Em nome da justiça social

Gabriel Brust | França 07:39 | 31/08/2010

Não costumamos “clippar” conteúdo aqui no Braziu.org (normalmente só links), mas me permito abrir uma exceção hoje em nome deste bom artigo do filósofo Luiz Felipe Pondé publicado na Folha da segunda-feira, dia 30 — até porque ele está fechado para assinantes do jornal.

Resista ao título, largue a bandeira no chão por cinco minutos e tente botar o tico e o teco pra dançar sozinhos um pouquinho, sem o embalo do forró do partido. Olha, fazer isso de vez em quando, garanto a você, xóvem, pode ser uma experiência transformadora. De repente você começa até a ler livros! Não ia ser legal?

A oligarquia de esquerda

LUIZ FELIPE PONDÉ

O jargão “por uma sociedade mais justa” pode ser falado pelo pior dos canalhas

VOCÊ ACREDITA em justiça social? Tenho minhas dúvidas. Engasgou? Como pode alguém não crer em justiça social? Calma, já explico. Quem em sã consciência seria contra uma vida “menos ruim”? Não eu. Mas cuidado: o jargão “por uma sociedade mais justa” pode ser falado pelo pior dos canalhas. Assim como dizer “vou fazer mais escolas”, dizer “sou por uma sociedade mais justa” pode ser golpe.

Aliás, que invasão de privacidade é essa propaganda política gratuita na mídia, não? O desgraçado comum, indo pro trabalho no trânsito, querendo um pouco de música pra aliviar seu dia a dia, é obrigado a ouvir a palhaçada sem graça dos candidatos. Ou o blábláblá compenetrado de quem se acha sério e acredita que sou obrigado a ouvi-lo.

Mas voltando à justiça social, proponho a leitura do filósofo escocês David Hume (século 18), “An Enquiry Concerning the Principles of Morals, Section III”. Cético e irônico, Hume foi um dos maiores filósofos modernos. É conhecida sua ironia para com a ideia de justiça social. Ele a comparava aos delírios dos cristãos puritanos de sua época em busca de uma vida pura. Para Hume, os defensores de um “critério racional” de justiça social eram tão fanáticos quanto os fanáticos da fé.

Sua crítica visava a possibilidade de nós termos critérios claros do que seria justo socialmente. Mas ele também duvidava de quem estabeleceria essa justiça “criteriosa” e de como se estabeleceria esse paraíso de justiça social no mundo. Se você falar em educação e saúde, é fácil, mas e quando vamos além disso no “projeto de justiça social”? Aqui é que a coisa pega.

Mas antes da pergunta “o que é justiça social?”, podemos perguntar quem seriam “os paladinos da justiça social”. Seria gente honesta? Ou aproveitadores do patrimônio dos outros e da “matéria bruta da infelicidade humana”, ansiosos por fazer seus próprios patrimônios à custa do roubo do fruto do trabalho alheio “em nome da justiça social”? Humm…

A semelhança dos hipócritas da fé que falavam em nome da justiça divina para roubar sua alma, esses hipócritas falariam em nome da justiça social para roubar você. Ambas abstratas e inefáveis, por isso mesmo excelentes ferramentas para aproveitadores e mentirosos, as justiças divina e social seriam armas poderosas de retórica autoritária e mau-caráter.

Suspeito de que se Hume vivesse hoje entre nós, faria críticas semelhantes à oligarquia de esquerda que se apoderou da máquina do governo brasileiro manipulando uma linguagem de “justiça social”: controle da mídia, das escolas, dos direitos autorais, das opiniões, da distribuição de vagas nas universidades, tudo em nome da “justiça social”. Ataca-se assim, o coração da vida inteligente: o pensamento e suas formas materiais de produção e distribuição.

A tendência autoritária da política nacional espanta as almas menos cegas ou menos hipócritas. A oligarquia de esquerda associa as práticas das velhas oligarquias ao maior estelionato da história política moderna: a ideia de fazer justiça social a custa do trabalho (econômico e intelectual) alheio.

