argentino (27,46% de controle direto e 0,62% através da agência oficial de notícias, a Télam). Para Cristina Kirchner, se trata de um monopólio que pratica concorrência desleal e “abafa” a opinião de jornais menores — que fatalmente compram da Papel Prensa a preços mais salgados.

A presidente também acusou os dois jornais de comprarem a Papel Prensa de um inimigo da ditadura argentina nos anos 70. O negócio teria sido feito com ajuda direta dos militares, que forçaram o antigo proprietário a se desfazer da indústria.

Para provar o favorecimento ao Clárin e também ao La Nación, o governo apresentou um estudo de 23 mil páginas chamado “Papel Prensa, a verdade”. Não é preciso ser gênio para saber que o estudo não diz “a verdade” — caso contrário não traria “a verdade” no nome — mas conta “uma verdade”, o que é bem diferente.

Visto de forma descontextualizada, parece óbvio que não pode haver total liberdade de imprensa quando os dois maiores jornais do país detêm a fábrica de papel que estampa também os seus concorrentes. E de fato é isso mesmo. A crise envolvendo a empresa, no entanto, é a enésima cena protagonizada por um tipo de governante que a América Latina parece estar fadada a carregar pela eternidade. O Casal Kirchner se tornou inimigo do Clarín após o jornal ter apoiado ruralistas contra o governo em 2008 e agora usa a Papel Prensa como arma política. Antes disso, sabe o que faziam Clarín e os Kirchner?

“Resolvi partir porque é impossível
Haver um romance formado por três
Seria esquisito você me dizendo
Agora querido chegou sua vez
Receber os beijos tão divididos
Entre dois amantes
Estar com você no mesmo instante
Pensar que um outro tudo lhe fez

Não querida não, amor a três
Assim não consigo
Já estou sabendo
Que pensa em outro estando comigo
Uma mulher e dois homens
É impossível, adeus querida
Eu vou partir nesta hora
Fique com ele agora
Viver em três não é vida
[Chitãozinho & Xororó - Amor a três - 1981]”

O jornal foi o principal defensor da candidatura de papai Néstor em 2003, quando a Argentina faliu e Carlos Menem estava louco para voltar ao poder. Até 2008, em troca de acesso palaciano privilegiado, o jornal continuou a apoiar o casal. Naquela época, o monopólio demonizado hoje por Cristina Kirchner — que agora quer “defender a liberdade de imprensa” — parecia ser menos monopólio. Escreve o Ariel Palácios:

Nesse intervalo, o holding foi beneficiado com a autorização para a fusão das duas maiores empresas de TV a cabo do país, a Multicanal e a Cablevisión, realizada em 2007. A operação foi possível graças à intervenção pessoal de Kirchner, que ignorou as críticas sobre práticas monopólicas. A Multicanal-Cablevisión atualmente gera mais de 60% do faturamento do Grupo Clarín.

Durante esse período, os jornalistas do “Clarín” tiveram posição privilegiada de acesso a informações do governo, enquanto que ignorava o resto da mídia. Em troca o Clarín era suave na cobertura dos problemas da administração Kirchner. A mídia crítica recluía-se aos jornais “La Nación”, “El Cronista” e “Perfil”.

A lua-de-mel dos puros acabou em 2008, quando o Clarín tomou partido dos quatro grandes grupos de produtores rurais do país contra o governo. No Congresso, após 18 horas de debates, os plantadores conseguiram vetar a “Resolução 125″ em julho daquele ano. A resolução previa aumento de impostos aos exportadores de grãos: 36 parlamentares votaram contra, 36, a favor. A vitória foi humilhante para Cristina porque o voto de Minerva coube a seu vice-presidente, Julio Cobos, que decidiu em favor dos fazendeiros, um ato visto como traição. O Clarín foi expulso da cama dos Kirchner.

As cenas do divórcio são emblemáticas e muito bem contadas pelo Ariel:

O ‘divórcio’ foi marcado pelo governo em 2008 com um comício perante 100 mil militantes no qual a presidente Cristina denunciou uma suposta conspiração para um golpe de estado armado pelos ruralistas, a oposição e o “Clarín”. De lá para cá, os Kirchners desferiram um intenso conflito contra o grupo.

