Paris-Brasília. (ou por que você jamais encontrará explicações sobre o acordo Irã-Brasil-Turquia sem olhar para o deserto)
Antes de ler o post é obrigatório assistir ao vídeo. Não precisa ver tudo — a narração é em italiano — mas ao menos entenda o que está acontecendo.
Os corpos do filme acima foram encontrados no Saara. São uma amostra sobre a areia dos mortos que o deserto consome em nome de uma guerra bilionária promovida na África — tantos outros foram engolidos sem honras fúnebres ou sepultura. Essa gente deveria ser enterrada em Roma, em Tripoli, em Paris ou em Brasília. Ou em Washington, em Teerã, em Pequim, em Moscou. Ou no quintal da sua casa se você confia na democracia participativa somente quando ela serve para aplaudir qualquer acordo diplomático que poderia ter sido assinado em um rolo de papel higiênico.
O vídeo foi obtido pelo repórter da revista L’Espresso, Fabrizio Gatti. Gatti infiltrou-se em um grupo de imigrantes ilegais, andou de caminhão, ônibus e a pé por parte do norte da África até pegar uma embarcação clandestina na Líbia, destino Lampedusa, o ponto mais ao sul da Itália, pedaço de paraíso desejado por milhares de africanos que fogem da miséria e de conflitos armados todos os anos.

O que Gatti descobriu? Que a imigração feita em barcos como esse aí de cima não é desordenada e ocasional como muitos pensam. E que por trás da indústria de exportação de seres humanos montada por africanos e europeus — que chegam a cobrar 1,5 mil euros por pessoa pela travessia até a terra prometida — está uma guerra promovida pela França em nome de uma das matérias-primas mais importantes da atualidade: o urânio, tão discutido no Brasil dos últimos dias, aquele mesmo que o Irã quer enriquecer sob “fins pacíficos” e que o nosso país apoia e acha que está tudo bem.
Escreve Gatti:
“A estrada dos traficantes de homens foi aberta graças à guerra dos tuaregues. Uma guerra pelo urânio sustentada pela França na região de Agadez, no Níger. Os tuaregues, ajudados e armados pela França, desencadearam uma ofensiva no Saara pelo controle da região de Imouraren, onde está a segunda maior mina de urânio do mundo, menor somente do que a de Mc Arthur River, no Canadá.”
O Níger foi colônia francesa até 1958. Em 1960, depois de uma período de transição, proclamou independência. Desde aquela época, o frágil governo se equilibra entre períodos republicanos e juntas militares, golpe atrás de golpe. No meio disso estão os tuaregues, etnia que vive espalhada por diversos países da África Ocidental. Os tuaregues querem um país e, para isso, parte deles, como os que vivem no Níger, estão armados.
A guerra tuareg foi inflamada pela França porque, em 2007, o país perdeu o monopólio da extração do minério no Níger. Paris gozava do benefício desde o fim da colônia, apoiado em um direito de prioridade de compra imposto ao Níger quando este se tornou independente. O governo local enfraqueceu a França ao conceder direitos de exploração na região de Agadez, a zona tuareg, ao Canadá (15 permissões), Austrália (7), África do Sul (6), França (4), Índia (3), China (2), Rússia (2), Estados Unidos (1), Emirados Árabes (1), Reino Unido (1) e Ilhas Virgens (1). A França, em contrapartida, desestabilizou o país e a região ao promover novamente o levante étnico tuareg justamente na zona mineira.

Essa é a Areva Tower, sede da empresa estatal Areva, gigante atômico francês responsável pela exploração de urânio no Níger. Sabe o que aconteceu depois de 2007, quando a guerra civil botou a região de Agadez nas mãos dos tuaregues? Fabrizio Gatti conta:
“O Níger concedeu à sociedade Areva mais áreas de extração no país. A partir de 2012, a Areva terá tanto urânio que, para amortizar o prejuízo de 1,2 bilhões de euros com a empreitada, deve encontrar clientes.”
A Areva já encontrou seus clientes. O Brasil é um deles.
“A empresa francesa Areva, líder no setor de energia nuclear, anunciou nesta segunda-feira, em Paris, a assinatura de um contrato com as Indústrias Nucleares do Brasil (INB) para o fornecimento de serviços de conversão de urânio no valor de US$ 32 milhões.”
Mas o grosso está aqui:
“O que diz o acordo com a Areva? A Areva fornecerá os equipamentos e financiará o projeto?
A Areva, resultante da fusão da empresa alemã Siemens KWU com a francesa Framatome, tem um contrato comercial válido para sua participação na construção de Angra 3, através do fornecimento de bens de serviços importados. Como esses contratos são muito antigos, encontram-se em andamento negociações para atualização dos mesmos. O financiamento para esse escopo importado de bens e serviços – cerca de 770 milhões de euros – deverá vir de empréstimos de bancos europeus, alguns dos quais, reiteradas vezes, vêm confirmando o interesse em participar do financiamento do empreendimento” [Eletrobras]
O mapa abaixo mostra a rota do urânio e a rota dos imigrantes. Ambos se movem, como se vê, em uma zona de conflitos internos, desestabilizada. A quantidade de gente que arrisca a própria vida em botes pelo Mediterrâneo está diretamente ligada ao jogo sujo promovido pelos interesses nucleares na região. [clique nas abas para ver o infográfico em flash]
O tamanho da confusão na intrincada diplomacia internacional é tão grande que confunde. Parece ser feito para isso. Considere que o Irã é, hoje, um bode na sala. Enquanto todo mundo olha pra ele, muita sujeira corre pelas laterais.
Por que China e Rússia, que até dias atrás preferiam o diálogo com o Irã, agora apoiam sanções após o acordo firmado entre Teerã e Brasil/Turquia? Não por acaso, China e Rússia desfrutam de concessões nas minas do Níger.
Por que Obama pediu para que o Brasil firmasse o acordo exatamente nos mesmos termos assinados por Lula e depois deixou Hillary Clinton partir para o ataque?
Música para refletir:
Tags: atômica, Brasil, França, Guerra, Irã, Níger, tuareg, Turquia, urânio
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