Outro filósofo britânico, Locke (século 17), chamava a atenção para o fato de que sem propriedade privada não haveria qualquer liberdade possível no mundo porque liberdade, quando arrancada de sua raiz concreta, a propriedade privada (isto é, o fruto do seu esforço pessoal e livre e que ninguém pode tomar), seria irreal.

Instalando-se num ambiente antes ocupado pela oligarquia nordestina, brutal e coronelista, e sua aliada, a chique oligarquia industrial paulista, os “paladinos da justiça social” se apoderam dos mecanismos de controle da sociedade e passam a produzir sucessores e sucessoras tirando-os da cartola, fazendo uso da mais abusiva retórica e máquina de propaganda.

Engana-se quem acha que propriedade privada seja apenas “sua casa”. Não, a primeira propriedade privada que existe é invisível: sua alma, seu espírito, suas ideias. É sobre elas que a oligarquia de esquerda avança a passos largos. Em nome da “justiça social” ela silenciará todos.

Open topic: deixa o homem trabalhar

Leandro Demori | Itália 06:32 | 31/08/2010

O homem, no caso, sou eu. Sem cargo de confiança no Governo Popular do Povo, sem cadeira em sindicato pelêgo, sem contrato para prestar consultoria para a campanha fraca$$ada do PSDB, hoje será um dia de capitalismo extremo aqui na Bahia europeia.

Discutam o que quiserem neste post, sempre respeitando as diferenças de cada um e lembrando que, no fundo, somos todos iguais — braços dados ou não.

Categoria(s):  Ziriguidum
Tags:

2 comentários

“Governar é roubar, toda a gente sabe. Mas há maneiras e maneiras. Por mim, roubarei francamente”

Leandro Demori | Itália 10:25 | 30/08/2010

O Ariel Palácios, um dos melhores correspondentes brasileiros no exterior, publicou ontem em seu excelente blog as reações de parte da imprensa argentina contra o Casal Kirchner.

Driblando as crises: fortuna dos Kirchners aumentou 710% desde que chegaram ao poder

Driblando as crises econômicas e a disparada da inflação, a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner prosperaram de forma exponencial desde que chegaram em 2003 à Casa Rosada, o palácio presidencial. Nesse ano, quando Kirchner foi eleito presidente, a fortuna do casal era de US$ 1,74 milhão. De lá para cá – e especialmente depois da posse de Cristina como sucessora em 2007 – a fortuna do casal aumentou aceleradamente.

No ano passado, segundo a declaração de bens oficial do casal, apresentada ao Departamento Anticorrupção e divulgada recentemente, o patrimônio era de US$ 14,16 milhões, o equivalente a um aumento de 20,65% em relação a 2008. No entanto, no total dos sete anos em que estão no poder, a casal Kirchner registrou um aumento de 710,55% de seu patrimônio.

A fúria foi desencadeada pela série de lapidações que o governo vem fazendo na empresa proprietária do Clarín, obrigando o jornal e se desfazer de seu provedor de internet (1 milhão de assinantes, líder em banda larga no país) e revendo os preços pagos pelo papel no qual o Clarín é impresso.

O papel em questão vem da empresa Papel Prensa, que tem como sócios o próprio Grupo Clarín (49%), o jornal La Nación (22,49%) e o Estado argentino (27,46% de controle direto e 0,62% através da agência oficial de notícias, a Télam). Para Cristina Kirchner, se trata de um monopólio que pratica concorrência desleal e “abafa” a opinião de jornais menores — que fatalmente compram da Papel Prensa a preços mais salgados.

A presidente também acusou os dois jornais de comprarem a Papel Prensa de um inimigo da ditadura argentina nos anos 70. O negócio teria sido feito com ajuda direta dos militares, que forçaram o antigo proprietário a se desfazer da indústria.

Para provar o favorecimento ao Clárin e também ao La Nación, o governo apresentou um estudo de 23 mil páginas chamado “Papel Prensa, a verdade”. Não é preciso ser gênio para saber que o estudo não diz “a verdade” — caso contrário não traria “a verdade” no nome — mas conta “uma verdade”, o que é bem diferente.

