O homem que faz pensar a Alemanha pós-crise

Gabriel Brust | França21:48 | 13/06/2010
Categoria(s): China, França, Mondo economia
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Com o futebol pragmático de sempre, a Alemanha goleou a Austrália por 4×0 esta noite, legando aos franceses, como de costume nos últimos tempos, uma inveja silenciosa. Não há nada de novo na objetividade alemã frente ao proselitismo inútil aqui destas bandas, mas o que mais espanta os franceses nesta ensolarada primavera europeia é que esta objetividade está mais uma vez transbordando para além dos campos de futebol. A Alemanha se recupera bem da crise econômica se comparada ao restante dos países da Europa ocidental, às custas de muitas medidas impopulares e que, ao contrário do que acontece na França, estão encontrando relativo apoio dos sindicatos e dos trabalhadores.

A mistura implementada pelo governo alemão é simples, mas suficiente para fazer com que seja acusado de “maquiavélico” por outros governos social-democratas europeus: redução de salários, redução de gastos públicos e nenhuma redução de impostos. As medidas não são de agora, o país vem se preparando para a crise desde a metade da década. Um símbolo dessa unidade nacional para se preparar para crise foi a negociação salarial da Volkswagen em 2006: nada menos do que todos os 100.000 trabalhadores de uma das maiores empresas nacionais aceitaram trabalhar mais horas sem ter nenhum reajuste salarial por isso. Tente imaginar isso na França ou mesmo no Brasil e dê gargalhadas.

Embora a previsão de crescimento para os dois países vizinhos não passe de 1,6% para este ano, a Alemanha apresenta alguns números invejáveis em relação à França nestes tempos de crise. A indústria daqui ainda não achou um meio de enfrentar a chinesa e amarga um déficit na balança comercial de 53 bilhões de euros. Nenhum desastre, você dirá, até ver os números alemães: 153 bilhões de euros de superávit na balança, com 36 bi exportados para a China em 2009, contra 7,9 da França. Quer dizer, se não nadam de braçada, também não perdem o sono os alemães com a atual crise.

Há uma nova Alemanha no ar, dizem os franceses, e que vai além dos números da economia. Como a que representar o abismo que separa os dois países está Richard Precht, o mais popular filósofo alemão da atualidade, um best-seller que usa camisa aberta, cabelo comprido, 45 anos com cara de 30. Nada mais francês do que um filósofo pop, você dirá mais uma vez. Só que Precht sabe colocar os franceses em seu lugar:

– É verdade que Badiou faz sucesso na França? – disparou ele em direção a um repórter da Le Point incumbido da de decifrá-lo. Prosseguiu: – Um maoísta? Vocês são loucos? Vocês não aprenderam nada com a história? Na Alemanha, um maoísta jamais será escutado.

A fala óbvia de Precht já seria suficiente para torná-lo o maior gênio da Europa atual, especialmente na terra da Sorbonne, o Campus do Vale francês em que Mao e Fidel seguem sendo nortes morais. Mas Precht foi além no ataque às farsas francesas. Sem pedir permissão ao repórter do Le Point, disparou contra o principal articulista da revista:

– E Bernard-Henry Lévy? Para mim ele é só um jornalista político talentoso.

Quanto ao seu próprio pensamento, bem, Richard Precht se orgulha de dizer que não é nenhum gênio, que fala de uma ética do cotidiano e que produz aquilo que seus conterrâneos mais querem: um pensamento prático, pragmático, útil para enfrentar a contemporaneidade. Cruza lições básicas de filosofia com questões atuais, como a cibercultura, a neurociência e os avanços da genética. Dessa forma, se tornou conselheiro de três dos mais altos dirigentes da Alemanha, com quem conversa a portas fechadas sobre a Europa, o capitalismo e a “alma do liberalismo”. Nas horas vagas, recusa três convites por semana para talk-shows populares – e aceita tantos outros.

– A necessidade dos meus compatriotas é imensa, e ninguém os responde. Eu sou um engenheiro do pensamento, eu desmonto os problemas e dou as ferramentas.

Objetivo como foi o ataque da seleção alemã esta noite, Precht acalenta seus conterrâneos em meio a uma crise que, por lá, parece já ter ares de passado.

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9 comentários to “O homem que faz pensar a Alemanha pós-crise”

  • Marcela [ 14Jun10]

    … E quanto o Brasil vai cresce esse ano (contra esses 1.6%)?