Em meio a esta guerra o governo aplica amplo leque de armas, entre elas as visitas inesperadas da Receita Federal às casas de executivos do Clarín, enquanto que seus jornalistas sofrem agressões verbais constantes de militantes kirchneristas que os esperam nas portas de suas casas.

Além disso, os Kirchners fecharam as portas para jornalistas do grupo, que possuem grandes dificuldades para obter informações do governo. Ministros e secretários que passam informações aos jornalistas do Clarín correm o risco de sofrer punições. A recente renúncia de Jorge Taiana ao posto de chanceler foi parcialmente atribuída às suspeitas da presidente Cristina de que seu fiel ministro teria repassado informações a jornalistas do Clarín.

Enquanto isso, o Clarín aproveita qualquer desliz do governo Kirchner para desferir duras críticas.

“Conspiração. Golpe. Complô da oposição e dos jornais contra o governo que só quer o bem e a liberdade de imprensa”. A imprensa só é boa quando está do nosso lado. Não estivéssemos em Buenos Aires, estaríamos em Brasília.

Ariel Palácios diz que “integrantes da oposição argentina afirmam que o casal presidencial aplica o teorema de Calígula, pelo menos na primeira parte da frase” cunhada pelo escritor francês Albert Camus (1913-1960), que colocou na boca de seu personagem Calígula as palavras: “Governar é roubar, toda a gente sabe. Mas há maneiras e maneiras. Por mim, roubarei francamente”.

Nessa briga entre puros e democráticos senhores na foz do Rio da Prata, outra máxima resumiria melhor os dois lados da peleja:

Só não me diga que você é inocente. Porque isso insulta minha inteligência e me deixa muito irritado.”
- Michael Corleone, mafioso interpretado por Al Pacino em “O Poderoso Chefão”.


5 comentários to ““Governar é roubar, toda a gente sabe. Mas há maneiras e maneiras. Por mim, roubarei francamente””

  • Leandro Demori | Itália [ 30Aug10]

    O wordpress (ou algo) deu um blackout minutos atrás e zerou os comments do blog. Agora já está tudo normalizado, creio. Se alguém teve algum comentário apagado, por favor, levante a mão.

     
  • fpsdfjf [ 30Aug10]

    Só vejam uma coisa aí… produtores rurais =\= de ruralistas?

    ruralista no braziu luta por qualquer coisa, menos pelos produtores. os compadres argentinos são diferentes.

     
  • Álisson [ 30Aug10]

    “Conspiração. Golpe. Complô da oposição e dos jornais contra o governo que só quer o bem e a liberdade de imprensa”. A imprensa só é boa quando está do nosso lado. Não estivéssemos em Buenos Aires, estaríamos em Brasília.

    O contrário TAMBÉM é verdade.

    O Governo só é bom quando dá acesso privilegiado aos jornalistas e aceita todas as transações financeiras das empresas de comunicação(incluindo a entrada de capital estrangeiro acima do percentual permitido).

     
  • Leandro Demori | Itália [ 30Aug10]

    Álisson: tu já foi em alguma coletiva de imprensa que envolve governo? É bastante peculiar ver jornalistas tratando figuras repugnantes da política (muitas com condenações judiciais, inclusive) só para ter informações privilegiadas. Muitos dos “coleguinhas”, aliás, teriam como produzir matérias “contra” essas mesmas pessoas, mas não o fazem pra não perder a teta.

    Governo e imprensa se alimentam no mesmo cocho.

     
  • Farpa [ 01Sep10]

    “Governo e imprensa se alimentam no mesmo cocho” Leandro Demori Concordo plenamente.Pode-se também dizer, que o governo não precisa dar privilégios a nenhum jornalista, pois o que interessa mesmo é quanto vai pagar aos patrões dos meios de comunicações e decidir a linha editorial a ser seguida. Quanto aos jornalistas eles são empregados, portanto obedeçem ordens e fim de papo, seguem a linha editorial imposta, e se não seguir, existem MILHARES de jornalistas desempregados aguardando a sua vaga.

     

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