Visto de forma descontextualizada, parece óbvio que não pode haver total liberdade de imprensa quando os dois maiores jornais do país detêm a fábrica de papel que estampa também os seus concorrentes. E de fato é isso mesmo. A crise envolvendo a empresa, no entanto, é a enésima cena protagonizada por um tipo de governante que a América Latina parece estar fadada a carregar pela eternidade. O Casal Kirchner se tornou inimigo do Clarín após o jornal ter apoiado ruralistas contra o governo em 2008 e agora usa a Papel Prensa como arma política. Antes disso, sabe o que faziam Clarín e os Kirchner?

“Resolvi partir porque é impossível
Haver um romance formado por três
Seria esquisito você me dizendo
Agora querido chegou sua vez
Receber os beijos tão divididos
Entre dois amantes
Estar com você no mesmo instante
Pensar que um outro tudo lhe fez

Não querida não, amor a três
Assim não consigo
Já estou sabendo
Que pensa em outro estando comigo
Uma mulher e dois homens
É impossível, adeus querida
Eu vou partir nesta hora
Fique com ele agora
Viver em três não é vida
[Chitãozinho & Xororó - Amor a três - 1981]”

O jornal foi o principal defensor da candidatura de papai Néstor em 2003, quando a Argentina faliu e Carlos Menem estava louco para voltar ao poder. Até 2008, em troca de acesso palaciano privilegiado, o jornal continuou a apoiar o casal. Naquela época, o monopólio demonizado hoje por Cristina Kirchner — que agora quer “defender a liberdade de imprensa” — parecia ser menos monopólio. Escreve o Ariel Palácios:

Nesse intervalo, o holding foi beneficiado com a autorização para a fusão das duas maiores empresas de TV a cabo do país, a Multicanal e a Cablevisión, realizada em 2007. A operação foi possível graças à intervenção pessoal de Kirchner, que ignorou as críticas sobre práticas monopólicas. A Multicanal-Cablevisión atualmente gera mais de 60% do faturamento do Grupo Clarín.

Durante esse período, os jornalistas do “Clarín” tiveram posição privilegiada de acesso a informações do governo, enquanto que ignorava o resto da mídia. Em troca o Clarín era suave na cobertura dos problemas da administração Kirchner. A mídia crítica recluía-se aos jornais “La Nación”, “El Cronista” e “Perfil”.

A lua-de-mel dos puros acabou em 2008, quando o Clarín tomou partido dos quatro grandes grupos de produtores rurais do país contra o governo. No Congresso, após 18 horas de debates, os plantadores conseguiram vetar a “Resolução 125″ em julho daquele ano. A resolução previa aumento de impostos aos exportadores de grãos: 36 parlamentares votaram contra, 36, a favor. A vitória foi humilhante para Cristina porque o voto de Minerva coube a seu vice-presidente, Julio Cobos, que decidiu em favor dos fazendeiros, um ato visto como traição. O Clarín foi expulso da cama dos Kirchner.

As cenas do divórcio são emblemáticas e muito bem contadas pelo Ariel:

O ‘divórcio’ foi marcado pelo governo em 2008 com um comício perante 100 mil militantes no qual a presidente Cristina denunciou uma suposta conspiração para um golpe de estado armado pelos ruralistas, a oposição e o “Clarín”. De lá para cá, os Kirchners desferiram um intenso conflito contra o grupo.

Em meio a esta guerra o governo aplica amplo leque de armas, entre elas as visitas inesperadas da Receita Federal às casas de executivos do Clarín, enquanto que seus jornalistas sofrem agressões verbais constantes de militantes kirchneristas que os esperam nas portas de suas casas.

Além disso, os Kirchners fecharam as portas para jornalistas do grupo, que possuem grandes dificuldades para obter informações do governo. Ministros e secretários que passam informações aos jornalistas do Clarín correm o risco de sofrer punições. A recente renúncia de Jorge Taiana ao posto de chanceler foi parcialmente atribuída às suspeitas da presidente Cristina de que seu fiel ministro teria repassado informações a jornalistas do Clarín.

