Há uma faceta bastante irritante (na verdade, há várias) da imprensa francesa que é a do deslumbre com o poder. Não no sentido de querer se aproximar do poder, mas no de conferir um glamour excessivo às atividades do “chef d’État”. Sarkozy costuma ser capa de 90% das revistas semanais por aqui. Mesmo que não haja assunto relevante que envolva o presidente e mesmo que a sua eleição ou sua vida pessoal já tenham deixado de ser novidade há muito tempo, vejo nas bancas reportagens forçando a barra na linha “o lado oculto de Sarko” ou “a rede de intrigas que cerca Sarko”.
E aí você vai ler, e não há nada. O texto é uma peça vazia. A chamada da capa era uma fantasia, aparentemente para vender revistas. É espantoso que os editores franceses avaliem como realmente apelativa uma capa que traz Sarkozy estampado. No Brasil, capa com apelo de banca é “as 100 maneiras de curar o câncer comendo rabanete” ou “o caso do pai torturador”, jamais a banalidade da política.
Uma boa ilustração desse papel ridículo da imprensa na França — obviamente incentivada pelo ainda mais ridículo interesse das pessoas no suposto glamour da vida do chef d’État — chegou às livrarias esta semana. “Sarkozy Côté Vestiaire” é nada menos do que um livro de 256 páginas falando sobre… os hábitos esportivos de Sarko! E não se trata de uma edição obscura, fadada ao esquecimento precoce. É assinada por dois jornalistas relativamente conhecidos (Bruno Jeudy e Karim Nedjari, do Le Figaro e Canal +) e ganhou até resenha positivíssima na Le Point desta semana. A capa do livro traz uma patética foto de Sarkozy correndo.
Lembrei deste meu incômodo com o deslumbre da imprensa francesa — e de seus leitores — ao ler as manchetes dos jornais brasileiros hoje pela manhã a respeito do crescimento do PIB trimestral divulgado pelo governo. O que parece estar em curso na imprensa brasileira é outro tipo de deslumbramento, mas igualmente costrangedor e ainda mais nocivo que o francês. No lugar do glamour dos bastidores do poder, o deslumbre é com a chegada de uma suposta “nova era” na banânia. A recuperação da economia do país pós-crise é admirável, sem dúvida, mas vender isso como “índice chinês” é enganar o leitor e o pior: é publicar o release do governo. A maior parte dos jornais, para poder dizer que saiu com algum “olhar crítico” apesar da manchete, apostou em uma linha de apoio, no final, lembrando “o risco de superaquecimento”. Pois era esse tipo de crítica ingênua que Guido Mantega esperava dos jornais ontem ao dar a notícia. É o mesmo que você dizer para o seu amigo “é, mas a ressaca do dia seguinte foi terrível…” depois de contar que passou a noite bebendo whisky no apê da Ellen Roche!
O que Guido Mantega não queria ler na capa é o óbvio, que o pulo de 9% do primeiro trimestre de 2010 só aconteceu porque partiu de outro recorde: queda de 2,1% do PIB no primeiro trimestre de 2009. O fato é que o Brasil encolheu 0,2% em 2009 e a China cresceu 8,7%.
O caso do PIB é só um entre muitos outros exemplos, que passam pelo Bolsa Família, pelo Luz para Todos e pelo PAC. Em cada um destes casos a versão do governo pode ser desmontada facilmente fazendo apenas jornalismo. A questão é que esse neodeslumbre da imprensa brasileira é fato e me parece claramente mais grave nos veículos locais ou regionais. Enquanto os grandes jornais, praticamente todos baseados no Rio de Janeiro e em São Paulo, costumam ser chamados de “ranzinzas” simplesmente porque fazem jornalismo, e não propaganda do governo, vemos uma tendência, entre os regionais, em celebrar “um novo Brasil” de uma forma incrivelmente perigosa para o seu leitor e para o país.
As causas? São muitas. Incluem sim um maior grau de dependência a uma tradicional política de “cordialidade” de seus proprietários com o governo federal, mas creio que passa muito mais pela incompetência e por uma terrível cultura da “boa notícia”, do “jornal que sorri para o leitor”, que anda cada vez mais popular entre os chefes de redação. Temos no Brasil jornais que são verdadeiros “cases” de arrevistamento bem sucedido, o que passa muito pela maneira “amigável” através da qual conseguem se comunicar com seu leitor. Isso é ótimo. Só que essa maneira amigável, às vezes, resvala para o mau jornalismo – ou simplesmente a falta dele. Fazer jornalismo implica em encarnar o chato, aquele cara que te lembra, depois da noitada com a Ellen Roche, que o problema não é a ressaca. É o cara que te pergunta: “Tu tem certeza que tu dormiu com a Ellen Roche? Tu bebeu demais, sabe como é… As loiras todas se parecem….”. E por aí vai.