     
  • Gabriel Brust [ 14Jun10]

    Marcela, o Brasil cresceu 8 anos sem fazer uma ÚNICA reforma (previdência, trabalhista, tributária, política, etc…). Enquanto os alemães estão flexibilizando a lei trabalhista em plena crise. É aí que se separam “os meninos dos homens”. Eles podem estar mal agora, mas fazem certo pensando no longo prazo.

    E a banânia se ilude com o crescimento econômico puramente inercial dos últimos 8 anos. Vou explorar mais isso num post futuro.

     
  • Marcos [ 14Jun10]

    Cara, não entendi: “Um maoísta? Vocês são loucos? Vocês não aprenderam nada com a história? Na Alemanha, um maoísta jamais será escutado”?
    Tá, mas e Heidegger? Um exemplo tão fácil e tão à mão para se replicar?

     
  • Tudo a ver [ 14Jun10]

    Austerity plan spurs thousands to protest in Germany
    http://www.dw-world.de/dw/article/0,,5678564,00.html

     
  • Gabriel Brust [ 14Jun10]

    Marcos: imagino que ele se refira a dar ouvidos a um maoista convicto em pleno ano 2010.

    Tudo a Ver: é claro que há reações, mas nada comparado ao que os franceses estão fazendo por aqui para evitar a reforma da previdência (para citar um exemplo).

     
  • Fábio Carvalho [ 14Jun10]

    “O Brasil cresceu 8 anos sem fazer uma ÚNICA reforma (previdência, trabalhista, tributária, política, etc…)”.

    Houve, no fim de 2003, uma reforma da previdência (EC 41). É correto afirmar que tal reforma teve impacto positivo nas contas a médio e a longo prazo. Foi instituída, por exemplo, a taxação dos inativos. Déficit na previdência do setor público persiste e EC 47/05 “suavizou” alguns efeitos da EC 41/03.

     
  • fernando [ 15Jun10]

    Crescimento inercial não existe, Gabriel. De novo entra naquele papo que falei num post anterior: não existe ‘crescimento represado’ e, muito menos, crescimento ‘inercial’.

    O governo fez a reforma da previdência – um negócio mega impopular e provavelmente a melhor coisa que ele fez.

    Mas o que tu não pegou ainda, Gabriel, é que o crescimento brasileiro se dá por políticas fortemente keynesianas. Sim, eu sei de todos problemas que o keynesianismo gera (como, por exemplo, a eterna roda na qual fica cada vez mais difícil baixar impostos). Mas o fato é que o keynesianismo está dando muito certo aqui na Banânia.

    Eu vi que num post mais recente tu citou algum jornalista que falou que o melhor que Lula teria feito é não ter feito nada. Não vai nessa. O crescimento brasileiro é basicamente um crescimento pautado em investimentos públicos (e aí entra todo o pepino que falei num post anterior que pode – ou não – acontecer a longo prazo). Mas de qualquer forma, a Alemanha também tem uma forte política keynesiana (e no teu post fica a impressão de que a Alemanha é liberal, o que é um absurdo em todos os aspectos). Se eles estão se movendo no sentido liberal, é mais um ajuste do que uma reforma.

    E, finalmente, o que eu achei mais absurdo nesse teu post é a pagação de pau pra um país que vai crescer 1.6% enquanto no post anterior tu estava criticando os jornalistas que pagam pau pro Brasil, que vai crescer 5.5, 6 ou 6.5 esse ano.

    O fato é que apesar de eu não concordar (e visivelmente tu também) com as políticas federais, elas estão sim dando certo.

    O mundo perfeito certamente seria um o qual o governo cobrasse quase nada de imposto e só o aplicasse em coisas básicas e estritamente necessárias – e sempre através de uma concorrência justa tipo vouchers ou outros. Mas como tu bem sabe, Gabriel, o ótimo as vezes é inimigo do bom.

     
  • Gabriel Brust [ 15Jun10]

    Pagação de pau? Qual parte do “A Alemanha se recupera bem da crise econômica se comparada ao restante dos países da Europa ocidental” você não entendeu?

    Me viu falando em “recuperação em ritmo chinês” ou chamando a crise de “moraolinha”?

     
  • Madison [ 17Jun10]

    Marcela, o Brasil cresceu 8 anos sem fazer uma ÚNICA reforma (previdência, trabalhista, tributária, política, etc…). Enquanto os alemães estão flexibilizando a lei trabalhista em plena crise. É aí que se separam “os meninos dos homens”. Eles podem estar mal agora, mas fazem certo pensando no longo prazo.

    E a banânia se ilude com o crescimento econômico puramente inercial dos últimos 8 anos. Vou explorar mais isso num post futuro.

     

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