Fazendo sentido da reforma da saúde

Fabricio Pontin | Estados Unidos15:00 | 15/03/2010
Categoria(s): DataBraza, Eleições 2010, EUA
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Se tem um ponto de compreensão quase impossível no atual cenário político aqui nos Estados Unidos é o tal do Health Care Reform. O Washington Post, que ano passado virou o melhor jornal do país, tem toda uma sessão dedicada para elucidar pontos do debate. Uma grande parte da discussão aqui é o quanto as pessoas sabem sobre a proposta e o quanto todo o ruído (dos dois lados) não tá fazendo um trabalho de desinformação.

Antes de mais nada, vou tentar explicar brevemente como funciona o sistema de saúde aqui. Para início de conversa, não existe um plano federal de saúde universal. Isso significa que se tu cruza a fronteira entre Illinois e Missouri tu vais estar exposto a um plano diferente, a um tipo de proteção diferente – e legislação sobre os planos privados, também Portanto, muitas vezes ao mudar de um estado para outro tu podes perder proteção – porque teu plano privado não tem cobertura, ou porque tu estavas em um lugar com um plano público muito bom (tipo MA) e foi para um lugar com um plano público inexistente (tipo TN). Então tu precisas comprar bônus para cobertura ampla, ou te informar se teu plano privado oferece uma cobertura para além do Estado onde tu moras. Do contrário, tu te arrisca a ir parar em uma emergência sem um plano que te garanta cobertura.

O que acontece? Bom, depende. Não é tão horrível quanto o que o Michael Moore te contou no SICKO, mas é bem perto daquilo. No geral o que acontece é que o pessoal chega no hospital, recebe tratamento e depois recebe uma agradável conta pela a prestação de serviços. Muitas vezes tu chega no hospital acreditando ter cobertura, passa do atendimento de emergência para o ambulatorial e percebe com alegria que na realidade teu plano não tinha cobertura ambulatorial adequada e agora tu vais ter que pagar pelo atendimento. Ou pior: teu plano só tinha cobertura de consulta, não tinha cobertura de emergência! É normal tu teres um plano que cobre 80% das despesas ambulatoriais e 100% das de emergência no papel, só que na letra pequena tu percebe as condições de cobertura e tu vais ver que eles não cobrem no caso de “condição prévia” – ou seja, se tu tens uma condição crônica é possível que teu plano alegue que não vai cobrir aquele procedimento, já que ele é prévio a tua assinatura do contrato.

Pior ainda: é comum tu teres uma cobertura emergencial garantida, mas não conseguir suportar o impacto do tratamento completo – pode ser pela tua incapacidade de pagar sozinho pelo tratamento, ou pela negativa de cobertura do teu plano privado (que tu pensavas que ia te ajudar). Aí é o caso que tu vai ver gente extraindo o próprio dente por não conseguir pagar o procedimento de tratamento de canal, ou estrangeiros viajando de volta ao país de origem para fazer um determinado procedimento. Em caso de lesão muscular isso é especialmente comum: o cara consegue o tratamento de emergência para um braço quebrado, mas todo o resto do tratamento muitas vezes não é sequer suportado pelo seguro. Pior ainda: se tu não tens um plano de saúde e chegar em um hospital com o braço quebrado, eles podem até te dar um tratamento emergencial, mas vão te cobrar por isso.

O que acontece então é que se torna normal tu adquirir uma dívida pesada para conseguir um tratamento. No geral, a dica é “não fique doente!” e como todo mundo fica com medo de ir para o hospital (já que tu podes ter uma surpresa desagradável), a tendência é o pessoal se auto-medicar. Daí tu crias uma industria de medicamentos que tu compras no balcão para tentar resolver uma situação que precisaria de ajuda médica. Consequentemente, as pessoas ficam doentes por mais tempo e ainda arrumam um problema de dependência química. Ou pior: arrumam receitas fraudulentas – ou roubadas – para comprar uma determinada droga.

De novo, este cenário é mais comum na medida que o Estado te oferece menos benefícios, e o Medicare, junto com o Medicaid, tenta dar uma aliviada nesta situação ao oferecer um valor mínimo de cobertura. Mas o Medicare funciona como um plano privado administrado pelo Estado. Tu pagas pelo Medicare individualmente, ou contrata uma empresa privada para manejar o Medicare para ti. O Medicaid funciona como uma espécie de “auxílio farmácia”, tu pode apelar para descontos em medicamentos genéricos ou pedir para as farmacêuticas te cederem alguns medicamentos específicos (boa sorte!).

Ou seja, os Estados Unidos não têm um plano público de saúde. Não vem me dizer que o Medicare é um plano público, não é. Também não vem me dizer que a reforma não tem apoio público. A coisa não é assim tão simples, basta dar uma olhada nos números.