Enquanto isso, o Clarín aproveita qualquer desliz do governo Kirchner para desferir duras críticas.

“Conspiração. Golpe. Complô da oposição e dos jornais contra o governo que só quer o bem e a liberdade de imprensa”. A imprensa só é boa quando está do nosso lado. Não estivéssemos em Buenos Aires, estaríamos em Brasília.

Ariel Palácios diz que “integrantes da oposição argentina afirmam que o casal presidencial aplica o teorema de Calígula, pelo menos na primeira parte da frase” cunhada pelo escritor francês Albert Camus (1913-1960), que colocou na boca de seu personagem Calígula as palavras: “Governar é roubar, toda a gente sabe. Mas há maneiras e maneiras. Por mim, roubarei francamente”.

Nessa briga entre puros e democráticos senhores na foz do Rio da Prata, outra máxima resumiria melhor os dois lados da peleja:

Só não me diga que você é inocente. Porque isso insulta minha inteligência e me deixa muito irritado.”
- Michael Corleone, mafioso interpretado por Al Pacino em “O Poderoso Chefão”.

Febeapá (versão Tiririca)

Pedro Augusto | Alemanha 15:45 | 28/08/2010

É conhecida a compilação feita por Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, do Festival de Besteira que assola o País, apelidado carinhosamente de Febeapá. Nos volumes da coletânea original estavam leis, regulamentos, declarações e reportagens absurdas e/ou esdrúxulas.


Capa do Febeapá 1. Clique nela para ler os 3 volumes

Tendo o Febeapá original como modelo e pegando carona na pergunta feita pelo palhaço/candidato Tiririca, este Braziu fez um pequeno levantamento (2010-2009) das leis que nos regem, para que você, feliz eleitor, desde já, fique sabendo o que faz um deputado federal (além de diligentemente assinar requerimentos, é óbvio).

Lei 12.285 – Institui Apucarana/PR como a capital nacional do boné
Lei 12.316 – Institui o Dia Nacional do Fiscal Federal Agropecuário
Lei 12.303 – Institui a obrigatoriedade do exame de Emissões Otoacústicas Evocadas
Lei 12.301 – Constitui o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas – Feira Nordestina de São Cristóvão como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil
Lei 12.282 – Institui Imbituba como capital nacional da baleia franca
Lei 12.238 – Institui o Município de Ipê/RS como Capital Nacional da Agricultura Ecológica
Lei 12.208 – Institui o Dia do DeMolay
Lei 12.206 – Institui o Dia Nacional da Baiana de Acarajé
Lei 12.199 – Institui o Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento
Lei 12.198 – Regulamenta a profissão de repentista
Lei 12.103 – Institui o Dia Nacional do Bumba Meu Boi
Lei 12.092 – Institui o Dia Nacional do Cerimonialista
Lei 12.068 – Institui o Dia do Pescador Amador
Lei 12.054 – Institui o Dia do Movimento Pestalozziano no Brasil
Lei 12.025 – Institui o Dia Nacional da Marcha para Jesus
Lei 11.928 – Institui o Dia do Vaqueiro Nordestino
Lei 11.926 – Institui o Dia Nacional da Bossa Nova

Para finalizar em grande estilo, a lei que institui o único dia em que as leis devem –- por força de lei –- ser observadas no Braziu:

Lei 12.080 – Institui o Dia da Legalidade no calendário oficial brasileiro


“Agora eu já sei o que eu vou fazer em Brasília, abestado!”

Stanislaw Ponte Preta, se vivo, ficaria muito orgulhoso.

Pitagóricas XXIV

Leandro Demori | Itália 09:47 | 28/08/2010

“Netinho empata com Quércia em disputa pelo Senado em SP. Datafolha mostra que cantor subiu 7 pontos e chegou a 24%; Quércia tem 26% e Marta, 32%“. Netinho, Quércia e Marta. “São Paulo para os paulistas.” Respira fundo, Fumação.