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A grande questão, caros colegas, é que jornalismo de verdade nunca vendeu jornal. Aliás, no Braziu, ‘jornalismo de verdade’ é um conceito que precisa ser revisto. Investigação, isenção, compromisso com a informação, são as exceções. A verdade do jornalismo brazuca passa pelo Ego
Aqui na Itália uma loira pode ser facilmente um travesti.
O tamanho da vovozela! Se assustei aqui!!!!
Viva!
Viva!
Viva!
Resolvi até ler o post. Nível Paulo Coelho de argumentação econômica. Muito bom…
Ufa, tava demorando pra aparecer um petista. Eu tava achando até sem graça escrever por aqui. Chamas os outros, por favor.
“Nivel paulo coelho”
OBA! ‘BORA FICAR RICO!
putz, Demori foi mais rápido. ia dizer que no fim a economia é o Ronaldo (promete, promete, mas só tá INCHADO e não faz gol), o uísque era paraguaio e a Ellen era um travecão.
Embora tenha falhas no plano econômico brasileiro, não são essas que tu apontou, Gabriel.
O curto e médio prazo estão dando certo sim. Ao contrário do que tu pensa, não existe “crescimento represado” (eu já percebi que jornalistas tem dificuldade em não entender isso). O país realmente está super-aquecido no curto prazo e tende a manter isso no médio. Saímos de uma grande crise com poucas perdas e entramos num período de grande crescimento.
O problema – ou no mínimo, a questão – é o longo prazo.
Só pra te citar um exemplo: o Brasil tem 300bi de dívida líquida. Isso é pouco pro tamanho econômico brasileiro. Mas tem um detalhe: a dívida bruta é 1.2 tri. Então fica aquela questão no ar: se o governo brasileiro levar calote em larga escala das empresas que são credoras dele, nossa dívida bruta tende a virar líquida.
Claro que o governo tende a argumentar que justamente porque o curto e o médio prazo estão dando certo, a chance de calote contra o governo diminui bastante. E eles estão certos no argumento. Só estão errados ao pressupor que uma segunda crise global não vá acontecer. Porque se acontecer, aí corre, mano.
No mais, como falei em outro post aqui, vocês podiam tentar criticar o governo naquilo que ele tem realmente de ruim – e não ficar fazendo intriguinha. E, como os posts do Walter, esse post é o resumo de porque a DiLLma vai ganhar: a oposição consegue no máximo fingir que entende de economia ou rel. internacionais e falar bobagem.
postem!
Ah, sim, Gabriel: eu não sei o que tu considera jornalismo de qualidade (eu não sou da área). Mas eu, pessoalmente, gosto muito da Economist. Volta e meia eles falam alguma bobagem (nada no mundo é 100%), mas em geral eles são os mais acurados que tem.
E até eles estão batendo palmas pra economia brasileira.
@fernando
“eu já percebi que jornalistas tem dificuldade em não entender isso” = jornalistas entendem tudo sem nenhuma dificuldade. Ponto pra eles.
“acurado” = anglicismo esdrúxulo; se o Aldo Rebelo ler isso é cana. Evitar.
(prometo que esse é o último post).
Já falei aqui que trabalho com pesquisas de mercado, não?
Então deixa contar uma coisa: esses dias peguei uma pesquisa pouco usual (era relativa a um bairro bem grande da região metropolitana de poa de classes C, C- e D ). Vulgo bairro humilde. Universo de 50 mil pessoas. Amostra de 1.500.
Coletamos tudo e etc. E aí um dos dados da análise me chamou anteção:
desemprego: 3.4%.
E aí entra naquilo que eu falei de fazer oposição mal feita: qualquer um que more nesse bairro, que visivelmente já passou por picos de mais de 20% de desemprego, sabe que nossa economia está bem sim. Como diabos tu vai tentar convencer um cara que nunca teve emprego – e que agora tem – de que a economia vai mal?
jorge: Aldo Rebelo lê?
“Porque se acontecer, aí corre, mano.”
CERTAMENTE acontecerá. mas primeiro tem a Copa, que é o que importa.
Não entendo nada de economia ou de relações internacionais. Nem sou da “oposição”. E agora? Vou ali pedir um CC.
