Sentando na mesa dos adultos

Fabricio Pontin | Estados Unidos14:51 | 07/03/2010
Categoria(s): Braziu, Braziu Potência, EUA, Irã
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Constatação rápida: a imprensa americana está cagando e andando para a história da compra dos aviões.

ã?

Assim: sabe a história que o Brasil estava criando um episódio diplomático porque insistia em comprar os caças franceses e blah? Pois é, ninguém se importa com isso no Pentágono. A Clinton não está dando o tour pela América Latina para pressionar a compra de material militar. Ela está dando uma banda pela América Latina para apresentar uma nova política externa para a região.

Parte disso é a constatação que a América Latina quer ter uma agenda internacional própria. Não que isso constitua, necessariamente, um problema. Mas, abre a cortina e Ahmadinejad aparece abraçado no Lulão e no Chavão.

Clinton começa a sangrar pelo nariz. O passeio do Ahmadinejad pela América Latina, sorrindo para as câmeras, saudado como líder legítimo de uma nação soberana,  é o principal fator que motiva a viagem da Sra. Clinton. Afinal de contas, não interessa para ninguém que um dos países membros do Conselho de Segurança da ONU (ainda que membro não-permanente) possa permanecer neutro diante dos interesses atômicos do Irã.

O ponto da política externa brasileira é que o programa atômico iraniano tem a mesma função que o brasileiro, ou seja, é um programa pacífico voltado para a produção de energia limpa. Claro, a gente pode questionar aqui o quanto a produção de energia pode ser “pacífica” – me parece que isso exige um tipo de crença similar com a que acredita no interesse unicamente científico de mandar um míssil para a Lua.

Mas a diplomacia brasileira sustenta, por enquanto, uma neutralidade diante do programa nuclear iraniano. Assim como é neutra diante do regime cubano e ainda não lançou nenhuma nota de repúdio contra as FARC. Tudo bem, tu podes argumentar que é uma questão de consistência, já que o Brasil historicamente não toma lado em questões da chamada “soberania interna” e tu poderias argumentar que energia e defesa são questões de soberania interna.

Este posicionamento é muito compatível com potências como Luxemburgo, Mauritânia, Uruguai ou Trinidad e Tobago. Acontece que se tu estás na mesa com gente adulta é bastante possível que tu tenhas que se posicionar de forma mais assertiva do que “é, legal, eles nas deles nós na nossa, beijas!”. Por enquanto, o Brasil segue na posição confortável de dizer que não adianta sancionar o regime iraniano.

Esta posição, do ponto de vista americano, é totalmente inaceitável. E a Clinton esteve no Brasil justamente para tentar argumentar a necessidade de um discurso homogêneo por parte do Conselho de Segurança da ONU – e para mostrar uma mão amiga com relação ao Chile. Para a política externa brasileira poderia ser interessante tentar mostrar força e manter uma posição neutra. Seria interessante na medida que mostraria capacidade de resistir à pressão do Pentágono. Mas o problema é que daí a neutralidade é apenas retórica. Ao resistir à pressão de posicionamento contrário ao programa nuclear de um país que adota um discurso um tanto belicista quanto aos seus vizinhos, o Brasil não está sendo neutro.

Vale lembrar, o Brasil é o único país do BRIC (Brasil-Russia-India-China) sem a bomba nuclear. Também é o único país que permanece sem um posicionamento claro neste debate. Não quero fazer mais uma crítica barata da política externa brasileira ao indicar esta posição neutra, apenas constatar que os Estados Unidos parecem saber que a política externa brasileira condiciona o posicionamento dos demais países na América do Sul e o atual conflito político do governo norte-americano com o Irã pode escalar para um conflito militar rapidamente – e aí? Como fica a história? O secretário assistente da Hillary tem a declaração chave na Foreign Policy:

“While we’re cognizant of the fact that the Brazilian government has reached out to Iran and has been approaching the Iranians, it’s very much on our agenda to try to insist with the Brazilians that in their engagement with Iran, we would like them to encourage the Iranians, of course, to meet their international obligations,” he said, adding that the State Department views Brazil’s opposition to new sanctions as a “mistake.”

Ou seja: a gente sabe que o Brasil está falando com o Irã. A gente quer que o Brasil comunique nossa agenda para o Irã como nosso aliado. Seria um erro deixar de se comportar como um aliado dos Estados Unidos.