“No RS, Ana Amélia Lemos sobe 11 pontos e lidera pesquisa”. Para quem não é do Bovinão: Ana Amélia Lemos é ex-colunista da Mídia Má local (RBS). Tico e Teco estão em dúvida: achei que u povu fosse inimigo da Mídia Má, Feia e Bobona (RBS Mente).

“Datafolha mostra Aécio e Itamar na frente na disputa mineira”.


“Frio na espinha, Aécio. Precisamos de umas gatas quentes

“‘Kassabão’ está de volta na versão Serra“.

“Oi. Perdi”

Novo estádio do Corinthians abrirá Copa de 2014 em São Paulo”.
+
Odebrecht negocia construção de estádio corintiano”.
+

= Parabén$. São Paulo obviamente precisa de um novo estádio [não]. Tá tudo bem.

“Vídeo do YouTube mostra Cabral confraternizando com milícia“. Mídia goLLpista chamando pessoas em situação de risco de milícia. Absurdo.

Servidora suspeita de quebra de sigilo de tucanos nega ‘esquema’”. Seria notícia se assumisse.

Serra ajuizou 61 ações contra Dilma em dez dias, diz TSE”. Ao menos essa disputa tá no papo. Quero ver a Dilma ajuizar mais ações. Parabéns, Serra.

José Sarney é preso por comprar carne humana com nota de R$ 3,00

Leandro Demori | Itália 12:49 | 27/08/2010

Juram por aí que Otto Von Bismarck cunhou a frase: “Leis são como salsichas; é melhor não saber como são feitas”. Nos últimos anos, a imprensa enriqueceu o ditado (fazendo parte dele): “Leis e jornais são como salsichas; é melhor não saber como são feitos”. Muito mais por escassez de tempo, salários duvidosos e gente inexperiente ou preguiçosa povoando as redações do que por trabalho mal-intencionado, está cada vez mais fácil enganar a classe.

Para ficar em um exemplo recente:

Internautas inventam jogador no Facebook e enganam imprensa espanhola [Revista Imprensa]

Recebo todas as manhãs o clipping feito pela Embaixada Brasileira em Roma com notícias na imprensa italiana que falam do Brasil. Hoje, duas delas me chamaram atenção (publicadas por Il Giornale e Agência Ansa):

Il Giornale Germania. Brasiliano apre un ristorante di piatti cannibali
Ansa Berlino: cucina cannibale in ristorante

Dizem que um brasileiro está abrindo um restaurante canibal em Berlim.

Sou totalmente crente em relação à vida real profunda [superior à ficção] e à capacidade empreendedora brasileira — duvido muito pouco das notícias absurdas que saem por aí. Mas essa foi demais, e realmente bastaram 5 segundos para descobrir (ou ao menos ter sérias dúvidas) de que é mais um hoax tão falso quanto a prisão de José Sarney ou nota de R$ 3,00. Um hoax que, de tão óbvio, pegou todo mundo:

Guardian
Spiegel
Ansa
RTP
Expresso

A Folha, que também deu a notícia, “até tentou entrar em contato com o restaurante”, mas não conseguiu. Diz a boa cartilha que, nesse caso, não se publica. Pois é.

updates importantes:
1. Vejo agora que vários veículos confirmaram o hoax;
2. Este post foi escrito hoje pela manhã (5 horas avante em relação ao Brasil);
3. Nenhum dos veículos que estão listados acima faz ressalva importante sobre a possibilidade de a notícia ser absurda. Ao contrário, todos deram como verdadeira. Não sou responsável por eventuais “ajustes” nos textos alheios.

Máfia wars

Leandro Demori | Itália 09:30 | 27/08/2010

Há no Facebook um jogo chamado Mafia Wars. Nunca joguei, mas imagino que gire em torno dos clichês da máfia italiana: formar clãs, pagar por proteção, conseguir apoio no mundo do crime, traficar drogas, armas e informação. Se não for isso, deveria se chamar outra coisa (não que eu me importe).

