O Real Clear Politics, da CNN, mandou a primeira bomba: 49% da população acha que o Obama não está fazendo um bom trabalho. Depois, os números gerais sobre a reeleição: Obama: 37 – Um Republicano Qualquer: 42. Finalmente, a Gallup lança um mapa com a aprovação do Obama por Estado:
Pois bem, comparem este mapa com o mapa que deu a vitória ao Obama. O que acontece é o seguinte: se os lugares onde o Obama tem a aprovação abaixo de 50% votassem AGORA, ele perderia a eleição.
O elemento mais crítico das eleições nos Estados Unidos são os swing states — os Estados que mudam de voto mais facilmente. Qualquer candidato Republicano sabe que não tem chance em Illinois ou em Nova Iorque na próxima eleição e nem o depoimento de Jesus em pessoa consegue fazer um Democrata ganhar no Tennessee ou em Kentucky. Mas a coisa muda de figura em estados como Ohio, Indiana, North Dakota, Pennsylvania, West Virginia e Florida: nesses Estados, um detalhe na propaganda eleitoral ou uma mudança na situação econômica podem alterar o voto de parte da população. No mapa, já dá para perceber que Obama tem uma aprovação baixa em alguns desses Estados, o suficiente para colocá-los no campo de influência dos Republicanos.
Obrigado, Carter
Os Republicanos começam a se movimentar agressivamente para tornar o Obama o novo Carter. A missão é mais fácil do que parece: Obama está tendo um ano terrível. Apesar de ter passado duas reformas importantes (a financeira e a do sistema de saúde), ninguém parece lá muito otimista com o estado da economia, e os crescimentos foram muito pequenos para criar qualquer mudança de perspectiva na população. Mesmo com um Congresso de maioria Democrata, Obama parece estar de mãos atadas e, de quebra, tem uma dificuldade enorme em comunicar as suas vitórias.
Para alguém com uma capacidade enorme de fazer discursos memoráveis, Obama tem mostrado uma incapacidade notável na hora de falar ao público. A reforma do sistema de saúde foi uma vitória importante, mas ninguém entendeu o novo sistema. Obama passou semanas, talvez meses, tentando explicar como tudo funciona. De nada adiantou. Uma olhada rápida no website do New York Times sobre o assunto dá uma medida do tamanho da complicação: a reforma foi aprovada meses atrás e detalhes da implementação continuam sendo discutidos, pessoas continuam fazendo perguntas simples e recebendo respostas mirabolantes. A reforma do sistema financeiro surtiu efeito parecido: passou alguma coisa no Senado, mas os efeitos da passagem da reforma não foram sentidos no dia-a-dia.
Os Republicanos têm aproveitado isso para polarizar ainda mais a eleição de 2012. A pergunta deles parece ser: “se esse cara não consegue nem mobilizar um Congresso favorável e se comunicar com os eleitores, como a gente espera que ele consiga ganhar duas guerras e resolver a maior crise econômica institucional desde 1929?”. É uma boa pergunta.
A militancia e “the big fat Clinton money machine”
Algumas das grandes críticas da Hillary a Obama, ainda da época da definição do candidato dos Democratas, têm se confirmado: Obama tem muita capacidade de fala, mas falta poder de definição; Obama tem pouca experiencia, e “hope” não é uma estratégia assim como “change” não é uma política; e por aí vai.
No entanto, foi para os Clintons que o Obama correu quando foi eleito. Isso depois de tudo que a Hillary havia feito durante as primárias para a eleição de 2012.
Mas qual o motivo para isso?
Em primeiro lugar, não foi uma opção do Obama. Foi uma necessidade. Ainda que a campanha de 2007 tenha sido marcada pela participação de voluntários e uma chuva de dinheiro de doadores de pequeno porte, assim que Obama foi eleito ficou claro que a quantidade de dinheiro que eles eram capazes de arrecadar online era patética diante da grana que os congressistas precisavam para poder prometer apoio. E mais patética ainda diante das campanhas necessárias para passar a reforma do sistema de saúde, por exemplo.
Com isso, Obama teve que ir para onde está o dinheiro. E o dinheiro está com os Clintons. Acontece que isso comprometeu o apoio de parte da militância do “hope”, que queria uma mudança na politica externa e uma reforma radical do sistema financeiro. Com os Clintons, a politica externa mudaria pouco e o sistema financeiro menos ainda.
No entanto, Obama continuou sendo tachado de socialista radical, possivelmente muçulmano e totalmente preto pela oposição Republicana. Enquanto ele perdia tempo se defendendo — dizendo que era um liberal clássico, totalmente batista e só preto na parte camarada e cantora de soul music –, os Republicanos foram aumentando o volume da critica, usando o pessoal do Tea Party como idiotas úteis [vídeo: O que é o Tea Party movement].
A volta do pop-conservadorismo