Em termos brutos, 45% da população diria para o seu congressista votar a favor do plano. 48% votaria contrário. A princípio, então, a balança pesa contra o plano público, pois os americanos são individualistas, não gostam de governo e não se importam com a saúde alheia, certo?

Não, completamente errado.

O Wordle, que é uma ferramenta que calcula a densidade de uso de determinadas palavras em uma pesquisa, mapeou a frequencia dos termos usados por pessoas que apoiam e pessoas contrárias ao atual plano.

Pessoas que apoiam o plano destacaram as seguintes palavras:
Wordle: healthcare

Destacam-se aí “povo”, “necessidade”, “bancar”, “seguro”.

E as pessoas que não querem o plano?
Wordle: healthcarebad
Destacam-se aí “governo”, “custo”, “povo”, seguro”

Talvez tu ainda queiras assumir este debate em termos de individuo contra governo. Tudo bem, até aqui o debate denota uma tensão entre o custo de deixar a saúde pública na mão do governo e o custo de não ter um gerênciamento público da saúde pública. No fim das contas, tu podes apontar para pessoas que de um lado perguntam “Como o governo vai gerenciar isso sem quebrar o país no processo?” (o valor principal fica em CUSTO DO GOVERNO) e do outro perguntam “Como é que eu vou fazer para pagar por um plano de saúde privado nesta economia?” (o valor principal fica em NECESSITO UM SEGURO).

Mas estas são as respostas imediatas ao plano de saúde e elas respondem nos termos utilizados tanto pela bancada que apoia quanto a que contraria a medida. Ou seja: estas são respostas mal informadas.

Como assim?

Vamos pegar a resposta de indivíduos quanto as propostas do Obamacare, uma por uma:

A primeira coluna marca o coeficiente de favorabilidade, pensem em “zero” como neutro, 50 como muito favorável, 100 como totalmente favorável, -50 como muito contrário e -100 como totalmente contrário. Uma forma simples de ver isso é pelas cores: quanto mais verde, mais favorável é a percepção da reforma. Quanto mais vermelho, mais negativa.

A segunda coluna é o porcentual bruto de “awareness” (traduzi como “ciência”, poderia ser “informação”) sobre aquela determinada medida no plano de saúde do Obama. Onde o espaço está em branco, o percentual é o mesmo do anterior.
(traduzi a tabela do Nate Silver, aqui)



Tu aindas estas inclinado a ver isso como um problema com o papel do governo na saúde pública?

Vamos focar no aspecto técnico e cruzar os dados: o maior negativo bruto é o -32 para o débito público de 320 bilhões de dólares, -40 a obrigação individual de adquirir um plano de saúde e -17 para o adiamento da eficácia da medida até 2013. Só que o débito público é algo que as pessoas entendem .63% das pessoas que responderam a pesquisa sabem deste custo, porque é este custo que elas escutam o Glenn Beck propagandear na Fox. Por outro lado, entender que o plano pode diminuir o déficit público no longo prazo, através de uma regulação mais rigorosa dos planos privados e da garantia de saúde pública mínima para indivíduos é um pouco mais difícil – sobretudo pela confusão das medidas que vivem entrando e saindo do plano. Daí que apenas 48% sabem que a medida reduz o déficit, 44% sabem que a medida melhora a cobertura do Medicare e 58% sabem que ela permite a troca de plano.

Se tu colocares isso em perspectiva, tu vais perceber que os 48% que colocaram GOVERNO e CUSTO como prioridade estão associando a perda de segurança econômica individual com este rombo que o plano de saúde proposto pelo Obama vai causar enquanto é implementado. Eles também colocam este custo como algo que eles valorizam MUITO NEGATIVAMENTE (-37 na média , tu podes tentar brincar um pouco aqui e colocar a média específica dos republicanos em -67 e ver o que acontece com a possibilidade deles apoiarem este plano).

Só que a escolha deste republicano é completamente irracional – nos termos do próprio republicano, diga-se de passagem. Isso é porque a manutenção da atual configuração do sistema de saúde norte-americano (i.e.: inexistente) contribui para o aumento do déficit público, enquanto os custos da implementação do novo sistema vão diminuir o déficit público no longo prazo.

Ou seja, se o republicano ao ser informado (e temos motivos para acreditar que ele não está informado sobre isso) da relação custo-benefício do novo plano se manter irredutível na sua posição contrária ao plano, então podemos dizer que na verdade ele não valoriza “GOVERNO” e “CUSTO” na forma como ele havia denotado antes. Mas não temos motivos para pensar que ele ficaria nesta posição, até porque a tabelinha ali em cima coloca claramente um apoio (+22, algo como “acho bonzinho”) geral as medidas propostas (isso computando a rejeição notável ao custo).



Como justificar então que a proposta não passe?