O tráfico de drogas é hoje a atividade mais lucrativa da principal máfia da Itália, a ‘Ndrangheta. O faturamento anual dos clãs calabreses é de cerca de 44 bilhões de euros ao ano. A segunda atividade da ‘Ndrangheta é investir no “mercado formal”, na bolsa de Milão, em obras e contratos do governo. A porta de entrada para isso é o tráfico de informações e a compra de gente influente que possa aprovar os contratos.

A quebra de sigilo ocorrida dentro da Receita Federal com senhas e computadores de funcionários públicos é exatamente isso: tráfico de informação. A pilantragem foi confirmada e os envolvidos da ponta, identificados. São funcionários que podem ter agido até mesmo sem compensação financeira direta, por “amor” a uma ideologia ou a um partido. A banca paga com muitas moedas.

Não há comprovação material de que as ordens para quebrar os sigilos partiram do PT ou de qualquer outro partido da base aliada. O fato, até agora, é que os cidadãos que tiveram suas vidas fiscais invadidas de modo ilegal são ligados aos PSDB ou a figuras do partido. Pode ter sido um inside job? Alguém do próprio PSDB pode ter armado essa? Cada um acredita na teoria que quiser enquanto os fatos não vierem à tona.

O importante de tudo isso é que se trata de banditismo, e banditismo se combate com justiça. Os funcionários acusados de envolvimento são a ponta de uma operação suja que usou estrutura pública e dados sigilosos a serviço de alguém. O que precisa ser feito, agora, é seguir o rastro para encontrar o capo desse projeto de organização criminosa.

Aqui na Itália, mafiosos apodrecem na cadeia por um ato prisional administrativo chamado 41-bis: não podem usar telefone, receber cartas, ter contato direto com pessoas, votar. É similar ao regime Regime Disciplinar Diferenciado aplicado no Brasil, mas com uma diferença fundamental: não tem prazo de validade e é aplicado, inclusive, aos condenados à prisão perpétua. Para o Estado italiano, crimes de máfia estão no topo da cadeia criminosa.

Tem gente chamando a quebra de sigilo da Receita de Watergate brasileiro. Eu não seria tão otimista. No caso de Watergate, os mandantes (ou boa parte deles) sofreram condenações jurídicas e políticas irreparáveis. Nos levamos bem menos a sério do que isso. Se na Itália há a ‘Ndrangheta, no Brasil temos uma máfia ainda pior e mais aceita socialmente: a ‘Ndanada.

Enquanto isso, no meio-oeste…

Fabricio Pontin | Estados Unidos 14:57 | 26/08/2010

Ontem, na porta de um dos pubs aqui de Carbondale, IL:


(clica para aumentar)

Traduzindo:

A partir de 18 de novembro de 2010
PESSOAS VESTINDO QUALQUER UM DOS SEGUINTES ITENS DE VESTIMENTA NÃO SERÃO ADMITIDOS NO RECINTO:

- Roupas largas de qualquer tipo
- Boné com aba reta
- Qualquer boné não utilizado com a aba para frente ou para trás
- Bonés com etiquetas ou adesivos visíveis
- Calças baggy, rasgadas ou de cintura muito baixa
- Camisas ou tops largos;
- Bandanas e do rags

OBRIGADO POR SUA COOPERAÇÃO
A DIREÇÃO


ay, y’ll


Não gostamos dessas pessoas

Leandro Demori | Itália 11:46 | 26/08/2010

O delegado Protógenes Queiroz, herói nacional, é candidato a deputado federal pelo PCdoB. Você vai votar nele, não vai? Protógenes é um injustiçado por ter sido afastado das investigações contra Daniel Dantas: está sendo acusado de ter cometido uma fila de irregularidades durante as investigações, entre elas, grampos e quebras de sigilos bancários ilegais. Para seus defensores, tudo ilusão, e Protógenes não passa de um perseguido.