“…se o governo brasileiro levar calote em larga escala das empresas que são credoras dele, nossa dívida bruta tende a virar líquida”
Acho que só pode se levar calote dos devedores, não dos credores.
Outra coisa: “a grosso modo”, a diferença entre a dívida bruta e a liquida são os títulos da próprio governo que estão de posse do Tesouro ou do BACEN e as Reservas Internacionais (o perigo aí é tomar um calote dos USA – mas aí a dívida expressa em dólares também deve despencar…)
Quanto ao Guardian: bom jornal (o melhor nos tempos atuais) mas, como todo os outros estrangeiros, costuma achar que o Brasil está sempre muito melhor do que na verdade está, e quando aponta defeitos são os costumeiros clichês terceiromundistas. O Brasil dos últimos anos é o ponto de apoio do otimismo mundial. Daqui de fora eles nos vêem como uma ilha onírica onde as coisas estão dando muito certo e onde todo mundo é feliz e está partilhando dessa riqueza gerada.
isso, isso, canoas. devedores.
quanto a tua análise, ela peca num ponto: mesmo o que está em poder do bacen é aplicado de uma forma ou outra. Assim, sempre tem um devedor externo.
No mais, o que tem se feito muito nesse governo é uma injeção absurda de capital em bancos de ‘desenvolvimento’, agencias de fomento, etc (tipo o BNDES). Isso entra dentro do calculo da dívida bruta – e o pior é que a dívida volta com menos juros do que é pago na emissão de títulos.
Acho que nem sempre tem um devedor externo, pois o BACEN tem que ter um estoque de títulos para fazer o ajuste diário da taxa de juros.
Não sei se os créditos do BNDES (esse sim tem risco considerável de levar calote) são abatidos no cálculo dívida líquida.
Teria que pesquisar melhor, mas isso só depois da Copa…
O negócio é o seguinte, a diferença entre a dívida bruta e a liquida é a divida gasosa…..
E dá-lhe vuvuzela!! Bra-sil-sil-sil!! asjkgfvsd!!
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Fernando, boa análise a tua. A questão é que em nenhum momento eu me propus a fazer uma. O post é sobre a imprensa e sobre o tal “deslumbre”, na maior parte das vezes injustificado.
canoas: grande parte nao fica em poder do BACEN itself. Mas eu sinceramente não sei que tipo de contrato é feito. Provavelmente é simplesmente a outorga da custódia a bancos privados – pra economizar custos de translado. O tipo de coisa que só da problema se o mundo quebrar MESMO, suponho.
Mas a grana que é jogada no BNDES (menos o custo operacional) é colocada no cálculo como ‘a ver’ (o que aumenta a diferença entre bruta e líquida). Mas como falei antes: como a economia vai bem, esse dinheiro só cai no ‘alto risco’ se uma crise global estourar no curto ou médio prazo (o que NINGUÉM sabe se vai acontecer). Ainda, tem o problema da diferença entre juros pagos e juros recebidos (que vira custo extra pras contas públicas).
Mas, claro, como o país está praticando a tal da ‘banda cambial’, é possível (isso precisa calcular) que só o dinheiro gerado extra com a especulação governamental do dólar pague essa diferença de juros subsidiados. (aliás, reserva de dólar entra também nesse cálculo do bruto/liquido).
Gabriel: eu entendi que é sobre a imprensa. E eu não sei nada dessa área. O meu ponto é que, longe de julgar o grau, a exaltação é justificável (mesmo que tudo não seja um mar de rosas).
Concorda? Ok.
Não concorda? Petista.
“De repente eu me lembrei que havia me julgado um idiota por subir o Alto do Perdão com tanta dificuldade, enquanto aqueles turistas tinham conseguido o caminho mais fácil. Sabia que não era verdade, que eu estava sendo cruel comigo mesmo; os turistas estavam em busca de sol, e eu estava em busca de minha espada. Eu não era um idiota e bem podia me sentir como tal. Cravei com força a unha do indicador na raiz da unha do polegar. Senti uma dor intensa, e enquanto me concentrava na dor, a sensação de que era um idiota passou.
Comentei com Petrus e ele riu sem dizer nada.”
Trechos de “Diário de um Mago” copiados e colados aleatoriamente.
Meio petista este Kalash, neh?
Petista completo. Vai ler o Sul21, por favor.
Eu não sairia por aí chamando qualquer um de petista. Vai que o sujeito anda armado?
Que é isso gente!
Sou apenas um rapaz latinoamericano sem CC, ocupa$ão ou per$pectiva$…