Vota Antonio La Trippa

Leandro Demori | Itália12:55 | 16/08/2010
Categoria(s): Eleições 2010
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Ontem aproveitamos a manhã de sol para andar pela feira de Porta Portese, um mercado de pulgas que lota ruas do bairro romano de Trastevere aos domingos desde o século XVII. Pode-se encontrar de tudo em Porta Portese: de gramofones a discos rígidos de computador, de velhas fotos em preto-e-branco de famílias que não são a sua a material hidráulico, de tênis usados a relicários; a foto do avô de alguém vestido de militar em 1908 divide a banca com máquinas fotográficas digitais fabricadas há alguns meses; há também meias e moedas chinesas; e bonecas.

Precisávamos comprar coisas pouco emocionantes: um carregador de celular e um filtro para água. Cumpridas as obrigações mundanas, flanamos para as bancas de livros e antiguidades. Gastei 30 euros em um par de luvas de boxe Leone (€8), na coleção de 10 volumes que conta a história da Segunda Guerra escrita por Winston Churchill (€18) e em quatro fotos para decorar a cozinha de casa (€4). As fotos são de Alberto Sordi e Antonio de Curtis, o Totó, todas em momentos cruciais mangiando una bella pasta.

Alberto Sordi é o maior ator romano de todos os tempos, Antonio de Curtis (o da foto acima) é o maior ator napolitano de todos os tempos. Enquanto Alberto Sordi é mais “ator”, Totó — de uma geração anterior ao romano — é mais carismático e popular.

Um dos sucessos expressivos de Totó foi sua atuação na comédia “Gli Onorevoli” (Os Honoráveis), na qual interpreta Antonio La Trippa, um aspirante a político mezzo-ingênuo mezzo-falcatrua de modos bastante peculiares. Na cena abaixo, por exemplo, Antonio La Tripa usa um megafone improvisado para fazer propaganda eleitoral.

O filme mostra uma sucessão de cenas típicas da antiga política italiana: falsas promessas, interesses pessoais e de pequenos grupos acima de tudo, testas-de-ferro, farsas, roubalheira, indiferença total às necessidades coletivas. A tal da “antiga política” é tão atual que a Folha de S. Paulo fez, ontem, uma resenha involuntária de “Gli Onorevoli“.

Rejeitado pela classe média, o senador aposta nos grotões, onde ainda é recebido como popstar. O povo se acotovelou num campo de futebol para assistir à sua chegada, de helicóptero.

Desembarcou de punhos cerrados e desceu em disparada para a praça, seguido por populares. Militantes pagos pelo prefeito agitavam bandeiras por R$ 20.

Discursou na escadaria da igreja. Em 21 minutos, prometeu escola, asfalto, merenda, ambulância e lares para idosos. Atacou “a ladroagem e a sem-vergonhice” e ameaçou esmagar bandidos “que atormentam a família” com “o peso da minha munheca”.

A seu lado, a ex-prefeita definiu o governo estadual como “primeiro passo”. Ele não nega o plano. “Depende das circunstâncias e do destino que Deus reserva”, disse, dois dias antes.

“Ele mora no meu coração”, derrama-se a desempregada de 57 anos. “Tenho fé em Deus que ele vai ganhar de novo.” Apesar do cabelo grisalho e dos quilos a mais, o senador, 61, ainda inspira suspiros. “Tá ficando coroinha, mas continua bonito”, elogia a dona de casa de 28 anos, desdenhando as denúncias do passado. “Mesmo roubando, eu voto nele.

Ele estimula a devoção dos mais pobres. Nos últimos três dias, disse ter sido “crucificado” e perseguido por inimigos.

O senador descrito pela Folha não é Antonio La Trippa, mas Fernando Collor [omiti propositalmente o nome e a cidade, que constam na matéria original do jornal estampado de ontem]. O “grotão” se chama Jequiá da Praia, Alagoas, e a dona de casa, a desempregada e as outras 998 pessoas são brasileiros votantes e maioria: em 2006, 74% dos 11 mil habitantes da cidade votaram em Collor para o Senado. Agora, Fernando Collor está concorrendo a governador. Todo mundo já viu esse filme.

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