Há dois problemas na equação complexa da vida real (sempre a realidade complicando tudo). Um é de ordem legal e acaba transformando Protógenes no delegado trapalhão: além de ter abusado de seus poderes e ter agido, conforme o inquérito que o denuncia, de forma ilegal, ele pode ser o responsável por livrar a cara de Daniel Dantas de condenações. Os abusos cometidos pelo delegado, conforme as investigações, sujaram os processos contra Dantas. É uma lição importante que os defensores de Protógenes teimam em não aceitar: investigação ilegal não pode, não adianta chorar e bater as perninhas. Qualquer conversa gravada de modo ilegal, aos olhos da Lei, jamais existiu. E agradeça por ser assim.

Outro problema é moral: pessoas acham que está tudo bem o que ele fez porque “era contra o Daniel Dantas” — e provavelmente o perseguido delegado será eleito deputado por compensação cósmica (tiraram sua carreira de você, nós lhe daremos outra). Sabe aquela conversa de “a lei é igual para todos”? Besteira. Se for contra alguém que não gostamos ou que temos certeza que é um criminoso, todos os métodos — legais e ilegais — devem ser empregados. O problema é que para ter certeza de que alguém é criminoso você precisa… investigar de maneira legal. Complicado, mas simples. Na prática, a teoria é outra.

Com nome e sobrenome, os jornais noticiaram ontem que funcionários da Receita Federal vasculharam os sigilos fiscais de pessoas ligadas ao PSDB, a Serra e a FHC. Assim como no caso de Protógenes, são funcionários do Estado utilizando métodos ilegais para atingir “objetivos maiores”. Os fins justificam os meios, “não gostamos dessas pessoas”, tá tudo bem. O fato de terem divulgado os nomes dos responsáveis é uma dádiva e mídia gratuita: os quebradores de sigilos poderão começar a carreira de aspirante a deputado hoje mesmo — 2014 é ali.

Oito em cada dez brasileiros sustentam a popularidade do presidente Lula. Essas quebras de sigilos deveriam dar cadeia, gerar uma investigação profunda e implacável e, sobretudo, despertar perplexidade nas pessoas [fim do trecho utópico]. Todo mundo, até que a lei não mude, é protegido pelo mesmo direito que foi atropelado dentro da Receita [não, aqui é o fim do trecho utópico]. Acontece que as vítimas dessa pilantragem institucional são ligadas ao PSDB, o partido que quer tirar o PT do governo. São os “adversários”, os “inimigos”, os “caras a serem combatidos”. “Não gostamos dessas pessoas”, então tá tudo bem.

O trem da alegria da nova União Europeia

Gabriel Brust | França 16:13 | 25/08/2010

O tema imigração povoa o noticiário francês de uma maneira quase camuflada. Uma nova polêmica envolvendo imigrantes surge praticamente a cada semana nas páginas dos jornais. Mas os textos são invariavelmente formulados como se o redator estivesse caminhando sobre ovos: o temor de soar preconceituoso é permanente. O politicamente correto impera na maneira como o francês se relaciona com este tema, e isso é perceptível não apenas na imprensa, mas também na convivência do dia a dia.

Puxar o assunto em rodas, seja na universidade ou no boteco, é certeza de receber olhares enviesados, que preferem mudar de conversa, ou discursos prontos vitimizando o imigrante em todos os casos – mesmo nos casos em que ele não tem razão. E, às vezes, de fato, não tem. Não há, portanto, um debate franco. Da mesma forma, não há manifestações explícitas de preconceito como verifiquei, por exemplo, na Itália, no breve tempo em que vivi por lá, e que verifico entre alguns dos italianos que conheci aqui na França. A relação do italiano com o tema é mais aberta e menos hipócrita: com frequência, o italiano assume seu pavor por africanos, árabes em geral e povos do leste europeu sem nenhum constrangimento.

Não há melhor ilustração para esse comportamento do francês do que as palavras do notório conservador Jean-Marie Le Pen no vídeo abaixo, que está sendo divulgado pelo L’Express. Ele flagra uma “tirada” engraçadinha de Le Pen disparando contra os árabes que vivem em Paris, mas a parte mais curiosa é a sequência, quando ele antevê a forma como sua piada será recebida.