Parece claro que a questão é o nível de informação dos constituintes, que estão pressionando seus respectivos congressistas para votar contra a medida, não está no melhor interesse dos constituintes – ou seja, eles estão pedindo para os congressistas votarem contra medidas que na realidade eles apoiam!.

Daí a iniciativa do Obama em chamar uma reunião pública para esclarecer os termos do novo plano de saúde, e tentar mudar o cenário de desinformação generalizada. Uns dez dias atrás a Casa Branca chamou os Republicanos para um debate na C-Span (algo como a TV Senado daqui). Está no youtube, na integra:

Só que ninguém assiste a C-Span. Então o público em geral ficou sabendo do debate pela edição na Fox, na MSNBC e na CNN junto com uma meia dúzia de especialistas comentando cada frase solta de cada membro do comitê. Ou seja: em coisa de dois dias a coisa voltou para o ponto anterior, e agora medidas voltam a ser colocadas para dentro ou fora do plano na esperança de fazer algum plano de saúde passar antes das eleições para o congresso.

Tem duas coisas para manter em mente aqui: a avaliação geral do Obama ainda é positiva. Ou seja, quando o Obama empresta um pouco do carisma pessoal à medida, ele pode fazer a diferença nas pessoas que estão pressionando os seus congressistas a votarem contra a medida (inclusive democratas que acreditam que o plano, na realidade, traz excessivos benefícios para as empresas privadas). Por outro lado, a constante mudança no texto da legislação não vai ajudar na capacidade do eleitor em entender o que diabos está acontecendo – o que diminui o tempo de barganha disponível para definir o texto desta legislação de uma vez por todas.

O Robert Gibbs, atual líder dos Democratas no congresso, aposta que a reforma passa esta semana. Na Talking Points Memo, abriram agora uma “contagem regressiva” para a reforma. Se isso acontecer, será em grande parte devido a injeção de nitroglicerina que o Obama providenciou semana passada. No entanto, é possível fazer uma relação direta entre a perda de popularidade do Obama e a dificuldade em passar legislação em um congresso e um senado ainda dominado por Democratas. Se esta legislação não passar na próxima semana, é seguro apostar em um início de padrão negativo para a popularidade do presidente – o que certamente não vai ajudar na próxima eleição para o congresso, que já promete ser complicada de qualquer forma.


5 comentários to “Fazendo sentido da reforma da saúde”

  • braziu » Blog Archive » Fazendo sentido da reforma da saúde – saude [ 15Mar10]

    [...] http://www.braziu.org/2010/03/15/fazendo-sentido-da-reforma-da-saude/Antes de mais nada, vou tentar explicar brevemente como funciona o sistema de saúde aqui. Para [...]

     
  • Gabriel Divan [ 15Mar10]

    A maioria das pessoas entendem ‘liberalismo’ como uma espécie indiscriminada de “vou-me-dar-bem-e-o-resto-que-exploda”.

    Proprio da cultura de -alguns- estadunidenses ser CONTRA algo como o plano federalizado apenas por BIRRA inicial e propositalmente desinformada de qualquer tipo de “financiamento” estatal para alguma coisa. Em termos de cifras, macroeconomicamente falando (olha eu…), a vantagem se faz imensa (sem falar no proposito de por FIM a essa ZORRA de sistema de saude).

    SIGO aguardando que o mega-help que o governo deu a algumas instituicoes-chave do mercado americano sirva de EXEMPLO de como o mundo funciona.

     
  • fabriciopontin [ 16Mar10]

    Pois, nem sei se é questão de entender liberalismo assim ou assado neste caso. Me parece mais uma parte do eleitorado que é conservadora do ponto de vista econômico e que não se sente confortável com um tremendo de um déficit público. Até aí, tudo bem.

    O problema é que tu só associa o aumento do déficit com o Obamacare se tu não levar todas as variáveis em consideração: ou seja, se tu tiver mal informado. E com a quantidade de barulho sobre esta naba fica complicado condenar alguem por não saber direito o que está rolando.

     
  • fernando [ 16Mar10]

    Muito bom esse post. Uma ótima análise.
    Acho que de forma geral, assim como no Brasil, nos EUA a coisa funciona num esquemão gre-nal: ou tu odeia o estado ou tu ama o estado. Parar pra pensar deve ser uma coisa MOITO complicada.

     
  • braziu » Blog Archive » Obama aposta tudo [ 21Mar10]

    [...] A CNN apelidou o esforço do Obama de “Healthcare showdown”, algo tipo “o espetáculo do plano de saúde”. Eles continuam tentando explicar para o público o que tá em jogo, e parece que ninguém sabe, de verdade, o que o plano vai fazer ou deixar de fazer (isso com o Obama passando um tempão em rede nacional tentando explicar isso). Semana passada tentei fazer sentido da coisa toda aqui . [...]

     

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