“Die, monster, die”
Essa senhora aí em cima é a Karen Handel, futura governadora da Georgia, um dos Estados mais desiguais dos Estados Unidos. A dona Handel é apenas uma das diversas mulheres que fazem parte de uma espécie de tropa de choque de apoio a Sarinha Palin em 2012. Em uma entrevista recente, a Palin caracterizou a dona Handel como “pro-life, pro-Constituição e cumpridora”, essas três qualidades que, podemos dizer, são o pacote mais importante para eleger um Republicano no sul dos Estados Unidos. Não que seja difícil eleger um Republicano no sul dos Estados Unidos, é claro.
Por muito tempo, desde a eleição de Bush I, os Republicanos têm uma estratégia clara para ganhar eleições. A chamada “deep south strategy” consiste em garantir os Estados ao sul de Illinois e ganhar em outros quatro ou cinco Estados (incluindo a Califórnia). A estratégia falhou toda vez que a situação econômica não beneficiava os Republicanos: em 1992, Bush I perdeu a eleição por uma crise econômica atribuída ao presidente. Em 96, Clinton foi reeleito com uma boa margem de vantagem, em um clima econômico fantástico. Em 2000, Bush II foi derrotado por Al Gore em uma eleição insossa que acabou sendo decidida pela Suprema Corte, em favor de Bush II. Bush acabou sendo reeleito por um reconhecimento da liderança durante o período dos atentados e também pela completa falta de carisma de John Kerry, seu opositor. Com as crises econômicas de 2007, nenhum candidato Republicano teria qualquer chance. McCain foi para o sacrifício, sabendo que perderia a eleição, e os Republicanos usaram a campanha para lançar novas lideranças, esperando poder ganhar em 2012 – redesenhando o mapa eleitoral nos termos de 1988.
Para isso, os republicanos estão reciclando a ideia do “amavel conservador” (“compasionate conservative), que ganhou as eleições para Bush I e II. A ideia é focar em valores do candidato como “gente como a gente”, e consolidar o opositor como um elitista incapaz de plantar uma alface. Nesse sentido, e em muitos outros, a estratégia dos Republicanos lembra muito a do Partido dos Trabalhadores para eleger Lula. Focar nos pontos pessoais, elaborar uma política econômica de relativa austeridade e prometer desenvolvimento social. No entanto, a diferença é que, enquanto no Brasil um candidato não pode, sob pena de suicídio político, falar contra políticas sociais governamentais, os republicanos podem montar plataformas inteiras demonizando a própria ideia de política social governamental.

“Olhe para os meus olhos”
As mulheres que surgem agora, na surdina da Palin, são o exemplo mais bem elaborado dessa estratégia. São, todas elas, mulheres casadas, religiosas, com filhos, que sabem atirar, sabem pilotar caminhão e “nunca precisaram do governo para nada na vida”. As eleições regionais estão cheias dessas mulheres que surgem na cola da Sarah Palin, imitando o estilo. Nos Estados ao sul, a vitória dessas candidatas é lógica. Mas a surpresa (para o horror dos Democratas) é que algumas pessoas com esse perfil têm tido sucesso fora do bible belt.

“Manterei minhas armas, liberdade & dinheiro. Você pode ficar com o ‘troco’”. [Clique para ampliar]
Cronica de uma derrota anunciada?
Devemos esperar a Presidente Palin em 2012?
Em geral, o clima é de decepção com o governo Obama. O papelão na administração do desastre do Golfo do México certamente não pode ser atribuída ao governo passado e a estagnação no Iraque, a derrota no Afeganistão e as duas batidas na trave de atentados em território americano (somados ao ataque bem-sucedido no Kansas) certamente não ajudam. De quebra, a situação econômica não melhorou.
No entanto, seria um equívoco pensar que os republicanos vão ganhar essa eleição facilmente. Sarah Palin é uma piada ambulante e pode perder o pleito em alguma declaração desastrada. As outras lideranças Republicanas parecem ter alguma cautela ao entrar na próxima eleição e arriscar uma derrota que acabaria com suas reputações. A tendência é que Palin seja a candidata em 2012 para incomodar Obama e criar um antagonismo ainda maior – perdendo a eleição, mas mobilizando os Republicanos para eleger um Congresso claramente oposto aos Democratas e inviabilizando o segundo mandato do Obama na prática. Com isso, o caminho estaria livre para Huckabee ou Mitt Romney em 2016.
A politica externa não será tão importante quanto a interna. Qualquer que seja a impressão sobre Obama nas questões internas, ela vai ser repassada para a externa. Se ele for visto como incapaz de liderar e decidir internamente, essa vai ser a impressão para a política externa. Esse não é um fenômeno da próxima eleição americana, mas de qualquer eleição. Um papelão na política externa de Clinton não o impediu de ser reeleito, e Reagan, que deve ser responsável por 90% da confusão que os americanos armaram no Afeganistão, foi reeleito com uma margem de votos impressionante. Ambos têm em comum um período de bonança na política interna.
Com isso, é fácil presumir que as próximas eleições vão mudar o mapa eleitoral americano sensivelmente, indicando a perda de popularidade de Obama e dos Democratas. Mas o quadro ainda está longe de ser definitivo. Se Obama seguir perdendo popularidade, talvez Mitt ou Huckabee decidam concorrer na próxima eleição. Os Republicanos teriam um novo Reagan depois do novo Carter.











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Pegava fácil a tia Sarah.
ela colocou silicone recentemente. então, essa montagem tem quase chance de ser real.
p.s. ótimo post. será que vem aí uma nova onda carismática cristã de armas?
Excelente post, mesmo.
fantástico esse post.
só acrescentaria que a economia americana já passou pelo pior – e talvez, obama já tenha passado, também, pelo pior. (e até o greenspan está apoiando as medidas economicas do obama).
o fato é que mesmo que obama consiga manter um proximo mandato real, o tea party conseguiu deslocar o centro de gravidade a seu favor.
CHANGE é o cazzo, MILF pra presidente. com esses MELONI, ganhará em todos os SWING states certo.
e o Obama É o novo Carter [em outro sentido, é claro].