“Comprei uma casa de campo para que meus filhos, que antes viviam no 15éme [região de Paris], pudessem ver vacas no lugar de árabes”.

E emenda:

“Não tenho medo de perseguição. Se eu fosse do UMP [União pelo Movimento Popular, partido de centro-direita de Sarkozy] diriam que [essa frase] foi uma derrapada. Mas já faz tempo que eu não derrapo mais, eu já estou fora da pista há muito tempo!”

Quase às gargalhadas, Le Pen ironiza: nem a direita francesa tem coragem de explicitar sua aversão à invasão árabe em Paris.

Sarkozy e os ciganos

A verdade é que, mesmo sem frases polêmicas como as de Le Pen, Sarkozy e seu UMP vem sim enfrentando a imigração em diferentes frentes de batalha – ainda que a política francesa para imigrantes seja uma mãe generosa se comparada a da maioria dos outros países europeus. Basta caminhar nas ruas de Paris para constatar. Os “sans-papier” (ilegais), por aqui, são classe organizada que faz até greve.

O episódio mais recente da política de imigração de Sarkozy, no entanto, tem contornos insólitos. Neste mês, o governo teria supostamente deportado cerca de 200 ciganos da etnia Rom para a Romênia. O “supostamente” fica por conta de dois aspectos: 1) os ciganos receberam em troca uma ajuda em dinheiro, sendo, portanto, uma “deportação voluntária” e 2) a Romênia agora faz parte da União Européia, o que permite que estas pessoas voltem a qualquer momento para a França, sem enfrentar nenhum tipo de impedimento. O governo anunciou simplesmente que fará um cadastro para que, no caso de estas pessoas voltarem, elas não ganhem o auxílio financeiro pela segunda (ou terceira ou quarta) vez. O que o governo fez, basicamente, foi caracterizar cerca de 50 assentamentos de membros da etnia Rom como ilegais. Mas ilegal não é a situação do cidadão. Confuso?

O trem da alegria da cidadania européia

Essas são algumas das contradições que começam cada vez mais a surgir conforme a União Europeia vai se ampliando. Outro dado que circulou pelos jornais franceses este mês e que dá a dimensão de como as reclamações do oeste vão aumentar é a quantidade de pessoas que poderão se naturalizar européias a partir da entrada de Hungria, Romênia e Bulgária no bloco: nada menos do que 5 milhões, além da própria população destes países. São moldavos, macedônios, sérvios, ucranianos e turcos: seus países não fazem parte da UE, mas 5 milhões deles poderão ser beneficiados por leis compensatórias de Hungria, Romênia e Bulgária destinadas a seus descendentes de imigrantes, como bem ilustra este gráfico do Le Figaro (clique para ampliar):

Em recente reportagem sobre o tema, o jornal destacou também outra frente de “invasão” de neo-europeus: a Espanha e seus latino-americanos. 225 mil pessoas, principalmente de Cuba, Argentina e Venezuela, entraram com pedido, em 2010, de cidadania europeia, baseando-se na lei sancionada pelo socialista José Luiz Zapatero que beneficia os filhos e netos de exilados da ditadura do general Francisco Franco. 117 mil já obtiveram o reconhecimento da cidadania. Os guichês da naturalização estarão abertos até o fim de 2011 e espera-se que até lá 500 mil latino-americanos venham a se tornar europeus.

A mais permissiva das leis de naturalização de descendentes de imigrantes europeus, no entanto, é praticamente ignorada neste debate, pelo menos aqui na França. É a da Itália, que desde a década de 90 dá direito a descendentes com qualquer grau de parentesco de buscar a cidadania italiana. A lei é amplamente aproveitada por brasileiros e argentinos desde então. Nada menos do que 35 milhões de brasileiros, em tese, estão aptos a solicitar a naturalização por descendência italiana. Resta saber se, com o novo trenzinho da alegria inaugurado pelos países do leste, todos terão que fechar a torneira ou, pelo contrário, abrirão cada vez mais.

Receba por e-mail:

Arquivo