O recado é mais ou menos assim: olha, a gente tá deixando vocês sentarem na mesa com a gente. Mas mantenham em mente que na hora que vocês começam a derramar vinho caro no chão e falar babaquice, a gente vai botar vocês de volta na mesa com as crianças.

Isso tudo no contexto dos Estados Unidos retomando uma posição de multi-lateralidade e tentando resolver as coisas pela via das Nações Unidas. Seria uma oportunidade interessante para o Itamarati se colocar como parte de uma deliberação da ONU que fosse resultar em alguma coisa concreta – e pode ser uma má idéia ficar do lado “neutro” da história quando a comissão de energia atômica e o conselho de segurança da ONU parecem estar se movendo para realmente colocar o Irã na parede.

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5 comentários to “Sentando na mesa dos adultos”

  • bruzundanga [ 07Mar10]

    Pergunta: tu não concordas que o Itamaraty ficou muito bundinha durante o governo Lula? E será que, entre duplicidade de cargos e sorrisos com vários chefes de Estado, não foi isso que facilitou essa cadeira no Conselho de Segurança?

     
  • Fabricio [ 07Mar10]

    Não sei, bruzun (posso te chamar assim?).
    A cadeira no Conselho, até onde me consta, tem um fator de rotatividade. Então é natural que o Brasil se torne membro – com ou sem beija-mão. A questão aí é se o Brasil tem pretensões de entrar junto com o G4 em uma eventual reforma do Conselho. Daí, seria uma boa idéia parar com esta história de ficar em cima do muro.
    Sobre a bunda-molice do nosso corpo diplomático… Seguinte, não quero ser mais um chutando a política externa do governo Lula ou o Celso Amorim. Tem um gazilhão de pessoas fazendo isso. Me parece mais interessante tentar ver o que implica, estrategicamente, esta opção. Neutralidade só existe na retórica. O que tá ficando claro é que o posicionamento brasileiro benefecia o interesse do Irã enquanto se coloca contrário as disposições da comissão de energia da ONU. Se existe, de fato, interesse em ser parte da elite que decide alguma coisa nas nações unidas, esta estratégia pode provar ser um tanto equivocada.

     
  • bruzundanga [ 07Mar10]

    Pois, me parece que o objetivo há décadas é uma cadeira permanente. O jogo com o Irã não me parece inédito para a diplomacia brasileira, mas não está claro como o país se beneficia disso. Demonstrar relações bilaterais? Possibilidade de colocar-se como negociador? Na real, só estou colocando lenha nessa discussão porque, ao meu ver, se existiu uma diretriz para as relações exteriores no governo Lula, ela deu um oi no Fórum Social Mundial e tá até hoje esquiando em Davos.

    Aliás, meu nome é Taís. Só assinei com o blog porque fiquei com preguiça de fazer cadastro.

     
  • fabriciopontin [ 07Mar10]

    O beneficio, me parece, seria demonstrar independência do canetasso norte-americano nas relações exteriores brasileiras. Algo do tipo "o Brasil não será pautado nas suas relações internacionais". Até aí, tudo bem. O problema é se existe a capacidade de ir até o fim no raciocínio. Porque não adianta nada se enrolar com o Irã para depois ficar pedindo arrego pros Estados Unidos ou a União Européia em alguma oura questão política.
    Foi mais ou menos a mesma baderna com a confusão em Honduras. O Brasil tentou intermediar, a coisa saiu de controle e no fim das contas quem decidiu (de novo) foram os Estados Unidos.

     
  • marlon [ 09Mar10]

    a coisa vai muito, muito mais além do que meras "relações diplomáticas" [as quais são, na maior parte dos casos, meros embustes - como a relação de Obama com a realeza saudi e os muslims em geral]. Pontin, acho que tem um monte de afirmações ingênuas no teu texto – mas a principal é esta: "um país que adota um discurso um tanto belicista quanto aos seus vizinhos". não é "discurso um tanto belicista", é GENOCIDA. com todas as letras. quando o momento indica que é melhor esconder o plano genocida e de conquista global, aí se esconde, é só energia. isso é doutrina taqiyya, é shariah.
    a questão é: bomba; destruir Israel [e nisso não importa se tu é sunni ou shia; o ódio aos judeus faz esquecer a inimizade]; conquista global [aí sim sunnis e shias vão se pegar, mas já vai ser tarde]. se ficares vendo toda essa enorme questão via picuinhas diplomáticas, entenderás muito pouco.

     

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